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Costa do Sol e Mikado: Locais incontornáveis
da diversão nocturna (Conversa
com José da Silva) Julho/Agosto
05
- Entrevista com o Embaixador de Portugal em França, Dr. João Rosa
Lã: “O ensino do Português é uma das nossas principais
preocupações” Julho/Agosto 05
-
Pauleta:
“Temos todas as condições para fazermos um grande Mundial”
Junho
05
-
Cristina
Branco em entrevista:
“Sou um camaleão que
canta o que quer”
Fevereiro 05
-
Entrevista
com Maria Mendes de Oliveira: TARIKAVALLI,
uma estrela portuguesa! Novembro
04
-
A
ressurreição do Fado?
Entrevista com a
fadista Mané
Setembro
04
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Agora
também tenho… A televisão de Portugal (conversa com Fernando
da Silva, da empresa TéléGare)
Maio 04
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"A
medicina legal é muito mais uma ciência de vivos do que uma ciência de mortos", Prof. Pinto da Costa Março
04
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Secretário
das Comunidades Portuguesas entregou primeiros Bilhetes de
Identidade feitos no Consulado de Paris Janeiro 04
-
Entrevista
com Agnès Pellerin, jovem autor de um livro intitulado "Le
Fado", lançado pelas Edições Chandeigne Dezembro 03
-
Entrevista
com a nova coordenadora do ensino, Dra. Gertrudes Amaro Outubro
03
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Fernando
Afonso, la trajectoire d'un vice-champion d'Europe de culturisme
devenu homme d'affaires
Julho/Agosto 03
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Entrevista
com o Ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades
Portuguesas, Dr. António Martins da Cruz
Julho/Agosto 03
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"La
Harissa" un groupe de musique à la sauce portugaise Julho
/
Agosto 03
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Retalhos
de uma vida: Luci Bento, artista e mulher Junho 03
-
Entrevista
com Daniel Ribeiro
Maio 03
-
Entrevista
com o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas Maio
03
-
Cristina
Branco, uma outra ideia do fado Março 03
-
Tânia Lobo, o
rosto do programa "Comunidades" na RTPi Janeiro 03
-
Entrevista Dan
Inger Novembro 02
-
Air Luxor para
Portugal, em Orly Sud Outubro 02
-
Entrevista com Jorge Ruivo
Maio 02
-
Entrevista com
Mariana Otero Março 02
-
"Lua
Vistà", novo nome para uma discoteca antiga
Dezembro
01
-
Filho
de peixe sabe nadar Junho
01
-
Entrevista
a Alex Abril
01
-
Entrevista
a Carla Sofia Fevereiro
01
-
Interview
avec Philippe Seguin, candidat à la Mairie de Paris
Janvier 01
-
Interview
du Maire du 12ème arrondissement de Paris,
M.
Jean François Pernin Janvier
01
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Julho/Agosto
05
Costa
do Sol e Mikado: Locais incontornáveis
da diversão nocturna
Conversa
com José da Silva, um dos proprietários da discoteca Costa do Sol, em
Villeneuve Saint-Georges, e da Mikado, em Paris.
Quer
falar-nos das discotecas Costa do Sol e Mikado?
A
Costa do Sol é uma discoteca vocacionada para os jovens de origem
portuguesa e que nela encontram além da música portuguesa, não a
saudade, como outrora os pais ou avós, mas uma certa forma de
divertimento diferente da que podem usufruir nas discotecas francesas.
A
“Costa” tornou-se um fenómeno que muitos ainda não compreendem,
sobretudo em Portugal. Há dez anos atrás alguns começavam a
interrogar-se sobre o que era essa discoteca dos emigrantes, apareceram
jornalistas, a televisão, rádios e, hoje em dia, é um
“partenaire” incontornável na área da diversão nocturna, tanto em
Portugal como em França.
Bastará
dizer que durante as férias produzimos os nossos shows em quase todas
as discotecas do país, de norte a sul.
Para
dar um exemplo dessa evolução, este ano fomos convidados pela Queen,
uma das mais reputadas discotecas de Lisboa, frequentada por todo o
jetset.
Achamos
graça ao facto das discotecas de Portugal, que pouca ou nenhuma música
portuguesa passam, convidarem a Costa do Sol, que tem como principal
bandeira a difusão da música portuguesa.
A
música portuguesa regressou às discotecas em Portugal nestes últimos
anos, em parte devido ao sucesso das tunas junto dos jovens. Tornou-se
frequente a apresentação de espectáculos com tunas e isso criou
outras exigências por parte dos jovens que começaram também a
interessar-se pela música popular tradicional.
As
queimas das fitas têm agora mais sucesso com Quim Barreiros que com
artistas internacionais.
A
Costa do Sol passa música portuguesa, mas de qualidade. Há certos
artistas que não têm lá lugar por não possuírem os níveis de exigência
que temos.
De
facto quando em Portugal, seja a políticos ou a empresários, damos
como exemplo os 3 ou 4 mil jovens luso-descendentes que se encontram
todos os fins de semana na Costa do Sol, as pessoas ficam atónitas e
impressionadas...!
Isso
revela efectivamente uma necessidade de identificação com as raízes
por parte destes jovens, que na sua grande maioria já são netos dos
primeiros emigrantes, totalmente desconhecida pela classe política em
Portugal. Mas em alguns sectores, tais como nas discotecas e outros
locais de divertimento já existem sinais de tentativa de aproveitamento
desses jovens que se deslocam ao nosso país no período de férias.
É
evidente que o nosso “savoir faire” também tem sido determinante.
Renovamos periodicamente a decoração, propomos sempre em primeira mão
todas as novas tecnologias e cuidamos da programação dos espectáculos
de forma meticulosa. Por exemplo, o site internet da Costa do Sol
(www.costadosol.net) foi um
investimento importante e inovador que se tem revelado bastante
produtivo. Por outro lado, tal como já referi, não vamos na conversa
de certos empresários artísticos que andam por aí a vender artistas
sem talento e ao desbarato.
A
culpa de existirem também é de certas associações que “compram”
má qualidade, depois queixam-se da falta de público e algumas
desaparecem. Diga-se na verdade que algumas só existem como alternativa
económica de famílias que as constituem para realizar benefícios com
espectáculos.
Existem
aquelas em tem que se beber um garrafão de vinho para se poder fazer
negócio, mas ainda bem que existem outras bem sólidas e eficientes.
Quanto à discoteca Mikado, é diferente, mais pequena, leva cerca de
500 pessoas, um público variado que vai dos 18 aos 50 anos e está
aberta das 5as aos Domingos à noite.
Propomos
igualmente ao longo do ano uma grande diversidade de espectáculos
exclusivamente portugueses.
Isso
leva-nos à questão seguinte, o José da Silva possui igualmente uma
empresa de espectáculos, pode dar-nos pormenores sobre esta segunda
actividade?
Efectivamente.
Chama-se Mundial Show, é uma empresa portuguesa que vende espectáculos
completos e tem dois parceiros importantes e essenciais para se poder
obter resultados positivos nesta área: uma das editoras mais
conhecidas, a Vidisco, e o grupo “Santamaria” que dispõem
provavelmente do maior e mais bem equipado estúdio de gravação de música
em Portugal. Além dos artistas consagrados que promovemos regularmente,
tais como os “Santamaria”, os “Canta Bahia” e outros, neste
momento apostamos na descoberta de novos talentos, o que nos é
frequentemente solicitado por canais de televisão e outros promotores
de espectáculos. Podemos obviamente responder a todas as necessidades
de um artista principiante, desde que possua as qualidades exigidas,
fornecendo-lhe um estúdio de gravação, uma editora, a promoção e um
vasto leque de propostas de espectáculos. Naturalmente estamos
igualmente preparados para receber artistas consagrados que, por razões
diversas, desejem mudar de editora de produtor ou de promotor.
Percebemos
que a ideia foi de reunir através de parecerias todas as competências
na área da edição e promoção musical para que um artista se possa
consagrar inteiramente ao seu trabalho...
Exactamente.
Actualmente estamos também a criar três grupos, reunindo talentos
diversos para desenvolver este sector. Constatando que muitos acabam por
razões de entendimento interno ou de zangas momentâneas, estes grupos
beneficiarão de um conceito musical nosso mas que nos permitirá de
mudar um ou outro elemento que não se assimile ou deixe de se enquadrar
num conceito destinado a uma pequena revolução no seio da música
portuguesa..
Está
a referir-se a algo que começou em Itália no princípio dos noventa e
que culminou com inúmeros processos nos tribunais ?
A
diferença é que não tencionamos mudar os vocalistas, mas sim os músicos
quando isso se tornar necessário. Também deve compreender que, quando
se investe durante 4 ou 5 anos num grupo, não se pode estar à mercê
dos humores de um ou outro músico que de repente quer estragar tudo.
Registamos
e somos obviamente proprietários do nome do grupo que constituímos. Se
um elemento sair não poderá utilizar o nome do grupo, é tudo.
Quais
são os mercados que a Mundial Show pretende abranger ?
Infelizmente,
a nossa língua exporta-se mal em termos musicais. Concentramo-nos por
isso logicamente no mercado nacional e junto das comunidades espalhadas
pelo mundo.
Qual
é para si a razão da ausência da música portuguesa nos mercados
internacionais ?
Além
do problema da língua, julgo que não sabemos vender-nos como deveríamos.
Em Portugal as editoras distribuem toda a música estrangeira. Se em
França, em Inglaterra, nos Estados Unidos e noutros países não se
vende música portuguesa fora das comunidades, isso deve-se
essencialmente à falta de conhecimento e neste caso temos todos de
assumir as culpas dessa situação, particularmente as editoras e os
empresários artísticos portugueses. O problema é também que andam
por aí umas pessoas com cassetes gravadas na mão, convencidas que os
filhos são artistas, a vendê-los em tudo o que é sítio e isso
dificulta a acção dos profissionais que propõem qualidade.
Felizmente
há exemplos que nos enchem de orgulho. Ainda
há pouco tempo estive em Barcelona e constatei que os bilhetes para os
concertos dos Madredeus estavam esgotados um ou dois meses antes.
Neste
momento já tenho uma proposta para os Santamaria actuarem no mês de
Outubro para franceses. Viram-nos ocasionalmente e mostraram-se
imediatamente interessados.
É
pois um longo e lento trabalho que também me proponho desenvolver,
nomeadamente com estes grupos que queremos lançar.
AC
Julho/Agosto
05
Entrevista
com o Embaixador de Portugal em França, Dr. João Rosa Lã:
“O
ensino do Português é uma das nossas principais preocupações”
Senhor
Embaixador, chegou há quase um ano a Paris, já se poderá começar a
falar do primeiro balanço?
Cheguei
em Novembro, ainda não faz um ano… Tivemos no entanto uma intensa
actividade e acontecimentos de grande relevo, dos quais destacaria a
visita de Estado de Sua Exa. o Presidente da República, Dr. Jorge
Sampaio, a única visita de Estado este ano e a primeira a França de um
presidente português desde 1989, e as visitas do Sr. Primeiro-Ministro,
Dr. Santana Lopes e a do Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr.
Freitas do Amaral.
Preparámos
igualmente a Cimeira Luso-francesa de Angoulême que foi finalmente
anulada devido à preparação das eleições legislativas. Visitei já
Toulouse, Lyon, Bordeaux, Nice, Lille e Rouen para contacto com as
nossas comunidades. Tivemos um Seminário Consular que permitiu melhorar
a nossa coordenação e criar, por exemplo, um telefone de emergência
em todos os Consulados em França.
A
ministra da Educação e o secretário de Estado das Comunidades
Portuguesas anunciaram recentemente que o Governo não tinha meios para
continuar a enviar professores de português para o estrangeiro. Quando
se conhece o contributo dos emigrantes portugueses para o
desenvolvimento do nosso país, estas declarações serão provavelmente
mal interpretadas por alguns...
Ainda
não tenho conhecimento dessas declarações, mas não creio que a intenção
seja de prejudicar o ensino do português no estrangeiro. Essa tem sido
uma das nossas principais preocupações e continuará a ser. Esse foi
aliás um dos temas principais da visita do Sr. Presidente da República
a França, que atribui a esse assunto uma importância primordial.
Continuamos todos mobilizados nesse sentido e regozijo-me pessoalmente
pelo excelente trabalho desenvolvido pela Sra. Coordenadora do Ensino,
Dra. Gertrudes Amaro. Quanto à possibilidade de recrutamento local dos
professores, não vejo porque é que um professor contratado nessas
circunstâncias teria menos competência do que alguém que venha de
Portugal. O problema é a necessária racionalização dos meios que
temos ao nosso dispor e uma melhor adaptação à evolução da própria
comunidade, que não é a mesma de há trinta anos.
Abrimos
recentemente novos cursos em Lille e em Lyon, há contactos permanentes
com responsáveis franceses para implementarmos cada vez mais o ensino
do português como língua viva estrangeira e abrem-se todos os dias
novas perspectivas nesse campo, porque o português tem de ganhar espaço
como língua estrangeira nos diferentes currícula. Ainda há poucos
dias estabelecemos uma parceria com a Caixa Geral de Depósitos para
facultar maior informação aos pais dos alunos e existem outras
iniciativas do mesmo género no sentido de promover o ensino do português
junto da população francesa.
Um
dos problemas apontados é a falta de coordenação dos professores,
fala-se justamente de cursos fechados em Lille, devido a múltiplas ausências
de professores, que dão também aulas em associações...
Isso
não é bem assim, não há falta de coordenação. Haverá realmente
alguns problemas que deverão ser resolvidos. O ensino da língua
facultado pelas associações, bem como o ensino a nível privado tem
sido e continua a ser extremamente importante. Agora há que estabelecer
regras para que exista a necessária complementaridade entre todas as
ofertas.
Um
proprietário de uma discoteca que entrevistámos para esta edição
refere-nos que recebe todos os finais de semana cerca de 4 mil jovens
luso-descendentes que têm necessidade de se encontrar e conviver entre
eles ao som da música portuguesa. Lamenta que em Portugal, nomeadamente
certos responsáveis políticos, considerem que estes jovens já estejam
completamente integrados nos países de residência e por consequência
perdidos para o nosso país. Que pensa disso?
Não
posso concordar com isso, considero extremamente positivo que esses
jovens procurem discotecas portuguesas para se divertir e isso deixa-nos
antever perspectivas muito positivas para o futuro. Por isso os nossos
esforços têm sido constantes no sentido da manutenção desses laços,
mesmo se defendemos uma boa integração no país onde vivem. Uma coisa
não impede a outra e a melhor prova disso é o contributo e o apoio que
damos à reunião dos eleitos municipais de origem portuguesa que
decorre todos os anos no Senado francês e que terá lugar dentro de
alguns meses. Como até aqui, continuarei, assim, a insistir na
participação cívica dos portugueses em França, onde lhes foi
reconhecido desde 2001 o direito de participar nas eleições europeias
e autárquicas. Hoje mais de 50 000 portugueses estão já recenseados
nas listas eleitorais francesas, mas este número está muito longe de
corresponder à dimensão demográfica da nossa Comunidade e ao seu peso
na sociedade francesa. Um especial esforço de mobilização tem de ser
levado a efeito para convencer as centenas de milhares de portugueses a
recensearem-se, tanto aqui em França, nas "Mairies", como em
Portugal, através dos Consulados.
À
semelhança do que acontece com outras comunidades que dispõem de
importantes “lobbys”, apoiamos obviamente a criação de estruturas
que possam dar mais força e mais visibilidade à nossa comunidade.
Contamos por isso com todos mas, sobretudo, com os jovens e os empresários
junto dos quais vamos tomar em breve algumas iniciativas nesse sentido.
Senhor
Embaixador, porque razão a festa do Dia de Portugal decorreu este ano
no Consulado de Portugal em Paris, quando habitualmente por hábito a
comunidade é convidada à Embaixada?
Não
vejo nada de anormal no facto que seja o Cônsul-Geral de Portugal em
Paris a convidar a comunidade a festejar o 10 de Junho, Dia de Portugal
e das Comunidades Portuguesas.
Como
sabe, ainda há pouco tempo a Embaixada recebeu cerca de 900 pessoas da
comunidade, por ocasião da visita de Estado do Presidente da República,
e pouco tempo antes aconteceu a mesma coisa quando cá esteve o
Primeiro-Ministro. Este ano decidi ir ao encontro dos portugueses da
região de Toulouse, onde a cidade de Lisboa foi a convidada de honra na
“Marathon des Mots”, e que poucas oportunidades têm de conviver com
o Embaixador.
Desde
que cheguei, já percorri uma boa parte deste país para me encontrar
com portugueses de outras regiões e tenho a intenção de continuar
nessa via.
O
Governo decidiu voltar a separar o ICEP do IAPMEI, espera-se uma
desvinculação das delegações do ICEP das embaixadas e consequentes
alterações em relação à chamada “diplomacia económica”?
Não,
o que está em causa é a reorganização das estruturas por forma a
torná-las mais produtivas e eficientes. Este governo já tornou público
o seu empenhamento no desenvolvimento da chamada "diplomacia económica".
Aliás esta tem sido, desde a minha chegada, outra das prioridades,
tentando reforçar os laços empresariais luso franceses e atrair
investimentos franceses para Portugal.
Tenho
muita esperança nos desenvolvimentos que ultimamente têm nascido no
seio da própria comunidade, tais como a nova Câmara de Comércio
Franco-Portuguesa e o Clube Atlântico.
António
Cardoso
Junho
05
Pauleta:
“Temos todas as condições para fazermos um grande Mundial”
Quase
no final da época futebolística 2004/2005, que certamente não ficará
na memória de Pedro Pauleta como a melhor da sua carreira, fomos ao
encontro do avançado açoriano para fazer um balanço deste segundo ano
no Paris Saint Germain e traçar algumas linhas para o futuro da sua
carreira e da selecção das quinas.
Está
muito próximo do recorde de Eusébio de golos marcados ao serviço da
selecção portuguesa. O que significa para si alcançar esta marca?
A
determinada altura bater esse recorde passou a ser também um dos meus
objectivos na selecção. Não vai ser fácil porque cada vez faltam
menos jogos, mas espero ainda conseguir alcançá-lo. No entanto, o meu
objectivo principal é ajudar Portugal a estar presente no Mundial.
O
que significa para si representar a selecção nacional?
A
selecção é o sonho de qualquer jogador de futebol, é representar o
seu país. Já estou na selecção há alguns anos, cerca de 9 ou 10, e
é obvio que sinto um orgulho enorme em representar a equipa das quinas.
Quais
são para si as melhores selecções europeias neste momento? Quem acha
que vai ter uma boa performance no próximo Mundial?
Penso
que actualmente na Europa a Alemanha e a Inglaterra são duas selecções
muito fortes. A Inglaterra porque cada vez mais os jogadores ingleses
estão a afirmar-se nos grandes clubes europeus. E a Alemanha, sendo a
anfitriã, de certeza que vai aparecer muito forte e vai contar com o
apoio do seu público.
E
Portugal? Até onde podemos ir?
Acho
que temos todas as condições para, primeiro, nos classificarmos e,
depois, fazermos um grande Mundial.
Fala-se
do eventual regresso do Figo. Acha isso possível? Gostaria que
acontecesse?
O
Figo é sempre bem-vindo na selecção. É um grande jogador que
conhecemos muito bem. Ficaria muito contente que ele voltasse, porque
sou bastante amigo dele e acho que é um dos grandes emblemas futebolísticos
de Portugal.
O
que é que correu mal no último Europeu, o que faltou?
Passou-se
muita coisa. Houve muitos problemas com o treinador, com a federação.
Depois, com a falta de sorte e a falta de organização, os desaires
acontecem com mais facilidade. Mas também não podemos descarregar toda
a culpa nestes factores, temos de assumir igualmente a nossa parte. O
futebol é assim, umas vezes ganha-se, outras não.
Uma
das razões invocadas para o desaire foi o desgaste físico de alguns
jogadores, devido a épocas longas e cansativas nos respectivos clubes.
Acha que esta alegação é legítima?
Não.
Isso não é uma desculpa, pois os outros jogadores também tiveram a
mesma carga de trabalho. O que aconteceu foi que entrámos mal no
primeiro jogo e depois, como já disse, existiram muitos problemas que
influenciaram.
Este
ano ainda faltam dois jogos, ambos difíceis. Quais são as perspectivas
para esta fase de qualificação?
Faltam
dois jogos importantes este ano. Um deles é com o adversário directo,
a Eslováquia. Se a conseguirmos eliminar em casa ficamos mais perto de
estar apurados, senão as coisas complicam-se. Mas estamos na frente e
queremos manter essa posição, pois queremos estar no Mundial, que é o
nosso principal objectivo.
Quais
os pontos fortes e os pontos fracos da equipa das quinas, na sua opinião?
Não
acredito que haja pontos fracos. Temos uma grande selecção, constituída
por grandes jogadores, o ambiente no balneário é bom, temos um bom
treinador... penso que a selecção mudou muito e que hoje somos uma
equipa bastante forte. O que poderíamos chamar de ponto fraco é a
nossa mentalidade, a mentalidade portuguesa de pessimista, mas isso está
a mudar. Estamos cada vez mais fortes a esse nível.
Nos
últimos anos tem-se assistido à afirmação dos clubes portugueses na
Europa. O Porto primeiro e agora o Sporting. Como vê este prestígio
crescente?
É
principalmente bom para o futebol português, porque quanto mais se
falar de Portugal na Europa, melhor. Quando se trabalha muito e se
consegue chegar onde as nossas equipas têm conseguido chegar é
gratificante. Há dois anos e o ano passado, o Porto e, este ano, o
Sporting, são um bom exemplo desse sucesso. É muito bom para o futebol
português.
Qual
é o balanço que faz desta época do Paris Saint Germain?
Foi
uma época que começou mal. Houve a mudança de treinador e de
jogadores, o que foi difícil de gerir. Muitas coisas se passaram
durante este ano e ainda recentemente tivemos um novo presidente. Tudo
isso contribuiu para desestabilizar a equipa. O problema com as claques
também não ajudou a motivar. Estamos ainda a fazer tudo o que é
humanamente possível para terminar da melhor maneira, mas nunca vai
deixar de ser uma má época.
Houve
uma altura em que o Pauleta também não estava bem. O que aconteceu?
O
que se passou comigo passou-se com todos os jogadores. Quando se joga
numa equipa que não está bem, o seu próprio rendimento acaba
afectado. É normal que houvesse momentos em que eu estivesse menos bem.
Foi uma má época para todos. Desde que cheguei a França foi a minha
época menos conseguida, mas espero ainda terminá-la bem. E, com
optimismo, pensar que a próxima vai ser melhor.
Por
vezes sente-se uma certa dependência da equipa em relação ao seu
rendimento pessoal. O que pensa disso?
Isso
não pode ser. Um clube como o PSG, que quer jogar para os três
primeiros lugares, não pode depender só de um jogador. Esse é um dos
problemas da equipa.
Sente-se
essa pressão? Como lida com ela?
Pressão,
não. Não existe pressão no futebol para mim. É a minha profissão,
que faço o melhor que posso. Tenho alguns momentos menos bons como
qualquer pessoa.
A
pressão não contribuiu para o momento menos bom que atravessou no início
do ano?
Não.
O meu rendimento depende muito da forma como a equipa joga. É natural
que quando a equipa não esteja a jogar bom futebol, não ganhe, não
ataque, o atacante sinta falta disso.
No
decorrer da época houve uma mudança de treinador, Laurent Fournier
substituiu Vahid. Quais as principais diferenças entre os dois?
São
mentalidades diferentes. Vahid tinha uma personalidade muito forte,
muito vincada, era muito agarrado às suas ideias e esse conjunto fez
com que houvesse um momento de saturação e, como os resultados não
acompanhavam, houve a tal mudança.
Mas
isso é frequente no futebol, quando as coisas não correm bem, o
treinador é o primeiro a sair.
O
que mudou com Fournier?
Foi
um alívio para alguns jogadores que não se sentiam bem com o Vahid.
Libertaram-se, soltaram-se mais e desse modo integraram-se com mais
facilidade no grupo.
E
para si, foi um alívio?
Não.
Eu tinha uma boa relação com o Vahid, tenho igualmente uma boa relação
com o Fournier. Mas é verdade que com o Fournier a equipa melhorou a nível
psicológico, os jogadores descontraíram-se mais desde a saída do
Vahid. Mas a culpa também não é só dele.
Quem
é que acha que seria o treinador indicado para a próxima época?
Na
minha opinião não há enquanto não se resolverem todos os outros
problemas internos do clube. É a mesma coisa que começar a construir
uma casa pelo telhado ou pelas janelas, não vai dar uma casa muito boa,
não vai durar muito tempo. Logo, enquanto não houver uma organização
no PSG, as coisas vão ser sempre assim.
Francis
Graille também acabou por ser despedido. Veio para o clube pelas mãos
dele, o que significa para si este despedimento?
Era
uma pessoa de quem eu gosto bastante, sou amigo dele, mas actualmente no
futebol até os presidentes estão sujeitos a serem despedidos. Vamos
esperar para ver os projectos do novo presidente.
Continuas
a ser o melhor marcador da equipa com 13 golos. O que significa para ti
marcar um golo?
Para
mim significa tudo, é a minha principal missão. Só me sinto bem
quando marco, pois fui contratado para isso. E o golo, ou os golos, é
que dão as vitórias, e elas é que dão os pontos. Os golos são a
parte mais importante do futebol.
E
quando não marca, o que sente?
Fico
triste, penso bastante no jogo e sobretudo penso em me preparar o melhor
possível para no próximo jogo poder marcar.
O
público é apelidado muitas vezes de 12.° jogador. O PSG e os seus
adeptos andaram de costas viradas durante toda a época, houve momentos
de verdadeira tensão, um deles inclusive com o Pauleta, o que se
passou?
Os
adeptos do PSG são muito expressivos. Num jogo contra o Toulouse,
chegou a minha vez de ser assobiado. No momento não aceitei muito bem,
porque não pensei que fosse justo. Mas isso é perfeitamente normal,
faz parte do futebol quando uma equipa não joga bem e um jogador tem de
aceitar.
E
o futuro próximo? Como e onde o vê?
Tenho
mais um ano de contrato com o PSG, até 2006, e em princípio devo ficar
e cumprir até ao final. Vamos ver. Só vou decidir no final da época.
Já
teve outras propostas?
Existem
alguns clubes interessados, algumas propostas. Mas como tenho contrato,
não penso nisso.
Algumas
dessas propostas vieram de Portugal?
Também.
Houve alguns contactos de Portugal, mas nada de concreto por enquanto.
Se
houvesse uma proposta concreta de um clube onde gostasse de jogar, vamos
dizer, por exemplo, em Portugal, mas se isso implicasse um salário
inferior, aceitaria?
O
dinheiro nunca foi determinante. Claro que a um dado momento foi
importante, mas nunca foi determinante para as escolhas que tomei. Agora
é obvio que tenho de pensar bem. A minha carreira está a terminar,
tenho 32 anos, e não vai ser neste momento que vou sair do PSG por
ganhar mais ou menos, essa escolha será sempre em função do meu bem
estar e da minha família.
Há
algum campeonato, tirando o português, onde gostasse ainda de jogar?
O
inglês é um campeonato de que gosto imenso, mas com a idade que tenho
não me meto isso como objectivo. Talvez se tivesse sido há alguns
anos... Agora dificilmente jogarei noutros campeonatos que não o francês,
o português ou o espanhol, onde já joguei e de onde tenho uma proposta
de um
clube.
Acabar
a carreira em Portugal...
ainda pensa nisso?
Já
não é uma prioridade. Não penso nesse sentido. Se tiver de acabar
aqui, acabo.
Quanto
mais tempo pensa jogar?
Mais
dois ou três anos. Tudo depende se ficar no PSG, se renovar ou não.
Vive
em Paris há algum tempo. O que prefere na cidade?
Paris
é uma grande cidade, de que toda a gente gosta.
Quase tudo está à nossa disposição.
É
difícil eleger um sítio, uma coisa em particular. É uma cidade fantástica.
Criou
uma escolinha de futebol nos Açores e, em Março último, deu-se o
primeiro torneio. Como correu este primeiro evento?
Correu
muito bem. Foi bastante satisfatório tanto para mim como para os pais
e, principalmente, para os miúdos. A escolinha do Simão (Sabrosa) e do
Benfica estiveram presentes. Espero
dar continuidade ao projecto e quero já a partir do ano que vem levar
uma equipa francesa, se possível o Paris Saint Germain.
Ana
Carvalho
Fevereiro
05
Cristina
Branco em entrevista
“Sou
um camaleão que canta o que quer”
Poucos
dias depois do lançamento de “Ulisses”, o novo disco de Cristina
Branco, a artista esteve em Paris para uma apresentação ao Senado
francês e um encontro organizado pela Cap Magellan. A Vida Lusa
conversou com a cantora.
Depois
de uma digressão pela Holanda, um país onde tens um óptimo
acolhimento desde muito cedo, como foi o espectáculo no Senado francês?
Frio.
Era um ambiente muito formal, num espaço muito barroco que pouco tem a
ver comigo.
Mas
eles gostaram imenso. Na Radio Classique (que organizou o evento)
disseram-me que receberam imensos e-mails dos senadores a dizer que
tinham gostado muito, que tinha sido uma iniciativa fantástica. Foi até
engraçado porque a certa altura pedi para cantarem comigo e, para minha
surpresa, os velhos senadores, que estavam muito silenciosos, começaram
todos a cantar.
Em
relação a este CD que acabas de lançar, “Ulisses”, li em várias
entrevistas que o consideravas um “disco de ruptura”. Há alguns
temas que de facto suscitam mais surpresa, mas parece-me que se mantêm
determinadas referências que fazem parte do teu universo.
Não
é uma ruptura num sentido muito radical. As pessoas sabem que eu não
sou propriamente agarrada ao fado. Além disso, sempre tive muito
interesse em muitos géneros musicais. Então, neste disco, para além
de estar a cantar aquilo que me apetece, o que aliás é básico para
mim em qualquer disco, comecei a cantar noutras línguas. Isso não é
vulgar dentro da música portuguesa, porque é quase uma ousadia.
Este
trabalho prova também uma outra coisa, para mim muito importante. Vem
mostrar que, se for de facto cantora de fado, não canto só fado. Sou
uma espécie de camaleão que canta o que quer. Enquanto que um fadista
só canta fado, eu canto também fado. Canto fado, entre outras coisas.
É
um álbum muito ecléctico.
Este
álbum fala do meu gosto pessoal, da música que eu gosto de ouvir e de
interpretar. E também daquilo que gosto de re-interpretar, porque uma
parte das músicas são re-interpretações de coisas que outras pessoas
fizeram.
É
curioso como, apesar de ser comum ouvir-te sublinhar alguma distância
em relação ao fado, as pessoas genericamente se referem a ti como
“Cristina Branco, a fadista”.
Nem
fui eu que fiz questão de sublinhar a diferença. Quando saiu o meu
primeiro álbum e ouviram--me a cantar, por exemplo, Zeca Afonso e Sérgio
Godinho, à mistura com fados tradicionais, os velhos do Restelo iam
morrendo. Houve uma polémica enorme porque as pessoas associavam-me só
ao fado.
Então,
eu própria vim a público dizer que nunca tive qualquer intenção de
ser fadista. Só há pouco tempo, para uma cena dum filme inglês,
cantei numa casa de fados! Fora isso, nunca cantei numa casa de fados e
nunca hei-de cantar. Para mim a música passa por outros universos,
nunca por aquelas quatro paredes e as toalhinhas aos quadradinhos.
Fizeste
questão de não te definires como fadista para depois não teres de
seguir as regras do fado. No fundo, foi para teres mais liberdade?
Exactamente.
Aliás, a propósito disso, a FNAC agora vai mudar os meus discos da secção
de fado para a secção da música portuguesa. Eu acho bem. É mais
verdadeiro.
Este
disco tem muitos sabores - encontramos uma música da Joni Mitchell,
outra da Mercedes Sosa - esta recolha tem a ver com os teus gostos
musicais quando eras mais nova, ou são coisas que tens descoberto
agora?
Há
muita influência em todos os meus álbuns da música que fui ouvindo
desde muito nova. Os meus pais são grandes melómanos e sempre tiveram
em casa uma colecção enorme de discos. Quando cheguei à adolescência
não tive necessidade de pegar na minha mesada, comprar discos e
descobrir a música da moda. Fui ouvindo os discos dos meus pais, que
eram muito eclécticos, e não fiquei apenas na música da minha época.
Jazz, blues, música de intervenção portuguesa, música francófona,
tudo isso constituiu a minha educação não só musical como também
intelectual. Se começasse a dizer do que gosto, a lista não parava!
Quais
são os primeiros nomes que te vêm à cabeça?
Fora
do mais óbvio, gosto de Bruce Springsteen, dos Pink Floyd sabia os
discos todos de cor, adoro Simon & Garfunkel, Maria Bethânia, Chico
(Buarque). São os que tenho comprado ultimamente.
Foi
uma pequena surpresa encontrar neste álbum “Alfonsina y el mar”...
a Mercedes Sosa fazia parte dos discos dos teus pais?
O
interesse pelo poema “Alfonsina” é mais recente, surgiu através de
uma viagem à Argentina, onde fui há pouco tempo. Mas já conhecia a música
e tinha uma relação com o país sem nunca lá ter estado, através das
músicas da Mercedes Sosa que os meus pais ouviam. O tema
“Alfonsina” nunca me tinha despertado qualquer coisa de especial,
mas depois da viagem, quando comecei a trabalhar neste disco houve uma
fase em que ouvi muito a Mercedes. Voltei aí a encontrar a
“Alfonsina” e pensei “isto tem tanto a ver com a saudade e a
nostalgia”. Então decidi explorar a música que, aliás, é linda de
morrer. Penso que é mais uma contradição dentro deste álbum, onde
digo que quero cantar coisas alegres e aí no meio surge esta história
de um suicídio tristíssima que é a da “Alfonsina y el mar”.
É
também uma provocação o facto de o tema em que cantas os sentimentos
da saudade, da tristeza, do fado, ser interpretado em espanhol?
(Risos)
Sim, isso ocorreu-me. No fundo, “Ulisses” foi a minha desculpa para
fazer uma viagem geográfica que me desse a oportunidade de cantar
noutras línguas.
E
depois da viagem, chegaste a algum destino?
Sim,
já sei o que vou fazer a seguir. Os discos saem com uma frequência
quase anual, portanto na Universal assim que sai um começa-se logo a
trabalhar no seguinte. Mas independentemente disso ou de quaisquer
constrangimentos externos, tenho uma definição musical muito grande
dentro de mim.
Neste
álbum encontramos uma colaboração com o Júlio Pomar. De onde surgiu
esse projecto?
O
Júlio Pomar é a minha mais recente paixão. No Verão passado recebi
um telefonema dele quando estava em casa, depois de ter o meu filho, a
dizer-me que ia lançar um livro e que queria que cantasse um poema seu
na noite do lançamento. Eu fiquei muito entusiasmada.
Fui
a casa dele à espera de encontrar um velhinho fragilizado e encontrei
um guerreiro, um doce de pessoa tão segura de si e com um carácter tão
forte.
Ele
tinha um poema específico que queria que interpretasses?
Não.
Ele tem centenas de poemas e está sempre a mexer-lhes. Por isso é que
os publica, porque senão continuaria eternamente a alterá-los. Mesmo
assim, o poema que escolhi para este disco já foi mexido e já está
diferente, apesar de ter sido publicado em livro e também no meu álbum.
É
muito conhecido o facto de teres uma recepção muito maior no
estrangeiro do que em Portugal. Como é no caso dos portugueses que estão
fora?
Os
emigrantes não vão muito aos meus concertos, seja em que país for.
Curiosamente, a promoção de um espectáculo que fiz há pouco tempo na
Suíça foi muito direccionada para os portugueses. Por entre a maioria
suíça, havia cerca de vinte portugueses na sala, o que para mim já
foi uma vitória. Eles gostaram imenso, mas confessaram-me que não iam
à espera de ouvir o que encontraram.
Neste
caso foi uma surpresa pela positiva para eles, mas de qualquer modo eu não
gosto de estar a enganar as pessoas, ou seja, não gosto que promovam os
meus concertos como sendo concertos de fado. Para os estrangeiros é um
pouco indiferente porque não conhecem muito rigorosamente o fado. Mas
os portugueses criam expectativas de irem assistir a um espectáculo
mais tradicional e podem sentir-se defraudados ao ouvir-me cantar em
inglês ou francês músicas de muitos géneros. Por isso faço questão
de não promover como fado os meus concertos. É mais honesto e
verdadeiro.
Mas
genericamente os portugueses cá fora não vão muito aos meus
concertos. Primeiro, a promoção não é especialmente dirigida para
eles. Segundo, porque mesmo que fosse são pessoas culturalmente pouco
atentas.
Achas
que isso se aplica também às novas gerações?
Não,
referia-me mais àqueles que estão cá, no caso da França, há 40
anos. Hoje, das novas gerações tenho conhecido gente interessantíssima,
pessoas que cultivam a língua, a cultura e vão à descoberta do que se
está a fazer agora nestas áreas. Mas a verdade é que não posso
afirmar que sejam muitos os que têm chegado até mim.
Convives
bem com o público?
Com
as pessoas sim, com a exposição não. Convivo muito mal com a questão
da imagem. Detesto as sessões fotográficas. Sinto-me mal com as câmaras.
A exposição, para mim, é o pior desta profissão.
Não
é um pouco contraditória essa dificuldade em expor-se, não só com a
tua actual actividade, mas também com o desejo que tiveste desde cedo
de ser jornalista?
Eu
queria ser jornalista do lado de lá. O jornalismo que me interessava
era o da imprensa escrita, o de investigação, ou seja, nunca numa
perspectiva de dar a cara. Simplesmente não gosto de me mostrar. Mesmo
o facto de ter de me apresentar em público é uma dificuldade enorme,
é um processo de interiorização que demora algum tempo. É estranho,
não é?
Imagina
a paixão que é preciso ter para conseguir suportar tudo aquilo.
E
projectos para o futuro?
Neste
momento tenho um projecto que já tem dois anos e que é para
concretizar no próximo Natal. Fui convidada pela orquestra do
Concertgebouw para fazer um concerto muito especial, com música
tradicional de Natal portuguesa. Eu, o Ricardo Dias e o João Paulo
Esteves da Silva estamos a fazer uma busca de material, de música que
nunca ninguém gravou e ninguém ouviu em palco. Vai ser muito especial.
Carolina
Borges
Novembro 04
Entrevista
com Maria Mendes de Oliveira
TARIKAVALLI,
uma estrela portuguesa!
Maria
Mendes de Oliveira - TARIKAVALLI, é
uma luso-descendente, nascida em França. Os seus pais chegaram a este
país como, tantos outros, nos anos sessenta, em busca de uma vida
melhor.
Maria
estudou na Sorbonne, em Paris, especializou-se em dança indiana depois
de ter assistido a vários espectáculos e ter ficado subjugada. “À
medida que descobria e aprendia tudo o que envolvia essa dança, mais
vontade tinha de continuar”.
Mas
o verdadeiro ponto de partida foi quando assistiu a um desses espectáculos
interpretado por uma bailarina profissional francesa : “se uma
francesa pode fazer isto e ter sucesso, eu também posso”, concluiu.
Deslocou-se
inúmeras vezes à Índia para participar em grupos de trabalho,
impregnou-se durante vários anos de cultura e hábitos locais e acabou
por conseguir uma bolsa de estudo atribuída pelo Ministério dos Negócios
Estrangeiros francês que lhe permitiu estudar nesse país.
Perguntámos
a Maria Oliveira a origem do nome Tarikavalli : “é o nome concedido
pelo Mestre de formação no fim do ciclo. Os professores indianos dão
um nome aos alunos quando consideram que estes estão
“transformados” e dominam finalmente a arte ensinada. “Tarika”
é uma estrela e Valli é uma grinalda, a tradução em português de
TARIKAVALLI, será “grinalda de estrelas” ou ainda uma “trepadeira
de estrelas”. É um presente que os indianos oferecem a Deus, tendo
por isso um significado tradicional e profundamente religioso para este
povo”.
Lembra-nos
que não mudou de nome : “chamo-me Maria Mendes Ferreira de Oliveira,
Tarikavalli, transformou-se num nome artístico...”.
Agora,
o seu Mestre indiano instalou-se também em Paris e acompanha Maria por
todo o lado nos seus espectáculos.
Maria
não tem muitos contactos a nível da comunidade portuguesa em França,
mas desloca-se a Portugal uma ou duas vezes por mês para ensinar esta
dança aos portugueses e participar em grupos de trabalho dedicados a
esta actividade. “O facto de ser convidada a ensinar em Portugal é
muito importante para mim e dá-me grande alegria pelo facto dos meus
pais terem emigrado por razões económicas e saber que têm orgulho por
aquilo que eu faço”.
Confessa
que gostaria de ir viver para Portugal onde não tem concorrência na
sua arte, “por enquanto, porque estou a formar bailarinas que amanhã
estarão no mercado, mas é uma decisão difícil de tomar”.
No
espectáculo do dia 10 de Novembro, Maria vai actuar com um ou dois
textos traduzidos em português : “já resultou em Portugal, o público
foi muito receptivo, espero ter muitos portugueses no meu espectáculo e
que apreciarão”, disse à Vida Lusa.
Nós
também, esperamos que a nossa comunidade vá descobrir esta estrela que
também quer brilhar entre nós.
AC
Setembro
04
A
ressurreição do Fado?
Entrevista
com a fadista Mané
O
autor desta entrevista conhece e aprecia a Mané, há mais de vinte
anos. Reconhece gostar de fado, da voz, da maneira como esta ela o
interpreta, da artista e da pessoa. Ver pois na FNAC, o antro da promoção
da música francesa, grandes cartazes e uma secção consagrados ao seu
último álbum, foi um enorme prazer que não ousaria tentar disfarçar.
Depois
de ouvir os temas do CD, não nos admira tal empenhamento na promoção
e na produção por parte de franceses que amam a nossa canção
nacional.
Não
quisemos aqui elogiar ou até comentar o disco de Mané, deixamos isso
ao critério dos leitores, queremos apenas alertar aqueles que gostam
realmente de fado, dizer-lhes que existe qualidade, que temos grandes
talentos artísticos entre nós e que… vale a pena procurá-los.
Encontrámo-nos
obviamente num restaurante português para falar do seu último álbum e
sobretudo de Fado.
Foi
uma surpresa muito agradável constatar que o seu último disco de fado
está a ter grande sucesso em termos de vendas, em França. Quer
contar-nos a história deste álbum?
Conheci
duas pessoas francesas, ligadas ao mundo do disco. Um dia apareceram em
minha casa perguntando se eu estaria interessada em gravar um disco. Um
deles era um produtor que gostava muito de fado e já tinha produzido três
grandes nomes portugueses em França. Fiquei muito admirada mas aceitei
com muita alegria, claro.
O
disco foi gravado no ano passado e está à venda nos canais habituais
franceses, nomeadamente na FNAC com quem foi estabelecido um
partenariado. Vende-se efectivamente bem tendo em conta que não houve
grande promoção com excepção da própria FNAC que o colocou várias
vezes em destaque com grandes cartazes nos pontos de venda.
Estou
bastante orgulhosa, primeiro por me terem convidado e em seguida por ter
feito este trabalho.
Quais
são as características deste seu último trabalho?
Eu
dei-lhe o nome de “Subtil” porque na realidade julgo ter havido
alguma subtileza em ter introduzido fados clássicos.
Tenho alguns inéditos e depois tenho alguns do chamado “fado
canção”, não existe este nome, mas enfim chamemo-lhes assim. Fui
cantando à minha maneira privilegiando efectivamente o tradicional para
fugir um pouco àquilo que se vem fazendo ultimamente e me parece
desvirtuado.
Ou
seja, o que é que se está a fazer agora no fado?
Eu
penso que o facto de se andar a dizer que o fado vem do Jazz, que vem do
Blues, da Morna ou de não sei o quê e o que algumas pessoas em
Portugal - que eu não vou citar - andam a fazer foge a meu ver, àquilo
que é o fado.
Quer
dizer que o fado está a ser descaracterizado por alguns interpretes de
sucesso de hoje, quer dar exemplos?
Sim,
é isso. Há pessoas que cantam excepcionalmente bem, mas as interpretações
que fazem descaracterizam o fado deixando-se levar por essa onda de
inovação. Quanto a exemplos não quero nomear ninguém.
Não
quer falar de nomes devido à tal solidariedade que dizem existir no
meio do fado?
Ainda
bem que existe alguma, não estou a criticar ninguém, tenho alguns anos
de carreira e de experiência, penso por isso poder permitir-me tecer
algumas considerações que julgo serem construtivas e não negativas.
Nós
vamos avançar com alguns nomes : Carlos do Carmo, Nuno da Câmara
Pereira, António Pinto Basto, Mísia, Mariza, Cristina Branco…
Carlos
do Carmo não é novo no fado, tem interpretações que fogem talvez um
bocadinho àquilo que é considerado o fado pelos puristas. Agora será
também necessário reflectir se os puristas não pararam no tempo
mantendo convicções que impedem o fado de evoluir. O fado é música,
e como qualquer música de qualquer país do mundo sofre evoluções. O
Carlos do Carmo não o desnatura, o Nuno da Câmara Pereira já não é
bem fado, é mais balada e o António Pinto Basto é na mesma linha, são
pessoas que cantam muito bem, mas quanto a mim não é fado. A Mísia,
disse ultimamente numa reportagem que aquilo que ela cantava não era
fado, contrariamente ao que dizia no início da sua carreira. Em relação
à Mariza ou à Cristina Branco, estão sem dúvida a fugir bastante ao
fado. A única que me parece, a mim, para a minha sensibilidade e para
os meus conhecimentos, que está a efectivamente a seguir a tradição
fadista, introduzindo novas cores e dando ao fado novas oportunidades,
novas melodias, novas harmonias, com uma forma de dizer amor diferente,
é a Katia Guerreiro.
Não
acha que para o fado ter sucesso a nível internacional era necessária
uma grande evolução de estilo, tanto musical como na interpretação e
que os artistas citados têm conseguido impor-se graças a isso?
Estou
de acordo, tenho obrigatoriamente que estar de acordo, daí que eu tenha
dito à instantes que o fado necessita de evolução. Essa evolução
passa pela busca das raízes, das influências africanas das nossas
antigas colónias ou da música internacional, mas não fujamos das
bases porque senão estamos mal.
Num
outro registo vou dar-lhe um exemplo do que fiz nos meus dois últimos
concertos : Decidi cantar “Uma casa portuguesas” e a “Lisboa
antiga” que já não cantava há anos. Os meus músicos ficaram atónitos
mas foi o que vi noutros concertos de colegas que têm grande sucesso no
estrangeiro. Não é para copiar mas creio que todos nós temos o
direito de tirar ilações das coisas que funcionam. O público tem memória
auditiva e com o repertório da Amália associa tudo ao fado.
Salvo
raras excepções de concertos de alguns dos artistas que citámos nas
grandes salas de espectáculo parisienses o fado, em França, só se
ouve nos restaurantes. Tendo em conta a fraca capacidade financeira dos
restaurantes e por vezes as carência profissionais de certos proprietários,
a oferta de fado de qualidade parece-nos muito pobre. O resultado é que
essas casas são frequentadas quase exclusivamente por portugueses e o
fado vive praticamente num gueto. Qual é a opinião da Mané, que anda
por cá há cerca de vinte anos?
Tudo
isto é muito complicado : para fazer evoluir o fado com dignidade, é
preciso estudar vários parâmetros tais como, de onde vem, como se faz,
para onde se vai e, é preciso qualidade. O público francês é mais ávido
de qualidade que o português que é muito mais saudosista, o que se
compreende. Dificilmente, sobretudo nos ditos restaurantes portugueses,
frequentados essencialmente pela massa trabalhadora portuguesa, saudosa
de ouvir fado, se pode produzir qualidade adequada a um público
conhecedor e exigente como é o francês. Essa pergunta tinha eu vontade
de a colocar : qual é o futuro do fado em França?
No
início, quando solicitámos esta entrevista, tendo em conta o sucesso
do seu álbum e as enchentes das salas de concertos com esta nova geração
de talentos, tínhamos pensado intitulá-la de “A ressurreição do
fado”. Afinal ainda é cedo?
A
música é considerada em toda a parte do mundo, como toda a arte, um
luxo. Quando o mundo vai mal, a arte vai mal. Todos nós sabemos que a
indústria do disco em França, e não só, anda mal, está com uma
baixa violentíssima. Artistas de grande reputação são despedidos de
um dia para o outro, ainda hoje li no jornal que Mariah Carey está sem
editor. Acontece-nos obviamente o mesmo a nós. Falta dinheiro, faltam
investidores produtores.
No
nosso caso, voltando à clientela dos restaurantes portugueses com fado,
tenho a impressão que as pessoas não vão ouvir fado no restaurante, vão
jantar e acessoriamente ouvir fado, é como se estivessem a ouvir uma música
de fundo. É por isso também que raramente as pessoas res-peitam o
necessário silêncio durante as interpretações. Se reparar, nas
grandes salas como o Olympia e outras, as pessoas ouvem em silêncio,
porque são pessoas que estão ávidas de fado.
António
Cardoso
Maio
04
Agora
também tenho… A televisão de Portugal
Com
o aproximar do Euro2004 em Portugal, os mais reticentes à televisão
portuguesa começam agora a procurar equipar as suas casas com os canais
do nosso país. Fomos naturalmente interrogar um dos nossos anunciantes
especializados nesse ramo, o Sr. Fernando da Silva da empresa TéléGare
em La Varenne St-Hilaire (94).
Explique-nos
o que é a empresa TéléGare.
A
TéléGare é uma loja que está aberta ao público desde 1968. Eu nasci
em 1968, portanto não estava cá, fiquei com o negócio há cinco anos.
Já tinha a sua clientela, mas era uma clientela francesa.
Qual
é exactamente o ramo?
Reparações,
venda de aparelhos de electrodomésticos, televisões, video-projecção...
e sendo as antenas a minha especialidade, especializei-me um pouco mais
para que os portugueses possam ter acesso a todos os canais portugueses,
através da TV Cabo.
As
pessoas já sabem que podem captar a RTPi através de uma parabólica ou
do cabo, o que as pessoas menos conhecem é como obter todos os canais
portugueses, incluindo a TV Cabo. Como é que se procede tecnicamente?
Tecnicamente,
o sistema é uma parabólica também. É num satélite naturalmente
diferente do da RTPi, é numérico, é digital e não tem nada a ver com
o antigo que era analógico. É um sistema mais complicado do que era a
RTPi, que qualquer pessoa instalava. O numérico tem que ser com certos
aparelhos para poder sincronizar os satélites.
É
necessário instalar uma antena parabólica e um descodificador munido
de um cartão. Como é que as pessoas podem fazer para ter acesso?
Tem
que saber que há muitas pessoas que confundem a TV Cable com a TV Cabo.
A TV Cabo é o nome dum operador português tal como a TPS ou Canal Satéllite
em França. Só se pode aceder através de uma assinatura anual a
debitar todos os meses numa conta em Portugal. O preço depende do
“bouquet”.
Resumindo
: as pessoas
têm de dispor de uma conta à ordem em Portugal, o número de
contribuinte e do Bilhete de Identidade português. Quanto custa e quais
são as garantias?
O
aparelho é garantido, pela TV Cabo, dois anos, o preço do aparelho é
para toda a gente igual, é de 395e, pertence ao cliente, é dele.
Depois tem o preço da instalação. Se for um cliente que já tem a
RTPi, é muito mais fácil, já tem uma parabólica, a gente já pode
guardá-la e mudar só a LMB, ou seja a cabeça e dirigi-la para o satélite.
Quer
dizer, pode continuar a captar a RTPi...?
Não
no mesmo satélite, noutro. São dois satélites completamente opostos :
um é a 30 e o outro é a 13°.
E
as pessoas que já têm, por exemplo, Canal Satéllite ou TPS?
Com
a parabólica do Canal Satéllite ou do TPS não podem captar. Têm de
instalar outra parabólica e outro descodificador.
Nós
conhecemos outros profissionais nesta área. Qual a diferença entre a TéléGare
e outros operadores?
Na
TéléGare a assinatura é feita para Portugal. Quer dizer, as pessoas
pagam a um operador português, em Portugal, não pagam em França.
Todos aqueles que pagam em França, pagam muito mais caro a assinatura.
Um exemplo, em vez de estar a pagar 21e vai pagar 31 por mês pelos
mesmos canais.
Quais
são os preços?
O
primeiro preço começa a 13,59_, tem trinta canais, depois há o serviço
de Família que são 16,85 euros, e seguidamente há aquele que mais se
faz, que toda a gente quer, o Super Sport TV, que inclui a Sport TV mais
os canais nacionais.
Há
algo que não percebemos muito bem. Há pessoas que pagam em Portugal, e
outros fazem pagar em França. Mas afinal, quem é que debita a conta do
cliente, num caso e noutro?
É
um pouco complicado. As pessoas que fazem debitar aqui em França, pagam
a intermediários, o contracto nunca está em nome do cliente, mas em
nome dessas empresas que por sua vez vão pagar à TV Cabo a Portugal.
Isso
quer dizer que se essas empresas, por uma razão ou por outra tal como
abrirem falência, o cliente não estando vinculado à TV Cabo deixa de
receber os canais...
Exacto,
os clientes ficam sem acesso aos canais e depois com os aparelhos que já
têm, não podem fazer nada, porque eles não existem como clientes
actuais na TV Cabo.
Então
além do preço a diferença principal é essa. Essas empresas agem por
conta própria, compram um determinado número de acessos e aparelhos à
TV Cabo em Portugal que vendem aos seus clientes.
Exactamente,
a TéléGare é um agente da TV Cabo em França. Vende para a TV Cabo.
Os contratos são feitos em nome da TV Cabo.
Quais
são as perspectivas e próximos projectos da TéléGare?
O
desenvolvimento na área do multimédia, como há muitos restaurantes e
comércios portugueses, é fazer video-projecção, para se ver o
campeonato Europeu em grande. São ecrãs plasma, home-cinemas, como lhe
chamam... É algo que já fazemos mas queremos desenvolver este ramo um
pouco mais.
A
TéléGare tem publicidade por todo o lado, tem um site internet. É uma
empresa dinâmica que tem tido sucesso...
É
também devido à seriedade que temos tido com os clientes, à rapidez
no serviço, e o serviço “après-vente”, que conta muito. Estamos
dispostos à hora que convém ao cliente. Tentamos dar o melhor que
podemos e estar à disposição deles.
Temos
constatado que grande parte dos cafés, restaurantes e as associações
já estão equipados. Pensa que este desenvolvimento vem reduzir a
importância da RTPi?
Sim
porque a RTPi, muitos dizem que devia ser reformada. Quer dizer ser
feita por emigrantes. As pessoas costumam dizer, quando falam da RTPi,
que é uma cassete, enlatados, é sempre a mesma coisa que está a
passar. E as pessoas querem ver, cada vez mais, o directo. Precisam de
mais informação, de mais proximidade... O que eu gostaria é que todos
os português pudessem dizer : Agora também tenho… a televisão de
Portugal.
Fernando
da Silva nasceu em Chaves, diz ser flaviense de gema. Foi livreiro na
terra mas quando chegou a Paris, em 1989, tinha vinte e um anos, começou
a trabalhar nas antenas parabólicas com a comunidade judaica.
Conta-nos
com ar desapontado que nessa altura um dos seus colegas lhe disse que
“se a comunidade portuguesa fosse tão unida como a deles teria sem dúvida
nenhuma um grande sucesso”.
Diz
que os portugueses estão a mudar, “somos demasiado individualistas,
em praticamente todos os ramos há um português, pensa-se muitas vezes
que não temos qualidade para fazer coisas boas, mas somos um milhão e
tal aqui, felizmente que as novas gerações têm outras ideias.
Lembro-me dos emigrantes quando iam lá a Portugal de férias. Dou-me
conta que no fundo é isso, somos individualistas. Devíamos ser mais
unidos, fazer-mos mais pela comunidade e mostrar daquilo que somos
capaz, não nos esconder tanto. Mostrar o que valemos, mostrar o nosso
valor”.
Respondendo
ao que seria necessário para alterar alguns comportamentos e alheamento
ao interesse comum dos nossos compatriotas, Fernando da Silva diz não
ser especialista mas sugere que as pessoas se encontrem mais, se reunam
mais a nível associativo, a nível político, “se toda a gente der um
bocadinho de si mesmo, havemos de conseguir”.
Referindo-se
à mau tratamento que se dá à língua portuguesa nas comunidades, “às
vezes, as pessoas podiam dar, como prenda para os filhos mais pequenos o
Asterix em português, em vez da versão francesa que eles já sabem
ler. É um exemplo para as pessoas, que é por ai que se começa, dando
aos pequenos um livro em português. Antes de vir para aqui, era
livreiro, gostava muito de ler, mesmo se agora tenho menos tempo. Mas é
verdade que é por ai que se começa. Os portugueses deviam comprar mais
livros em português”.
António
Cardoso
Março 04
"A
medicina legal é muito mais uma ciência de vivos do que
uma ciência de mortos", Prof. Pinto da Costa
O Prof. José
Eduardo Lima Pinto da Costa nasceu no Porto no ano de 1934.
Terminou a sua Licenciatura em Medicina e Cirurgia no ano de 1960,
com a tese de dissertação de licenciatura intitulada “Morte
por acção do óxido de carbono. Estudo médico-legal”, a qual
mereceu a classificação de 18 valores e foi referenciada na
Revista Internacional da Interpol. Ingressou no quadro do
Instituto de Medicina Legal do Porto, como preparador, em 1960,
após estágio voluntário efectu-ado em 1959, em 1967, mediante
concurso e por proposta unânime do Conselho escolar da Faculdade
de Medicina foi nomeado para o lugar de chefe de serviço do
Instituto de Medicina Legal do Porto.
Em 1961, mediante proposta, por votação unânime do Conselho
Escolar da Faculdade Medicina do Porto, foi nomeado assistente de
medicina legal e toxicologia forense, dessa faculdade, cargo que
manteve até 1974, quando após prestação de provas de
doutoramento, em 1973, em ciências médicas, medicina legal com
prova complementar em psiquiatria forense, obteve a
classificação máxima de distinção e louvor e foi convidado
para Professor Auxiliar, passando a Professor Associado em 1979 e
a Professor Catedrático, entre 1996 e 2001, tendo pedido a
exoneração deste cargo após o seu afastamento da direcção do
Instituto de Medicina Legal do Porto. Frequentou o curso Superior
de Medicina Legal do Porto, pós-graduação, em 1961, com a
classificação de muito bom.
Actualmente é Professor Catedrático Convidado no Instituto de
Ciências Biomédicas de Abel Salazar e na Faculdade de Direito da
Universidade do Porto.
Foi considerado como uma das 100 personalidades da Cidade do Porto
no Século XX, e deixa uma obra inegável, sólida e ímpar no
Norte do País, a nível médico-legal e se mais não conseguiu é
porque as suas propostas, conselhos e exigências nem sempre foram
devidamente contempladas. Respeitado por uns e odiado por outros,
o seu percurso continua linear e igual a ele próprio.
O Sr. Prof.
dedicou a sua vida a estudar os seres humanos. Ao fim destes anos
todos, qual é a mensagem que nos pode transmitir?
Em primeiro lugar, tornarmo-nos ainda mais humanos. Na medida
em que compreendemos melhor os outros, também temos mais
hipóteses de nos compreender a nós próprios. Nas nossas
ansiedades, nas nossas angústias, nas nossas dificuldades.
Aprender a dar a volta às dificuldades, que na realidade surgem
no dia a dia, porque a vida, mesmo a chamada vida linear, resulta
de uma conjugação de efeitos positivos e negativos. E portanto,
o que é preciso é a que a pessoa tenha confiança em si
próprio, nas suas possibilidades, sem as exceder, mas também sem
as minimizar. Isso varia de pessoa para pessoa, porque está de
acordo com a sua personalidade prévia com factores hereditários
e, inclusive, com a aprendizagem que teve desde os primeiros
tempos, em regra, sublinha-se, os dois primeiros anos. Eu vou um
bocado mais atrevidamente dizer que ainda na barriga da mãe já
se começa a estruturar o futuro do ser humano. De qualquer das
maneiras, com as suas virtualidades, ou eventuais defeitos, se for
amparado, se alguém o ajudar a compreender melhor a vida, se por
si só cada um de nós não for capaz, isso é altamente positivo.
Não é só nós vivermos para nós próprios, mas darmos também
aos outros. A entrega aos outros, como aliás a minha vida tem
sido até agora, dá-nos uma certa à vontade, uma alegria de
viver, mesmo nos momentos mais difíceis, se nós tornarmos esses
momentos menos maus às pessoas, isso já é um objectivo
importante.
O Sr. Prof.
tem um currículo invejável. Será que lhe falta fazer ainda
algo?
Continuar a viver. Eu gosto muito mais, apesar de tudo, gosto
muito mais de aprender do que ensinar. Embora ensine, e ponha à
disposição dos outros os poucos conhecimentos que tenho
adquirido nestes tempos, de qualquer das maneiras, penso continuar
igual a mim próprio. A defender com frontalidade os princípios
que acredito e estimulando os outros sem impor, dando-lhes a
conhecer a possibilidade de decisão, porque as pessoas o que têm
que estar é suficientemente informadas. Porque sem informação
não há responsabilidade. Eu costumo dizer até, que as pessoas
decidam mal, mas primeiro informem-se, porque se decidiram mal,
mas se decidiram em consciência se calhar foi mau para mim mas
foi bem para eles. Porque do ponto de vista ético nós temos que
respeitar o pensamento dos outros.
Na Medicina
Legal, existe a espiritualidade?
Existe. A Medicina Legal é uma medicina global nos pontos do
mundo mais avançados. Portanto, quer dizer, trata-se dos
problemas classicamente ditos do corpo, e trata-se dos problemas
ditos do espírito. Considerando o Homem na sua globalidade, como
pessoa humana, bio-psíquica ou psíco-biológica, como quiser. A
tónica prioritária de um ou de outro, depende muito da
formação e das convicções de cada um. Mas hoje é
indissociável o comportamento humano dessa mesma pessoa.
Muitas
vezes as pessoas olham para a Medicina Legal com uma certa
reserva.
Será que é o medo da própria morte?
O desconhecimento implica sempre medo. E como as pessoas não
têm a noção exacta do que é a Medicina Legal, associam-na
sempre à Medicina dos Mortos, e isso leva a uma certa rejeição.
Mas é curioso, em boa verdade, a Medicina Legal é muito mais uma
ciência de vivos do que uma ciência de mortos. Em números
redondos, por exemplo, eu posso-lhe dizer que 7 mil e tal exames
de vivos correspondem mil exames de mortos, por ano. A proporção
mostra evidentemente, que se trata muito mais de problema dos
vivos do que dos mortos.
O Sr. Prof.
é docente Universitário. À parte da ciência que ensina, qual
é a mensagem que tenta transmitir aos seus alunos?
Que as pessoas sejam as mais humanas, mais reflexivas, que
consigam abarcar o conhecimento, o que hoje é muito difícil.
Hoje as pessoas acabam por perder-se na Internet, não conseguem
seleccionar sequer qual é o conhecimento que lhes poderá ser
mais favorável em determinada ocasião. Tenho sempre uma
preocupação de ajudar os estudantes, estou a falar de estudantes
que por vezes têm 40 anos, 50 e até mais do que isso. Porque
todas as pessoas que frequentam os meus cursos, não só de
pré-graduação, como de pós-graduação, têm idades variadas,
mas aconselhar : “Olhe, talvez esta matéria seja de se
reflectir sobre ela, ou talvez não interesse tanto”. E assim
sucessivamente. Pois a Internet que, nos proporciona uma
informação geralmente grande, tem, digamos, hoje, uns certos
prejuízos no efeito da aprendizagem porque nós não sabemos o
que é que devemos seleccionar.
Existem
alguns fenómenos de individualismo, egoísmo e de falta de
solidariedade.
Que é que o Sr. Prof. pode dizer a este respeito?
Devemo-nos debruçar sobre estes fenómenos porque a realidade
mostra-nos que tudo é favorável ao egoísmo actualmente. Muitos
dos valores actuais, em qualquer parte do mundo, sobretudo no
mundo que se diz mais documentado, mais civilizado, entre aspas,
porque civilizados somos todos com civilizações diferentes, o
egoísmo é na realidade um carimbo, é uma espécie de paradigma
traduzido pelo dinheiro. O dinheiro é um valor máximo que
substitui a moral, substitui a religião, substitui todos os
valores convencionais. Quem tem dinheiro tem muito poder. Quem
não tem dinheiro nenhum, não tem poder. Portanto haverá que
estabelecer uma solução de equilíbrio, que foque o problema da
pessoa humana e não propriamente outros valores para que haja
pessoas humanas com capacidade para resolver os seus próprios
problemas, de maneira tão diferente como se verifica e cada vez
mais com uma certa preocupação, devido a esta falta de valores
que são essenciais para que nós nos aproximemos uns dos outros.
Basta dizer um “Bom dia” à pessoa que não conhece, que
encontra na rua, quando está numa fila, quando está num
ascensor, quando está num sítio qualquer. Mas que tenha a
presença de que outro está ali da mesma maneira que nós
próprios estamos também.
Adelino
de Sá - Gazeta Lusófona
Janeiro 04
Secretário
das Comunidades Portuguesas entregou primeiros Bilhetes
de
Identidade feitos no Consulado de Paris
A
reestructuração consular é também a emissão de bilhetes de
identidade nos consulados?
É bom que as pessoas tenham em consideração que a
reestructuração da rede consular implica um conjunto de medidas
muito vastas. A primeira das quais é exactamente a
modernização. Esta é a questão central da reestructuração da
rede. Restruturar, em primeiro lugar, é modernizar. A primeira
medida prática de modernização foi esta, em Paris. Noutros
sítios foram outras, que já estão executadas há algum tempo.
Mas no caso de Paris, a primeira medida no âmbito da
modernização e de reestructuração consular foi exactamente a
emissão de bilhetes de identidade. Depois, seguir-se-iam outras,
nomeadamente a informatização de postos consulares, a evolução
deste sistema de criação de centros emissores de bilhetes de
identidade, e igualmente medidas de racionalização da rede, que
passam por fechar postos num sítio, abrir outros noutros.
Portanto, a esse nível, as coisas estão a decorrer conforme o
planeado, num ou noutro ponto com ligeiro atraso em relação
àquilo que inicialmente tínhamos pensado, mas naturalmente, há sempre questões práticas de execução que são
inicialmente incomparáveis.
Quantos
consulados vão poder emitir os bilhetes de identidade?
De cinco postos evoluiremos para quinze a vinte, primeiro.
Segundo, alargamento da rede de passaportes a postos em que tal se
justifique. Há poucos meses, fizemo-lo em Santos, no Brasil,
vamos continuar. Mas num ou noutro, em que tal seja ainda muito
evidente, a modernização da rede de vistos, de acordo com o novo
programa europeu, que obriga a uma padronização ou uma
uniformização dos vistos no espaço Shengen.
Quanto ao alargamento da rede de informatização dos postos
consulares, neste momento, depois de tudo o que foi anunciado no
passado, só trinta e cinco postos consulares, de cento e vinte e
um, é que estão informatizados. Ora, ao longo de 2004, vamos
ter, em França, mais quatro postos que serão informatizados,
Lyon, Clermont-Ferrand, Tours e Toulouse, são estas as medidas
mais imediatas que estão em curso. Há igualmente ligações
informáticas que serão estabelecidas, não estamos no entanto a
falar já de informatização total a pequenas antenas consulares
que nós temos nalguns sítios. Temo-las sobretudo em locais onde
existiram postos que encerraram. O caso, por exemplo, de Rouen, é
um caso que vai ter uma ligação em rede a Paris. Osnabruck, vai
ter uma ligação em rede a Hamburgo. Agora, em França, Rouen é
o único caso que se justifica. Estamos a estudar igualmente a
forma de tentar ter um serviço de proximidade para os portugueses
que estão na Córsega, a nossa intenção de abrir um escritório
consular, está a ser analisada.
E para os
que vivem longe dos Consulados...?
A ligação em rede permite fazer várias coisas, mas há
coisas que jamais conseguirão ser assim feitas. Há actos que
têm de ser tratados pessoalmente, não é possível tratar por
via electrónica o bilhete de identidade, o passaporte, a
procuração, o testamento, o divórcio, o registo de
nascimento... senão poderíamos estar a abrir um campo às mais
variadas ilegalidades e irregularidades. Portanto aí não podemos
deixar de ter as pessoas presentes nos serviços onde nós temos
antenas consulares. Agora o consulado virtual integrado num portal
das comunidades, está em evolução, e posso dizer que, entre
Janeiro e Fevereiro, a primeira experiência de consulado virtual
vai passar a funcionar em São Paulo. E vamos ver como vai
decorrer esta experiência. Isto vai integrar-se num portal das
comunidades. O Portal das Comunidades que poderá estar pronto, em
princípio, ainda em 2004, vai permitir a muita gente de
informar-se ou até tratar alguns actos. Agora repito, há coisas
que nunca dispensarão a presença da pessoa nos serviços
consulares, porque a pessoa tem de ir lá assinar, dizer que é
ela, que está presente, senão poderíamos, a certa altura, estar
a tratar do processo de pessoas que já desapareceram, pessoas
mortas, que têm problemas da mais variada natureza, ou até
registar nascimentos que não existem. Portanto, como não podemos
fazer isso, o que temos de fazer, nalguns casos em que temos
comunidades com expressão e muito distantes de postos consulares,
é ir abrindo serviços. Posso dizer que nestes últimos meses,
nomeámos novos cônsules honorários, estamos à espera dos “agréments”
das autoridades locais, que vão ter apoios para fazer funcionar
estruturas consulares em locais como Kingstone, London, Lemington
no Canadá, em Los Angeles, na Ilha Margarita, na Venezuela.
Estamos a utilizar, pequenas entidades, pequenas estruturas
consulares em comunidades que não precisam mais do que isso. É a
forma que nós temos de atender algumas comunidades que estão a
quinhentos, mil, dois mil quilómetros, do posto consular mais
próximo.
Como está
a evoluir a situação da contagem do tempo de tropa para os ex.
militares?
O processo está em fase de resolução, não está ainda
resolvido, nem para os portugueses que foram atingidos pela lei
que foi aprovada ainda em 2002 pelo Parlamento. É uma situação
que espero que se venha a resolver ao longo dos próximos meses
para aqueles que não têm descontos em Portugal para a Segurança
Social. Não vale a pena ter ilusões, é uma solução que não
é fácil executar visto que implica em termos financeiros um
esforço muito elevado da parte do governo português. Em qualquer
caso, com a colaboração que tem havido entre os diversos
ministérios, neste momento, julgo que estão criadas as
condições para esta situação evoluir e para que dentro de
algum tempo surjam respostas concretas.
Que chama
“dentro de algum tempo”?
Será o tempo possível, não podemos pôr uma medida destas
em marcha sem termos a certeza que temos meios para a atender.
Esta
questão não se põe só agora, os governos anteriores já
trabalharam sobre este assunto...
Não, esta questão nunca foi tratada em Portugal, começou a
ser tratada agora e é por isso que ainda não foi resolvida. A
grande questão é esta : há mais de trinta anos que o problema
existe, existe pelo menos desde que os portugueses começaram a
cumprir o serviço militar, sobretudo aqueles que estão aqui e
foram atingidos mais directamente pela guerra colonial. Foram
obrigados a sair de Portugal depois de regressaram da guerra
colonial, encontraram o país sem emprego, foram obrigados a
emigrar, não fizeram os descontos em Portugal e, por causa disso,
automaticamente são confrontados com esta questão. Mesmo alguns
que tenham feito os descontos em Portugal, também tinham
problemas, porque fizeram descontos para sistemas que não eram
públicos. Todos estes têm este problema por resolver.
O que se está a fazer? É exactamente encontrar, quer em termos
de legislação, quer em termos práticos, formas de resolver esta
questão. No fundo poder dizer à pessoa: o seu tempo conta para
efeitos da sua aposentação, quer esteja em Portugal, quer esteja
algures, noutro país qualquer, desde que, com esse país, haja
acordos em matéria de segurança social, porque se não houver,
não há qualquer forma de resolver esta questão.
No momento
em que o bilhete de identidade português vai substituir aqui a
famosa “carte de séjour”, o problema do reconhecimento do
divórcio em França pelos tribunais portugueses continua na
mesma...
O divórcio é um problema judicial, dos tribunais. O
divórcio é um acto litigioso ; porque é um acto litigioso
implica sempre a possibilidade de haver contestação por parte do
Ministério Público e a possibilidade de existir sempre
contestação por uma das partes. Portanto, é impossível
permitir que esse processo deixe de passar pelos tribunais. Não
há acordos entre os tribunais franceses e portugueses, e esse é
um problema que existe. Existe e existirá! Até que um dia, no
espaço da União Europeia se encontre uma política judicial
única. Mas com toda a franqueza, não tenho condições para
garantir às pessoas um mínimo de expectativas relativamente a
isso.
O Conselho
das Comunidades continua a queixar-se de não ser ouvido nem
consultado em relação às políticas para as comunidades.
Não sei de quê porque nós temos falado de tudo. Ainda vou
falar com eles outra vez. Amanhã irei a Orléans, depois do
Conselheiro local me ter feito sentir que havia necessidade de lá
ir. O que é que é possível fazer mais com o Conselho das
Comunidades? Francamente, não sei. Pessoalmente já esgotei todas
as formas de diálogo e mantê-las-ei. Mas estou convencido que o
diálogo tem sido bem evidente. Agora há uma coisa. Nós não
vamos fazer tudo o que o Conselho das Comunidades quer que se
faça. Nalguns aspectos, até porventura, eu próprio considero
até como erros. O Conselho das Comunidades não admite que a rede
consular tem de ser racionalizada. Acho que é um erro crasso.
Manter alguns consulados abertos, é um erro grave, porque não
servem, é desperdício de meios, e nós temos de racionalizar os
meios. Não há nenhum país que não o faça. Agora manter
abertos consulados que têm dois ou três mil actos consulares por
ano com quatro, cinco, seis funcionários é um erro. É
desperdício de meios para a administração pública, o Conselho
não admite isto, lamento. Mas em qualquer circunstância, a minha
vontade, relativamente ao Conselho, é de ter toda a colaboração
e dialogar sobre tudo.
As
associações e federações queixam-se de não ter apoios
suficientes para exercer as suas actividades. A CCPF e a FAPF
debatem-se com graves problemas financeiros. Qual é a realidade
sobre este assunto e qual é a estratégia do Secretário de
Estado?
Os problemas que existem, essencialmente, existem com as
grandes federações e confederações. Eu considero que os apoios
têm de ser dados prioritariamente a actividades concretas, não a
estruturas administrativas. E por isso temos apoiado actividades
em concreto, tais como o Festival de Teatro, nas condições que
nós temos. Há outros casos em que as questões são diferentes,
porque nós não vamos manter estruturas administrativas. Eu sei
que algumas associações ou federações estão a atravessar
dificuldades, porque também estão a acabar apoios por parte das
autoridades francesas, isso é inultrapassável. A França
continua com bom nível, apesar do nosso esforço para ter maior
igualdade entre as comunidades, o que não existia. A França
absorvia mais de 80% dos meios, e ainda hoje absorve a parte do
leão. Agora vamos ser muito selectivos. Por outro lado, nós
temos inte-resses estratégicos em certos países, o caso do
Brasil, o caso de Espanha, o caso dos Estados Unidos, são
incomparavelmente diferentes. E temos movimentos associativos
muito mais fortes nesses países. Não vamos comparar a quantidade
de pequenas associações que aqui (em França) existem com, por
vezes, meia dúzia de associados, com associações que têm por
vezes, milhares. Não podemos comparar um país como França, em
que nós temos uma estrutura de ensino português, - que não é
minha mas do governo português, ainda com dezenas largas de
professores, com países que não têm um único professor, como
é o caso dos Estados Unidos, do Canadá ou da Austrália. Nós
teremos de fazer alguma selectividade. Mas há projectos que têm
sido apoiados. Claro que as pessoas desejariam ser apoiados com
mais dinheiro, claro. Dei há pouco um exemplo de um projecto em
que nós vamos investir, o caso das comemorações dos trinta anos
do 25 de Abril aqui em França.
Para
resumir, apoio administrativo não, apoio a iniciativas, sim...
Exacto, eu fui dirigente associativo, participei nas mais
variadas associações ; com toda a franqueza, acho que há um
espaço de empenhamento que não passa pela profissionalização.
A profissionalização pode ser garantida, mas há custa dos
recursos próprios. Repito, fui dirigente de grupos folclóricos,
fui presidente duma associação de estudantes, fui dirigente das
mais variadas associações, sei muito bem o que é a vida
associativa, o que se pode e não pode fazer. Nós estamos muito
empenhados em encontrar as melhores soluções, mesmo para essas
estruturas federativas. Agora há uma coisa que não podemos
fazer, é mantê-las, ajudar a manter a estrutura burocrática das
mesmas, isso não temos condições para o fazer.
Existe
alguma relação entre as remessas enviadas pelos emigrantes e o
orçamento que lhes é globalmente destinado?
Isso é uma questão antiga, efectivamente. As remessas dos
emigrantes justificam ou não que haja mais políticas, em prol
dos próprios emigrantes. Posso dizer que em 2004, os meus
serviços vão gastar, com as comunidades, mais de três vezes
aquilo que se gastou em 2003, e em 2002. Recentemente, só agora
é que nós conseguimos encontrar um novo quadro legal que
permitisse que as acções em prol das comunidades portuguesas
fossem contempladas também pelo Fundo para as Relações
Internacionais. É muito recente, tem meses apenas. Demonstra bem
qual é o nosso empenhamento nisto. E por causa disso é que nós
vamos ter mais meios disponíveis, exactamente por estas razões.
É à custa desses meios que nós vamos pagar estas medidas de
informatização e modernização das redes consulares.
Aurélio
Pinto e António Cardoso
Dezembro 03
Entrevista
com Agnès Pellerin, jovem autor de um livro intitulado
"Le Fado",
lançado pelas Edições Chandeigne
Agnès
Pellerin, gostaríamos que se apresentasse aos nossos leitores.
Tenho 25 anos, sou francesa, não tenho origens portuguesas e
descobri Portugal há 5 anos. Fui lá de férias, participei num
campo de trabalho perto de Castelo Branco e foi assim que descobri
este país, a sua língua e que tive vontade de o conhecer melhor.
Tendo trabalhado na Universidade, sobre um assunto que tinha
ligação com a cidade e com a cultura portuguesa, procurava ao
mesmo tempo um tema para a minha “maîtrise”, quando um
professor meu, que era bastante aberto, me propôs “o fado”,
do qual eu não conhecia nada. No ano seguinte, tive a
oportunidade de passar um ano em Lisboa para fazer a minha “maîtrise”
sobre este tema.
Era um
professor português?
Não, era francês. Era professor na Universidade de Nanterre,
professor de Filosofia mas interessava-se muito por Artes, dava
aulas de Teatro e conhecia o fado, dizendo-me logo que seria bom
que eu fizesse uma pesquisa no terreno. Foi assim que eu fui,
durante um ano, para Lisboa, pesquisar sobre o fado, sabendo que
havia muitos fadistas que cantavam nesta cidade.
O que é
que fazia como curso na Universidade?
Estudava Filosofia, e nessa linha, resolvi pesquisar sobre a
ideia de fatalidade no fado, e a coexistência entre a fatalidade
e a liberdade de expressão. Foi o eixo que consegui para começar
a minha pesquisa e para descobrir o fado.
Então,
antes do seu professor lhe ter falado, nunca se tinha interessado
nem pela língua nem pela cultura portuguesa?
Ainda não. Ainda vivia em França. Só depois fiz contactos
em Portugal, onde aprendi a língua ; assim que comecei a falar um
pouco, logo entrevistei os cantores e as pessoas ligadas ao mundo
do fado.
O fado nasceu em Lisboa, nas margens do Tejo, como todos sabem,
num ambiente de porto, mas também nasceu de uma experiência de
distância, de separação, do desconhecido, ligada entre outras
à vida dos marinheiros, que através do canto, contavam às vezes
de maneira humorística, as dificuldades e as vissitudes da vida
que levavam no mar.
Mas o fado que se canta longe de Portugal, em França por exemplo,
baseia-se bem na partilha de um sentimento muito forte, gerado
pela experiência do exílio.
Cantar o fado, em certos bares de Paris e da região parisiense,
serviu como em Lisboa, para lutar contra a solidão, imposta por
uma grande cidade e criar em pequena escala, meios de
convivialidade e solidariedade.
Foi fácil
conseguir contactos em Lisboa?
Sim, acho que as pessoas gostam muito de falar do fado, que
aliás faz parte da vida deles, é uma coisa muito quotidiana,
vê-se bem como o fado parece vital para essas pessoas. Tenho
orgulho em mostrar e dar a conhecer melhor, a arte deles.
Ouviu fado
em França e em Portugal. Achou diferente?
Sim, acho que há algumas especificidades. Os fados que falam
das pessoas daqui, não se ouvem em Portugal. Também há fados
que contam como o fado atravessou as fronteiras. Mas acho que o
fado em França, encontrou alguns espaços que têm mais a ver com
os de Lisboa. Depois há algumas questões de língua, ás vezes
ouve-se o sotaque francês.
A experiência da imigração deu origem por vezes a uma
criatividade própria. Se os portugueses continuaram a cantar o
fado e a tocar guitarra em França, como em Portugal, outros
começaram a cantar em França e a escrever poemas aqui, para o
fado.
Encontra-se em França, como em Portugal, a distinção entre um
fado de concerto e um fado popular. O fado de concerto, passa-se
em grandes salas, representado por artistas sobretudo mulheres,
apresentadas muitas vezes como “herdeiras” de Amália, tais
como Cristina Branco, Mísia, etc., que cantam músicas
sofisticadas com poemas literários, dirigidos a um público de
apreciadores, que tem o hábito de frequentar concertos de
músicas do mundo.
Por outro lado o fado popular e tradicional, é uma prática
expontânea, cantada no seio da comunidade, em família, nos
restaurantes, onde a qualidade do fado reside mais na transmissão
da vivência, que na autenticidade.
Acha que os
jovens em França se interessam pelo fado?
Muitos jovens de origem portuguesa, descobriram o fado
bastante tarde, como Bévinda a quem a voz de Amália suscitou a
vontade de ser cantora. Atrás do fado, está sempre o problema da
identidade portuguesa.
Desde a ditadura em Portugal, quando o fado começou a ser
mediatizado assim como o folclore rural, numa espécie de cultura
oficial, o fado é designado representar “a alma portuguesa”.
E mesmo certos discursos utilizados aqui, no seio da comunidade
portuguesa, jogam com esta fibra nacionalista, forçando uma
legítima saudade do país, veiculada pelo fado o que não
favoriza a integração*.
Nunca houve
nada que a chocasse nas letras do fado, as histórias tristes, de
morrer…?
Não fiquei chocada, porque guardei uma certa distância da
pesquisa. Mas é claro que há alguns fados como “Uma casa
portuguesa”, que falam da alegria e da pobreza, é bastante
chocante, parece uma banalização da aceitação da pobreza. Mas
acho que no fado acontece uma coisa que vem ultrapassar isto tudo,
e muitas vezes as letras são também um pretexto para partilhar
uma dificuldade de viver e acho que o sofrimento transmitido no
fado consegue tornar-se numa expressão artística. Acho que as
pessoas sentem uma certa libertação.
Visitou
todos os sítios característicos onde tinha nascido o fado e onde
ele se canta ?
Descobri mais o fado através de fadistas amadores que
cantavam em tabernas, que é uma forma bastante específica do
fado. Para mim era a mais acessível, talvez por causa da minha
timidez, era mais fácil encontrar-me com estas pessoas que são
mais anónimas, do que outras do meio do fado, consideradas
artistas. Encontrei depois pessoas que também faziam pesquisas
sobre o fado, frequentavam casas onde o fado é uma arte, uma
expressão musical. Por vezes as casas de fado são turísticas.
Para mim o contexto é um pouco mais distante.
Acha que
há uma distância entre essas pessoas, quando são vedetas, são
mais difíceis de aproximar?
Sim e também reparei que às vezes, para o fado amador havia
uma maior escuta das pessoas presentes, apesar do barulho, do que
em casas onde o fado tem uma visão maior, que é um ritual, um
bocado privilegiado.
Chama fado
amador àquele que se canta de uma maneira espontânea ?
Sim, isso é o que eu chamo o verdadeiro fado. Em casas de
espectáculos por vezes, têm um carácter completamente
diferente, têm que fazer mais atenção ao cenário, às pessoas
que estão presentes. Enquanto o outro não, sai da alma. Não há
preocupações de estar a pensar : “será que está a agradar a
alguém ?”.
O que existe no fado amador é a participação das pessoas, não
há só uma pessoa a cantar. Fisicamente há, mas todos os
espectadores desafiam o cantor, é colectivo, é espectacular.
Chama-se a
isso uma desgarrada...
Quando vejo os cantares, também vejo o público a desafiar,
fazer sentir que está presente, conseguir provar alguma coisa.
Esse estudo
durou um ano ? Quando voltou à Universidade, qual foi a
reacção?
Acho que ficaram bastante interessados, há muitos estudantes
e professores que nem sempre estão muito envolvidos nestes
assuntos.
No meio
disto tudo, acabou por fazer amigos em Lisboa?
Sim. Fiz contactos com músicos, que cada vez que ia lá, ia
vê-los. Também é interessante seguir a evolução turística de
Lisboa, ver como as pessoas vivem e depois comecei a trabalhar
para completar as informações que tinha para o trabalho de
Filosofia, e escrever algo de mais geral, de mais simples.
E o livro ?
serviu de mémoire para a universidade?
O livro não.
O livro foi
feito graças às pesquisas para o “mémoire”?
Sim. O “mémoire” foi uma base e depois fiz o livro.
E agora
continua a interessar-se pelo assunto, ou considera que acabou ?
Acho que fazer um livro assim, é bastante reduzido em termos
de espaço de páginas, por exemplo fiz perguntas que merecem dez
páginas cada uma. Por exemplo, estou muito interessada na
ligação do fado com a propaganda da ditadura. E acho que isto
fazia mais uns detalhes...
Agnès
nunca pensou em interessar-se pelas diferenças entre o fado de
Lisboa e o de Coimbra?
A pergunta é muito interessante... e poderia fazer um assunto
de tese...
M.
F. Pinto
*Teremos que
convidar um dia Agnès Pellerin, se ela aceitar, a vir falar-nos
de integração, pois o assunto interessa-nos.
Outubro 03
Entrevista
com a nova coordenadora do ensino,
Dra. Gertrudes Amaro
Gertrudes
Amaro foi professora do ensino secundário, passou em seguida para
o ensino politécnico. Fez o mestrado em Boston, nos
Estados-Unidos, regressando a Lisboa por convite do Instituto da
Inovação Educacional, onde foi Directora de Serviços durante 9
anos.
Enquanto foi professora de ensino politécnico, leccionou na
Universidade da Beira Interior, deu colaboração na Faculdade de
Ciências de Lisboa, professora de mestrado na Universidade
Católica e na Universidade dos Açores, nalguns cursos
intensivos.
Enquanto esteve em Castelo Branco, coordenou o polo do projecto
Minerva, ligado à implantação de computadores nas escolas
básicas e secundárias e coordenadora da Unidade Matemática e
Informática
Já em Lisboa, no Instituto da Inovação Educacional, passou a
ser a representante de Portugal junto da rede de avaliação da
aprendizagem dos alunos na OCDE, durante 7 anos. Foi igualmente
Coordenadora do projecto internacional “TIMSS”, sobre a
avaliação dos alunos em matemática, que se tornou mais
conhecido após a publicação dos resultados de estudos feitos
sobre alunos de 43 países.
A coordenação de vários projectos, alguns deles internacionais,
permitiram-lhe conhecer muitos sistemas educativos e escolas em
todo o mundo, desde Inglaterra até à Austrália, passando pelo
Japão, Estados-Unidos...
Em termos de relações com as Comunidades, reconhece que se
limitam às “informações que recebia no Instituto, mas estava
até agora a representar o Ministério, numa rede internacional de
sistemas educativos que tinha essas dimensões contempladas”.
No
ano passado, o início das aulas foi bastante atribulado com
muitos problemas. Como estão a correr as coisas este ano? Os
professores já foram todos colocados?
Neste momento, (20 de Setembro) creio que só temos para colocar
quatro professores devido à passagem à reforma de alguns
professores e não ter havido uma comunicação correcta entre o
Ministério da Educação e a Coordenação. Entrei como
Coordenadora no dia 1 de Setembro, havia ali uma pequena
imprecisão e foi por isso que se atrasou um pouco a atribuição
destes quatro lugares. Mas já está tudo em curso, os professores
já foram indicados, agora é a questão do processo que demora
sempre um bocadinho. O resto já está tudo atribuído e colocado,
quer os professores destacados, quer os professores contratados.
Haverá uma ou outra situação que escape e que tem a ver com
alguma indecisão ou desistência de alguns professores. Há
horários pequenos e as pessoas constatam que com aquele
vencimento não podem viver em França.
Penso que a situação está dentro da normalidade, dentro de
aquilo que tem sido os anos anteriores, mas haverá uma zona ou
outra em que haverá alguns ajustamentos, em relação às
escolas, aos horários dos professores ou dos próprios cursos dos
alunos. Os cursos funcionam também consoante o número de alunos,
têm uma determinada atribuição de horas e por vezes é preciso
fazer alguns ajustamentos.
Depois também há que ter em conta que as autoridades francesas
não são todas iguais na resposta e com o problema do “Arrêté
d’acceptation”, os processos burocráticos não correm todos
ao mesmo tempo, há pessoas que são mais céleres,
outras menos e é bom também ter isso em conta. Penso que nos
próximos dias estará tudo a funcionar em pleno.
Numa
entrevista ao jornal Encontro, o Embaixador de Portugal, Dr.
António Monteiro, declarou que o ensino do português era das
suas principais prioridades. Acha que continua a sê-lo para o
actual governo?
Sim, o ensino do português como língua viva. Temos que dedicar
com todo o apoio, toda a divulgação, sobre o que significa
aprender português como língua viva para quem vive num país que
não é Portugal. Quando vivemos na Europa, temos línguas da
comunidade, a nossa língua é uma língua da comunidade, é uma
língua obrigatória nas comunicações da comunidades. Podemos
viver em França, em Espanha, em Inglaterra, na Dinamarca, etc.,
mas tendo a língua portuguesa o seu papel muito importante na
comunidade, é a dimensão forte que o governo quer desenvolver.
Alias,
o Embaixador falou na integração do ensino da língua e da
cultura a todos os níveis no ensino francês.
Exactamente. Se nós conseguirmos que na primeira opção de línguas,
os alunos do primeiro ciclo façam opção por língua portuguesa,
se tivermos muito bons alunos que são de origem portuguesa mais
os alunos que começam a ter vontade de aprender português, e que
isso seja oferecido dentro do sistema educativo francês, é claro
que estamos a caminhar muito bem.
Nessa
altura, o Ministro Jack Lang, referiu essa vontade, mas depois no
terreno não se concretizou como se esperava...
Mas acho que voltou a repensar a sua posição, e temos neste momento
indicadores de que, para o ano, vão abrir os concursos para os
professores franceses, para o ensino do português língua viva.
Mas
hoje o ministro é o Luc Ferry e terão decorrido recentemente
negociações inter-governamentais entre os dois países...
É a questão da redefinição das redes, é o que acontece em todos os
países. Definir uma rede e vê-la corresponder às necessidades
em qualquer país, é sempre uma controvérsia, é sempre muito
difícil. Portanto, o problema que se passa em França, também se
passa em Portugal, e em qualquer outro país da comunidade. O
estudo das redes e a oferta de cursos também têm a ver com as
nossas crianças que nós temos, e é a nossa principal
preocupação, porque não temos muitos milhares de crianças,
deveríamos ter milhões para nos garantir o futuro.
Acho que não houve nenhum retrocesso em relação a essa
política. O que poderá ter havido é uma vaga de acalmia para
situar exactamente as necessidades em termos do corpo docente e de
oferta e procura. Mas tivemos, da parte de algumas Academias,
pedidos de mais horas de ensino do português como língua viva,
nos chamados cursos integrados.
Na
última década, o número de professores de português em
França, foi reduzido de 415 para cerca de uma centena, é o
princípio do fim...?
Eu não aceito assim. Eu acho que estamos a fazer um esforço muito
grande em termos de política externa. Numa época em que nós
estamos a dar o apoio ao ensino da língua portuguesa, em primeiro
na escola primária, em todos os sítios onde haja realmente essa
vontade por parte das escolas francesas, da parte do sistema
educativo francês, e nós conseguirmos lá chegar, acho que é
muito bom. Mas é verdade que em Portugal também ensinamos o
francês como língua estrangeira, e quem dá francês são os
professores portugueses. Acho que essa questão não deve ser
escamoteada. As comunidades têm todo o apoio naquilo que é uma
oferta que será em função das necessidades dessas próprias
comunidades.
Que
pensa do ensino da língua no meio associativo tal como tem vindo
a acontecer?
Esse assunto, digo-lhe com muita franqueza, é um assunto que precisa de
ser estudado com muito cuidado. Há, realmente, que compreender
bem a dinâmica das associações e ver bem como esse ensino é
feito, a qualidade que tem. É um assunto para ser estudado.
Há
10 ou 15 anos que ouvimos dizer a mesma coisa, nomeadamente por
parte dos políticos. “É um assunto que tem de ser estudado,
que tem de ser avaliado... e finalmente continua sempre na mesma.
Daquilo que está para traz, da acção da antiga coordenação, não
posso falar. A nível político, acho que há um interesse de
perceber a oferta e a qualidade da oferta. Neste momento é ordem
do dia, em todas as dimensões. Toda a gente quer que se estude a
qualidade da oferta porque esta tem a ver com os clientes. Não é
possível definir uma política sem ter noção da qualidade da
oferta. É evidente que o apoio tem muito a ver com essa
qualidade.
Temos
visto professores que se queixam permanentemente de nunca serem
ouvidos pela Coordenação e dizem que quem está no terreno é
que conhece a situação porque tem experiência...
As pessoas, normalmente, têm sempre muitas experiências pessoais.
Experiências de dimensão de grupo, eu acho que há instâncias
em que isso acontece. Eu tenho essa preocupação, acho que é
possível, a médio ou a curto prazo ponderar essa experiência
que os professores têm e tomá-la em consideração.
Qual
é o papel do Instituto Camões...
Não lhe posso responder porque não é da minha área. Terá de ver com
o Instituto Camões.
Mas
há uma interligação com a Coordenação?
Nós vamos tentar tudo no máximo. Tentar que os esforços a nível de
formação, de passagem de mensagens, tudo o que tem a ver com a
língua e cultura portuguesa. Temos que nos unir e fazer esforços
no mesmo sentido.
E
também alguma coordenação com a Gulbenkian?
Também. São coisas que, quem está no terreno pode ajudar, temos que
nos unir. Acho que acima de tudo, a comunicação social tem de
fazer passar uma informação séria, correcta, porque por vezes
querem-se grandes títulos e não se põem lá as respostas nem
aquilo que as pessoas disseram. Isso é uma coisa que me preocupa,
normalmente até me nego de dar entrevistas por causa disso. Acho
que não é bonito, não tem impacto, nem faz pensar as pessoas
sobre aquilo que devem pensar correctamente.
As pessoas, os pais, os encarregados de educação, as famílias,
estão interessadas em saber exactamente o que é o melhor para o
futuro dos seus filhos. Quando virem um texto escrito com clareza,
que lhes explica que, por exemplo, aprender a língua portuguesa
na perspectiva que ela é útil na África, na América, na
Austrália ou nas cinco partidas do mundo, como se dizia
antigamente, eu acho que isso é que é fundamental. Temos de ter
consciência que o português é falado por milhões de pessoas.
Em
muitas família portuguesas, os pais falam exclusivamente em
francês com os filhos. Também há cada vez mais casais mistos e
nem sempre é fácil. Para essas crianças, o português é uma
língua estrangeira...
A mãe é capaz de ter mais influência quando as crianças são
pequenas, mas hoje os casais já dividem tudo, os pais já
conversam tanto com os filhos quanto as mães, isso é lindo.
Quando a língua é falada em casa pelo pai e pela mãe, é claro
que isso ajuda para que as crianças se sintam mais próximas e
aprendam uma segunda língua, a língua materna e/ou a língua
paterna, com a mesma fluência. Agora os pais têm de ter a
preocupação de falar com eles nas duas línguas e não dar
predominância a uma se querem realmente que fiquem bilingues.
Isso são só vantagens para os filhos. Quanto mais línguas
tivermos a capacidade de aprender, mais versáteis somos, quer do
ponto de vista intelectual quer da comunicação, para sabermos o
que se passa à nossa volta com profundidade. Eu sofri, quando era
nova para aprender línguas, mas hoje sinto-me feliz, quando numa
reunião, por exemplo na OCDE, constato que sou das poucas pessoas
que ouve sem precisar de tradutor, inglês, francês, espanhol ou
italiano.
O
facto das crianças aprenderem simultaneamente duas línguas, tem
sido um vasto debate, nomeadamente entre psicólogos...
O problema é diferente, quando nascemos num meio em que se falam
duas línguas diferentes e quando vamos para a escola aprender a
língua. Aí é que o debate é diferente, é saber se é uma
vantagem ou não aprender outras línguas numa idade mais precoce.
Não sei se haverá alguma coisa provada em relação a isso,
objectivamente. Há realmente uma discussão por parte dos
psicólogos, dos puristas das línguas e outros assim como há
estudos contraditórios. Nas questões das ciências humanas não
há leis, não é como a matemática.
Quais
são as suas perspectivas? Quanto tempo tenciona ficar por cá?
Eu, normalmente, não ponho metas. Estarei enquanto eu achar que estou a
fazer um trabalho válido e enquanto achar que as respostas que
vamos encontrar serão mais coerentes e as mais de acordo com os
interesses de todos os intervenientes.
Gostaria
de acrescentar algo mais?
Desejo muitas felicidades ao vosso jornal, que se divulgue e que ajude a
divulgar. E se pudermos colaborar com o vosso jornal... que
colabore também com a coordenação para passar informações
objectivas aos pais, às famílias, aos professores. Isso é das
coisas mais importantes, e é aquilo que realmente precisamos. Que
esse esforço seja feito dos dois lados. Se for assim, acho que
estamos todos de acordo em colaborar.
Julho/ Agosto 03
Fernando
Afonso, la trajectoire d'un vice-champion d'Europe
de culturisme devenu homme d'affaires
Né au Portugal
et arrivé en France à l’âge de trois ans, Fernando Afonso a
très peu étudié, il est allé jusqu’au CAP de comptabilité,
et s’est lancé très jeune dans le travail.
Lorsqu'il avait 18 ans, ses parents retournent au Portugal, lui,
préfère rester en France, se retrouvant seul et sans un sous en
poche.
C’est sa passion pour les sports de haut niveau, tels que la
boxe et sa stature physique qui l'ont conduit naturellement à des
emplois de protection de biens et de personnes, à l’âge de 19
ans.
Cherchant du travail comme portier dans les boîtes de nuits, il s’est
fait engager dans une discothèque portugaise la Costa do Sol, à
Villeneuve Saint-Georges (banlieue parisienne).
A 33 ans, Fernando Afonso, est aujourd’hui à la tête d’une
PME de sécurité de 130 personnes, créée il y a 4 ans.
C'est l'expérience acquise et les relations tissées avec la
clientèle, alors qu’il était directeur dans une autre
société, durant trois ans, qui lui ont permis d'éviter les
erreurs et de gérer “convenablement ses affaires".
Certains clients l'ont suivi, l’aidant ainsi à démarrer son
activité. Aujourd’hui il s’est forgé une renommé et les
nouveaux contacts arrivent naturellement grâce à cela.
Malgré le succès, il a su rester humble, gardant la tête sur
les épaules, et “ne s'est jamais laissé aveugler par la
notoriété des stars" qu’il côtoie régulièrement.
Pour lui, “rien n’est jamais acquis”, mais avoue que sa plus
grande revanche sur la vie, est de pouvoir s’acheter une voiture
aujourd’hui aussi facilement qu'un paquet de cigarettes quelques
années auparavant.
Le sport reste sa passion, Fernando Afonso s'entraîne toujours en
salle, saute en parachute avec ses amis policiers du RAID, et s’exerce
au tir dans un club.
Toujours aussi intéressé et lié à ses racines, Fernando s’est
associé à un autre compatriote pour acheter un restaurant de
spécialités portugaises à Puteaux (banlieue parisienne).
Déjà consacré en couverture du journal Encontro, dans l’édition
de septembre 1998, lors de son titre de vice-champion d’Europe
de culturisme, nous avons repris contact afin de parler de sa
fulgurante ascension dans le milieu des affaires.
Qu'est ce
qu’une entreprise de sécurité ?
C'est principalement l'assistance et la protection de biens et
de personnes, mais le domaine d'application est très vaste et
cela va de la protection rapprochée à la surveillance de
magasins, la gestion de portiers des boîtes de nuit. Il y a la
sécurité publique, c'est l'affaire de la police et la sécurité
privée où intervient ma société.
Nous sommes
dans votre bureau à Boulogne-Billancourt. Accrochées aux murs,
il y a des photos de vous avec des stars internationales telles
que Luis Figo, Mariah Carey, Adriana Karembeu, Steven Seagal, Eddy
Barclay, Charles Aznavour et quelques dizaines d'autres. Pourquoi
et comment êtes-vous contacté par ces personnalités pour
assurer leur sécurité ?
C’est venu à travers des connaissances, du relationnel. J’ai
commencé comme portier de boite de nuit, c’est ainsi que j’ai
fait la connaissance de certaines personnes qui m’ont demandé
de travailler pour eux. Ce sont en général des gens riches qui
de par leur acti-vité ou leur statut, ont besoin d’être
protégés. J’ai été par exemple chauffeur et garde du corps d’une
danseuse-étoile russe et je devais l’accompagner partout ce qui
m’a permis de faire beaucoup de rencontres dans ce milieu.
Les
rencontrer c’est une chose, encore faut-il gagner leur confiance
pour travailler pour eux…
Oui, il faut avoir une structure, probablement une bonne
présence et un bon contact. C’est certainement l’un de mes
atouts et c’est pour cela que j’ai créé une société. Ce
sont des gens qui ne se laissent pas aborder facilement, il faut être patient,
discret et surtout recommandé par leurs semblables. Après cela
devient plus facile, à partir du moment où ils sont satisfaits
par le travail qu’on accomplit.
Finalement
votre fond de commerce repose sur le bouche-à-oreille ! …
La protection rapprochée, oui, mais aujourd’hui cela ne
représente plus grande chose sur l’ensemble de mon activité,
surtout depuis ce qui s’est passé aux Etats Unis, le 11
septembre et la crainte d’attentats. Il y a beaucoup moins de
demande car ces gens ne voyagent que quand c’est strictement
nécessaire, notamment les Américains. Ensuite, il y a les
budgets qui sont aussi plus réduits, donc cela ne m’intéresse
plus autant. Dernièrement j’ai refusé Elton John, quand il est
venu à Paris, à cause d’un problème de budget.
Il est
étonnant que des gens aussi riches discutent autant le montant à
allouer à leur protection ! …
Parfois, ce sont ceux qui en ont le plus qui discutent les
prix. Les moins aisés sont souvent moins regardants et payent d’avantage.
Quand il fallait me faire connaître je faisais des prix bas pour
gagner des parts de marché, aujourd’hui, je n’ai plus ce
besoin et c’est moi qui impose mes tarifs. S’ils n’acceptent
pas, je ne travaille pas.
Nous
présumons que vous êtes sous tension permanente lorsque vous
travaillez, il faut avoir les yeux partout, cela doit être
difficile de protéger Ricky Martin, Madonna ou Mariah Carey d’une
foule de fans.
Il en est de même pour les portiers des boîtes de nuit, ils
doivent pouvoir se maîtriser face à des situations parfois
délicates…
C’est un travail qui demande effectivement beaucoup de tension,
de vigilance, de présence et d’efficacité car le client doit
se sentir rassuré. Aujourd’hui dans le domaine de la
sécurité, on ne peut plus se permettre d’avoir une
agressivité. Les lois sont de plus en plus strictes et le rôle
du portier est quasiment de l’accueil. Il faut savoir parler et
recevoir la personne. Il faut aussi avoir la tête froide pour
supporter certaines personnes.
Vous nous
avez dit que vous aviez démarré votre société avec 5 employés
et que vous gérez aujourd’hui - 5 ans après - environ 130
personnes, il faut que la demande soit forte pour pouvoir les
payer.
Mon réseau est bien structuré, quand les radios telles que
NRJ et autres accueillent des vedettes internationales ils m’appellent
pratiquement en exclusivité, pour que je les accompagne et assure
leur sécurité notamment dans les discothèques et autres
endroits branchés.
Il faut dire que je fournis les portiers pour la plus part
des grandes et plus renommées boîtes de Paris.
L’autre partie importante de mon activité concerne la vigilance
dans la grande distribution, c’est-à-dire des centres
commerciaux tels que Carrefour, Auchan, Leclerc, etc. Il y a aussi
le gardiennage, des pompiers, des maîtres-chiens pour des sites
spécifiques tels que des endroits où il y a des manifestations,
des fêtes ou des immeubles.
Vous avez
acheté un restaurant portugais. Vous travaillez également de
plus en plus, en contact avec la communauté !…
C’est une sorte de retour aux sources pour moi. Je suis
portugais avant tout. Je vais pouvoir prouver aux jeunes, que les
Portugais peuvent arriver à faire quelque chose de bien, et qu’ils
peuvent évoluer comme tout le monde, ailleurs que dans le milieu
du bâtiment ou des entreprises de ménage.
Lorsque je suis devenu vice-champion d’Europe de culturisme, j’ai
participé en tant que portugais. C’est ainsi que j’ai eu
droit à la première page du journal Encontro, qui disait que j’étais
le “Portugais le plus musclé de France”. J’étais très
content et fier, et cela m’a apporté un peu de reconnaissance
des gens, notamment là où j’habite, au Portugal.
La
communauté portugaise, qu’en pensez-vous ??
J’espère
que je la verrai toujours du bon œil, que je serais toujours
aussi fier de travailler pour elle et avec elle. Je l’ai déjà
fait. Pour moi, il n’est pas question de foncer au Portugal, j’aime
beaucoup la France, et elle m’a apporté beaucoup, mais
travailler pour et avec les Portugais, c’est une fierté pour
moi.
A. C.
Julho/ Agosto 03
Entrevista
com o Ministro dos Negócios Estrangeiros
e das Comunidades Portuguesas, Dr. António Martins da Cruz
Nem sempre é
fácil obter declarações exclusivas dos ministros sem terem
havido contactos prévios com os assessores, para discussão
eventual dos assuntos a abordar.
Aproveitámos o momento em que Sr. Embaixador nos apresentou,
durante a recepção consagrada aos empresários, tendo o Sr.
Ministro acedido imediatamente à nossa solicitação de
entrevista.
O senhor
Ministro está estes dias em Paris, mais como Ministro dos
Negócios Estrangeiros ou como das Comunidades?
Estou aqui estes dois dias e meio, claramente como Ministro
das Comunidades Portuguesas. É obvio que, por exemplo, estou aqui
nesta recepção, a fazer diplomacia económica, porque já
arranjei aqui dois ou três negócios para Portugal, com contactos
franceses e portugueses. Sou o primeiro ministro que é
simultaneamente, dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades
Portuguesas, e tenho muito orgulho nisso, porque acho que chegou a
altura de tratarmos as Comunidades Portuguesas como Portugueses e
não como uma espécie de grupo de pessoas assistidas. Não sei se
leu a minha mensagem do 10 de Junho, que se chama “Horizontes do
Futuro”, porque acho que é o reencontro dos Portugueses que
vivem fora e dentro, neste projecto que é europeu e nacional.
Com o
acréscimo “Comunidades Portuguesas” a Ministro dos Negócios
Estrangeiros, não acha que o Secretário de Estado deste sector
tem menos poder, protagonismo e visibilidade que no passado ?
De maneira nenhuma. O Dr. José Cesário, não só é um
grande amigo meu, como é um grande político há mais de 20 anos
e um extraordinário Secretário de Estado das Comunidades.
Trabalhamos em equipa. No Ministério, trabalho em equipa com os
meus três Secretários de Estado: um nos assuntos da
Cooperação, outro nos assuntos Europeus e outro nos assuntos das
Comunidades Portuguesas. Dividimos o trabalho, quer dizer que, em
vez de haver uma hierarquia, há uma divisão de trabalho. Eu
estou aqui hoje, o Dr. José Cesário está com o nosso
Primeiro-ministro em Nova Iorque e em seguida no Canadá. Temos
uma diáspora portuguesa muito grande, alcança quase todos os
países do mundo, de maneira que nós os dois não somos
suficientes até, para cobrir todos os pedidos que nos fazem os
Portugueses.
Este
Governo considera provavelmente que atribui mais importância do
que qualquer outro, às expectativas das Comunidades Portuguesas e
ao valor acrescentado que estas podem representar para o nosso
país. No entanto, em Portugal, a Comuni-cação Social só fala
dos emigrantes quando há desastres ou crimes.
Qual é a sua opinião ?
Sabe, o assunto é muito difícil, é muito português. Nós
portugueses, somos muito dados ao sentimento da desgraça e ao
negativismo. Eu acho que a mensagem que temos procurado passar, e
fizemo-lo pela primeira vez, é a seguinte : os portugueses que
vivem e trabalham no estrangeiro têm que confiar neles próprios.
Têm que se integrar bem nos países onde vivem. Têm que adquirir
a nacionalidade desses países onde vivem, têm que participar na
vida política. Não é incompatível, as pessoas hoje em dia,
terem duas nacionalidades, não é incompatível continuar a ser
português e ensinar a língua e cultura portuguesa aos filhos, ou
ser eleito Presidente da Câmara, ou Deputado Regional, ou
Deputado Federal. Não é incompatível! Estamos já a reunir
portugueses com sucesso na política, em vários países, para que
eles transmitam a lição, para que transmitam o que aprenderam
como políticos, às gerações mais novas, para que estas possam
seguir o exemplo. Quanto mais integrados estiverem os Portugueses
no país onde vivem, melhor é para eles e para Portugal.
A língua
é um factor de identidade...
... Poderosíssimo, de identidade nacional. Nós temos, em
todo o mundo, cerca de 500 professores. Custam 40 milhões de
euros aos contribuintes portugueses, o ensino de português aos
filhos dos portugueses e aos luso-descendentes. Temos professores
em França, em Espanha, na Alemanha, só não temos nos países
onde o sistema de educação não é compatível, o que é o caso
dos Estados-Unidos ou do Canadá, porque as autoridades locais
não o permitem. Mas mesmo assim, apoiamos as associações
portuguesas que querem contratar professores portugueses, para
ensinarem aos mais novos.
Isso é a
grande novidade, como é que se passa com as associações no
Canadá?
Há vários casos no Canadá e nos Estados-Unidos. Algumas
recebem subsídios da nossa parte. Depois se gastam esse dinheiro
com professores ou com outras coisas, isso é lá com elas. Mas
são subsidiadas.
O Sr.
Ministro sabe que existe uma associação de órgãos de
comunicação social das comunidades, chamada PortPress21.
Sim, sei. Mas porquê 21?
Foi
constituída pelos 21 convidados a Lisboa aos “Encontros para a
Parti-cipação”, pela Secretaria de Estado das Comunidades e
pela Direcção Geral dos Assuntos Consulares. Estamos todos de
acordo com uma coisa: vamos ter muita dificuldade em manter a
nossa língua nestes órgãos porque não temos pessoal
qualificado suficiente e carecemos totalmente de apoios. Ao jornal
Encontro, foi-lhe suprimido o porte pago, por ser, segundo o
Instituto da Comunicação Social, um jornal das “Comunidades”
para as Comunidades. Não acha que com o desaparecimento destes
órgãos, a ligação com Portugal se vai extinguindo pouco a
pouco ?
Podem chegar por internet, hoje em dia...
O Sr.
Ministro sabe que não é suficiente !...
Não, não é. Eu acho que o problema do porte pago é
importante e é preciso encontrar uma solução. Os outros
problemas, como o problema da distribuição, são problemas em
que o Estado não pode ter mecanismos para fazer a distribuição
dos meios de comunicação social. O Estado inglês não subsidia
a venda do Financial Times. Então porque é que o Estado
português há-de subsidiar a venda do jornal Encontro?
Não foi
essa a minha pergunta...
Pode haver soluções de apoio indirecto, o porte pago é uma
delas. É preciso encontrar fórmulas com imaginação.
Sr.
Ministro, como é que resumiria este conjunto de comemorações
aqui em França,
à volta do Dia de Portugal ?
Eu acho que é importante, e, queria louvar o Embaixador de
Portugal em Paris, que é o grande arquitecto destes três dias,
que começaram com este encontro com empresários portugueses,
luso-descendentes e franceses. Vou continuar com um jantar no
Cercle de Paris, com decisores, com fazedores de opinião. Depois
darei uma entrevista, em directo, durante duas horas e meia na
Rádio Alfa, em que estarei acompanhado por representantes dos
Países da CPLP em França, para darmos a dimensão da CPLP.
Depois vou inaugurar uma exposição de Vieira da Silva, que é um
grande traço de união entre as culturas portuguesas. Estarei no
Domingo, durante o dia todo, em Pontaut-Combault, para celebrar
eventos culturais com a comunidade portuguesa, não só de
Pontaut-Combault, mas de todas as regiões que confluíram para
esta terra para celebrar o 10 de Junho.
Já
reparou, que o nosso dia nacional, é o dia de um poeta ? Na
maioria dos países, é o dia de uma revolução, como a França
ou os Estados-Unidos.
Acho que os portugueses deviam meditar mais isto.
Recentemente, o Governo português apoiou frontalmente a
iniciativa de George Bush e Tony Blair, no que diz respeito à
intervenção no Iraque. A posição da França era contrária.Que
consequência pode ter essa atitude para Portugal e para a
comunidade portuguesa de França?
Não põe problema de espécie alguma, visto que são
situações normais de política externa, vividas por países
independentes. O Primeiro Ministro Durão Barroso já se encontrou
com o Ministro Jean-Pierre Raffarin e com o Presidente Jacques
Chirac ; eu também já encontrei o meu homólogo francês e tudo
se passou bem. Para os portugueses daqui, também nada vai mudar.
António
Cardoso
Entrevista realizada no dia 8 de Junho
Julho/ Agosto 03
"La
Harissa" un groupe de musique à la sauce portugaise
Originaire de
Cergy-Pontoise en banlieue parisienne, le groupe “ LA HARISSA”
est devenue en l’espace de trois albums un incontournable
de la scène Hip-Hop, mais aussi et surtout pour les plus
de deux millions de Portugais résidant en France, première et
seconde générations confondues.
Composé des deux frères Malheiro, Christophe et Sébastien, 27
et 30 ans, plus connus sous leurs noms de scène, Sirando et Block
Pata, La Harissa a créé un nouveau genre, bien à lui, le
Hip-Hop Portos Latino. Leurs albums, “Portos Ricos”, en 1997,
“Conquistador” en 2000 et “Portugal Rap Star” en 2002,
sont un mélange de textes humoristiques, déjantés ou plus
sérieux, parfois en Portugais, et de Beat Hip-Hop. Ils ont
également fait un petit clin d’œil à la génération un peu
plus an-cienne dans leur dernier album, en faisant un duo avec
Linda de Suza intitulé Les gens des baraques.*
A l’occasion de leur tournée au Portugal cet été, avec de
nombreuses dates dans les plus grandes discothèques du pays, nous
les avons reçus pour en savoir un peu plus, sur leurs débuts,
sur cette tournée, et sur leurs projets.
A votre
avis, quelle tranche d’âge est la plus concernée par votre
musique ?
Les 15 - 40 ans. Mais ça dépend des morceaux. En gros c’est
la deuxième génération, mais comme c’est difficile de lui
donner un âge exact…
Comment
vous définissez la musique que vous jouez, que vous interprétez
?
C’est du Rap à la tendance
portugaise. En fait, le Rap c’est la diction et la musique qui l’accompagne
c’est du Hip-Hop. Et nous, on y a apporté la touche portugaise.
C’est donc là que La Harissa se différencie des autres
groupes. On a apporté une nouvelle touche, une nouvelle tendance,
tout en gardant les ori-gines latinos. C’est donc de là qu’on
a fait la contraction du nom du style musical, Portugais et
Latino, c’est devenu Portos Latino. Donc ce qu’on fait c’est
du Hip-Hop Portos Latino.
Si on prend
exemple sur Radio Latina, pour eux, les “latinos”, c’est
tout ce qui est hispanique.
Jusqu’à ce que les Portugais s’énervent un peu plus…
Heureusement,
il y a les Brésiliens pour rappeler qu’on est aussi des “latinos”.
Radio Latina surfe sur un
phénomène de mode latino-américain mais ils n’ont pas envie
de nous reconnaître en tant que “latinos”. La question à
leur poser, c’est qu’est-ce que la latinité en Europe sans le
Portugal ?
Il faut
donc s’imposer ?
Bien sûr !
Et c’est
ce que vous faites ! Vous êtes les seuls ?
Oui, on est les précurseurs du genre, il y en a d’autres,
on reçoit des maquettes et des cd de gens qui tentent et qui
revendiquent ça.
Parlez-nous
de vos débuts, lorsque vous avez commencé à vous produire en
public.
En majorité, c'était des jeunes d'origine portugaise qui
venaient nous voir.
Ça a commencé avec deux maquettes, avant de sortir l’album “Portos
Ricos”. C’était le genre Underground, c’est-à-dire qui ne
touchait que la population adepte de cette musique, en cercle
fermé, en fait. Et à partir de là, on a commencé à voir qu’il
y avait des problèmes, on a sentit que, comme on était ni noir
ni arabe, dans le milieu du Rap, on était pas à la mode. Donc le
fait d’être portugais et de revendiquer notre Portugal, c’était
pas bien vu, mais nous ça nous a amusés sur le coup et on s’est
dit “si c’est comme ça, on va encore insister”. Et puis du
coup, on a fait notre premier album “Portos Ricos” en 1997.
Portos, pour le terme péjoratif et puis en référence aux Porto
Ricains. Les Porto Ricains d’Europe, en fait, ce sont les
Portugais.
Vous avez
essayé d'abord dans votre quartier, devant des amis… ?
Oui, au départ, ll y a près de 8 ans, on a fait des concerts
MJC, dans les maisons de quartier, les maisons de la jeunesse. On
a réellement été découvert au Printemps de Bourges.
Votre
premier grand concert.
C’était avec “Portos Ricos”, au Divan du Monde, c’est
une salle parisienne branchée, c’est là qu’on a eu la grosse
sensation.
Vous avez
un producteur et un éditeur exclusif ?
C’est la maison Next Music. Ils s’occupent de la
production, ils éditent… ils font tout. Mais, il a eu un
changement de patron, et du coup avec le nouveau, on s’entend
encore mieux. C’est pour ça qu’il y a beaucoup de choses qui
sont en train de se faire, car on leur a fait prendre conscience
que La Harissa évoluait en travaillant sur un socle de
luso-descendent, de portugais et de ceux qui se sentent portugais.
On a réussit à vendre près de 80 000 exemplaires, ce qui veut
dire qu’on est pas loin du disque d’or. Les sociétés
françaises ne comprennent pas comment on arrive à générer tout
ça. On a passé beaucoup de temps à leur expliquer qu’il
fallait se concentrer sur quelque chose de précis.
Vous vous
êtes aussi produits dans des boîtes portugaises, bonne
expérience ?
Oui, bien sûr ! Le problème c’est que les boîtes
portugaises, il y en a pas assez. Il y a tellement de jeunes
portugais, et tellement peu de chose pour eux. Je trouve que les
dirigeants de ces boîtes de nuit sont un peu trop prétentieux.
Apparemment tous les jeunes portugais passeraient par leurs
discothèques, ce qui c’est faux.
La
participation de Linda de Suza, ça ne fait pas un peu trop
mélange des genres?
Non, c’était un clin d’œil. On s’est rencontré avec
Linda de Suza, elle nous a dit “c’est vous La Harissa ? J’ai
déjà beaucoup entendu parler de vous !” Elle était très
sympa, et nous a dit qu’on était le phénomène de mode du
moment, et c’est elle qui s’est proposée, pensant que se
serait marrant de faire un duo entre, elle qui est de la première
génération et nous de la seconde.
Cet été,
vous allez faire une tournée au Portugal, dans les grandes
discothèques du pays.
Qu'en est-il exactement ?
On va présenter un concept. Dans la plus grosse boîte du
Nord, le Pacha à Ofir, on va faire les trois premiers mardis du
mois d’août (le 05, le 12 et le 19 août). Chaque soir, on fera
un spécial album, c’est-à-dire, le premier mardi, “Portos
Ricos”, le deuxième mardi, “Conquistador”, et le dernier
mardi, “Portugal Rap Star”. On répétera la même chose dans
la grosse boîte du centre, Império Romano à Marinha Grande, les
trois premiers lundis du mois d’août (le 04, le 11 et le 18
août). On s’est concentré sur les deux grosses boîtes du
pays, une au nord, l’autre plus au centre et puis on s’est
offert un petit extra avec Discoteca & Companhia à Covilhã
le 14 août, pour les gens qui sont un peu plus vers l’intérieur.
Pour le Sud, c'est en négociation, notamment avec le Festival de
Paredes de Coura, qui est le plus gros festival au Portugal,
normalement on devrait le faire.
Vous
chantez en français. Vous ne pensez pas que ça peut vous
pénaliser au Portugal ?
Non ! On a déjà fait les trois plus grosses émissions
télé au Portugal, Herman Sic, Curto Circuito et Câmara da Cruz,
et on l’a fait en français. Eminem, il est numéro 1 là-bas et
il rap en anglais, donc c’est pas une barrière. Malgré tout,
il y a des textes en portugais, il y a des sonorités portugaises,
donc tout ça fait que les gens adhèrent aussi. Le problème qu’il
peut y avoir entre les jeunes de là-bas et ceux d’ici, c’est
que les jeunes d’ici sont très saudade (sentiment de tristesse
ou nostalgie, en portugais), très liés à leurs racines alors
que les jeunes de là-bas, finalement, au contraire, ils essayent
de se tourner vers l’extérieur.
D’où
vient l’idée pour le nom “La Harissa” ?
En fait c’est une sauce qui pique, qui vient de la rue, qui
n’a rien à voir avec le fait que se soit une sauce arabe. C’est
une sauce de la rue, qui pique, et le rap vient de la rue… donc
voilà !
D’autres
projets après la tournée Portugal ?
Oui, à la rentrée, des scènes, le cd actuel de “La vache
folle” encore en développement. En ce moment on enregistre un
remix avec Lord Cossidy. Il y a le DVD de la tournée aussi. Et
puis le lancement de la ligne de vêtements La Harissa Wear, le 5
juillet à La Bergerie à la Verrière (78).
*Pour plus d’infos :
www.la-harissa.com
Sandrine
dos Reis
Junho 03
Retalhos
de uma vida: Luci Bento, artista e mulher
Lucília Maria
Bento, nasceu numa pequena aldeia perto de Castelo Branco. Entrou
na escola com seis anos, onde o seu jeito para as
actividades plásticas foi imediatamente notado. Fazia
continuamente montes de desenhos e quando acabava, oferecia-os a
todos os que a rodeavam. Nessa altura, confessou que gostaria de
ser professora de desenho, mas apesar dos conselhos do professor
ao pai e das suas súplicas, não houve nada a fazer ; o pai
tirou-a da escola com dez anos, declarando que ela estava quase
uma mulher e como tal destinada a ser dona de casa, cozinhar e
fazer limpeza. Quanto à pintura nem pensar nisso, o papel era
caro e as tintas ainda mais !
Um jornalista suíço, que a entrevistou em 2000, disse : “fala-se
muito das mulheres islâmicas, mas ainda há poucos anos, os
portugueses agiam também de uma maneira muito esquisita”.
Lucília casou-se muito nova e o casamento não mudou em nada a
sua vida, a incompreensão do marido era a mesma que a do pai.
Teve dois filhos, o marido foi obrigado a emigrar para a Suíça
por questões financeiras, onde ela veio ter com ele pouco tempo
depois. Clandestina, Lucília Bento viveu fechada num pequeno
apartamento sem poder sair, nem ver ninguém e onde teve o seu
terceiro filho. O primeiro ia mesmo assim à escola e o outro
estava em França, em casa de família.
No primeiro dia em que pode sair daquela espécie de gaiola, foi
comprar uma tabuinha para cortar pão e tintas baratas, para
crianças, e pintou-a. O marido, ao chegar a casa, ralhou com ela,
dizendo : “porque é que estragaste a tábua” ?
A vida continuou, limpar, cozinhar, as crianças, donde a
última nasceu com grandes problemas de saúde, e sempre uma
enorme vontade de pintar à qual ninguém ligava, Lucília fez uma
grave depressão nervosa. O psiquiatra declarou ao marido
que a vontade que ela tinha de pintar era causada por uma
espécie de loucura, o que levou o marido a dizer-lhe que mesmo o
médico achava que ela era doida. Este médico, mais um que achou
que uma pequena portuguesa, quase iletrada, querendo ser pintora,
isso não podia ser um desejo ou uma vocação, só podia ser um
sintoma de loucura !!!
Lucília pediu o divórcio, obteve a guarda dos filhos e
lançou-se na vida artística, como o náufrago se agarra à
única tábua de salvação visível.
- Em 1998, fez um curso de pintura a óleo, na Escola de Artes
Virtuais em Lausana, SNC Grobéty e Vögeli.
- Em 1999, sempre na Escola de Artes Visuais de Lausana,
Lucília fez os : Curso de Pintura a óleo e
Curso de Desenho Académico.
Assim nasceu Luci
Bento, aos 37 anos de idade, tendo ao seu activo, hoje, mais de
800 telas. Luci vive exclusivamente da Arte, exercendo o seu papel
de mãe de família de dia, pintando incansavelmente de noite, no
seu pequeno “atelier”. Várias matérias entram na
composição dos seus quadros : fitas, pérolas, areia, mas com a
aplicação da sua técnica bem pessoal.
A sua pintura é figurativa, pode-se dizer que ela pinta
séries de temas, passando pelos nus, flores, aves, casas
imaginárias, projectando uma multitude de ideias, numa procura
desesperada dela mesma.
Neste momento, Luci pinta de novo em estilo figurativo, que é um
pouco um auto-retrato, com várias facetas, representando aquilo
que ela é e o que aspira a ser, numa procura de realização,
difícil de conseguir, sem ajuda talvez psicológica, de alguém
que possa compreender este “resultado” de dois países, duas
culturas, duas vivências, muita amargura e decepção.
Luci Bento fabrica também bonecas, possui uma enorme colecção
(400 na Suíça), que perfazem com as que tem na sua casa em
Portugal, mais ou menos um milhar de peças. Estas bonecas têm
sido expostas em museus de várias cidades, (como por exemplo o
Museu da Casa da Boneca, da Fundação Steineck, onde obteve um
êxito enorme, pois os amadores de “poupées”, são numerosos.
As bonecas de Luci, muito bonitas, sumptuosamente vestidas, de
olhar inquietante, são, diz-nos ela, a vingança da sua infância
sem bonecas, que a mãe nunca lhe comprou, mas que agora lhe
oferece de vez em quando, como para recuperar o tempo perdido,
agora já tão tarde…
Falando com Luci, sobre os seus pais, sentimos que ela teria muito
que dizer, mas que por pudor se cala, sendo mesmo assim com
bastante ternura que fala da mãe, como se quisesse partilhar com
ela a notoriedade que alcançou, uma necessidade absoluta de ser
“reconhecida” pelos seus, de afirmar que tinha razão quando
queria ser professora de Desenho. Luci fez várias exposições em
França e na Suíça, onde tem exposições permanentes.
Neste momento a nova paixão de Luci Bento, que faz furor na
televisão e imprensa, de tal modo que os estilistas começam a
procurá-la, é pintar sapatos (todos os motivos decorativos desde
as flores até à bandeira da Suíça), que estão patentes no
Salão Artes e Criações de Genebra.
Uma reportagem efectuada na Suíça, foi difundida pela televisão
portuguesa, o que encheu de orgulho, a família de Luci. Que
exaustivo caminho para chegar até aí !
Maria
Fernanda Pinto
Maio 03
Entrevista
com Daniel Ribeiro
Daniel Ribeiro,
correspondente da RDP-Antena1 e do EXPRESSO, trabalhou na Radio França
Internacional e é, desde há dois anos,
director de informação e programação da Rádio Alfa.
Daniel Ribeiro
aparenta ser um homem discreto. Alguns dizem que "morde pela
calada", que diz o que não pensa para tirar "nabos da
púcara" e assenta a machadada quando menos se espera.
É verdade que alguns dos artigos que este jornalista radicado em
França, publicou no Expresso e certas crónicas que ouvimos na
Antena 1, deixam por vezes pairar o que alguns consideram como
sendo insinuações.
Nós pensamos que o jornalismo é isso mesmo, é deixar dúvidas
para quem as queira esclarecer, relatar factos comprovados com
fontes seguras e deixar a interpretação a quem os ouve ou lê e
que quem de direito, tal como a justiça, faça o seu trabalho.
O problema de muitos jornalistas é confundirem funções.
Daniel Ribeiro criticou bastante a rádio Alfa no início, hoje
dirige essa estação, esperamos pois pelos resultados da prática
para também exercermos o nosso direito à crítica.
António
Cardoso
É um dos
poucos correspondentes para Portugal que fala da comunidade
portuguesa. Por que razão ?
Porque por vezes há assuntos com interesse. Há também
histórias engraçadas na comunidade, sobretudo alguns percursos
de pessoas que me interessam. Quando há por exemplo dados
estatísticos credíveis é necessário analisá-los e
publicá-los.
Como
explica que os outros correspondentes não o façam ?
Cada um faz as suas opções. Há poucos correspondentes
portugueses em França, designadamente das televisões – que
não têm cá ninguém.
Falar pouco
da emigração não corresponde às directivas dos próprios
órgãos de informação ?
Talvez. Portugal tem problemas com a sua emigração, assume
dificilmente ser um pais de emigrantes. Não é por acaso que hoje
os políticos, em Portugal, falam mais num pais de imigrantes...
Nos média para os quais trabalho sempre consegui ter apoio para
publicar as histórias sobre os emigrantes que proponho.
Fizemos uma
pequena experiência em Portugal e perguntamos a 20 pessoas se
sabiam quem era A. Sousa Mendes. Ninguém sabia…
Mas isso não é por falta de informação. Tem-se falado
muito desse grande homem, há filmes, homenagens, livros...
Perguntamos
também aqui a uma dezena de pessoas se sabiam o nome de tal ou
tal ministro… Também não sabiam.
É natural... aliás os ministros também lá estão há pouco
tempo. Eu sigo esta máxima : “os governos passam e os povos
ficam”. Isso é o mais importante.
Em França,
o jornal “A Bola” vendeu mais de cinco mil exemplares quando
do jogo Benfica/Marselha. Os outros só vendem 80 exemplares, em
média...
Comprova que as pessoas estão mais interessadas pelo futebol.
Se calhar o Figo ou o Jardel fazem coisas que dão mais nas vistas
do que os ministros.
Há quanto
tempo está em França e porque saiu de Portugal ?
Há 21 anos e vim por motivos pessoais.
Saiu da RFI
para dirigir uma rádio privada, comunitária. Quais são as
diferenças que notou ?
Foi um risco que assumo. O comendador Armando Lopes
convidou-me para modernizar a rádio. Aceitei porque sempre achei
possível fazer uma boa rádio de raiz portuguesa, mas lusofona,
em Paris.
É um
jornalista confirmado, cobriu várias guerras. O que o levou a
aceitar ir para a Rádio Alfa ?
Pelo que acabo de dizer. Avançando lentamente acredito que se
possa fazer uma grande rádio em Paris.
Fez
críticas no passado à Rádio Alfa.
A rádio parte de uma base comunitária para evoluir...
Para ser
uma radio de civilização ?
Tem de evoluir e prever o futuro. A primeira geração de
emigrantes chegou à idade da reforma e haverá cada vez mais
lusodescendentes. A ideia é manter uma rádio portuguesa com
grande abertura à lusofonia.
Porque
razão a Rádio Latina não se abre à lusofonia ?
Acho que passamos hoje melhor música portuguesa, brasileira
ou africana do que a Rádio Latina. Temos condições para
competir com a Latina se avançarmos cada vez mais para a
lusofonia.
E se as
pessoas criticarem por se falar demasiado dos outros países
lusofonos ?
Portugal nunca se limitou ao rectângulo. Portugal só é
importante porque tem um passado de abertura e porque está na
origem desse grande espaço cultural que é a lusofonia. Os
portugueses são abertos e a Rádio Alfa morreria se continuasse
ligada apenas à primeira geração de portugueses.
Que
liberdade tem com Armando Lopes, presidente da rádio Alfa ?
A liberdade de falar com ele livremente. Em todos os média o
director discute com os administradores as questões de fundo
ligadas neste caso à rádio.
Não há
boicote da parte do sector comercial ?
Não há boicotes na rádio. Há discussões.
Como se
pode conservar ouvintes da primeira geração mais ligados ao
folclore e ao fado e alargar
às novas gerações ?
Tem de se fazer programas para todos e há programas para
todos !
Há pouco
tempo uma fadista, Cristina Branco, ficou espantada e desagradada
por ter sido entrevistada pela Rádio Alfa em francês.
Se foi, porque não recusou e não falou em português ?
Aparentemente
as pessoas da entrevista só falavam em francês.
Respondo-lhe de uma forma mais larga. Eu defendo que devemos
introduzir cada vez mais programas bilingues e acho que há
pessoas, designadamente como essa fadista, que não devem ser
divulgadas só para os portugueses. Penso que a Rádio tem de
encontrar um equilíbrio, defendendo a língua, sempre, mas
divulgando a cultura também em programas bilingues para alargar o
auditório.
Mas a
cultura é a língua portuguesa ?
Uma coisa é a cultura, outra é a língua. Uma pessoa pode
ser culta, conhecer a cultura portuguesa a fundo e nem sequer
saber falar português !
O que é
para si o Conselho das Comunidades ?
Acho que tem funcionado mal. De quem é a culpa não sei –
os conselheiros acusam os governos.
A RTPi
pouco fala do CCP, a secretaria de estado vai nomear conselhos
consultivos nos consulados...
Percebo pouco dessas coisas. O que sei é que a Rádio Alfa
fala muito desses assuntos. Não compreendo muito bem qual é a
ideia do governo. O que sei é que a comunidade necessita de
órgão com força que os represente bem.
Há um
conselheiro nomeado para a RTPi mas nunca foi ouvido.
Acho mal. Se o nomearam e não o ouvem há um problema.
O que pensa
dos resultados para o CCP ?
Contava com uma fraca participação, mas ficou ainda mais
abaixo das minhas expectativas.
Pouca gente
vota também para a Presidência da República, para as
legislativas...
O que caracterizou a emigração foram projectos individuais
para sair da miséria. Penso que a tradição de votar não é
forte nos portugueses e que também talvez o movimento associativo
não se tenha adaptado às novas realidades ligadas à evolução
da emigração portuguesa em França.
Penso que muitos dos lusodescendentes e outros vão passar a votar
mais em França.
Qual a sua
opinião sobre a mesa redonda recentemente organizada no consulado
sobre a comunicação social em França ?
O que é preciso agora é ver o que vai acontecer. Se não
acontecer nada, não serviu para nada.
Notou que
na mesa não havia nem jornalistas nem empresários da
comunicação social ?
Notei e penso que a composição da mesa foi infeliz porque
dava um estatuto de menoridade aos profissionais do sector que
trabalham em França.
Porque há
tão poucos jornais na comunidade em França ?
As pessoas foram perdendo o hábito de leitura, que aliás a
primeira geração já não tinha em Portugal...
É, por
isso, inevitável manter um jornal ou uma revista ?
Mesmo em Portugal é difícil. Acho que aqui os jornais se
deveriam virar mais para as novas gerações e também para o
bilinguismo, bem como avançarem para a profissionalização, tal
como as rádios.
Sobre a
informação em Portugal o estilo é mais americano, de
informação espectáculo. Aqui em França é diferente. O que
pensa disso ?
Há
exageros em Portugal com noticiários televisivos de duas horas,
etc... Mas penso que por exemplo sobre a guerra no Iraque a TV
portuguesa cobriu melhor do que a francesa.
Maio 03
Entrevista
com o Secretário de Estado
das Comunidades Portuguesas
Exmo Senhor
Secretário de Estado, constata-se pelos números divulgados que as eleições para o
Conselho das Comunidades Portuguesas foram mais uma vez um
fracasso em termos de participação dos eleitores.
Muitos dos nossos compatriotas não compreendem que no mês que
antecedeu este acto eleitoral, a Comissão Nacional para as
Eleições tenha feito campanha na RTP I para o recenseamento e
tenha “esquecido” o CCP. É obvio que isso não explica tudo,
pois todos os órgãos de comunicação social independentes, das
comunidades, deram largo destaque a estas eleições.
Também não lhe vamos pedir para comentar as razões desta falta
de interesse dos emigrantes pelas estruturas que os poderiam
eventualmente representar, porque cada um deles tem a sua própria
resposta e a sua justificação.
Solicitamos em contrapartida que V. Exa tenha a amabilidade de
responder ao seguinte :
Os
ex-militares que lutam pela obtenção de direitos iguais aos dos
residentes em Portugal elegeram quatro conselheiros sobre quinze
em França. Deseja comentar ?
É um movimento cívico com expressão das comunidades.
Confesso que estava à espera que elegessem mais, mas não é por
isso que deixo de considerar a enorme importância nacional.
Cumpre aliás que se diga que não é um movimento exclusivamente
restrito e limitado a França, tendo cada vez maior expressão em
muitos outros países.
Que
benefício poderão retirar os portugueses que residem no
estrangeiro em participarem nos actos eleitorais de Portugal ?
Essa é uma questão básica de civismo. Para os portugueses
no estrangeiro poderem fazer sentir a sua força e a sua voz é
fundamental que participem cívica e politicamente na vida dos
países onde se encontram e na do seu país Natal. Como bem se
disse nos últimos tempos, em democracia, quem não vota conta
cada vez menos e ao não contar vê os seus direitos não
realizados completamente por falta de atenção de quem governa.
Quais são
os principais inconvenientes da falta de participação ?
A não participação conduz ao esquecimento por parte de quem
tem poder decisório. É fundamental que as pessoas contribuam com
a sua opinião para as grandes decisões colectivas e a verdade é
que se todos entendermos que os portugueses que estão no
estrangeiro devem fazer parte desse grande colectivo que é
Portugal, então eles devem ser os primeiros a participar o mais
activamente possível na vida pública portuguesa. Para que haja
mais e melhores políticas dirigidas à diáspora é essencial
acentuar decisivamente o número dos que votam.
O fecho de
vários consulados (quatro em França) foi anunciado, sem que os
utentes interessados tivessem conhecimento de possíveis
alternativas. É erro de comunicação, uma estratégia política
ou simplesmente cortes orçamentais e, é preciso escolher.
Está em causa uma reestruturação da rede consular. Não é
fechar consulados, bem pelo contrário é melhorar as condições
dos serviços prestados aos utentes na generalidade dos postos.
Esta reestruturação tem como grandes medidas já anunciadas o
início da emissão on-line dos Bilhetes de Identidade, o
desenvolvimento do programa de gestão consular a nível
informático e uma racionalização da rede consular. O Conselho
de Ministros já aprovou o decreto-lei que visa permitir a
criação dos centros emissores dos BI nos consulados, situação
em que curiosamente ninguém fala, sendo esta a maior reforma que
alguma vez se fez neste domínio, porém é evidente que uma rede
consular que não é mexida há décadas possui evidentes
desajustamentos relativamente à realidade concreta das diversas
comunidades. Não faz assim sentido manter consulados de carreira
em locais onde quase já não há comunidade, enquanto se deixam
outras com dezenas ou centenas de milhar de pessoas completamente
a descoberto. Por isso vamos abrir novas estruturas consulares em
muitos locais onde são, absolutamente, indispensáveis e fechar
outras em sítios, em localidades onde o trabalho consular se
encontra reduzido a níveis insignificantes. Tem sido muito bem
divulgado, pelo menos para quem quer ouvir que estamos a trabalhar
ponderadamente em situações locais que evitem uma excessiva
penalização para as pequenas comunidades atingidas pelos
encerramentos. Este é um processo moroso e delicado e está ainda
bem longe de estar concluído. Por isso espero que as pessoas
tenham paciência e que os mais responsáveis acalmem a sua sede
de protagonismo.
Como se
pode explicar o facto que se mantenham três consulados na região
de Paris, num raio de 40 km enquanto se obrigam outros portugueses
a deslocações de centenas de km para chegarem a um consulado ?
Essa é uma matéria difícil que mereceu enorme ponderação.
Inicialmente chegámos a pensar em encerrar esses consulados.
Porém, várias personalidades locais com quem falámos, com
destaque para o deputado Carlos Gonçalves, deram-nos os
argumentos que nos convenceram a não o fazer. Os hábitos das
comunidades aqui localizadas ainda não estão adequados a uma
mudança radical na área da grande Paris. Por isso vamos manter a
actual situação.
Alguns dos
Conselheiros recém eleitos já dizem que a sua ideia de criar
Conselhos Consultivos das Áreas consulares, tem como objectivo
diminuir o papel do CCP !...
Estou farto de ouvir asneiras sobre essa matéria. Há pessoas
que têm deturpado ostensivamente as nossas intenções com a
criação dos Conselhos Consultivos das Áreas Consulares. O que
nós queremos é ocupar um espaço perfeitamente vazio na
relação entre o consulado e a comunidade da respectiva área.
Trata-se de encontrar um conjunto de personalidades a nomear pelo
Ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas
na sequência de convite pessoal que traduzam um retrato real de
cada comunidade e que periodicamente se sentam com o respectivo
Cônsul para tratar apenas e tão só os problemas específicos
daquela área consular. Pelo contrário, os Srs. Conselheiros das
Comunidades - se o entenderem também poderão ter acento neste
órgãos -, têm uma função muito mais global no aconselhamento
directo do Governo relativamente às políticas a dirigir à
totalidade das comunidades portuguesas no mundo. Há diferenças e
objectivos perfeitamente evidentes entre os dois órgãos e só
não os vê quem manifestamente não quer.
Entrevista
conduzida por António Cardoso
Março 03
Cristina
Branco, uma outra ideia do fado
Cristina Branco
nasceu em Almeirim. Estudante em psicologia e destinada a uma
carreira de jornalista, nada previa que esta jovem ribatejana se
apaixonasse pelo fado. O fado, de uma maneira diferente, mesmo se
o " déclic " terá sido um disco de Amália oferecido
como prenda de aniversário dos 18 anos pelo seu avô.
Cristina é agora "produto" da multinacional
"Universal", tal como Dulce Pontes. Estas editoras não
brincam em serviço, tem de haver qualidade, voz, graça,
sensualidade, espontaneidade, presença e força de vontade para
que se aposte e se invista num mercado mundial.
Depois de termos ouvido o seu último álbum, “Corpo iluminado”,
ficámos convencidos que Cristina Branco reunia isto tudo e ainda
muito mais. Ficámos logo atentos, à espera de oportunidade para
falar com ela, saber o que se escondia por detrás de tão
melodiosa e sensual voz. “Sensus” é o seu novo disco, ainda
mais sensual tal como o nome indica, provocante, quase erótico.
A escolha dos textos revela outra coisa, certamente a vontade de
propagar uma das mais bonitas e ricas línguas do mundo, de a
colocar em valor e lhe devolver a dimensão de outrora.
Cristina Branco já deu a volta ao mundo e segundo a responsável
da “Universal”, os seus espectáculos são garantia de “casa
cheia”. Estará em França em Maio, vai cantar em Bordéus, na
sala Fémina, no dia 24 e em Paris, no Olympia, no dia 26.
Aproveitámos a sua passagem por Paris em Fevereiro para a
entrevistar. Afinal foi uma conversa sem rodeios onde a artista
nos revelou a sua paixão pelo fado e pela língua portuguesa.
A escolha
dos seus textos, de grandes autores, tais como Fernando Pessoa,
David Mourão-Ferreira, Vasco de Graça Moura, não será
demasiado elitista ?
Não, eu sou uma ávida leitora, não tem nada a ver com o que
canto, mas é obvio que as minhas leituras tiveram que influenciar
a minha carreira. Não consigo conceber um disco sem literatura.
Há no entanto nomes como os de David Mourão-Ferreira, Pedro
Homem de Mello que estão ligados ao fado, que foram descobertos
pela grande maioria do povo através da voz de Amália, portanto
através do fado. Não é nada elitista, pelo contrario, tenho a
impressão que ao passar uma poema que eu gosto para um disco que
onde é traduzido pelo menos em três línguas diferentes, já lhe
dá uma universalidade complemente nova. Aquele poema deixou de
pertencer a um simples livro com uma edição de três ou quatro
mil exemplares para pertencer ao mundo inteiro e aos portugueses
todos, claro.
Como e qual
é o seu critério de escolha dos textos e quem os escolhe?
São sempre os textos que eu gosto, a procura é sempre minha,
exceptuando o poema do Vasco de Graça Moura. Foi ele que mo deu
porque sabia que eu estava a trabalhar em poesia erótica.
Curiosamente é o último soneto editado em português no século
XX. Esse foi-me oferecido, o resto é tudo escolha minha. Eu gosto
que todos os meus discos tenham uma temática, este é um dos que
tem uma temática mais vincada que é a sexualidade ou a
sensualidade para não sermos tão óbvios, isso é também uma
coisa que fere muito os portugueses. (risos)
Não concebo a ideia de cantar uma música sem que o poema me diga
tudo.
Que leva
uma estudante em psicologia e comunicação social a enveredar por
uma carreira artística e particularmente no fado ?
É comunicar, é a forma mais óbvia, muito mais do que
escrever ou fotografar, mais de que ouvir falar alguém, é ser eu
a falar.
Não é
demasiado simples ?
O canto surge por urgência, houve uma grande necessidade
interior de rir e de chorar as minhas emoções e que não me
importo de todo de partilhar com o público, que afinal de contas
é anónimo.
Não se
importa ou é um desejo de partilhar ?
Não me importo, não é o que quero. Tenho alguma dificuldade
mesmo se agora já não é tanto, tive grandes dificuldades a
encarar o público. No entanto, a vontade e urgência, como disse,
em fazer aquilo que se ama é tão forte, tão premente que tem
que se ser mais que outra coisa qualquer, independentemente do que
está à nossa frente.
Acha que a
música que interpreta é fado ?
Para mim é, acho que quando o fado chega, não há como
deixá-lo sair. O exemplo que eu dou é o do “Avec le temps”
de Léo Férré, que gravei há pouco tempo. É fado é a nossa
música, está lá Portugal inteiro, independentemente de ser de
um anarquista francês.
O que é o
fado para si ?
É a vida, não destino, não acredito nada disso. O fado
é... as emoções que passam e que podem passar na música, que
é o veículo mais extraordinário para exteriorizar o que está
cá dentro.
Não acha
que há uma predominância de tristeza no fado ?
No fado de hoje, penso que não, foi de facto para uma
geração que viveu essa tristeza por dentro e por fora, que
infelizmente viveu quase sessenta anos enclausurada nessa tristeza
e nessa deprimência da anti-liberdade. Mas não o é para a minha
geração porque apesar de sermos o último país da Europa,
estamos integrados nela, não estou a falar em termos políticos
mas exclusivamente em termos sociais. Temos internet, temos
milhares de coisas que nos aproximam do mundo inteiro e, é disso
que nós temos de falar.
Presumimos
que os seus amigos de Almeirim não viam com os bons olhos a sua
ambição artística,
como começou ?
Achavam que era uma estupidez. Comecei por cantar um pedacinho
de uma música e aquilo devia fica por ali, isto em 1996. Em 1997,
conheci o Custódio (Castelo), e as coisa ganharam outra
dimensão. Nessa altura, quando me ouviam cantar fado, achavam
estranhíssimo, cantava naquelas festas de amigos, aparecia uma
viola e éramos quinze a cantar. Cantar fado era uma coisa
inconcebível para uma miúda que tinha vinte e poucos anos : que
horror, que coisa tão caduca ! E era, eu também considerava,
até o meu avô me ter oferecido o tal disco da Amália que fez
todo o sentido para mim.
Regressando
aos textos do álbum “Sensus”, tem alguma vontade de provocar
ou é marketing ?
Também...(risos) é óbvio que é intencional, a primeira
ideia não é intencional mas a reacção do público em relação
ao “Corpo iluminado” de David Mourão-Ferreira - o álbum
acabou por ter o mesmo título - despertou-me essa imagem: porque
não, ousar? Não é marketing, é de facto uma ousadia e eu
assumo cem por cento, foi também a vontade de mostrar uma parte
do fado que não existe, ou que não existia até aqui. Porque
não cantar o corpo? Porque
é que só tem que se cantar a família, a casinha branquinha com
a toalhinha aos quadradinhos e o caldinho verde ?
Tenho a certeza que o público mais jovem está muito mais
desperto para este tipo de poesia e de sonoridade. Não é mostrar
vulgaridade de um texto que fala do corpo ou da sensualidade. Há
textos de Camões, de Shakespeare, autores do século XII, do
século XXIII e trata-se de mostrar como é que a sexualidade e a
sensualidade se viveu e se vive hoje.
António
Cardoso
Janeiro 03
Tânia Lobo, o
rosto do programa "Comunidades" na RTPi
Podemos
comprovar através de uma rápida sondagem que todos elogiam a
apresentadora. Qual é o seu segredo ?
Agradeço
muito esses elogios. É um prazer saber que as pessoas gostam do
que faço e que quem lhes entra em casa todas as semanas é alguém
que recebem com carinho. Para se ser pivot
o essencial é saber comunicar com pessoas, e não ver a câmara
como uma máquina que está ali a filmar, mas sim alguém com quem
falamo
Tento ser simpática e ao mesmo tempo delicada e pouco agressiva
nas entrevistas e na forma como apresento certos assuntos, se bem
que às vezes é difícil dar notícias com “boa cara”, como
por exemplo quando os portugueses estão a passar por situações
complicadas, mas não podemos ser parciais
Nota-se
que domina os assuntos que aborda. Num programa recente, a Dra.
Maria José Stock, presidente do Instituto Camões
pareceu-nos perturbada com as suas questões, em nossa opinião
pertinentes. Não submete as questões aos convidados antes do
programa
Nunca faço
isso. Aliás é uma regra jornalística, nunca mostrar as
perguntas aos entrevistados. Claro que as pessoas sabem o assunto
sobre o qual vêm falar ao programa, mas é impossível e pouco ético
dizer-lhes o que lhes vamos perguntar. Não sei se a Dra. Maria
José Stock ficou perturbada, mas o essencial quando se está
sentada na cadeira a apresentar um programa é ter perguntas
preparadas e claro, conforme as respostas dadas, conseguir
direccionar a entrevista para onde ela tiver de ir. Dando uma
imagem, uma entrevista é como um rio, tem que se adaptar ao
percurso que toma, sem claro, esquecer o objectivo principal que
é passar pelos sítios certos, por vezes incómodos, mas que são
necessários por serem actuais e informativos
Já
algum convidado exigiu obter as questões ?
Já me aconteceu
perguntarem se podiam ter as perguntas, e aí dou uma ideia do
assunto, não as perguntas em si. Quando me “exigem” saber as
perguntas tenho uma reunião com a coordenadora do programa, a
Marta Jorge e decidimos juntas se fazemos isso ou não. Pode haver
casos em que sim, mas depende da importância do assunto. Por
exemplo, temos que entrevistar o Jacques Chirac e o gabinete de
imprensa pede-nos as perguntas. Vamos pensar, é uma questão a
considerar se for um assunto de muita importância para a
comunidade portuguesa
Quais
são os critérios de selecção das notícias e reportagens do "Comunidades"
?
Actualidade, assuntos que sejam próximos à comunidade portuguesa em
Portugal e no estrangeiro. Histórias de vida de pessoas que
actualmente residem fora do país ou que já regressaram
Gostaríamos
de ter imagens de mais países, mas a rede de correspondentes é
limitada e como é impossível estar em todos os sítios do mundo,
muitas vezes recorremos a telefonemas
Quais
são as principais fontes
A nossa rede
de correspondentes, os jornais feitos nas comunidades, portais com
notícias sobre os portugueses no estrangeiro, assuntos ligados à secretaria de estado das comunidades. Contactos com associações,
clubes e instituições nas comunidades portuguesas no mundo
No dia em que estavam em Portugal 21 órgãos de Comunicação Social das
Comunidades, foi convidado ao seu programa o administrador de uma
publicação para os emigrantes, que reside em Lisboa. Podemos
apurar que o convite para o programa foi feito no próprio dia de
emissão. (28 de Novembro
Porque não ter aproveitado a presença
destes medias das comunidades e convidar ao seu programa um
director de um jornal, por exemplo o da Austrália, que teve 52
horas de voo para participar nos "Encontros para a Participação",
organizados pela secretaria de Estado das Comunidades ?
Todos os convidados seriam bons convidados.
Decidimos escolher a pessoa em Lisboa porque era a mais facilmente
disponível
Os
correspondentes da RTP que se ocupam de França, estão baseados
em Bruxelas. Não
pensa que esse facto prejudica a informação deste país para
Portugal
Concentrar
os correspondentes em Bruxelas foi uma decisão da RTP. Os
correspondentes viajam cada vez que a notícia assim o exija.
Segundo
afirmou Nuno Santos, director adjunto da RTP, vai haver uma nova
grelha de programação na RTP Internacional a partir de
Fevereiro. Vamos continuar a ver o seu bonito rosto ?
Estou como
estagiária profissional até dia 4 de Janeiro de 2003 por isso não
sei se vou continuar a apresentar o “Comunidades”. Será uma
decisão da administração. Eu adorava.
Foi quase um ano de experiência e contacto com uma realidade que
eu não conhecia assim tão bem e é fantástico e muito
enriquecedor o contacto com os portugueses que vivem no
estrangeiro.
Novembro 02
Entrevista Dan
Inger
Dan a questão das pessoas é sempre a
mesma, como pronunciar Inguer, ou Inger, qual a origem deste nome
?
A resposta é simples, em português é mais fácil ler-se da
maneira como está escrito, principalmente quando se tem dúvidas
da origem da palavra.
Quanto à origem de Dan Inger, foi quando saí da tropa, fiz uma
actuação num restaurante cujo proprietário era um português, e
Daniel, não correspondia àquilo que eu cantava (Elvis, Johnny
Halliday, Eddy Michel e outros), sempre relacionado com o
“Blues”. Daí surgiu a ideia de abreviar Daniel em Dan e Inger
do inglês “cantor”.
Após alguns anos de galera, parece que
conseguiste finalmente atingir alguns dos teus objectivos,
sobretudo com este último trabalho ?
Penso que, a partir do momento em que comecei a cantar em
português, encontrei uma estrela mais adaptada ao meu percurso,
uma estrela mais gira que entrou no meu coração. Não posso
explicar o que senti, mas uma coisa é certa, houve efectivamente
uma mudança, mas sobretudo uma mudança positiva. Canto em
português mas num outro estilo musical ao qual não estamos
habituados. Reconheço que talvez tenha sido ligeiramente e
involuntariamente influenciado por Rui Veloso, não só a nível
musical, mas também pessoalmente.
Gravaste e produziste um primeiro álbum e
um segundo que foi gravado ao vivo com um produtor, mas os
resultados ficaram aparentemente aquém das expectativas...
O primeiro disco foi muito positivo para a minha carreira, o
segundo teve mais impacto. Nesse segundo álbum está incluída
uma canção do Rui Veloso que interpretei pela primeira vez e em
português, “Morena de Azul”. “Atlântico Blues”, este álbum
que foi agora editado, já era uma ideia antiga.
Ainda não tinha encontrado autores portugueses, como sabes nasci
em França e não me sinto com capacidade de escrever em português.
Quanto à música, não é um problema para mim faço o que gosto,
depois o público é que decide. Já tenho um público francês
que, recebeu muito bem este último trabalho em português, agora
vamos a ver como é que ele vai ser recebido em Portugal.
Os dois primeiros álbuns foram mais
destinados a um público francês, não ?
Não, é verdade que todos os temas estão gravados em francês,
salvo como já disse, um tema do Rui Veloso no segundo álbum. O
resto, para quem me conhece, sabe nos temas que escrevi há sempre
uma alusão a Portugal, às minhas origens e a um certo mal estar
em relação às minhas interrogações pois não sou francês nem
português. Penso que este álbum permitiu-me de me situar um
pouco mais.
O álbum “Atlântico Blues” está a
obter grande sucesso não só na comunidade portuguesa em França,
mas também no meio hispânico e francófono. E em Portugal ?
Vou brevemente para Portugal para efectuar diversos “Show
Case”, mas já estive em Portugal durante o período de férias,
e sinto-me feliz, porque segundo as informações que tenho, o álbum
está a ser bem recebido mesmo se existe aquela imagem negativa do
português do estrangeiro. Felizmente na altura em que estive fui
bem recebido, fui convidado a diversas rádios e actualmente já
estão agendadas várias entrevistas em diversos médias.
Este álbum corresponde ao teu estilo
musical habitual ?
Não, este álbum é para mim uma grande viagem, como fizeram
os nossos antepassados navegadores que levavam para o mundo, mas
também traziam entre outras coisas a Cultura.
Este álbum considero-o igualmente uma viagem e um encontro de
culturas.
Não é por acaso que neste álbum participam diversos convidados
de horizontes diferentes, os quais aproveito para saudar.
Esta entrevista foi concedida algumas horas
antes da passagem de Dan Inger no Club Med World, a convite da
Radio Latina.
Juntamente com Dan Inger, foram
também entrevistados alguns dos convidados que participaram no álbum
Atlântico Blues, tais como Ricardo Vilas, Jorge de Sousa, Manuel
da Fonseca e Patrick Caseiro.
Outros
nomes conhecidos deixaram as suas vozes gravadas neste álbum que
convidamos a descobrir.
Texto e fotos José Lopes
Outubro 02
Air Luxor para
Portugal, em Orly Sud
Desde o dia 10 de Setembro, os voos regulares
da Air Luxor com destino a Paris são servidos pelo Aeroporto de
Orly, terminal Sud.
Entrevistada pela Vida Lusa, Linda do Vale, a jovem directora da
companhia em França, refere que “Orly é o aeroporto com acesso
mais fácil para as comunidades portuguesas que habitam em Paris,
e que se concentram maioritariamente ao sul daquela cidade”.
A Air Luxor, voa regularmente entre Paris e Portugal desde
Dezembro passado, utilizando o terminal 9 do aeroporto Charles de
Gaulle, que segundo Linda do Vale “é geralmente assimilado aos
voos charter”.
Agora, a partir do Aeroporto de Orly, a companhia contará com três
rotações por dia entre Lisboa, Porto e a capital francesa. “Um
destes voos da rota Lisboa-Paris terá ligação directa ao
Funchal (para onde a Air Luxor já voa diariamente desde Abril
2001), sem que os passageiros tenham que sair do avião. É muito
importante para a comunidade madeirense, que dispõe assim duma
ligação diária Funchal-Paris e vice-versa”, referiu a responsável.
A partir de 27 de Outubro haverá igualmente um voo semanal (Sábados)
Faro/Paris/Faro, via Lisboa.
Linda do Vale disse à Vida Lusa que a Air
Luxor, “é uma companhia aérea Portuguesa com 14 anos de experiência
que está a evoluir no transporte aéreo para novas rotas e
destinos. Espera que esta mudança para Orly seja mais um passo na
sua estratégia de expansão, do agrado de Portugueses e Franceses
que habitualmente voam nesta sua linha regular”.
Linda do Vale volta à aviação comercial
Depois da Tap a Linda ocupou funções de
responsabilidade na Air Liberté nomeadamente promovendo a
companhia junto da comunidade portuguesa. Abriu uma agência de
viagens quando saiu e agora volta de novo à aviação comercial,
é um novo desafio ?
Sempre estive na aviação comercial, a agência de viagens
foi um acaso, foi apenas a consequência do despedimento colectivo
da Air Liberté. Serviu-me para conhecer o outro lado da barreira,
no entanto enquanto estive na Air Liberté a agência já existia.
Fui ver mais de perto mas, sempre na expectativa de voltar àquilo
que eu prefiro, a aviação comercial. Surgiu esta oportunidade e,
fizeram-me confiança para este desafio e vou tentar vencê-lo.
Poder-se-á dizer que a experiência
adquirida na venda ao retalho através da agência de viagens foi
frutífera para uma melhor compreensão da problemática deste
sector, por vezes ignorado pelas companhias ?
Sem dúvida, embora tenha de dizer que, quando exerci funções
nas companhias, as agências sempre tiveram o meu apoio e creio
que isso é reconhecido. Tentei sempre transmitir às direcções
gerais das quais dependia os problemas vividos pelas agências,
foram sempre ouvidas e procurei sempre encontrar soluções. É
natural que hoje tenha uma visão e uma sensibilidade mais
adequadas às realidades e possa por isso ser um porta-voz mais
eficiente deste sector.
A Air Luxor é uma Companhia de Aviação
Portuguesa criada em 14 de Dezembro de 1988 pela família Mirpuri.
A família Mirpuri foi uma das primeiras em Portugal a dispor
de uma pequena frota de aviões privados que utilizava nas suas
viagens particulares e de negócios, sobretudo em Portugal e
Espanha.
No final dos anos oitenta, com a liberalização do sector do
transporte aéreo na Europa, decidiu-se a transformar o
departamento de aviação privado da família numa Companhia Aérea,
que servisse também outros clientes. Como o objectivo era prestar
um serviço de transporte aéreo de elevada qualidade e
personalizado, a palavra-chave escolhida foi luxo e assim nasceu a
Air Luxor.
A Companhia cresceu ao longo dos anos, primeiro dentro da área da
aviação executiva, e depois com aviões de grande porte. O
primeiro avião a jacto, um Citation I, chegou à Companhia no início
dos anos 90 e veio substituir os aviões a hélice utilizados até
então. A frota de “Jactos Executivos” foi sendo
progressivamente aumentada e actualizada e hoje a Air Luxor opera
os mais recentes modelos dos maiores construtores mundiais.
A sua frota inclui os aviões Falcon 2000, Falcon 900, Citation
Excel e Citation X, que podem voar não só dentro da Europa como
para qualquer parte do mundo.
Em 1997 a Air Luxor inicia a operação de aviões de grande
porte. Os primeiros modelos voados foram o Lockheed Tristar e o
Boeing 757-200, especialmente vocacionados para voos de longo
curso. Presentemente a Air Luxor opera sobretudo aviões Airbus da
última geração e de tecnologia “fly-by-wire”, o Airbus A320
para o médio curso e o Airbus A330 para o longo curso, este último
com uma capacidade para 355 passageiros e capaz de voar mais de 12
000 km sem abastecer.
A Air Luxor posiciona-se hoje como uma Companhia Aérea de referência
na Europa Comunitária, com bases em Lisboa e Paris, voando para
uma diversidade de destinos de médio e longo curso, tanto em voos
regulares como em voos charter. Os principais mercados são
Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Bélgica, Brasil, Tailândia,
Estados Unidos, Cuba e República Dominicana.
Para além do seu negócio principal, o transporte aéreo de
passageiros e carga, a Air Luxor desenvolveu ao longo da última década
uma série de negócios derivados, como a ambulância aérea, a
carga aérea, consultoria e gestão de jactos executivos, manutenção
de aviões e ainda o desenvolvimento de terminais aeroportuários
privados em vários aeroportos, sobretudo na Ásia, Europa e África,
especializados na assistência a “Jactos Executivos”.
A Air
Luxor é ainda proprietária de um dos principais “Tour
Operators” em Portugal, a Air Luxor Tours, especializado na criação
e venda de pacotes turísticos para os destinos Air Luxor de médio
e longo curso.
Maio 02
Entrevista com Jorge Ruivo
“Portugais et population
d’origine portugaise” Um livro de Jorge Ruivo que
apresenta e analisa a
imigração portuguesa em França desde os anos 60 até hoje, com
base nos recenseamentos
e estudos estatísticos.
Biografia: Né le 21 mars 1967 à Cartaria - au Portugal -
il est arrivé en France très jeune (à l’âge de deux ans), et
y a fait toute sa scolarité. A l’issu de son parcours
universitaire il obtient un diplôme de Maîtrise d’économie
internationale à l’Université Panthéon-Sorbonne à Paris et
un diplôme de troisième cycle d’économie européenne à
l’Université Paris-Nord. Préoccupé par l’image du Portugal
et des portugais en France, il s’implique dans un projet
associatif qui lui permet d’agir afin d’essayer de commencer
à faire évoluer les clichés. Parallèlement à son activité
professionnelle il reste toujours attentif aux activités et à
l’évolution de la communauté portugaise de France.
Qual é o público-alvo do seu livro ?
Apesar do livro ter um grande número de dados estatísticos,
este não é um livro científico. O livro pretende fazer um
apanhado da evolução da emigração portuguesa durante os últimos
quarenta anos isto sob o aspecto estatístico (censos, localização,
origens, vida social e profissional,...) analisando os dados sobre
um outro ponto de vista salientando algumas particularidades próprias
à comunidade portuguesa de França. Sendo assim, os primeiros
interessados pelo livro são, sem dúvidas, os portugueses e
descendentes de Portugueses em França. Os emigrantes portugueses,
em geral, não tem forçosamente uma visão global da situação
da comunidade neste país. O livro permite saber que em geral o
emigrante português é cada vez mais proprietário da sua habitação,
que as segundas gerações fizeram poucos estudos mas que
conseguiram subir um pouco na escala social, que apesar de existir
ainda fortes ligações com Portugal os jovens casam cada vez mais
com franceses(as), que os emigrantes de França continuam a ser a
comunidade que mais transfere dinheiro para Portugal,... O livro,
segundo algumas informações, também interessa franceses que tem
um bom relacionamento com os portugueses de França e que desejam
obter uma importação mais genérica.
Qual é o objectivo do autor ?
Não foi apenas um. Foram vários. Um deles foi de realizar um
documento que nunca tinha sido feito sob esta forma. Também foi
para escrever sobre a comunidade portuguesa de França sob ponto
de vista digamos mais “positivo” do que o que tinha sido feito
até hoje. A imagem que tem, ainda hoje, a primeira geração
presente em França continua de ser a do marido que trabalha na
construção civil e a esposa na limpeza de casa. Mas ninguém
fala do que esse casal conseguiu construir em França à força de
muito trabalho e de uma coragem fora do comum (salários, casa em
França, casa em Portugal...). Será que os franceses conhecem
esta realidade ? Se a conhecessem as coisas provavelmente mudariam
“um pouco”. Fazer evoluir as mentalidades é um trabalho de
fundo de necessita muito tempo, muito trabalho e a boa vontade ...
de todos nós !
Como e quem financiou a edição ?
A edição não teve nenhum financiamento. Foi apenas um
contrato assinado com a editora que, após ter lido o trabalho,
aceitou de publicar o livro tomando a seu cargo o risco
financeiro.
Quais foram as principais fontes de referência
?
As fontes principais francesas de estatística foram os censos
do INSEE (Instituto Nacional de Estatística Francês) e o INED
(Instituto Nacional de Demografia Francês) em particular o estudo
MGIS (Mobilité Géographique et Insertion Sociale) publicado em
1995 que foi um estudo que incluía muitos pormenores sobre as
comunidades estrangeiras radicadas em França. A fonte estatística
portuguesa foi o INE - Instituto Nacional de Estatística. Foram,
naturalmente, utilizados uma série de documentos e livros tanto
de autores franceses como portugueses.
Principais dificuldades para obter informação
?
Não tive dificuldades particulares em obter essas informações
devido, principalmente, a um bom contacto no INSEE.
Pensa que as mesmas conclusões se podem
aplicar a outras comunidades portuguesas residentes noutros países
(diferenças Europa/América do Norte e Sul/África) ?
Não. Se bem que a diminuição do número de casos de emigração
é uma realidade para todos os países que acolhem os emigrantes
portugueses, a emigração portuguesa parece ter características
bastante diferentes consoante os país de destino. É me difícil
falar de comparar com outros países visto que não foi um tema
desenvolvido no livro. No entanto, penso que se observamos a
emigração norte-americana e a europeia, podemos distinguir
alguns pontos de divergência entre outros a concentração (mais
concentrados na América mais dispersos na Europa) ou a ligação
a Portugal (Viagens a Portugal mais frequentes para os emigrantes
portugueses da Europa muito menos para os da América).
Que se pode fazer - além do seu livro -
para alterarem os “clichés” ?
Como disse, é um trabalho de fundo de demora muito tempo mas
mais que tudo necessita do apoio de todos. Como todos sabem a
criticar por criticar é fácil e sem inte-resse. Seria, sem dúvida,
muito mais construtivo criticar para melhorar. Mas o melhor seria
de apoiar para melhorar. Apoiar as iniciativas que dão voz à
nossa comunidade. Aquelas que contribuem corrigir esses “clichés”
como : Divulgar os casos de sucesso na comunidade quer em termos
pessoais, profissionais, sociais ou culturais. Naturalmente isto
é, por parte, da responsabilidade da imprensa e dos diversos
meios de comunicação (rádio, Internet,..) mas também de
algumas personalidades públicas que tem impacto junto da
comunidade francesa civil ou política. É necessário alguma
solidariedade entre todos aqueles que tem capacidade de comunicação
par que todos nós possamos usufruir duma melhor imagem.
A.C.
Março 02
Entrevista com
Mariana Otero
A primeira vez que li o nome de Mariana Otero
foi através de um artigo num jornal francês que destacava o belíssimo
trabalho de realização dum filme documentário sobre a televisão
comercial e neste caso a SIC do ex. Primeiro-ministro, Pinto
Balsemão.O filme passava no canal ARTE. Gravei e, ainda há pouco
tempo, para convencer um conterrâneo reticente da pobreza da
televisão portuguesa lhe fiz descobrir este filme que tornou
Mariana Otero famosa e reconhecida como realizadora de talento.
Mariana Otero é de origem espanhola, fala português porque viveu
cinco anos em Portugal e não esconde que tem grande carinho pelo
nosso país e pelos portugueses.Soubemos que estava a preparar um
filme sobre um casamento luso-francês. Quisemos saber mais e marcámos
entrevista num café em Paris.
Un nouveau projet avec le Portugal, de
quoi s’agit-il et qui le finance ?
En effet, c’est un filme de 52 minutes pour la télévision,
il y a déjà un financement portugais et, en ce qui concerne la télévision
française, ce sera une télévision câblée. Plus tard, on
pourra peut-être passer à une télévision nationale. En ce qui
concerne le Portugal c’est la télévision publique et l’Etat
qui subventionnent le filme.
Donc 50/50 entre le Portugal et la France
?
Oui, c’est l’idée, ce n’est pas fini en ce qui concerne
la production, mais en gros on prévoit que cela fera du 50/50. On
peut démarrer, il n’y a pas de problème avec le financement
portugais. L’idée est de raconter des noces entre un français
e une lusodescendante portugaise ou réciproquement, dont le
mariage se ferait au Portugal. Ce qui nous intéresse ce sont des
français qui descendent au Portugal à l’occasion du mariage,
qui rencontrent et découvrent le pays à travers la famille
portugaise, les préparatifs des noces… On voudrait tout suivre,
les préparatifs, avec tout ce que cela comporte : le choix et la
nationalité des chanteurs, le rite à l’église qui n’est pas
forcement le même ici et la bas, comment ils vont organiser tout
ça, etc.Nous voudrions les suivre depuis le départ de la famille
française et de la famille portugaise au Portugal, et les suivre
la bas, suivre la rencontre des deux familles.
Vous cherchez la confrontation des
coutumes ?
Confrontation, non pas forcement de la confrontation, je ne
pense pas qu’il y a beaucoup de différences entre les Portugais
et les Français. Il y des choses similaires, enfin, les Français
ont quand-même des tas de clichés sur le Portugal donc, c’est
intéressant de voir comment ils réagissent. L’image du
Portugal a énormément changé en quinze ans, il y a des choses
qu’on n’a même pas ici, je prends un exemple :
l’autoroute, t’as ta carte c’est très rapide, en
France tu t’arrêtes pour prendre le ticket, puis tu t’arrêtes
je ne sais pas combien de fois pour payer.
Vous partez déjà avec une idée toute
faite !…
Non, c’est simplement une image qu’on a mais il y a des
contrastes très
forts au Portugal. Parfois on voit des paysans qui travaillent
encore avec des ânes etc., et simultanément on voit des trucs
hyper modernes, j’ai parlé de l’autoroute, mais il y a
d’autres choses qui ont énormément changé. Cette image, les
Français ne peuvent pas l’avoir d’ici et un mariage c’est
une occasion de voir deux univers qui se rencontrent.
Comment comptez-vous faire ?
On commencera avec le mariage civil, qui en général se fait
quelques mois avant, puis on suivra toute la préparation.
Souvent, les familles font cela ensemble. On ira jusqu’aux noces
où la, il y aura vraiment la rencontre des deux familles et des
deux cultures.
En fait, votre idée c’est de montrer
l’erreur des clichés à travers ce filme…
Oui, c’est cela, voir un peu où en est l’intégration. La
communauté portugaise est quand même très bien intégré, les
gens ont évolué. C’est intéressant de voir leur trajet, de
les retrouver au Portugal dans leur village où les parents ou les
grands-parents sont restés. Voir l’histoire de la famille
portugaise à travers le mariage puisque tout le monde se
retrouve, toutes les générations à la fois, c’est une
dimension un peu historique.
Ce sera un peu romancé ou plutôt
documentaire ?
Ce sera un documentaire, ce qu’on appelle le cinéma direct,
c’est-à-dire vraiment l’idée de filmer la vie comme elle
est. Il n’y a pas d’interviews, on filme plutôt le gens qui
se réunissent pour discuter du mariage et de la préparation.
Nous filmerons la fête, les gens qui parlent, les gens qui vivent
leur vie. Nous sommes une toute petite équipe, il y aura juste
quelqu’un à l’image, la réalisatrice (moi), deux pour le
son, une petite caméra, une perche, vraiment un tournage simple,
glamour. Il n’y aura pas d’éclairage, enfin, vraiment comme
si on tournait un filme de famille, sauf que ce ne sera évidemment
pas le cas, on va construire.
Est-ce que vous allez évoquer aussi la
difficulté de la réintégration des portugais au Portugal ?
Cela peut venir au cours des différents événements. Par
exemple, la façon dont la famille est accueillie dans le village,
dans les relations avec les autres, cela peut venir à
l’occasion du filme mais on ne va pas le provoquer. Si on voit
effectivement que la famille est mise un peu de côté, s’il y a
des réactions particulières au village, on peut filmer
effectivement.
Connaissez-vous des exemples de couples
mixtes ?
Moi-même, je vis en couple avec un portugais, je suis française
d’origine espagnole, j’ai toujours vécu en France, je vis
avec un portugais, on n’est pas marié mais c’est pareil. Je
suis parti cinq ans pour vivre avec lui au Portugal, maintenant
c’est lui qui est parti pour venir vivre ici.
On vous a découverte il y a quelques années
au cours d’une émission diffusée sur la chaîne “ARTE”, un
documentaire que vous avez réalisé sur la télévision
portugaise “SIC”, on peut en parler ?
Oui, oui bien-sûr.
Cela n’a pas été organisé de manière
à provoquer des réactions polémiques ?
C’est vrai que cela a été un peu mouvementé après filme,
mais organisé comment cela, les scènes que j’ai filmée ?
Ce sont des questions que peuvent se poser
ceux qui connaissant Emídio Rangel, le directeur de SIC de l’époque.
C’est une personne très compétente dans sa profession, qui a
un sens du marketing très développé et certains prétendent
qu’il voulait provoquer des réactions violentes pour faire
parler de “sa chaîne”.
C’est possible, en tout cas, à moi il ne m’a rien dit.
Quand je suis allée le voir pour lui présenter le projet en
disant que je voulais faire un filme sur une télévision
commerciale, et montrer comment cela fonctionnait, les rapports
entre les gens, les programmes etc., il m’a dit, “pas de problème,
je suis tout à fait d’accord, allez’ y”. Après j’ai eu
le temps, j’ai pu repérer le temps que je voulait, il y a eu le
tournage pendant deux ou trois mois et je n’ai eu aucun problème.
Tout à fait libre ?
Tout à fait libre, comme je voulais sauf une fois, une scène
m’a été interdite car ils discutaient d’un nouveau programme
et ils ne voulaient pas que la concurrence soit informée. C’est
la seule contrainte à part évidemment les réunions de Conseil
d’Administration.
Quand Emídio Rangel dit qu’il achète
des programmes pour insérer dans la publicité, vous n’avez pas
l’impression qu’il cherche à faire de l’effet, avec ce
genre de provocation ?
Il ne le dit pas ainsi…
Oui, peut-être d’une autre manière
mais c’est ainsi que les gens dont moi-même l’ont interprété.
Vous n’avez jamais eu l’impression d’avoir été manipulé ?
(Rires) Quand il a vu le film, il n’était pas mécontent,
toutefois après les réactions que cela a provoqué il ne
semblait pas ravi. Il a précisé qu’il n’était pas
d’accord avec le film.
Il ne pouvait avoir de l’impact que
s’il manifestait son profond désaccord…
Je ne pense pas avoir été victime de manipulations de la
part de qui que ce soit. La télévision commerciale est tellement
dans son univers qu’il ne s’est peut-être pas rendu compte de
l’impact que cela pourrait avoir de montrer cette réalité.
Ce nouveau projet c’est pour le mois
d’août ?
Oui, on cherche un couple mixte qui se marie au mois d’août
au Portugal. On voudrait les suivre, avec une caméra. On s’intègre
dans le décor, sachant qu’on est souvent la, au moment de la préparation,
on est vraiment souvent avec eux ce qui facilite les contacts. Les
gens s’habituent peu à peu à la caméra, se décontractent
davantage, sont plus à l’aise et ils sont mieux à l’image.
Si on vient que de temps en temps, les gens restent un peu coincés.
Est-ce qu’il y aura un casting ?
En principe non, on prend l’histoire telle-quelle, sauf si
vraiment on trouve plusieurs candidats, dans ce cas on sera obligé
effectivement de faire une sélection, mais nous n’avons aucun
critère concernant les candidats.
António
Cardoso
Dezembro
01
"Lua
Vistà", novo nome para uma discoteca antiga
Marcámos
entrevista com o Senhor Antunes, proprietário de uma célebre discoteca
de la Queue-en-Brie, Val de Marne, região de Paris.
A
discoteca “Cohyba”, era bem conhecida dos nossos compatriotas, agora
tem um novo nome, “Lua Vistà”. Não é um pouco confuso para a
clientela ?
Efectivamente
pode parecer confuso mas não houve mudança de proprietários.
Fizemos
simplesmente trabalhos de restauro na segunda sala, renovámo-la
completamente.
Tive
a ideia de criar um céu de luas e estrelas em fibra óptica, e ao mesmo
tempo mudar de nome, um nome que corresponde mais a esta nova decoração.
Lua Vistà é um nome mais latino. A empresa continua a ser a mesma, é
uma das mais antigas empresas da noite em França, foi criada em Maio de
1990.
Esta
discoteca foi também conhecida com o nome de “Tcha-Tcha-Tcha” cujo
proprietário era Toni Apolinario ?
Exactamente,
eu comprei ao Toni, e desde então não voltou a mudar de proprietários,
a sociedade continua a ser a mesma.
Aparentemente,
a mudança de nome de “Cohyba” para “Lua Vistà” não foi só
devido à mudança da decoração ?
De
facto, “Cohyba” foi um nome inspirado por uma das viagens que fiz a
Cuba, e lembrei-me de baptizar a discoteca com esse nome. Ora acontece
que, “Cohyba” é uma marca de tabaco, que me contactou,
informando-me que só podia vender aquela marca, e além disso teria que
pagar uma importância relativamente elevada, sobre direitos de utilização
da marca.
Como
renovámos a discoteca, decidimos mudar simplesmente de nome, e como já
disse, atribuímo-lhe um nome mais português, sobretudo mais latino.
Os
vossos clientes são jovens, principalmente?
Temos
duas salas e um espaço VIP, completamente privado, com capacidade para
60 pessoas, um espaço que pode ser reservado para uma festa ou outro
evento com bar privativo.
A
sala “Lua Vistà”, está efectivamente destinada aos mais jovens,
mas ao lado temos a sala “Fiesta”, onde se passa mais música
portuguesa e latino-americana. Essa sala, é mais frequentada por
pessoas a partir de 35/40 anos, bem que as pessoas possam transitar de
uma sala para a outra sem problema.
O
D'J Valdo é bastante conhecido, qual é a função dele?
O
Valdo já “faz parte dos móveis da casa”, anima a sala
“Fiesta”, porque é um género de música que ele gosta, e é uma
das salas que começa a ter um grande sucesso, assim como uma clientela
própria.
Pode-se
ver pelo programa, que todas as semanas há um tema diferente. É uma
programação anual ?
Sim,
temos um programa diferente, todas as sextas-feiras, desde o artista ao
vivo até às noites a tema. Temos que variar, para não cair em
monotonias, e não podemos esquecer que as pessoas querem sempre coisas
novas, e diferentes.
Há
bastantes discotecas portuguesas, sente a concorrência ?
Sim,
mas nós temos uma discoteca de referência, e cada qual tenta inovar
para atraír a clientela. Quem visita a casa diz que, com respeito à
decoração, é a melhor, neste momento. Quem conheceu o Tcha-Tcha-Tcha,
que citou, não tem nada a ver.
As
tendências também não são as mesmas...
Isso
é uma realidade !
Quais
são os dias de abertura da discoteca ?
Sextas-feiras,
sábados e vésperas de dias feriados.
Quais
são os critérios de ingresso na discoteca ?
Tentamos
deixar entrar toda a gente na discoteca, as meninas têm entrada grátis
até a meia-noite, claro que a nossa clientela é mais portuguesa ou de
origem portuguesa, mas também temos clientes franceses.
Têm
aqui um serviço de segurança bastante importante, e rigoroso. Nunca
tiveram problemas com a polícia ou com a municipalidade ?
Não,
pelo contrário, temos amigos, mas é como em todas as casas, não pode
haver barulhos todos os dias, não temos problemas nem com a polícia,
nem com a municipalidade. Quanto à segurança, é verdade que temos um
serviço eficiente porque desde o início, tentei impor um pouco mais de
rigor e ser restrito a nível da clientela. Por exemplo, se vier uma
pessoa que não tenha boa apresentação, não é fácil entrar, se
cheirar a álcool é ainda mais difícil. A partir das duas horas da
manhã, se vier sozinho também é difícil. Entendo que deve haver um
certo rigor para se ter uma casa correcta, e como lidamos com pessoas
correctas, se por um motivo qualquer surge um problema, tentamos resolvê-lo
e as pessoas compreendem que se o sistema é assim, é para que toda a
gente se possa divertir e sentir à vontade.
Ainda
há bem pouco tempo vieram a público vários problemas de discriminação
em discotecas, já tiveram percalços desse género?
Não,
felizmente nunca tivemos esse tipo de problema, mas na nossa casa também
não podemos receber três mil pessoas, e, tudo o que podemos dizer, é
que a nossa casa na origem está vocacionada para um público português.
Se
vier aí um português com amigos africanos, ou de outras origens, qual
é a vossa posição?
São
recebidos como todos os clientes da casa, mas se vier um grupo de
pessoas de outras origens, que nos faça pensar que o ambiente não lhes
agrade, tentamos explicar, fazendo compreender qual é o público da
casa. Geralmente, as pessoas bem intencionadas, compreendem.
José
Lopes
.
Junho
01
Filho
de peixe sabe nadar
Anthony
Michael tem 16 anos, nasceu em França e vive actualmente em Portugal.
Fomos
encontrá-lo no Cantinho dos Artistas, o Bar Dancing de Vasco Jorge, na
Praia da Rocha.
Anthony,
se te dissermos : Vasco Jorge. O que significa para ti ?
Anthony
Michael : (Risos) A autoridade parental !
Agora
a sério, Vasco Jorge é o meu pai, alguém por quem sinto muito
orgulho.
Foi
o facto de teres um pai cantor que te fez ir para o mundo da música ?
Penso
que sim, embora até há pouco tempo atrás não me passasse pela cabeça,
cantar, mas a música sempre foi uma das minhas paixões. Já em pequeno
tinha a mania de agarrar em qualquer coisa para fazer de instrumento,
uma raquete a fazer de guitarra, qualquer coisa servia para tocar
bateria. Enfim acho que já estava predestinado.
Como
é que foi a primeira vez que cantaste em público ?
Um
drama ! Pus uma sala inteira a chorar. Tudo começou o ano passado, no
dia do pai. Eu já tinha tocado piano e sintetisador em público, mas
cantar nem sonhava. Nesse dia quis-lhe fazer uma surpresa. O meu pai
tinha gravado há uns anos uma canção que se chama “Meu pai meu herói,
meu amigo”, e eu achei que cantá-la, seria para ele uma grande
homenagem. O resultado foi surpreendente e comovente. Chorou o pai, o
filho e os clientes. A partir daí as pessoas começaram a pedir-me para
cantar e até agora tem sido assim.
Há
pouco dizias que a música era uma das tuas paixões. Qual é a outra ?
O
futebol ! Isto faz-me lembrar uma velha canção que se chamava “eu
tenho dois amores”, bem, contando a namorada tenho três ! É um
grande problema porque jogo futebol, e não consigo de maneira nenhuma
escolher entre a música e a bola.
Mas
além disso continuas a estudar. Como é que concilias isso tudo ?
O
mais difícil são os jogos, quando na véspera estou a tocar até as 5h
da manhã e tenho que me levantar às 8h para ir jogar. Os meus pais até
se passam ! Para a escola não tenho esse problema, até porque
levanta-se logo a voz da “autoridade parental” a dizer : “É tudo
muito bonito, mas há prioridades !” Durante a semana só trabalho à
quarta-feira, porque no dia seguinte entro à 1h da tarde.
Talvez
os nossos leitores não saibam, que tu começaste a jogar nos Lusitanos
de Saint-Maur. Saudades desse tempo ?
Muitas
!! Gostei muito de jogar nos Lusitanos. Tive um excelente treinador, o
Jorge Plácido. Aproveito para enviar daqui o meu abraço. Foi uma boa
escola e no fundo uma referência, porque quando vim para cá entrei
logo no Portimonense.
Voltemos
à música. Actuas habitualmente no Cantinho dos Artistas, já tiveste
oportunidade de actuar noutros locais ?
Já
sim. Até já ganhei uma taça. (Não é só no futebol que se ganham taças).
Já animei a semana gastronómica aqui no Algarve, o convívio de Natal
dos idosos, foi uma experiência muito engraçada e tenho feito algumas
animações. Infelizmente tenho recusado alguns convites, porque
enquanto estiver a estudar não posso fazer tudo.
Como
é que os teus pais reagem a toda essa actividade ?
Mal
! Todos os fins de semana é uma guerra lá em casa. Mas só
“refilam” no Sábado à noite, quando eu digo que tenho que me
levantar às 8h da manhã. Depois quando chego a casa e digo que marquei
um golo ou dois, dão-me um grande abraço e mandam-me dormir.
Numa
coisa estamos de acordo, é que o que muitas vezes falta aos jovens da
minha idade, é actividade.
Seres
filho de um cantor é uma vantagem ou um inconveniente ?
Só
pode ser um inconveniente. Qualquer músico que vá ao bar, pode fazer
as “fífias” que quiser, que o meu pai não vai lá discutir com
ele. Se for eu, é um problema.
Além
do mais considero que é uma grande responsabilidade, porque as pessoas
vão ali para ouvir o Vasco Jorge, sabendo que eu sou filho, vão
comparar e prestar mais atenção. Por tudo isso acho que é um
inconveniente.
Mas
ser filho do Vasco Jorge tem uma grande vantagem, porque é um pai
amigo, chato como todos os pais, mas um Pai Herói.
Gravar
um disco é uma ideia que te seduz ?
Por
enquanto não. Não quero para já lançar-me num mundo que me parece
muito viciado. Agora estão na moda os Boys Band e não é exactamente
isso que eu quero fazer. Vou esperar que a moda passe. De qualquer modo,
como tenho um bom conselheiro, quando chegar o momento, logo se vê.
Estás
em Portugal há três anos, que balanço fazes ?
Muito
positivo. Gosto de Portugal, vivo ao pé do mar, tenho mais liberdade,
é “bué da fixe”. Mas tenho muitas saudades de Paris, que é a
minha terra.
Que
mensagem gostavas de deixar aqui aos jovens da tua idade ?
Para
já que procurem alguma actividade. Enquanto estamos ocupados não
pensamos em fazer asneiras. Que é bom viver sem drogas, sem tabaco, sem
álcool e é tão bom namorar, dançar, fazer desporto etc.
Aqui
fica esta mensagem de um jovem de 16 anos. Futuro músico, futuro
futebolista, quem sabe ?
Isso
não importa. O que importa mesmo é que seja um HOMEM no futuro.
Abril
01
Entrevista
a Alex
Francisco
António Alexandre Rodrigues, conhecido por Alex, nascido em Portimão,
iniciou a sua carreira artística nos anos 60. Actuou pela primeira vez
em África, Moçambique, Angola, África do Sul entre outros países. Em
Portugal, participou na revista “Vinho Novo”, no teatro ABC e começou
em seguida uma longa trajectória no estrangeiro desde a Europa ao
Brasil até ao Japão, onde ganhou o primeiro prémio do Festival
Internacional de Sappóro de 1978 com a canção, “Mitchió, Mitchió”.
Em digressão pela Europa para a apresentação do seu novo álbum,
“Segredos”, aproveitámos para entrevistar este simpático cantor.
Vida
Lusa : - Já não vimos o Alex aqui por França há volta de 15 anos,
que tem feito ?
Alex
: - Vim de África para França há uns 30 anos com os meus pais. A
minha pátria é Portugal mas sou filho do mundo. Voltei quinze anos
depois a França mais para matar saudades e para mostrar o meu novo
trabalho. A minha vida tem sido feita mais com base na América, Canadá
e obviamente Portugal.
O
continente americano é bastante atractivo para os artistas pois tem
também muita imigração oriunda de Portugal…
Sim
principalmente dos Açores e da Madeira, menos do continente.
Como
se define o Alex enquanto artista ?
Eu
canto tudo e, como sou autor compositor de todos os meus trabalhos, já
são 46 álbuns, só em Portugal, desde que haja uma guitarra canto
fado, canto técno, dance musique, folclore, rap ; tudo.
Um
cantor generalista ?
Sim,
vem-me uma ideia à cabeça, faço o poema, a música, a orquestração
e por isso nos meus trabalhos é sempre difícil escolher uma canção
para pôr nos topes porque as pessoas têm gostos diversificados e eu
tento propor-lhes um pouco de tudo.
Geralmente,
cada cantor tem um estilo próprio, você não se pode catalogar ?
Não,
eu não tenho estílo específico, canto em português, inglês, francês,
italiano, espanhol, etc. Gravo em português, na América gravei canções
em inglês e também gravei três temas em francês há uns 20 anos
assim como um tema muito bonito chamado, “je ne peux pas” que eu vou
refazer agora no Natal, no meu próximo disco.
Considera-se
um cantor português ?
Considero-me
um cantor do mundo, sou Português de nascença, sou algarvio de Portimão,
mas sou um cantor que nunca sabe o que vai fazer num palco pois
adapto-me ao público. Se estiver numa aldeia, vou interpretar música
dita “pimba” fazer aquelas brincadeiras que as pessoas gostam. Como
é lógico, se estiver num casino, ou num espectáculo com maior dimensão,
vou adequar o meu estilo de música.
O
facto de viajar pelo mundo inteiro nomeadamente na América, permite-lhe
encontrar comunidades portuguesas com modos de vida diferentes, qual é
a sua opinião sobre os artistas que se produzem habitualmente para este
público e como tem sentido as eventuais diferenças entre essas
comunidades.
Na
América, o respeito pelo emigrante é muito grande, é gente muito
educada e tudo o que é Português, eles adoram. No Canadá, é
exactamente a mesma coisa, além disso há uma colónia muito importante
de gente maravilhosa de África, pessoas que me conheceram há 40 anos
em África e que contribuíram a que eu tivesse salas maravilhosas.
No
meu tempo, para se ser artista tinha de se fazer um exame na Emissora
Nacional, tínhamos de prestar provas à frente de uma orquestra de 50,
60 músicos, um júri de três maestros, e, passávamos ou não. Hoje
quem tem dinheiro faz uma cassete, torna-se artista. Portanto há muita
gente que não representa a nossa música com condições. É claro que
há nos dias de hoje uma maior abertura para o artista, seja ele qual
for, desde que tenha um bocadinho de nível, que saiba interpretar. Eu não
vendo música, eu gasto-me, porque sinto aquilo que dou e costumo dizer
que cada interpretação minha tira-me meio quilo de cima do corpo, pois
gosto do que faço. Agora há aqueles que querem entrar no meio à força,
vivem uns tempos disso e desaparecem, ora nós, já cá estamos há 40
anos.
E
a diferença entre os emigrantes da primeira geração e os
lusodescendentes ?
O
que eu acho interessante é que a nova geração continua a gostar muito
de fado, é impressionante. Parece incrível, fado tornou a abrir
portas. Os jovens gostam evidentemente da música moderna mas o fado está
sempre presente. Os antigos, é a saudade, aquela ternura da terra onde
nasceram mas a juventude que já nasceu fora de Portugal, que sejam
Americanos ou Franceses que por vezes nem sequer querem ir de férias a
Portugal continuam a gostar de fado. Mas Portugal evoluiu muito nestes
últimos vinte anos e acredite que a nossa música, hoje está muito bem
defendida. Há trabalho para toda a gente e, eu felizmente não me
queixo.
O
Alex já tem uma pontinha de pronuncia americana…
É
normal, estou lá há muitos anos e o inglês é a minha segunda língua
depois do português e em seguida o francês, no qual como costumo dizer
: “desembrulho-me pas mal”.
Disse
que gravou 46 álbuns em português, 68 na totalidade, em 42 anos de
estrada, o que deixa adivinhar que já não é propriamente um jovem…
A
idade não me assusta porque sou uma pessoa que no palco não tem idade.
Estou duas horas num palco a dar a música que o público quiser, a dançar,
pular sem qualquer problema. Eu tenho um grupo de bailarinos em Portugal
que acompanha o meu espectáculo mais as minhas duas filhas. Eles ao fim
de meia hora estão cansados e eu estou lá a dar… E, venha o segundo
espectáculo se for preciso.
Fevereiro
01
Entrevista
a Carla Sofia
Carla
Sofia pode ser considerada com uma das mascotes da Vida Lusa. Foi de
facto o seu bonito rosto que ilustrou a capa do primeiro número em
Dezembro de 1997.
Desde
aí, Carla Sofia tem estado quase permanentemente em Portugal, onde
continuou no teatro e gravou um novo álbum que saiu no ano passado. De
volta “por uns tempos a Paris”, Sofia, - nome pelo qual muitos
portugueses a conhecem - concedeu-nos uma nova entrevista.
Vida
Lusa : - Fez em Dezembro três anos que foste entrevistada pela Vida
Lusa. Que fizeste durante esse período ?
Carla
Sofia : - Continuei as actuações junto da Comunidade Portuguesa, em
França e noutros países, principalmente na Europa. Num desses espectáculos
em França, vieram ter comigo e propuseram-me para gravar um álbum em
Portugal. Como era o meu principal objectivo, aceitei e fui para
Portugal novamente. O álbum saiu há alguns meses, com letra e música
de Ricardo..., de Tony Carreira e uma versão de uma canção de Jean
Jacques Goldmann. Não tem músicas minhas, é um álbum de Pope, Rock e
música country, que tive de estudar para tentar ser diferente do que
era habitual na Carla Sofia. O nome foi alterado de Carla Sofia, para só
Sofia e também a maneira de interpretar assim como o visual.
Qual
é a razão da alteração do nome, do estilo e da interpretação ? A
produção desejava cortar completamente com o teu passado de artista e
apresentar-te como uma novidade ?
Sim,
não queriam que se falasse na Carla Sofia, mas sim de uma nova artista.
Mandaram-me cortar o cabelo e enviaram-me a uma estilista. Teve de haver
também um investimento da minha parte, do ponto de vista físico, tive
que emagrecer. É verdade que hoje em dia, o mercado está de tal
maneira saturado que não nos podemos limitar simplesmente a cantar e
ter um rosto bonito. Temos de ser esbeltos, elegantes etc. Portanto tive
que perder uns quilos para que fosse também um investimento de ambas as
partes.
No
entanto constatei que durante as muitas entrevistas que dei um pouco por
todo o país, que, as pessoas conheciam o meu trabalho anterior e tinham
os meus discos, portanto nesse aspecto a mudança de nome e outras
coisas, não tiveram qualquer influência.
Como
falas de investimentos, quem os fez do lado da produção e que tipo de
contrato te foi proposto ?
A
produção foi da Carreira Produções e ocupou-se dessa parte do
visual, e a editora foi a Espacial que também ajudou bastante nessa
parte, nomeadamente fornecendo roupas e noutros aspectos. No início
entre a produção e a editora, eles ocupavam-se disso tudo, mas a certa
altura, julguei que algumas coisas não tinham a ver comigo e comecei eu
própria a cuidar da minha imagem em relação directa com a Editora.
Carreira
Produções, é a empresa do Tony Carreira, essa mudança reflecte que
alguma coisa falhou na tua relação com a produção?
Não
digo que falhou, mas não estava propriamente ao meu gosto. Como se
constatou que também não estava ao gosto da Editora, decidimos optar
pelo meu gosto próprio e os conselhos da Editora.
Como
se têm passado as vendas desse álbum ?
Em
relação às vendas não sei pois não tenho qualquer controle, já que
não tenho temas meus, não posso saber, mas em relação à aceitação
do público tem sido boa.
Há
algo que não compreendo, dizes que não tens temas teus mas és
interprete, portanto, normalmente deverias ser remunerada em função
das vendas desse trabalho e obviamente estar a par das vendas.
No
contrato que assinei, eu abdicava das vendas para investimento por parte
da produção e da edição em publicidade na televisão.
Ainda
não percebi qual é a vantagem, já que aparentemente só podes ser
remunerada pelas actuações em espectáculos. Parece-me impossível que
uma sociedade de produção ou de edição possa reter os direitos
devidos ao interprete, seja qual for a razão.
Não
sou a única neste caso, há muitos e já o meu anterior contrato foi
assim. A única maneira de escapar é que o artista já seja muito
conhecido, que bata o pé e exija receber os royalties.
Mas
no início, o artista tem de se sujeitar a certas condições.
Foi
um contrato para um só álbum ou tem outras condições ?
No
meu caso foi um contrato de quatro anos.
Continuo
a não compreender como é que um artista, seja ele qual for, aceite de
estar ligado a uma empresa de produção durante quatro anos, durante os
quais só pode ser remunerado pelos eventuais espectáculos que as
campanhas de publicidade podem gerar.
Nem
é bem assim porque isso seria bom demais para mim. A produção tem
também a exclusividade dos espectáculos. Não me posso queixar porque
as condições do contrato eram estas e eu aceitei-as. Eu tinha
necessidade de editar um novo álbum para as pessoas começarem
novamente a ouvir falar de mim, portanto tive que me sujeitar à
exclusividade.
De
facto o sistema posto em prática por essas empresas é fácil de
compreender e é simplesmente escandaloso. Trata-se sem a menor dúvida
de um abuso de posição dominante, que coloca quem quer começar ou
reactivar uma carreira, - sem brincar com as palavras - numa total
dependência.
Então
como têm corrido esses espectáculos exclusivos ?
Não
muito bem. É uma realidade que o mercado em Portugal está muito
saturado, cada vez há melhores e novos talentos, o que é muito bom
porque valoriza a nossa música. A concorrência é salutar porque nos
faz evoluir e faz com que sejamos mais exigentes com nós próprios.
Esperamos
que não haja muitos na tua situação porque se não têm outras
actividades para viver, morrem de fome...
Infelizmente,
há alguns. De facto se não tiverem uma situação paralela...
No
meu caso, sou autora-compositora, não me limito só a cantar, também
escrevo para os outros. Vai sair brevemente em Portugal um álbum de um
grupo novo que se vão estrear com dois temas meus e faço bastantes
trabalhos de estúdio, dobragens, etc. Portanto é uma situação que eu
tenho tido em paralelo com a música, senão era impossível.
Também
tem que se ter em conta os investimentos que realizam as produtoras e as
editoras, no meu caso, eu não gastei um centavo. Daí o facto de me
sujeitar a certas coisas. Se tivesse de produzir, era diferente, tinha
de assumir esses gastos.
Sim,
não gastas mas também não recebes. Como se traduz a dita
exclusividade em relação aos espectáculos ?
O
artista está em casa descansado e o produtor é que entra em contacto
com os empresários, com as comissões de festas em toda a parte do
Mundo mas principalmente em Portugal. Marcam os espectáculos, tratam do
correio do envio do material de promoção e nós apresentamo-nos no
local com estadia e transportes pagos. Mais uma vez são eles que
investem, deslocam-se quando é necessário e depois nos espectáculos
organizam tudo, incluindo o som as luzes etc.
Antigamente
quando eu produzia, tinha de levar e fazer montar o som e as luzes,
pagar aos músicos, aos técnicos e organizar essas coisas todas.
É
evidente que um artista tem necessidade de alguém que trate da produção
e longe de nós a ideia de pôr em causa a seriedade de quem quer que
seja ou o trabalho que realizam e os riscos que os produtores correm. No
entanto depreende-se por tudo o que nos relatas que nestes casos, o
artista fica de pés e mãos totalmente atadas à produção durante
quatro anos, sem o direito a receber o que quer que seja das vendas do
seu trabalho.
Presumo
que no mínimo, exista uma garantia de poder actuar num determinado número
de espectáculos ?
Essa
foi uma clausula recusada. Não existe nenhuma garantia.
Isso
revela que o artista pode ficar em casa indeterminadamente à espera que
o telefone toque. No teu caso, o telefone tocou muitas vezes ?
Infelizmente
não. Nesse aspecto não correu muito bem mas noutros foi positivo, pois
o meu objectivo era que as pessoas voltassem novamente a ouvir falar de
mim. Ora esse objectivo foi atingido e abriram-se novas portas e novos
horizontes. Como já não gravava nada há muito tempo teria de
apresentar às editoras um trabalho já feito e acabado. Neste caso, o
risco que as editoras não quisessem o trabalho, foi a produtora que o
assumiu. Eles correram o risco de perder o investimento. Agora que tenho
este trabalho feito já tenho outras editoras que graças à promoção
e por gostarem da voz e provavelmente do visual, se mostraram
interessadas. Portanto esta é a parte boa deste contrato e era no fundo
o que eu pretendia.
Como
é lógico, o risco faz parte do dia a dia de todas as empresas. Os
produtores fazem sempre uma avaliação dos riscos e não apostam em
quem não corresponda a determinados requisitos. Mas em qualquer parte
do Mundo, os artistas são remunerados em função dos resultados das
vendas dos trabalhos que interpretam. O tipo de contrato que dizes ter,
parece mais um golpe de um produtor que quis ganhar uns tostões, sendo
claro que o artista, tendo ou não sucesso, não terá qualquer
interesse em o renovar.
Em
relação à produção de facto, deixa um bocado a desejar, no entanto,
devo dizer, que fui muito bem tratada pela editora, não tenho razão de
queixa deles, fizeram o que era necessário. Investiram num video-clip,
pagaram deslocações, hotéis, comida etc. Não tive qualquer problema
com eles.
Agora
voltaste a Paris. Contas ficar algum tempo ?
Sim,
fiz uma pausa, uma pausa para novos projectos. Actualmente estou a
analisar qual será o melhor caminho, ver que tipo de propostas serão
as mais interessantes para a carreira que quero seguir e também o
estilo de música pelo qual devo optar. Gostei muito de gravar este último
álbum mas talvez agora vá para um estilo mais ligeiro, estou a
ponderar e logo se vê.
Qual
é o teu estilo de música ?
O
romântico sem dúvida, a balada, embora também goste de cantar outro
tipo de ritmos mas o que tem mais a ver comigo, é a balada romântica.
A.C.
Janvier
01
Interview
avec Philippe Seguin, candidat à la Mairie de Paris
Vida
Lusa : - Une des questions les plus importantes que les Portugais se
posent par rapport à votre candidature à la Mairie de Paris, est le
fait que vous ayez fait une énorme campagne contre le traité de
Maastricht. Beaucoup de personnes, et pas seulement les Portugais,
croient que vous êtes contre l’Europe. Pouvez-vous nous expliquer
votre position ?
M.
Philippe Seguin : - Certainement. Moi, je suis pour la construction
européenne et comme beaucoup de portugais, pour une Europe qui soit
respectueuse de la spécificité de chacun des pays membres. Je crois
qu'on ferait une très mauvaise Europe si les Portugais se mettaient à
ressembler aux français et si chacun perdait sa spécificité ; je vous
donne un exemple : Ce n’est pas parce qu’on a fait des
structures régionales en France, en Italie, en Allemagne, qu’il
fallait les imposer au Portugal. Or, au nom de la conception européenne
que je combats, on a essayé d’inventer des régions portugaises. Les
Portugais ont dit très logiquement qu’ils n’en voulaient pas, parce
qu’ils voulaient garder leurs habitudes. Ils participent à la
construction européenne mais ils ne veulent pas qu’on leur impose des
choix de l’extérieur. On construit ensemble mais on ne se renie pas
soi même.
Ce
que j’ai surtout reproché au traité de Maastricht, c’est le fait
qu’il enlève la démocratie au niveau national, ce que je comprends
tout à fait, mais on ne la rapporte pas au niveau européen. Par
exemple : ce qu’on prend aux Parlements nationaux, on le donne aux exécutifs
au niveau européen. Là, on a un déficit démocratique de la
construction européenne qui a été consacré et aggravé par le traité
de Maastricht, ce qui à mon avis nous interpelle tous.
Nous
connaissons tous une crise politique dans nos pays actuellement, la
France en particulier, l’Italie, les Allemands, etc… Pourquoi ?
Parce que les gens ont en face d’eux, des élus qui n’ont plus de véritable
prise sur les problèmes, alors qu’en revanche, ils n’ont aucune façon
de désigner ou de sanctionner ceux qui décident. Donc, ma critique à
la construction européenne, ne s'applique certes pas à ce principe,
c’est une évidence absolue mais, en revanche, il faut que nous
construisions ensemble quelque chose qui reste un ensemble démocratique
et qui préserve nos valeurs.
Si
le Portugal, l’Espagne, la Grèce, sont rentrés si rapidement dans
l'Europe, après leur accession à la démocratie, c’était précisément
pour les aider à conforter leur démocratie. Il y avait toutes les
raisons économiques du monde pour leur dire : attendez à la
porte. C’est dire que, si nous voulons faire l’Europe, c’est aussi
pour parfaire notre démocratie commune. Et, c’est grave de
l’oublier, au nom de je ne sais pas quelle technocratie et quelle
bureaucratie.
Peut-on
dire que vous êtes contre l’idée des états unis d’Europe ?
Pas
du tout, mais je suis contre un système non démocratique. Or
actuellement l’Europe, ne fonctionne pas de manière démocratique. Ce
qu’on enlève aux parlements portugais, français etc… on ne le
donne pas au parlement européen. On le donne à la Commission ou au
Conseil des Ministres.
L’Europe
vient de décider d’interdire l’utilisation des farines animales.
C’est quand même une décision importante pour l’avenir…
Oui
bien sûr. Il y a des décisions intéressantes mais vous avez aussi des
décisions qui vous tombent sur le dos sans que vous sachiez d’où ça
vient et sans avoir eu la possibilité de discuter, de dire de faire
attention. Par exemple : tous les poissonniers, les marchands de fromage
qui sont dans la rue aujourd’hui à Paris ou à Lisbonne, ils ont
appris qu’il y avait des normes qu’ils devaient absolument respecter
et qui ont été inventées sans qu’il y ait eu débat démocratique.
Plus
de deux tiers des européens non français qui sont en France, sont
d’origine portugaise. Vous avez pris dans vos listes un représentant
de cette communauté. Sachant que traditionnellement cette communauté
n’a pas été habituée à voter, quelles sont vos attentes ?
Au-delà
du profil électoral, j’avoue que je ne suis pas sans arrière-pensées.
Dès lors que c’est la première fois que cette possibilité est
ouverte, je crois qu'il est de mon devoir d’amorcer la pompe. Et donc,
même si à la limite ça n’apportait rien, d’appliquer la loi dans
son esprit - ce qui n’est pas le cas, compte tenu de la personnalité
que j’ai choisie - cela permettra qu'il y ait encore plus de portugais
inscrits sur les listes électorales dans 6 ans.
Nous
avons décidé librement une règle du jeu pour les élections locales,
il faut qu’elle joue complètement.
Janvier
01
Interview
du Maire du 12ème arrondissement de Paris,
M.
Jean François Pernin
Vida
Lusa : - Quelles sont vos perspectives pour cette campagne électorale,
M. le Maire ?
M.
Jean-François Pernin : - Naturellement, nous serons avec M. Philippe
Seguin que nous voulons voir Maire de Paris. Nous avons une mission très
importante dans cet arrondissement puisque nous avons 140 000 habitants,
c’est un des arrondissements les plus importants de l’Est parisien.
Nous sommes à l'origine d'un certain nombre de réalisations, notamment
des espaces verts ce qui fait du 12ème, l’arrondissement le plus vert
de Paris. De même, nous avons œuvré pour l’accueil des communautés
européennes, comme dans le quartier de la gare de Lyon où il y a une
très forte communauté portugaise que je connais bien.
Vous
dites que c’est l’arrondissement le plus vert de Paris mais vous
avez déjà le bois de Vincennes…
Oui,
le Bois de Vincennes fait partie du 12ème arrondissement mais en plus
nous avons fait ce que nous appelons la Coulée Verte. C’est une
promenade plantée qui va du bois de Vincennes à la Bastille, nous
avons réalisé 13 hectares de parc à Bercy et surtout, le plus
important pour les habitants, nous avons créé de nombreux petits
espaces verts dans les quartiers. Ce qui fait que chaque habitant de cet
arrondissement est à moins de 500 mètres d’un espace vert.
Votre
famille est dans le 12ème depuis très longtemps, votre père, M. Paul
Pernin, a été Maire de 83 à 1994 et vous lui avez succédé.
Ma
famille habite cet arrondissement depuis plus de 100 ans, j’habite près
de la gare de Lyon et mes enfants y sont nés.
Si
ma mémoire est bonne, c’est dans le 12ème que Jacques Chirac a lancé
sa première campagne …
Tout
à fait, c’était au cours d’une réunion dans le 12ème. C’est un
arrondissement très aéré du point de vue de l’urbanisme, très agréable
à vivre et représente donc un peu tout ce qu’on aimerait voir dans
sa ville et dans son pays.
Est-ce
que vous savez combien de résidents européens non français habitent
votre arrondissement ?
Environ
10% (14 000).
Pensez-vous
que cela risque d’influencer de manière significative les résultats
électoraux ?
C'est
très important que ces communautés se sentent bien intégrées dans
l’arrondissement, cela me semble primordial. De nombreuses personnes
de la communauté européenne viennent
me voir à la Mairie et cela se passe très bien. Alors, naturellement
leur vote est fondamental parce qu'avec plus de 10% de votes pour le
mois de mars, finalement ils ont le résultat entre leurs mains.
La
population portugaise représente plus de 2/3 de ces européens, le fait
de prendre un candidat portugais dans vos listes, c’est un clin d’œil
et une manière d’essayer de les faire voter en votre faveur ?
Un
candidat, et quel candidat ! Si je peux me permettre…
C’est à la fois un clin d’œil et c’est aussi reconnaître que
ces communautés ont leur place dans la vie de la cité.
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