ENTREVISTAS / INTERVIEWS
2001 - 2005

 

Textos publicados     Textes publiés

- Costa do Sol e Mikado: Locais incontornáveis  da diversão nocturna (Conversa com José da Silva) Julho/Agosto 05

- Entrevista com o Embaixador de Portugal em França, Dr. João Rosa Lã: “O ensino do Português é uma das nossas principais preocupações” Julho/Agosto 05

- Pauleta: “Temos todas as condições para fazermos um grande Mundial” Junho 05

- Cristina Branco em entrevista: “Sou um camaleão que canta o que quer” Fevereiro 05

- Entrevista com Maria Mendes de Oliveira: TARIKAVALLI, uma estrela portuguesa! Novembro 04

- A ressurreição do Fado? Entrevista com a fadista Mané Setembro 04

- Agora também tenho… A televisão de Portugal (conversa com Fernando da Silva, da empresa TéléGare)  Maio 04 

- "A medicina legal é muito mais uma ciência de vivos do que uma ciência de mortos", Prof. Pinto da Costa Março 04
- Secretário das Comunidades Portuguesas entregou primeiros Bilhetes de Identidade feitos no Consulado  de Paris Janeiro 04
- Entrevista com Agnès Pellerin, jovem autor de um livro intitulado "Le Fado", lançado pelas Edições Chandeigne Dezembro 03
- Entrevista com a nova coordenadora do ensino, Dra. Gertrudes Amaro Outubro 03
- Fernando Afonso, la trajectoire d'un vice-champion d'Europe de culturisme devenu homme d'affaires Julho/Agosto 03
- Entrevista com o Ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas, Dr. António Martins da Cruz Julho/Agosto 03
- "La Harissa" un groupe de musique à la sauce portugaise Julho / Agosto 03
- Retalhos de uma vida: Luci Bento, artista e mulher Junho 03
- Entrevista com Daniel Ribeiro Maio 03
- Entrevista com o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas Maio 03
- Cristina Branco, uma outra ideia do fado Março 03
- Tânia Lobo, o rosto do programa "Comunidades" na RTPi Janeiro 03
- Entrevista Dan Inger Novembro 02
- Air Luxor para Portugal, em Orly Sud Outubro 02
- Entrevista com Jorge Ruivo Maio 02
- Entrevista com Mariana Otero Março 02

- "Lua Vistà", novo nome para uma discoteca antiga Dezembro 01

- Filho de peixe sabe nadar Junho 01  

- Entrevista a Alex Abril 01 

- Entrevista a Carla Sofia Fevereiro 01

- Interview avec Philippe Seguin, candidat à la Mairie de Paris Janvier 01

- Interview du Maire du 12ème arrondissement de Paris, M. Jean François Pernin Janvier 01

 

 

Julho/Agosto 05

Costa do Sol e Mikado: Locais incontornáveis  da diversão nocturna 

 

Conversa com José da Silva, um dos proprietários da discoteca Costa do Sol, em Villeneuve Saint-Georges, e da Mikado, em Paris.

  

Quer falar-nos das discotecas Costa do Sol e Mikado?

A Costa do Sol é uma discoteca vocacionada para os jovens de origem portuguesa e que nela encontram além da música portuguesa, não a saudade, como outrora os pais ou avós, mas uma certa forma de divertimento diferente da que podem usufruir nas discotecas francesas.

A “Costa” tornou-se um fenómeno que muitos ainda não compreendem, sobretudo em Portugal. Há dez anos atrás alguns começavam a interrogar-se sobre o que era essa discoteca dos emigrantes, apareceram jornalistas, a televisão, rádios e, hoje em dia, é um “partenaire” incontornável na área da diversão nocturna, tanto em Portugal como em França.

Bastará dizer que durante as férias produzimos os nossos shows em quase todas as discotecas do país, de norte a sul.

Para dar um exemplo dessa evolução, este ano fomos convidados pela Queen, uma das mais reputadas discotecas de Lisboa, frequentada por todo o jetset.

 

Achamos graça ao facto das discotecas de Portugal, que pouca ou nenhuma música portuguesa passam, convidarem a Costa do Sol, que tem como principal bandeira a difusão da música portuguesa.

A música portuguesa regressou às discotecas em Portugal nestes últimos anos, em parte devido ao sucesso das tunas junto dos jovens. Tornou-se frequente a apresentação de espectáculos com tunas e isso criou outras exigências por parte dos jovens que começaram também a interessar-se pela música popular tradicional.

As queimas das fitas têm agora mais sucesso com Quim Barreiros que com artistas internacionais.

A Costa do Sol passa música portuguesa, mas de qualidade. Há certos artistas que não têm lá lugar por não possuírem os níveis de exigência que temos.

 

De facto quando em Portugal, seja a políticos ou a empresários, damos como exemplo os 3 ou 4 mil jovens luso-descendentes que se encontram todos os fins de semana na Costa do Sol, as pessoas ficam atónitas e impressionadas...!

Isso revela efectivamente uma necessidade de identificação com as raízes por parte destes jovens, que na sua grande maioria já são netos dos primeiros emigrantes, totalmente desconhecida pela classe política em Portugal. Mas em alguns sectores, tais como nas discotecas e outros locais de divertimento já existem sinais de tentativa de aproveitamento desses jovens que se deslocam ao nosso país no período de férias.

É evidente que o nosso “savoir faire” também tem sido determinante. Renovamos periodicamente a decoração, propomos sempre em primeira mão todas as novas tecnologias e cuidamos da programação dos espectáculos de forma meticulosa. Por exemplo, o site internet da Costa do Sol (www.costadosol.net)  foi um investimento importante e inovador que se tem revelado bastante produtivo. Por outro lado, tal como já referi, não vamos na conversa de certos empresários artísticos que andam por aí a vender artistas sem talento e ao desbarato.

A culpa de existirem também é de certas associações que “compram” má qualidade, depois queixam-se da falta de público e algumas desaparecem. Diga-se na verdade que algumas só existem como alternativa económica de famílias que as constituem para realizar benefícios com espectáculos.

Existem aquelas em tem que se beber um garrafão de vinho para se poder fazer negócio, mas ainda bem que existem outras bem sólidas e eficientes. Quanto à discoteca Mikado, é diferente, mais pequena, leva cerca de 500 pessoas, um público variado que vai dos 18 aos 50 anos e está aberta das 5as aos Domingos à noite.

Propomos igualmente ao longo do ano uma grande diversidade de espectáculos exclusivamente portugueses.

 

Isso leva-nos à questão seguinte, o José da Silva possui igualmente uma empresa de espectáculos, pode dar-nos pormenores sobre esta segunda actividade?

Efectivamente. Chama-se Mundial Show, é uma empresa portuguesa que vende espectáculos completos e tem dois parceiros importantes e essenciais para se poder obter resultados positivos nesta área: uma das editoras mais conhecidas, a Vidisco, e o grupo “Santamaria” que dispõem provavelmente do maior e mais bem equipado estúdio de gravação de música em Portugal. Além dos artistas consagrados que promovemos regularmente, tais como os “Santamaria”, os “Canta Bahia” e outros, neste momento apostamos na descoberta de novos talentos, o que nos é frequentemente solicitado por canais de televisão e outros promotores de espectáculos. Podemos obviamente responder a todas as necessidades de um artista principiante, desde que possua as qualidades exigidas, fornecendo-lhe um estúdio de gravação, uma editora, a promoção e um vasto leque de propostas de espectáculos. Naturalmente estamos igualmente preparados para receber artistas consagrados que, por razões diversas, desejem mudar de editora de produtor ou de promotor.

 

Percebemos que a ideia foi de reunir através de parecerias todas as competências na área da edição e promoção musical para que um artista se possa consagrar inteiramente ao seu trabalho...

Exactamente. Actualmente estamos também a criar três grupos, reunindo talentos diversos para desenvolver este sector. Constatando que muitos acabam por razões de entendimento interno ou de zangas momentâneas, estes grupos beneficiarão de um conceito musical nosso mas que nos permitirá de mudar um ou outro elemento que não se assimile ou deixe de se enquadrar num conceito destinado a uma pequena revolução no seio da música portuguesa..

 

Está a referir-se a algo que começou em Itália no princípio dos noventa e que culminou com inúmeros processos nos tribunais ?

A diferença é que não tencionamos mudar os vocalistas, mas sim os músicos quando isso se tornar necessário. Também deve compreender que, quando se investe durante 4 ou 5 anos num grupo, não se pode estar à mercê dos humores de um ou outro músico que de repente quer estragar tudo.

Registamos e somos obviamente proprietários do nome do grupo que constituímos. Se um elemento sair não poderá utilizar o nome do grupo, é tudo.

 

Quais são os mercados que a Mundial Show pretende abranger ?

Infelizmente, a nossa língua exporta-se mal em termos musicais. Concentramo-nos por isso logicamente no mercado nacional e junto das comunidades espalhadas pelo mundo.

 

Qual é para si a razão da ausência da música portuguesa nos mercados internacionais ?

Além do problema da língua, julgo que não sabemos vender-nos como deveríamos. Em Portugal as editoras distribuem toda a música estrangeira. Se em França, em Inglaterra, nos Estados Unidos e noutros países não se vende música portuguesa fora das comunidades, isso deve-se essencialmente à falta de conhecimento e neste caso temos todos de assumir as culpas dessa situação, particularmente as editoras e os empresários artísticos portugueses. O problema é também que andam por aí umas pessoas com cassetes gravadas na mão, convencidas que os filhos são artistas, a vendê-los em tudo o que é sítio e isso dificulta a acção dos profissionais que propõem qualidade.

Felizmente há exemplos que nos enchem de orgulho. Ainda há pouco tempo estive em Barcelona e constatei que os bilhetes para os concertos dos Madredeus estavam esgotados um ou dois meses antes.

Neste momento já tenho uma proposta para os Santamaria actuarem no mês de Outubro para franceses. Viram-nos ocasionalmente e mostraram-se imediatamente interessados.

É pois um longo e lento trabalho que também me proponho desenvolver, nomeadamente com estes grupos que queremos lançar.

 

AC

 


Julho/Agosto 05

Entrevista com o Embaixador de Portugal em França, Dr. João Rosa Lã: 

“O ensino do Português é uma das nossas principais preocupações”

 

 

Senhor Embaixador, chegou há quase um ano a Paris, já se poderá começar a falar do primeiro balanço?

Cheguei em Novembro, ainda não faz um ano… Tivemos no entanto uma intensa actividade e acontecimentos de grande relevo, dos quais destacaria a visita de Estado de Sua Exa. o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, a única visita de Estado este ano e a primeira a França de um presidente português desde 1989, e as visitas do Sr. Primeiro-Ministro, Dr. Santana Lopes e a do Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr. Freitas do Amaral.

Preparámos igualmente a Cimeira Luso-francesa de Angoulême que foi finalmente anulada devido à preparação das eleições legislativas. Visitei já Toulouse, Lyon, Bordeaux, Nice, Lille e Rouen para contacto com as nossas comunidades. Tivemos um Seminário Consular que permitiu melhorar a nossa coordenação e criar, por exemplo, um telefone de emergência em todos os Consulados em França.

 

A ministra da Educação e o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas anunciaram recentemente que o Governo não tinha meios para continuar a enviar professores de português para o estrangeiro. Quando se conhece o contributo dos emigrantes portugueses para o desenvolvimento do nosso país, estas declarações serão provavelmente mal interpretadas por alguns...

Ainda não tenho conhecimento dessas declarações, mas não creio que a intenção seja de prejudicar o ensino do português no estrangeiro. Essa tem sido uma das nossas principais preocupações e continuará a ser. Esse foi aliás um dos temas principais da visita do Sr. Presidente da República a França, que atribui a esse assunto uma importância primordial. Continuamos todos mobilizados nesse sentido e regozijo-me pessoalmente pelo excelente trabalho desenvolvido pela Sra. Coordenadora do Ensino, Dra. Gertrudes Amaro. Quanto à possibilidade de recrutamento local dos professores, não vejo porque é que um professor contratado nessas circunstâncias teria menos competência do que alguém que venha de Portugal. O problema é a necessária racionalização dos meios que temos ao nosso dispor e uma melhor adaptação à evolução da própria comunidade, que não é a mesma de há trinta anos.

Abrimos recentemente novos cursos em Lille e em Lyon, há contactos permanentes com responsáveis franceses para implementarmos cada vez mais o ensino do português como língua viva estrangeira e abrem-se todos os dias novas perspectivas nesse campo, porque o português tem de ganhar espaço como língua estrangeira nos diferentes currícula. Ainda há poucos dias estabelecemos uma parceria com a Caixa Geral de Depósitos para facultar maior informação aos pais dos alunos e existem outras iniciativas do mesmo género no sentido de promover o ensino do português junto da população francesa.

 

Um dos problemas apontados é a falta de coordenação dos professores, fala-se justamente de cursos fechados em Lille, devido a múltiplas ausências de professores, que dão também aulas em associações...

Isso não é bem assim, não há falta de coordenação. Haverá realmente alguns problemas que deverão ser resolvidos. O ensino da língua facultado pelas associações, bem como o ensino a nível privado tem sido e continua a ser extremamente importante. Agora há que estabelecer regras para que exista a necessária complementaridade entre todas as ofertas.

 

Um proprietário de uma discoteca que entrevistámos para esta edição refere-nos que recebe todos os finais de semana cerca de 4 mil jovens luso-descendentes que têm necessidade de se encontrar e conviver entre eles ao som da música portuguesa. Lamenta que em Portugal, nomeadamente certos responsáveis políticos, considerem que estes jovens já estejam completamente integrados nos países de residência e por consequência perdidos para o nosso país. Que pensa disso?

Não posso concordar com isso, considero extremamente positivo que esses jovens procurem discotecas portuguesas para se divertir e isso deixa-nos antever perspectivas muito positivas para o futuro. Por isso os nossos esforços têm sido constantes no sentido da manutenção desses laços, mesmo se defendemos uma boa integração no país onde vivem. Uma coisa não impede a outra e a melhor prova disso é o contributo e o apoio que damos à reunião dos eleitos municipais de origem portuguesa que decorre todos os anos no Senado francês e que terá lugar dentro de alguns meses. Como até aqui, continuarei, assim, a insistir na participação cívica dos portugueses em França, onde lhes foi reconhecido desde 2001 o direito de participar nas eleições europeias e autárquicas. Hoje mais de 50 000 portugueses estão já recenseados nas listas eleitorais francesas, mas este número está muito longe de corresponder à dimensão demográfica da nossa Comunidade e ao seu peso na sociedade francesa. Um especial esforço de mobilização tem de ser levado a efeito para convencer as centenas de milhares de portugueses a recensearem-se, tanto aqui em França, nas "Mairies", como em Portugal, através dos Consulados.

À semelhança do que acontece com outras comunidades que dispõem de importantes “lobbys”, apoiamos obviamente a criação de estruturas que possam dar mais força e mais visibilidade à nossa comunidade. Contamos por isso com todos mas, sobretudo, com os jovens e os empresários junto dos quais vamos tomar em breve algumas iniciativas nesse sentido.

 

Senhor Embaixador, porque razão a festa do Dia de Portugal decorreu este ano no Consulado de Portugal em Paris, quando habitualmente por hábito a comunidade é convidada à Embaixada?

Não vejo nada de anormal no facto que seja o Cônsul-Geral de Portugal em Paris a convidar a comunidade a festejar o 10 de Junho, Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas.

Como sabe, ainda há pouco tempo a Embaixada recebeu cerca de 900 pessoas da comunidade, por ocasião da visita de Estado do Presidente da República, e pouco tempo antes aconteceu a mesma coisa quando cá esteve o Primeiro-Ministro. Este ano decidi ir ao encontro dos portugueses da região de Toulouse, onde a cidade de Lisboa foi a convidada de honra na “Marathon des Mots”, e que poucas oportunidades têm de conviver com o Embaixador.

Desde que cheguei, já percorri uma boa parte deste país para me encontrar com portugueses de outras regiões e tenho a intenção de continuar nessa via.

 

O Governo decidiu voltar a separar o ICEP do IAPMEI, espera-se uma desvinculação das delegações do ICEP das embaixadas e consequentes alterações em relação à chamada “diplomacia económica”?

Não, o que está em causa é a reorganização das estruturas por forma a torná-las mais produtivas e eficientes. Este governo já tornou público o seu empenhamento no desenvolvimento da chamada "diplomacia económica". Aliás esta tem sido, desde a minha chegada, outra das prioridades, tentando reforçar os laços empresariais luso franceses e atrair investimentos franceses para Portugal.

Tenho muita esperança nos desenvolvimentos que ultimamente têm nascido no seio da própria comunidade, tais como a nova Câmara de Comércio Franco-Portuguesa e o Clube Atlântico.

 António Cardoso

 

 

Junho 05

Pauleta: “Temos todas as condições para fazermos um grande Mundial”

 

Quase no final da época futebolística 2004/2005, que certamente não ficará na memória de Pedro Pauleta como a melhor da sua carreira, fomos ao encontro do avançado açoriano para fazer um balanço deste segundo ano no Paris Saint Germain e traçar algumas linhas para o futuro da sua carreira e da selecção das quinas.

 

Está muito próximo do recorde de Eusébio de golos marcados ao serviço da selecção portuguesa. O que significa para si alcançar esta marca?

A determinada altura bater esse recorde passou a ser também um dos meus objectivos na selecção. Não vai ser fácil porque cada vez faltam menos jogos, mas espero ainda conseguir alcançá-lo. No entanto, o meu objectivo principal é ajudar Portugal a estar presente no Mundial.

 

O que significa para si representar a selecção nacional?

A selecção é o sonho de qualquer jogador de futebol, é representar o seu país. Já estou na selecção há alguns anos, cerca de 9 ou 10, e é obvio que sinto um orgulho enorme em representar a equipa das quinas.

 

Quais são para si as melhores selecções europeias neste momento? Quem acha que vai ter uma boa performance no próximo Mundial?

Penso que actualmente na Europa a Alemanha e a Inglaterra são duas selecções muito fortes. A Inglaterra porque cada vez mais os jogadores ingleses estão a afirmar-se nos grandes clubes europeus. E a Alemanha, sendo a anfitriã, de certeza que vai aparecer muito forte e vai contar com o apoio do seu público.

 

E Portugal? Até onde podemos ir?

Acho que temos todas as condições para, primeiro, nos classificarmos e, depois, fazermos um grande Mundial.

 

Fala-se do eventual regresso do Figo. Acha isso possível? Gostaria que acontecesse?

O Figo é sempre bem-vindo na selecção. É um grande jogador que conhecemos muito bem. Ficaria muito contente que ele voltasse, porque sou bastante amigo dele e acho que é um dos grandes emblemas futebolísticos de Portugal.

 

O que é que correu mal no último Europeu, o que faltou?

Passou-se muita coisa. Houve muitos problemas com o treinador, com a federação. Depois, com a falta de sorte e a falta de organização, os desaires acontecem com mais facilidade. Mas também não podemos descarregar toda a culpa nestes factores, temos de assumir igualmente a nossa parte. O futebol é assim, umas vezes ganha-se, outras não.

 

Uma das razões invocadas para o desaire foi o desgaste físico de alguns jogadores, devido a épocas longas e cansativas nos respectivos clubes. Acha que esta alegação é legítima?

Não. Isso não é uma desculpa, pois os outros jogadores também tiveram a mesma carga de trabalho. O que aconteceu foi que entrámos mal no primeiro jogo e depois, como já disse, existiram muitos problemas que influenciaram.

 

Este ano ainda faltam dois jogos, ambos difíceis. Quais são as perspectivas para esta fase de qualificação?

Faltam dois jogos importantes este ano. Um deles é com o adversário directo, a Eslováquia. Se a conseguirmos eliminar em casa ficamos mais perto de estar apurados, senão as coisas complicam-se. Mas estamos na frente e queremos manter essa posição, pois queremos estar no Mundial, que é o nosso principal objectivo.

 

Quais os pontos fortes e os pontos fracos da equipa das quinas, na sua opinião?

Não acredito que haja pontos fracos. Temos uma grande selecção, constituída por grandes jogadores, o ambiente no balneário é bom, temos um bom treinador... penso que a selecção mudou muito e que hoje somos uma equipa bastante forte. O que poderíamos chamar de ponto fraco é a nossa mentalidade, a mentalidade portuguesa de pessimista, mas isso está a mudar. Estamos cada vez mais fortes a esse nível.

 

Nos últimos anos tem-se assistido à afirmação dos clubes portugueses na Europa. O Porto primeiro e agora o Sporting. Como vê este prestígio crescente?

É principalmente bom para o futebol português, porque quanto mais se falar de Portugal na Europa, melhor. Quando se trabalha muito e se consegue chegar onde as nossas equipas têm conseguido chegar é gratificante. Há dois anos e o ano passado, o Porto e, este ano, o Sporting, são um bom exemplo desse sucesso. É muito bom para o futebol português.

 

Qual é o balanço que faz desta época do Paris Saint Germain?

Foi uma época que começou mal. Houve a mudança de treinador e de jogadores, o que foi difícil de gerir. Muitas coisas se passaram durante este ano e ainda recentemente tivemos um novo presidente. Tudo isso contribuiu para desestabilizar a equipa. O problema com as claques também não ajudou a motivar. Estamos ainda a fazer tudo o que é humanamente possível para terminar da melhor maneira, mas nunca vai deixar de ser uma má época.

 

Houve uma altura em que o Pauleta também não estava bem. O que aconteceu?

O que se passou comigo passou-se com todos os jogadores. Quando se joga numa equipa que não está bem, o seu próprio rendimento acaba afectado. É normal que houvesse momentos em que eu estivesse menos bem. Foi uma má época para todos. Desde que cheguei a França foi a minha época menos conseguida, mas espero ainda terminá-la bem. E, com optimismo, pensar que a próxima vai ser melhor.

 

Por vezes sente-se uma certa dependência da equipa em relação ao seu rendimento pessoal. O que pensa disso?

Isso não pode ser. Um clube como o PSG, que quer jogar para os três primeiros lugares, não pode depender só de um jogador. Esse é um dos problemas da equipa.

 

Sente-se essa pressão? Como lida com ela?

Pressão, não. Não existe pressão no futebol para mim. É a minha profissão, que faço o melhor que posso. Tenho alguns momentos menos bons como qualquer pessoa.

 

A pressão não contribuiu para o momento menos bom que atravessou no início do ano?

Não. O meu rendimento depende muito da forma como a equipa joga. É natural que quando a equipa não esteja a jogar bom futebol, não ganhe, não ataque, o atacante sinta falta disso.

 

No decorrer da época houve uma mudança de treinador, Laurent Fournier substituiu Vahid. Quais as principais diferenças entre os dois?

São mentalidades diferentes. Vahid tinha uma personalidade muito forte, muito vincada, era muito agarrado às suas ideias e esse conjunto fez com que houvesse um momento de saturação e, como os resultados não acompanhavam, houve a tal mudança.

Mas isso é frequente no futebol, quando as coisas não correm bem, o treinador é o primeiro a sair.

 

O que mudou com Fournier?

Foi um alívio para alguns jogadores que não se sentiam bem com o Vahid. Libertaram-se, soltaram-se mais e desse modo integraram-se com mais facilidade no grupo.

 

E para si, foi um alívio?

Não. Eu tinha uma boa relação com o Vahid, tenho igualmente uma boa relação com o Fournier. Mas é verdade que com o Fournier a equipa melhorou a nível psicológico, os jogadores descontraíram-se mais desde a saída do Vahid. Mas a culpa também não é só dele.

 

Quem é que acha que seria o treinador indicado para a próxima época?

Na minha opinião não há enquanto não se resolverem todos os outros problemas internos do clube. É a mesma coisa que começar a construir uma casa pelo telhado ou pelas janelas, não vai dar uma casa muito boa, não vai durar muito tempo. Logo, enquanto não houver uma organização no PSG, as coisas vão ser sempre assim.

 

Francis Graille também acabou por ser despedido. Veio para o clube pelas mãos dele, o que significa para si este despedimento?

Era uma pessoa de quem eu gosto bastante, sou amigo dele, mas actualmente no futebol até os presidentes estão sujeitos a serem despedidos. Vamos esperar para ver os projectos do novo presidente.

 

Continuas a ser o melhor marcador da equipa com 13 golos. O que significa para ti marcar um golo?

Para mim significa tudo, é a minha principal missão. Só me sinto bem quando marco, pois fui contratado para isso. E o golo, ou os golos, é que dão as vitórias, e elas é que dão os pontos. Os golos são a parte mais importante do futebol.

 

E quando não marca, o que sente?

Fico triste, penso bastante no jogo e sobretudo penso em me preparar o melhor possível para no próximo jogo poder marcar.

 

O público é apelidado muitas vezes de 12.° jogador. O PSG e os seus adeptos andaram de costas viradas durante toda a época, houve momentos de verdadeira tensão, um deles inclusive com o Pauleta, o que se passou?

Os adeptos do PSG são muito expressivos. Num jogo contra o Toulouse, chegou a minha vez de ser assobiado. No momento não aceitei muito bem, porque não pensei que fosse justo. Mas isso é perfeitamente normal, faz parte do futebol quando uma equipa não joga bem e um jogador tem de aceitar.

 

E o futuro próximo? Como e onde o vê?

Tenho mais um ano de contrato com o PSG, até 2006, e em princípio devo ficar e cumprir até ao final. Vamos ver. Só vou decidir no final da época.

 

Já teve outras propostas?

Existem alguns clubes interessados, algumas propostas. Mas como tenho contrato, não penso nisso.

 

Algumas dessas propostas vieram de Portugal?

Também. Houve alguns contactos de Portugal, mas nada de concreto por enquanto.

 

Se houvesse uma proposta concreta de um clube onde gostasse de jogar, vamos dizer, por exemplo, em Portugal, mas se isso implicasse um salário inferior, aceitaria?

O dinheiro nunca foi determinante. Claro que a um dado momento foi importante, mas nunca foi determinante para as escolhas que tomei. Agora é obvio que tenho de pensar bem. A minha carreira está a terminar, tenho 32 anos, e não vai ser neste momento que vou sair do PSG por ganhar mais ou menos, essa escolha será sempre em função do meu bem estar e da minha família.

 

Há algum campeonato, tirando o português, onde gostasse ainda de jogar?

O inglês é um campeonato de que gosto imenso, mas com a idade que tenho não me meto isso como objectivo. Talvez se tivesse sido há alguns anos... Agora dificilmente jogarei noutros campeonatos que não o francês, o português ou o espanhol, onde já joguei e de onde tenho uma proposta de um

clube.

 

Acabar a carreira em  Portugal... ainda pensa nisso?

Já não é uma prioridade. Não penso nesse sentido. Se tiver de acabar aqui, acabo.

 

Quanto mais tempo pensa jogar?

Mais dois ou três anos. Tudo depende se ficar no PSG, se renovar ou não.

 

Vive em Paris há algum tempo. O que prefere na cidade?

Paris é uma grande cidade, de que toda a gente gosta. Quase tudo está à nossa disposição.

É difícil eleger um sítio, uma coisa em particular. É uma cidade fantástica.

 

Criou uma escolinha de futebol nos Açores e, em Março último, deu-se o primeiro torneio. Como correu este primeiro evento?

Correu muito bem. Foi bastante satisfatório tanto para mim como para os pais e, principalmente, para os miúdos. A escolinha do Simão (Sabrosa) e do Benfica estiveram presentes. Espero dar continuidade ao projecto e quero já a partir do ano que vem levar uma equipa francesa, se possível o Paris Saint Germain.

 

Ana Carvalho 

 

 

 

Fevereiro 05

Cristina Branco em entrevista

“Sou um camaleão que canta o que quer”

 

Poucos dias depois do lançamento de “Ulisses”, o novo disco de Cristina Branco, a artista esteve em Paris para uma apresentação ao Senado francês e um encontro organizado pela Cap Magellan. A Vida Lusa conversou com a cantora.

 

Depois de uma digressão pela Holanda, um país onde tens um óptimo acolhimento desde muito cedo, como foi o espectáculo no Senado francês?

Frio. Era um ambiente muito formal, num espaço muito barroco que pouco tem a ver comigo.

Mas eles gostaram imenso. Na Radio Classique (que organizou o evento) disseram-me que receberam imensos e-mails dos senadores a dizer que tinham gostado muito, que tinha sido uma iniciativa fantástica. Foi até engraçado porque a certa altura pedi para cantarem comigo e, para minha surpresa, os velhos senadores, que estavam muito silenciosos, começaram todos a cantar.

 

Em relação a este CD que acabas de lançar, “Ulisses”, li em várias entrevistas que o consideravas um “disco de ruptura”. Há alguns temas que de facto suscitam mais surpresa, mas parece-me que se mantêm determinadas referências que fazem parte do teu universo.

Não é uma ruptura num sentido muito radical. As pessoas sabem que eu não sou propriamente agarrada ao fado. Além disso, sempre tive muito interesse em muitos géneros musicais. Então, neste disco, para além de estar a cantar aquilo que me apetece, o que aliás é básico para mim em qualquer disco, comecei a cantar noutras línguas. Isso não é vulgar dentro da música portuguesa, porque é quase uma ousadia.

Este trabalho prova também uma outra coisa, para mim muito importante. Vem mostrar que, se for de facto cantora de fado, não canto só fado. Sou uma espécie de camaleão que canta o que quer. Enquanto que um fadista só canta fado, eu canto também fado. Canto fado, entre outras coisas.

 

É um álbum muito ecléctico.

Este álbum fala do meu gosto pessoal, da música que eu gosto de ouvir e de interpretar. E também daquilo que gosto de re-interpretar, porque uma parte das músicas são re-interpretações de coisas que outras pessoas fizeram.

 

É curioso como, apesar de ser comum ouvir-te sublinhar alguma distância em relação ao fado, as pessoas genericamente se referem a ti como “Cristina Branco, a fadista”.

Nem fui eu que fiz questão de sublinhar a diferença. Quando saiu o meu primeiro álbum e ouviram--me a cantar, por exemplo, Zeca Afonso e Sérgio Godinho, à mistura com fados tradicionais, os velhos do Restelo iam morrendo. Houve uma polémica enorme porque as pessoas associavam-me só ao fado.

Então, eu própria vim a público dizer que nunca tive qualquer intenção de ser fadista. Só há pouco tempo, para uma cena dum filme inglês, cantei numa casa de fados! Fora isso, nunca cantei numa casa de fados e nunca hei-de cantar. Para mim a música passa por outros universos, nunca por aquelas quatro paredes e as toalhinhas aos quadradinhos.

 

Fizeste questão de não te definires como fadista para depois não teres de seguir as regras do fado. No fundo, foi para teres mais liberdade?

Exactamente. Aliás, a propósito disso, a FNAC agora vai mudar os meus discos da secção de fado para a secção da música portuguesa. Eu acho bem. É mais verdadeiro.

 

Este disco tem muitos sabores - encontramos uma música da Joni Mitchell, outra da Mercedes Sosa - esta recolha tem a ver com os teus gostos musicais quando eras mais nova, ou são coisas que tens descoberto agora?

Há muita influência em todos os meus álbuns da música que fui ouvindo desde muito nova. Os meus pais são grandes melómanos e sempre tiveram em casa uma colecção enorme de discos. Quando cheguei à adolescência não tive necessidade de pegar na minha mesada, comprar discos e descobrir a música da moda. Fui ouvindo os discos dos meus pais, que eram muito eclécticos, e não fiquei apenas na música da minha época. Jazz, blues, música de intervenção portuguesa, música francófona, tudo isso constituiu a minha educação não só musical como também intelectual. Se começasse a dizer do que gosto, a lista não parava!

 

Quais são os primeiros nomes que te vêm à cabeça?

Fora do mais óbvio, gosto de Bruce Springsteen, dos Pink Floyd sabia os discos todos de cor, adoro Simon & Garfunkel, Maria Bethânia, Chico (Buarque). São os que tenho comprado ultimamente.

 

Foi uma pequena surpresa encontrar neste álbum “Alfonsina y el mar”... a Mercedes Sosa fazia parte dos discos dos teus pais?

O interesse pelo poema “Alfonsina” é mais recente, surgiu através de uma viagem à Argentina, onde fui há pouco tempo. Mas já conhecia a música e tinha uma relação com o país sem nunca lá ter estado, através das músicas da Mercedes Sosa que os meus pais ouviam. O tema “Alfonsina” nunca me tinha despertado qualquer coisa de especial, mas depois da viagem, quando comecei a trabalhar neste disco houve uma fase em que ouvi muito a Mercedes. Voltei aí a encontrar a “Alfonsina” e pensei “isto tem tanto a ver com a saudade e a nostalgia”. Então decidi explorar a música que, aliás, é linda de morrer. Penso que é mais uma contradição dentro deste álbum, onde digo que quero cantar coisas alegres e aí no meio surge esta história de um suicídio tristíssima que é a da “Alfonsina y el mar”.

 

É também uma provocação o facto de o tema em que cantas os sentimentos da saudade, da tristeza, do fado, ser interpretado em espanhol?

(Risos) Sim, isso ocorreu-me. No fundo, “Ulisses” foi a minha desculpa para fazer uma viagem geográfica que me desse a oportunidade de cantar noutras línguas.

 

E depois da viagem, chegaste a algum destino?

Sim, já sei o que vou fazer a seguir. Os discos saem com uma frequência quase anual, portanto na Universal assim que sai um começa-se logo a trabalhar no seguinte. Mas independentemente disso ou de quaisquer constrangimentos externos, tenho uma definição musical muito grande dentro de mim.

 

Neste álbum encontramos uma colaboração com o Júlio Pomar. De onde surgiu esse projecto?

O Júlio Pomar é a minha mais recente paixão. No Verão passado recebi um telefonema dele quando estava em casa, depois de ter o meu filho, a dizer-me que ia lançar um livro e que queria que cantasse um poema seu na noite do lançamento. Eu fiquei muito entusiasmada.

Fui a casa dele à espera de encontrar um velhinho fragilizado e encontrei um guerreiro, um doce de pessoa tão segura de si e com um carácter tão forte.

 

Ele tinha um poema específico que queria que interpretasses?

Não. Ele tem centenas de poemas e está sempre a mexer-lhes. Por isso é que os publica, porque senão continuaria eternamente a alterá-los. Mesmo assim, o poema que escolhi para este disco já foi mexido e já está diferente, apesar de ter sido publicado em livro e também no meu álbum.

 

É muito conhecido o facto de teres uma recepção muito maior no estrangeiro do que em Portugal. Como é no caso dos portugueses que estão fora?

Os emigrantes não vão muito aos meus concertos, seja em que país for. Curiosamente, a promoção de um espectáculo que fiz há pouco tempo na Suíça foi muito direccionada para os portugueses. Por entre a maioria suíça, havia cerca de vinte portugueses na sala, o que para mim já foi uma vitória. Eles gostaram imenso, mas confessaram-me que não iam à espera de ouvir o que encontraram.

Neste caso foi uma surpresa pela positiva para eles, mas de qualquer modo eu não gosto de estar a enganar as pessoas, ou seja, não gosto que promovam os meus concertos como sendo concertos de fado. Para os estrangeiros é um pouco indiferente porque não conhecem muito rigorosamente o fado. Mas os portugueses criam expectativas de irem assistir a um espectáculo mais tradicional e podem sentir-se defraudados ao ouvir-me cantar em inglês ou francês músicas de muitos géneros. Por isso faço questão de não promover como fado os meus concertos. É mais honesto e verdadeiro.

Mas genericamente os portugueses cá fora não vão muito aos meus concertos. Primeiro, a promoção não é especialmente dirigida para eles. Segundo, porque mesmo que fosse são pessoas culturalmente pouco atentas.

 

Achas que isso se aplica também às novas gerações?

Não, referia-me mais àqueles que estão cá, no caso da França, há 40 anos. Hoje, das novas gerações tenho conhecido gente interessantíssima, pessoas que cultivam a língua, a cultura e vão à descoberta do que se está a fazer agora nestas áreas. Mas a verdade é que não posso afirmar que sejam muitos os que têm chegado até mim.

 

Convives bem com o público?

Com as pessoas sim, com a exposição não. Convivo muito mal com a questão da imagem. Detesto as sessões fotográficas. Sinto-me mal com as câmaras. A exposição, para mim, é o pior desta profissão.

 

Não é um pouco contraditória essa dificuldade em expor-se, não só com a tua actual actividade, mas também com o desejo que tiveste desde cedo de ser jornalista?

Eu queria ser jornalista do lado de lá. O jornalismo que me interessava era o da imprensa escrita, o de investigação, ou seja, nunca numa perspectiva de dar a cara. Simplesmente não gosto de me mostrar. Mesmo o facto de ter de me apresentar em público é uma dificuldade enorme, é um processo de interiorização que demora algum tempo. É estranho, não é?

Imagina a paixão que é preciso ter para conseguir suportar tudo aquilo.

 

E projectos para o futuro?

Neste momento tenho um projecto que já tem dois anos e que é para concretizar no próximo Natal. Fui convidada pela orquestra do Concertgebouw para fazer um concerto muito especial, com música tradicional de Natal portuguesa. Eu, o Ricardo Dias e o João Paulo Esteves da Silva estamos a fazer uma busca de material, de música que nunca ninguém gravou e ninguém ouviu em palco. Vai ser muito especial.

 

Carolina Borges

 

 

Novembro 04

Entrevista com Maria Mendes de Oliveira

TARIKAVALLI, uma estrela portuguesa!

 

Maria Mendes de Oliveira - TARIKAVALLI,  é uma luso-descendente, nascida em França. Os seus pais chegaram a este país como, tantos outros, nos anos sessenta, em busca de uma vida melhor.

Maria estudou na Sorbonne, em Paris, especializou-se em dança indiana depois de ter assistido a vários espectáculos e ter ficado subjugada. “À medida que descobria e aprendia tudo o que envolvia essa dança, mais vontade tinha de continuar”.

Mas o verdadeiro ponto de partida foi quando assistiu a um desses espectáculos interpretado por uma bailarina profissional francesa : “se uma francesa pode fazer isto e ter sucesso, eu também posso”, concluiu.

Deslocou-se inúmeras vezes à Índia para participar em grupos de trabalho, impregnou-se durante vários anos de cultura e hábitos locais e acabou por conseguir uma bolsa de estudo atribuída pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros francês que lhe permitiu estudar nesse país.

Perguntámos a Maria Oliveira a origem do nome Tarikavalli : “é o nome concedido pelo Mestre de formação no fim do ciclo. Os professores indianos dão um nome aos alunos quando consideram que estes estão “transformados” e dominam finalmente a arte ensinada. “Tarika” é uma estrela e Valli é uma grinalda, a tradução em português de TARIKAVALLI, será “grinalda de estrelas” ou ainda uma “trepadeira de estrelas”. É um presente que os indianos oferecem a Deus, tendo por isso um significado tradicional e profundamente religioso para este povo”.

Lembra-nos que não mudou de nome : “chamo-me Maria Mendes Ferreira de Oliveira, Tarikavalli, transformou-se num nome artístico...”.

Agora, o seu Mestre indiano instalou-se também em Paris e acompanha Maria por todo o lado nos seus espectáculos.

Maria não tem muitos contactos a nível da comunidade portuguesa em França, mas desloca-se a Portugal uma ou duas vezes por mês para ensinar esta dança aos portugueses e participar em grupos de trabalho dedicados a esta actividade. “O facto de ser convidada a ensinar em Portugal é muito importante para mim e dá-me grande alegria pelo facto dos meus pais terem emigrado por razões económicas e saber que têm orgulho por aquilo que eu faço”.

Confessa que gostaria de ir viver para Portugal onde não tem concorrência na sua arte, “por enquanto, porque estou a formar bailarinas que amanhã estarão no mercado, mas é uma decisão difícil de tomar”.

No espectáculo do dia 10 de Novembro, Maria vai actuar com um ou dois textos traduzidos em português : “já resultou em Portugal, o público foi muito receptivo, espero ter muitos portugueses no meu espectáculo e que apreciarão”, disse à Vida Lusa.

Nós também, esperamos que a nossa comunidade vá descobrir esta estrela que também quer brilhar entre nós. 

 

AC

 

 

Setembro 04

A ressurreição do Fado?

Entrevista com a fadista Mané

 

O autor desta entrevista conhece e aprecia a Mané, há mais de vinte anos. Reconhece gostar de fado, da voz, da maneira como esta ela o interpreta, da artista e da pessoa. Ver pois na FNAC, o antro da promoção da música francesa, grandes cartazes e uma secção consagrados ao seu último álbum, foi um enorme prazer que não ousaria tentar disfarçar.

Depois de ouvir os temas do CD, não nos admira tal empenhamento na promoção e na produção por parte de franceses que amam a nossa canção nacional.

Não quisemos aqui elogiar ou até comentar o disco de Mané, deixamos isso ao critério dos leitores, queremos apenas alertar aqueles que gostam realmente de fado, dizer-lhes que existe qualidade, que temos grandes talentos artísticos entre nós e que… vale a pena procurá-los.

Encontrámo-nos obviamente num restaurante português para falar do seu último álbum e sobretudo de Fado.

 

Foi uma surpresa muito agradável constatar que o seu último disco de fado está a ter grande sucesso em termos de vendas, em França. Quer contar-nos a história deste álbum?

 

Conheci duas pessoas francesas, ligadas ao mundo do disco. Um dia apareceram em minha casa perguntando se eu estaria interessada em gravar um disco. Um deles era um produtor que gostava muito de fado e já tinha produzido três grandes nomes portugueses em França. Fiquei muito admirada mas aceitei com muita alegria, claro.

O disco foi gravado no ano passado e está à venda nos canais habituais franceses, nomeadamente na FNAC com quem foi estabelecido um partenariado. Vende-se efectivamente bem tendo em conta que não houve grande promoção com excepção da própria FNAC que o colocou várias vezes em destaque com grandes cartazes nos pontos de venda.

Estou bastante orgulhosa, primeiro por me terem convidado e em seguida por ter feito este trabalho.

 

Quais são as características deste seu último trabalho?

 

Eu dei-lhe o nome de “Subtil” porque na realidade julgo ter havido alguma subtileza em ter introduzido fados clássicos.  Tenho alguns inéditos e depois tenho alguns do chamado “fado canção”, não existe este nome, mas enfim chamemo-lhes assim. Fui cantando à minha maneira privilegiando efectivamente o tradicional para fugir um pouco àquilo que se vem fazendo ultimamente e me parece desvirtuado.

 

Ou seja, o que é que se está a fazer agora no fado?

 

Eu penso que o facto de se andar a dizer que o fado vem do Jazz, que vem do Blues, da Morna ou de não sei o quê e o que algumas pessoas em Portugal - que eu não vou citar - andam a fazer foge a meu ver, àquilo que é o fado.

 

Quer dizer que o fado está a ser descaracterizado por alguns interpretes de sucesso de hoje, quer dar exemplos?

 

Sim, é isso. Há pessoas que cantam excepcionalmente bem, mas as interpretações que fazem descaracterizam o fado deixando-se levar por essa onda de inovação. Quanto a exemplos não quero nomear ninguém.

 

Não quer falar de nomes devido à tal solidariedade que dizem existir no meio do fado?

 

Ainda bem que existe alguma, não estou a criticar ninguém, tenho alguns anos de carreira e de experiência, penso por isso poder permitir-me tecer algumas considerações que julgo serem construtivas e não negativas.

Nós vamos avançar com alguns nomes : Carlos do Carmo, Nuno da Câmara Pereira, António Pinto Basto, Mísia, Mariza, Cristina Branco…

 Carlos do Carmo não é novo no fado, tem interpretações que fogem talvez um bocadinho àquilo que é considerado o fado pelos puristas. Agora será também necessário reflectir se os puristas não pararam no tempo mantendo convicções que impedem o fado de evoluir. O fado é música, e como qualquer música de qualquer país do mundo sofre evoluções. O Carlos do Carmo não o desnatura, o Nuno da Câmara Pereira já não é bem fado, é mais balada e o António Pinto Basto é na mesma linha, são pessoas que cantam muito bem, mas quanto a mim não é fado. A Mísia, disse ultimamente numa reportagem que aquilo que ela cantava não era fado, contrariamente ao que dizia no início da sua carreira. Em relação à Mariza ou à Cristina Branco, estão sem dúvida a fugir bastante ao fado. A única que me parece, a mim, para a minha sensibilidade e para os meus conhecimentos, que está a efectivamente a seguir a tradição fadista, introduzindo novas cores e dando ao fado novas oportunidades, novas melodias, novas harmonias, com uma forma de dizer amor diferente, é a Katia Guerreiro.

 

Não acha que para o fado ter sucesso a nível internacional era necessária uma grande evolução de estilo, tanto musical como na interpretação e que os artistas citados têm conseguido impor-se graças a isso?

 

Estou de acordo, tenho obrigatoriamente que estar de acordo, daí que eu tenha dito à instantes que o fado necessita de evolução. Essa evolução passa pela busca das raízes, das influências africanas das nossas antigas colónias ou da música internacional, mas não fujamos das bases porque senão estamos mal.

Num outro registo vou dar-lhe um exemplo do que fiz nos meus dois últimos concertos : Decidi cantar “Uma casa portuguesas” e a “Lisboa antiga” que já não cantava há anos. Os meus músicos ficaram atónitos mas foi o que vi noutros concertos de colegas que têm grande sucesso no estrangeiro. Não é para copiar mas creio que todos nós temos o direito de tirar ilações das coisas que funcionam. O público tem memória auditiva e com o repertório da Amália associa tudo ao fado.

 

Salvo raras excepções de concertos de alguns dos artistas que citámos nas grandes salas de espectáculo parisienses o fado, em França, só se ouve nos restaurantes. Tendo em conta a fraca capacidade financeira dos restaurantes e por vezes as carência profissionais de certos proprietários, a oferta de fado de qualidade parece-nos muito pobre. O resultado é que essas casas são frequentadas quase exclusivamente por portugueses e o fado vive praticamente num gueto. Qual é a opinião da Mané, que anda por cá há cerca de vinte anos?

 

Tudo isto é muito complicado : para fazer evoluir o fado com dignidade, é preciso estudar vários parâmetros tais como, de onde vem, como se faz, para onde se vai e, é preciso qualidade. O público francês é mais ávido de qualidade que o português que é muito mais saudosista, o que se compreende. Dificilmente, sobretudo nos ditos restaurantes portugueses, frequentados essencialmente pela massa trabalhadora portuguesa, saudosa de ouvir fado, se pode produzir qualidade adequada a um público conhecedor e exigente como é o francês. Essa pergunta tinha eu vontade de a colocar : qual é o futuro do fado em França?

 

No início, quando solicitámos esta entrevista, tendo em conta o sucesso do seu álbum e as enchentes das salas de concertos com esta nova geração de talentos, tínhamos pensado intitulá-la de “A ressurreição do fado”. Afinal ainda é cedo?

 

A música é considerada em toda a parte do mundo, como toda a arte, um luxo. Quando o mundo vai mal, a arte vai mal. Todos nós sabemos que a indústria do disco em França, e não só, anda mal, está com uma baixa violentíssima. Artistas de grande reputação são despedidos de um dia para o outro, ainda hoje li no jornal que Mariah Carey está sem editor. Acontece-nos obviamente o mesmo a nós. Falta dinheiro, faltam investidores produtores.

No nosso caso, voltando à clientela dos restaurantes portugueses com fado, tenho a impressão que as pessoas não vão ouvir fado no restaurante, vão jantar e acessoriamente ouvir fado, é como se estivessem a ouvir uma música de fundo. É por isso também que raramente as pessoas res-peitam o necessário silêncio durante as interpretações. Se reparar, nas grandes salas como o Olympia e outras, as pessoas ouvem em silêncio, porque são pessoas que estão ávidas de fado.

 

António Cardoso

 

 

Maio 04

Agora também tenho… A televisão de Portugal

 

Com o aproximar do Euro2004 em Portugal, os mais reticentes à televisão portuguesa começam agora a procurar equipar as suas casas com os canais do nosso país. Fomos naturalmente interrogar um dos nossos anunciantes especializados nesse ramo, o Sr. Fernando da Silva da empresa TéléGare em La Varenne St-Hilaire (94).

 

Explique-nos o que é a empresa TéléGare.

A TéléGare é uma loja que está aberta ao público desde 1968. Eu nasci em 1968, portanto não estava cá, fiquei com o negócio há cinco anos. Já tinha a sua clientela, mas era uma clientela francesa.

 

Qual é exactamente o ramo?

Reparações, venda de aparelhos de electrodomésticos, televisões, video-projecção... e sendo as antenas a minha especialidade, especializei-me um pouco mais para que os portugueses possam ter acesso a todos os canais portugueses, através da TV Cabo.

 

As pessoas já sabem que podem captar a RTPi através de uma parabólica ou do cabo, o que as pessoas menos conhecem é como obter todos os canais portugueses, incluindo a TV Cabo. Como é que se procede tecnicamente?

Tecnicamente, o sistema é uma parabólica também. É num satélite naturalmente diferente do da RTPi, é numérico, é digital e não tem nada a ver com o antigo que era analógico. É um sistema mais complicado do que era a RTPi, que qualquer pessoa instalava. O numérico tem que ser com certos aparelhos para poder sincronizar os satélites.

 

É necessário instalar uma antena parabólica e um descodificador munido de um cartão. Como é que as pessoas podem fazer para ter acesso?

Tem que saber que há muitas pessoas que confundem a TV Cable com a TV Cabo. A TV Cabo é o nome dum operador português tal como a TPS ou Canal Satéllite em França. Só se pode aceder através de uma assinatura anual a debitar todos os meses numa conta em Portugal. O preço depende do “bouquet”.

 

Resumindo : as  pessoas têm de dispor de uma conta à ordem em Portugal, o número de contribuinte e do Bilhete de Identidade português. Quanto custa e quais são as garantias?

O aparelho é garantido, pela TV Cabo, dois anos, o preço do aparelho é para toda a gente igual, é de 395e, pertence ao cliente, é dele. Depois tem o preço da instalação. Se for um cliente que já tem a RTPi, é muito mais fácil, já tem uma parabólica, a gente já pode guardá-la e mudar só a LMB, ou seja a cabeça e dirigi-la para o satélite.

 

Quer dizer, pode continuar a captar a RTPi...?

Não no mesmo satélite, noutro. São dois satélites completamente opostos : um é a 30 e o outro é a 13°.

E as pessoas que já têm, por exemplo, Canal Satéllite ou TPS?

Com a parabólica do Canal Satéllite ou do TPS não podem captar. Têm de instalar outra parabólica e outro descodificador.

 

Nós conhecemos outros profissionais nesta área. Qual a diferença entre a TéléGare e outros operadores?

Na TéléGare a assinatura é feita para Portugal. Quer dizer, as pessoas pagam a um operador português, em Portugal, não pagam em França. Todos aqueles que pagam em França, pagam muito mais caro a assinatura. Um exemplo, em vez de estar a pagar 21e vai pagar 31 por mês pelos mesmos canais.

 

Quais são os preços?

O primeiro preço começa a 13,59_, tem trinta canais, depois há o serviço de Família que são 16,85 euros, e seguidamente há aquele que mais se faz, que toda a gente quer, o Super Sport TV, que inclui a Sport TV mais os canais nacionais.

 

Há algo que não percebemos muito bem. Há pessoas que pagam em Portugal, e outros fazem pagar em França. Mas afinal, quem é que debita a conta do cliente, num caso e noutro?

É um pouco complicado. As pessoas que fazem debitar aqui em França, pagam a intermediários, o contracto nunca está em nome do cliente, mas em nome dessas empresas que por sua vez vão pagar à TV Cabo a Portugal.

 

Isso quer dizer que se essas empresas, por uma razão ou por outra tal como abrirem falência, o cliente não estando vinculado à TV Cabo deixa de receber os canais...

Exacto, os clientes ficam sem acesso aos canais e depois com os aparelhos que já têm, não podem fazer nada, porque eles não existem como clientes actuais na TV Cabo.

 

Então além do preço a diferença principal é essa. Essas empresas agem por conta própria, compram um determinado número de acessos e aparelhos à TV Cabo em Portugal que vendem aos seus clientes.

Exactamente, a TéléGare é um agente da TV Cabo em França. Vende para a TV Cabo. Os contratos são feitos em nome da TV Cabo.

 

Quais são as perspectivas e próximos projectos da TéléGare?

O desenvolvimento na área do multimédia, como há muitos restaurantes e comércios portugueses, é fazer video-projecção, para se ver o campeonato Europeu em grande. São ecrãs plasma, home-cinemas, como lhe chamam... É algo que já fazemos mas queremos desenvolver este ramo um pouco mais.

 

A TéléGare tem publicidade por todo o lado, tem um site internet. É uma empresa dinâmica que tem tido sucesso...

É também devido à seriedade que temos tido com os clientes, à rapidez no serviço, e o serviço “après-vente”, que conta muito. Estamos dispostos à hora que convém ao cliente. Tentamos dar o melhor que podemos e estar à disposição deles.

 

Temos constatado que grande parte dos cafés, restaurantes e as associações já estão equipados. Pensa que este desenvolvimento vem reduzir a importância da RTPi?

Sim porque a RTPi, muitos dizem que devia ser reformada. Quer dizer ser feita por emigrantes. As pessoas costumam dizer, quando falam da RTPi, que é uma cassete, enlatados, é sempre a mesma coisa que está a passar. E as pessoas querem ver, cada vez mais, o directo. Precisam de mais informação, de mais proximidade... O que eu gostaria é que todos os português pudessem dizer : Agora também tenho… a televisão de Portugal.

 

Fernando da Silva nasceu em Chaves, diz ser flaviense de gema. Foi livreiro na terra mas quando chegou a Paris, em 1989, tinha vinte e um anos, começou a trabalhar nas antenas parabólicas com a comunidade judaica.

Conta-nos com ar desapontado que nessa altura um dos seus colegas lhe disse que “se a comunidade portuguesa fosse tão unida como a deles teria sem dúvida nenhuma um grande sucesso”.

Diz que os portugueses estão a mudar, “somos demasiado individualistas, em praticamente todos os ramos há um português, pensa-se muitas vezes que não temos qualidade para fazer coisas boas, mas somos um milhão e tal aqui, felizmente que as novas gerações têm outras ideias. Lembro-me dos emigrantes quando iam lá a Portugal de férias. Dou-me conta que no fundo é isso, somos individualistas. Devíamos ser mais unidos, fazer-mos mais pela comunidade e mostrar daquilo que somos capaz, não nos esconder tanto. Mostrar o que valemos, mostrar o nosso valor”.

Respondendo ao que seria necessário para alterar alguns comportamentos e alheamento ao interesse comum dos nossos compatriotas, Fernando da Silva diz não ser especialista mas sugere que as pessoas se encontrem mais, se reunam mais a nível associativo, a nível político, “se toda a gente der um bocadinho de si mesmo, havemos de conseguir”.

Referindo-se à mau tratamento que se dá à língua portuguesa nas comunidades, “às vezes, as pessoas podiam dar, como prenda para os filhos mais pequenos o Asterix em português, em vez da versão francesa que eles já sabem ler. É um exemplo para as pessoas, que é por ai que se começa, dando aos pequenos um livro em português. Antes de vir para aqui, era livreiro, gostava muito de ler, mesmo se agora tenho menos tempo. Mas é verdade que é por ai que se começa. Os portugueses deviam comprar mais livros em português”.  

 

António Cardoso

 

 

Março 04
"A medicina legal é muito mais uma ciência de vivos do que
uma ciência de mortos", Prof. Pinto da Costa

O Prof. José Eduardo Lima Pinto da Costa nasceu no Porto no ano de 1934. Terminou a sua Licenciatura em Medicina e Cirurgia no ano de 1960, com a tese de dissertação de licenciatura intitulada “Morte por acção do óxido de carbono. Estudo médico-legal”, a qual mereceu a classificação de 18 valores e foi referenciada na Revista Internacional da Interpol. Ingressou no quadro do Instituto de Medicina Legal do Porto, como preparador, em 1960, após estágio voluntário efectu-ado em 1959, em 1967, mediante concurso e por proposta unânime do Conselho escolar da Faculdade de Medicina foi nomeado para o lugar de chefe de serviço do Instituto de Medicina Legal do Porto.
Em 1961, mediante proposta, por votação unânime do Conselho Escolar da Faculdade Medicina do Porto, foi nomeado assistente de medicina legal e toxicologia forense, dessa faculdade, cargo que manteve até 1974, quando após prestação de provas de doutoramento, em 1973, em ciências médicas, medicina legal com prova complementar em psiquiatria forense, obteve a classificação máxima de distinção e louvor e foi convidado para Professor Auxiliar, passando a Professor Associado em 1979 e a Professor Catedrático, entre 1996 e 2001, tendo pedido a exoneração deste cargo após o seu afastamento da direcção do Instituto de Medicina Legal do Porto. Frequentou o curso Superior de Medicina Legal do Porto, pós-graduação, em 1961, com a classificação de muito bom.
Actualmente é Professor Catedrático Convidado no Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar e na Faculdade de Direito da Universidade do Porto.
Foi considerado como uma das 100 personalidades da Cidade do Porto no Século XX, e deixa uma obra inegável, sólida e ímpar no Norte do País, a nível médico-legal e se mais não conseguiu é porque as suas propostas, conselhos e exigências nem sempre foram devidamente contempladas. Respeitado por uns e odiado por outros, o seu percurso continua linear e igual a ele próprio.

O Sr. Prof. dedicou a sua vida a estudar os seres humanos. Ao fim destes anos todos, qual é a mensagem que nos pode transmitir?
Em primeiro lugar, tornarmo-nos ainda mais humanos. Na medida em que compreendemos melhor os outros, também temos mais hipóteses de nos compreender a nós próprios. Nas nossas ansiedades, nas nossas angústias, nas nossas dificuldades. Aprender a dar a volta às dificuldades, que na realidade surgem no dia a dia, porque a vida, mesmo a chamada vida linear, resulta de uma conjugação de efeitos positivos e negativos. E portanto, o que é preciso é a que a pessoa tenha confiança em si próprio, nas suas possibilidades, sem as exceder, mas também sem as minimizar. Isso varia de pessoa para pessoa, porque está de acordo com a sua personalidade prévia com factores hereditários e, inclusive, com a aprendizagem que teve desde os primeiros tempos, em regra, sublinha-se, os dois primeiros anos. Eu vou um bocado mais atrevidamente dizer que ainda na barriga da mãe já se começa a estruturar o futuro do ser humano. De qualquer das maneiras, com as suas virtualidades, ou eventuais defeitos, se for amparado, se alguém o ajudar a compreender melhor a vida, se por si só cada um de nós não for capaz, isso é altamente positivo. Não é só nós vivermos para nós próprios, mas darmos também aos outros. A entrega aos outros, como aliás a minha vida tem sido até agora, dá-nos uma certa à vontade, uma alegria de viver, mesmo nos momentos mais difíceis, se nós tornarmos esses momentos menos maus às pessoas, isso já é um objectivo importante.

O Sr. Prof. tem um currículo invejável. Será que lhe falta fazer ainda algo?
Continuar a viver. Eu gosto muito mais, apesar de tudo, gosto muito mais de aprender do que ensinar. Embora ensine, e ponha à disposição dos outros os poucos conhecimentos que tenho adquirido nestes tempos, de qualquer das maneiras, penso continuar igual a mim próprio. A defender com frontalidade os princípios que acredito e estimulando os outros sem impor, dando-lhes a conhecer a possibilidade de decisão, porque as pessoas o que têm que estar é suficientemente informadas. Porque sem informação não há responsabilidade. Eu costumo dizer até, que as pessoas decidam mal, mas primeiro informem-se, porque se decidiram mal, mas se decidiram em consciência se calhar foi mau para mim mas foi bem para eles. Porque do ponto de vista ético nós temos que respeitar o pensamento dos outros.

Na Medicina Legal, existe a espiritualidade?
Existe. A Medicina Legal é uma medicina global nos pontos do mundo mais avançados. Portanto, quer dizer, trata-se dos problemas classicamente ditos do corpo, e trata-se dos problemas ditos do espírito. Considerando o Homem na sua globalidade, como pessoa humana, bio-psíquica ou psíco-biológica, como quiser. A tónica prioritária de um ou de outro, depende muito da formação e das convicções de cada um. Mas hoje é indissociável o comportamento humano dessa mesma pessoa.

Muitas vezes as pessoas olham para a Medicina Legal com uma certa reserva.
Será que é o medo da própria morte?

O desconhecimento implica sempre medo. E como as pessoas não têm a noção exacta do que é a Medicina Legal, associam-na sempre à Medicina dos Mortos, e isso leva a uma certa rejeição. Mas é curioso, em boa verdade, a Medicina Legal é muito mais uma ciência de vivos do que uma ciência de mortos. Em números redondos, por exemplo, eu posso-lhe dizer que 7 mil e tal exames de vivos correspondem mil exames de mortos, por ano. A proporção mostra evidentemente, que se trata muito mais de problema dos vivos do que dos mortos.

O Sr. Prof. é docente Universitário. À parte da ciência que ensina, qual é a mensagem que tenta transmitir aos seus alunos?
Que as pessoas sejam as mais humanas, mais reflexivas, que consigam abarcar o conhecimento, o que hoje é muito difícil. Hoje as pessoas acabam por perder-se na Internet, não conseguem seleccionar sequer qual é o conhecimento que lhes poderá ser mais favorável em determinada ocasião. Tenho sempre uma preocupação de ajudar os estudantes, estou a falar de estudantes que por vezes têm 40 anos, 50 e até mais do que isso. Porque todas as pessoas que frequentam os meus cursos, não só de pré-graduação, como de pós-graduação, têm idades variadas, mas aconselhar : “Olhe, talvez esta matéria seja de se reflectir sobre ela, ou talvez não interesse tanto”. E assim sucessivamente. Pois a Internet que, nos proporciona uma informação geralmente grande, tem, digamos, hoje, uns certos prejuízos no efeito da aprendizagem porque nós não sabemos o que é que devemos seleccionar.

Existem alguns fenómenos de individualismo, egoísmo e de falta de solidariedade.
Que é que o Sr. Prof. pode dizer a este respeito?

Devemo-nos debruçar sobre estes fenómenos porque a realidade mostra-nos que tudo é favorável ao egoísmo actualmente. Muitos dos valores actuais, em qualquer parte do mundo, sobretudo no mundo que se diz mais documentado, mais civilizado, entre aspas, porque civilizados somos todos com civilizações diferentes, o egoísmo é na realidade um carimbo, é uma espécie de paradigma traduzido pelo dinheiro. O dinheiro é um valor máximo que substitui a moral, substitui a religião, substitui todos os valores convencionais. Quem tem dinheiro tem muito poder. Quem não tem dinheiro nenhum, não tem poder. Portanto haverá que estabelecer uma solução de equilíbrio, que foque o problema da pessoa humana e não propriamente outros valores para que haja pessoas humanas com capacidade para resolver os seus próprios problemas, de maneira tão diferente como se verifica e cada vez mais com uma certa preocupação, devido a esta falta de valores que são essenciais para que nós nos aproximemos uns dos outros. Basta dizer um “Bom dia” à pessoa que não conhece, que encontra na rua, quando está numa fila, quando está num ascensor, quando está num sítio qualquer. Mas que tenha a presença de que outro está ali da mesma maneira que nós próprios estamos também.

 Adelino de Sá - Gazeta Lusófona

 

Janeiro 04
Secretário das Comunidades Portuguesas entregou primeiros Bilhetes
de Identidade feitos no Consulado de Paris

A reestructuração consular é também a emissão de bilhetes de identidade nos consulados?
É bom que as pessoas tenham em consideração que a reestructuração da rede consular implica um conjunto de medidas muito vastas. A primeira das quais é exactamente a modernização. Esta é a questão central da reestructuração da rede. Restruturar, em primeiro lugar, é modernizar. A primeira medida prática de modernização foi esta, em Paris. Noutros sítios foram outras, que já estão executadas há algum tempo. Mas no caso de Paris, a primeira medida no âmbito da modernização e de reestructuração consular foi exactamente a emissão de bilhetes de identidade. Depois, seguir-se-iam outras, nomeadamente a informatização de postos consulares, a evolução deste sistema de criação de centros emissores de bilhetes de identidade, e igualmente medidas de racionalização da rede, que passam por fechar postos num sítio, abrir outros noutros. Portanto, a esse nível, as coisas estão a decorrer conforme o planeado, num ou noutro ponto com ligeiro atraso em relação àquilo que inicialmente tínhamos pensado, mas naturalmente,  há sempre questões práticas de execução que são inicialmente incomparáveis.

Quantos consulados vão poder emitir os bilhetes de identidade?
De cinco postos evoluiremos para quinze a vinte, primeiro. Segundo, alargamento da rede de passaportes a postos em que tal se justifique. Há poucos meses, fizemo-lo em Santos, no Brasil, vamos continuar. Mas num ou noutro, em que tal seja ainda muito evidente, a modernização da rede de vistos, de acordo com o novo programa europeu, que obriga a uma padronização ou uma uniformização dos vistos no espaço Shengen.
Quanto ao alargamento da rede de informatização dos postos consulares, neste momento, depois de tudo o que foi anunciado no passado, só trinta e cinco postos consulares, de cento e vinte e um, é que estão informatizados. Ora, ao longo de 2004, vamos ter, em França, mais quatro postos que serão informatizados, Lyon, Clermont-Ferrand, Tours e Toulouse, são estas as medidas mais imediatas que estão em curso. Há igualmente ligações informáticas que serão estabelecidas, não estamos no entanto a falar já de informatização total a pequenas antenas consulares que nós temos nalguns sítios. Temo-las sobretudo em locais onde existiram postos que encerraram. O caso, por exemplo, de Rouen, é um caso que vai ter uma ligação em rede a Paris. Osnabruck, vai ter uma ligação em rede a Hamburgo. Agora, em França, Rouen é o único caso que se justifica. Estamos a estudar igualmente a forma de tentar ter um serviço de proximidade para os portugueses que estão na Córsega, a nossa intenção de abrir um escritório consular, está a ser analisada.

E para os que vivem longe dos Consulados...?
A ligação em rede permite fazer várias coisas, mas há coisas que jamais conseguirão ser assim feitas. Há actos que têm de ser tratados pessoalmente, não é possível tratar por via electrónica o bilhete de identidade, o passaporte, a procuração, o testamento, o divórcio, o registo de nascimento... senão poderíamos estar a abrir um campo às mais variadas ilegalidades e irregularidades. Portanto aí não podemos deixar de ter as pessoas presentes nos serviços onde nós temos antenas consulares. Agora o consulado virtual integrado num portal das comunidades, está em evolução, e posso dizer que, entre Janeiro e Fevereiro, a primeira experiência de consulado virtual vai passar a funcionar em São Paulo. E vamos ver como vai decorrer esta experiência. Isto vai integrar-se num portal das comunidades. O Portal das Comunidades que poderá estar pronto, em princípio, ainda em 2004, vai permitir a muita gente de informar-se ou até tratar alguns actos. Agora repito, há coisas que nunca dispensarão a presença da pessoa nos serviços consulares, porque a pessoa tem de ir lá assinar, dizer que é ela, que está presente, senão poderíamos, a certa altura, estar a tratar do processo de pessoas que já desapareceram, pessoas mortas, que têm problemas da mais variada natureza, ou até registar nascimentos que não existem. Portanto, como não podemos fazer isso, o que temos de fazer, nalguns casos em que temos comunidades com expressão e muito distantes de postos consulares, é ir abrindo serviços. Posso dizer que nestes últimos meses, nomeámos novos cônsules honorários, estamos à espera dos “agréments” das autoridades locais, que vão ter apoios para fazer funcionar estruturas consulares em locais como Kingstone, London, Lemington no Canadá, em Los Angeles, na Ilha Margarita, na Venezuela. Estamos a utilizar, pequenas entidades, pequenas estruturas consulares em comunidades que não precisam mais do que isso. É a forma que nós temos de atender algumas comunidades que estão a quinhentos, mil, dois mil quilómetros, do posto consular mais próximo.

Como está a evoluir a situação da contagem do tempo de tropa para os ex. militares?
O processo está em fase de resolução, não está ainda resolvido, nem para os portugueses que foram atingidos pela lei que foi aprovada ainda em 2002 pelo Parlamento. É uma situação que espero que se venha a resolver ao longo dos próximos meses para aqueles que não têm descontos em Portugal para a Segurança Social. Não vale a pena ter ilusões, é uma solução que não é fácil executar visto que implica em termos financeiros um esforço muito elevado da parte do governo português. Em qualquer caso, com a colaboração que tem havido entre os diversos ministérios, neste momento, julgo que estão criadas as condições para esta situação evoluir e para que dentro de algum tempo surjam respostas concretas.

Que chama “dentro de algum tempo”?
Será o tempo possível, não podemos pôr uma medida destas em marcha sem termos a certeza que temos meios para a atender.

Esta questão não se põe só agora, os governos anteriores já trabalharam sobre este assunto...
Não, esta questão nunca foi tratada em Portugal, começou a ser tratada agora e é por isso que ainda não foi resolvida. A grande questão é esta : há mais de trinta anos que o problema existe, existe pelo menos desde que os portugueses começaram a cumprir o serviço militar, sobretudo aqueles que estão aqui e foram atingidos mais directamente pela guerra colonial. Foram obrigados a sair de Portugal depois de regressaram da guerra colonial, encontraram o país sem emprego, foram obrigados a emigrar, não fizeram os descontos em Portugal e, por causa disso, automaticamente são confrontados com esta questão. Mesmo alguns que tenham feito os descontos em Portugal, também tinham problemas, porque fizeram descontos para sistemas que não eram públicos. Todos estes têm este problema por resolver.
O que se está a fazer? É exactamente encontrar, quer em termos de legislação, quer em termos práticos, formas de resolver esta questão. No fundo poder dizer à pessoa: o seu tempo conta para efeitos da sua aposentação, quer esteja em Portugal, quer esteja algures, noutro país qualquer, desde que, com esse país, haja acordos em matéria de segurança social, porque se não houver, não há qualquer forma de resolver esta questão.

No momento em que o bilhete de identidade português vai substituir aqui a famosa “carte de séjour”, o problema do reconhecimento do divórcio em França pelos tribunais portugueses continua na mesma...
O divórcio é um problema judicial, dos tribunais. O divórcio é um acto litigioso ; porque é um acto litigioso implica sempre a possibilidade de haver contestação por parte do Ministério Público e a possibilidade de existir sempre contestação por uma das partes. Portanto, é impossível permitir que esse processo deixe de passar pelos tribunais. Não há acordos entre os tribunais franceses e portugueses, e esse é um problema que existe. Existe e existirá! Até que um dia, no espaço da União Europeia se encontre uma política judicial única. Mas com toda a franqueza, não tenho condições para garantir às pessoas um mínimo de expectativas relativamente a isso.

O Conselho das Comunidades continua a queixar-se de não ser ouvido nem consultado em relação às políticas para as comunidades.
Não sei de quê porque nós temos falado de tudo. Ainda vou falar com eles outra vez. Amanhã irei a Orléans, depois do Conselheiro local me ter feito sentir que havia necessidade de lá ir. O que é que é possível fazer mais com o Conselho das Comunidades? Francamente, não sei. Pessoalmente já esgotei todas as formas de diálogo e mantê-las-ei. Mas estou convencido que o diálogo tem sido bem evidente. Agora há uma coisa. Nós não vamos fazer tudo o que o Conselho das Comunidades quer que se faça. Nalguns aspectos, até porventura, eu próprio considero até como erros. O Conselho das Comunidades não admite que a rede consular tem de ser racionalizada. Acho que é um erro crasso. Manter alguns consulados abertos, é um erro grave, porque não servem, é desperdício de meios, e nós temos de racionalizar os meios. Não há nenhum país que não o faça. Agora manter abertos consulados que têm dois ou três mil actos consulares por ano com quatro, cinco, seis funcionários é um erro. É desperdício de meios para a administração pública, o Conselho não admite isto, lamento. Mas em qualquer circunstância, a minha vontade, relativamente ao Conselho, é de ter toda a colaboração e dialogar sobre tudo.

As associações e federações queixam-se de não ter apoios suficientes para exercer as suas actividades. A CCPF e a FAPF debatem-se com graves problemas financeiros. Qual é a realidade sobre este assunto e qual é a estratégia do Secretário de Estado?
Os problemas que existem, essencialmente, existem com as grandes federações e confederações. Eu considero que os apoios têm de ser dados prioritariamente a actividades concretas, não a estruturas administrativas. E por isso temos apoiado actividades em concreto, tais como o Festival de Teatro, nas condições que nós temos. Há outros casos em que as questões são diferentes, porque nós não vamos manter estruturas administrativas. Eu sei que algumas associações ou federações estão a atravessar dificuldades, porque também estão a acabar apoios por parte das autoridades francesas, isso é inultrapassável. A França continua com bom nível, apesar do nosso esforço para ter maior igualdade entre as comunidades, o que não existia. A França absorvia mais de 80% dos meios, e ainda hoje absorve a parte do leão. Agora vamos ser muito selectivos. Por outro lado, nós temos inte-resses estratégicos em certos países, o caso do Brasil, o caso de Espanha, o caso dos Estados Unidos, são incomparavelmente diferentes. E temos movimentos associativos muito mais fortes nesses países. Não vamos comparar a quantidade de pequenas associações que aqui (em França) existem com, por vezes, meia dúzia de associados, com associações que têm por vezes, milhares. Não podemos comparar um país como França, em que nós temos uma estrutura de ensino português, - que não é minha mas do governo português, ainda com dezenas largas de professores, com países que não têm um único professor, como é o caso dos Estados Unidos, do Canadá ou da Austrália. Nós teremos de fazer alguma selectividade. Mas há projectos que têm sido apoiados. Claro que as pessoas desejariam ser apoiados com mais dinheiro, claro. Dei há pouco um exemplo de um projecto em que nós vamos investir, o caso das comemorações dos trinta anos do 25 de Abril aqui em França.

Para resumir, apoio administrativo não, apoio a iniciativas, sim...
Exacto, eu fui dirigente associativo, participei nas mais variadas associações ; com toda a franqueza, acho que há um espaço de empenhamento que não passa pela profissionalização. A profissionalização pode ser garantida, mas há custa dos recursos próprios. Repito, fui dirigente de grupos folclóricos, fui presidente duma associação de estudantes, fui dirigente das mais variadas associações, sei muito bem o que é a vida associativa, o que se pode e não pode fazer. Nós estamos muito empenhados em encontrar as melhores soluções, mesmo para essas estruturas federativas. Agora há uma coisa que não podemos fazer, é mantê-las, ajudar a manter a estrutura burocrática das mesmas, isso não temos condições para o fazer.

Existe alguma relação entre as remessas enviadas pelos emigrantes e o orçamento que lhes é globalmente destinado?
Isso é uma questão antiga, efectivamente. As remessas dos emigrantes justificam ou não que haja mais políticas, em prol dos próprios emigrantes. Posso dizer que em 2004, os meus serviços vão gastar, com as comunidades, mais de três vezes aquilo que se gastou em 2003, e em 2002. Recentemente, só agora é que nós conseguimos encontrar um novo quadro legal que permitisse que as acções em prol das comunidades portuguesas fossem contempladas também pelo Fundo para as Relações Internacionais. É muito recente, tem meses apenas. Demonstra bem qual é o nosso empenhamento nisto. E por causa disso é que nós vamos ter mais meios disponíveis, exactamente por estas razões. É à custa desses meios que nós vamos pagar estas medidas de informatização e modernização das redes consulares.

Aurélio Pinto e António Cardoso

 

Dezembro 03
Entrevista com Agnès Pellerin, jovem autor de um livro intitulado
"Le Fado",
lançado pelas Edições Chandeigne

Agnès Pellerin, gostaríamos que se apresentasse aos nossos leitores.
Tenho 25 anos, sou francesa, não tenho origens portuguesas e descobri Portugal há 5 anos. Fui lá de férias, participei num campo de trabalho perto de Castelo Branco e foi assim que descobri este país, a sua língua e que tive vontade de o conhecer melhor.
Tendo trabalhado na Universidade, sobre um assunto que tinha ligação com a cidade e com a cultura portuguesa, procurava ao mesmo tempo um tema para a minha “maîtrise”, quando um professor meu, que era bastante aberto, me propôs “o fado”, do qual eu não conhecia nada. No ano seguinte, tive a oportunidade de passar um ano em Lisboa para fazer a minha “maîtrise” sobre este tema.

Era um professor português?
Não, era francês. Era professor na Universidade de Nanterre, professor de Filosofia mas interessava-se muito por Artes, dava aulas de Teatro e conhecia o fado, dizendo-me logo que seria bom que eu fizesse uma pesquisa no terreno. Foi assim que eu fui, durante um ano, para Lisboa, pesquisar sobre o fado, sabendo que havia muitos fadistas que cantavam nesta cidade.

O que é que fazia como curso na Universidade?
Estudava Filosofia, e nessa linha, resolvi pesquisar sobre a ideia de fatalidade no fado, e a coexistência entre a fatalidade e a liberdade de expressão. Foi o eixo que consegui para começar a minha pesquisa e para descobrir o fado.

Então, antes do seu professor lhe ter falado, nunca se tinha interessado nem pela língua nem pela cultura portuguesa?
Ainda não. Ainda vivia em França. Só depois fiz contactos em Portugal, onde aprendi a língua ; assim que comecei a falar um pouco, logo entrevistei os cantores e as pessoas ligadas ao mundo do fado.
O fado nasceu em Lisboa, nas margens do Tejo, como todos sabem, num ambiente de porto, mas também nasceu de uma experiência de distância, de separação, do desconhecido, ligada entre outras à vida dos marinheiros, que através do canto, contavam às vezes de maneira humorística, as dificuldades e as vissitudes da vida que levavam no mar.
Mas o fado que se canta longe de Portugal, em França por exemplo, baseia-se bem na partilha de um sentimento muito forte, gerado pela experiência do exílio.
Cantar o fado, em certos bares de Paris e da região parisiense, serviu como em Lisboa, para lutar contra a solidão, imposta por uma grande cidade e criar em pequena escala, meios de convivialidade e solidariedade.

Foi fácil conseguir contactos em Lisboa?
Sim, acho que as pessoas gostam muito de falar do fado, que aliás faz parte da vida deles, é uma coisa muito quotidiana, vê-se bem como o fado parece vital para essas pessoas. Tenho orgulho em mostrar e dar a conhecer melhor, a arte deles.

Ouviu fado em França e em Portugal. Achou diferente?
Sim, acho que há algumas especificidades. Os fados que falam das pessoas daqui, não se ouvem em Portugal. Também há fados que contam como o fado atravessou as fronteiras. Mas acho que o fado em França, encontrou alguns espaços que têm mais a ver com os de Lisboa. Depois há algumas questões de língua, ás vezes ouve-se o sotaque francês.
A experiência da imigração deu origem por vezes a uma criatividade própria. Se os portugueses continuaram a cantar o fado e a tocar guitarra em França, como em Portugal, outros começaram a cantar em França e a escrever poemas aqui, para o fado.
Encontra-se em França, como em Portugal, a distinção entre um fado de concerto e um fado popular. O fado de concerto, passa-se em grandes salas, representado por artistas sobretudo mulheres, apresentadas muitas vezes como “herdeiras” de Amália, tais como Cristina Branco, Mísia, etc., que cantam músicas sofisticadas com poemas literários, dirigidos a um público de apreciadores, que tem o hábito de frequentar concertos de músicas do mundo.
Por outro lado o fado popular e tradicional, é uma prática expontânea, cantada no seio da comunidade, em família, nos restaurantes, onde a qualidade do fado reside mais na transmissão da vivência, que na autenticidade.

Acha que os jovens em França se interessam pelo fado?
Muitos jovens de origem portuguesa, descobriram o fado bastante tarde, como Bévinda a quem a voz de Amália suscitou a vontade de ser cantora. Atrás do fado, está sempre o problema da identidade portuguesa.
Desde a ditadura em Portugal, quando o fado começou a ser mediatizado assim como o folclore rural, numa espécie de cultura oficial, o fado é designado representar “a alma portuguesa”. E mesmo certos discursos utilizados aqui, no seio da comunidade portuguesa, jogam com esta fibra nacionalista, forçando uma legítima saudade do país, veiculada pelo fado o que não favoriza a integração*.

Nunca houve nada que a chocasse nas letras do fado, as histórias tristes, de morrer…?
Não fiquei chocada, porque guardei uma certa distância da pesquisa. Mas é claro que há alguns fados como “Uma casa portuguesa”, que falam da alegria e da pobreza, é bastante chocante, parece uma banalização da aceitação da pobreza. Mas acho que no fado acontece uma coisa que vem ultrapassar isto tudo, e muitas vezes as letras são também um pretexto para partilhar uma dificuldade de viver e acho que o sofrimento transmitido no fado consegue tornar-se numa expressão artística. Acho que as pessoas sentem uma certa libertação.

Visitou todos os sítios característicos onde tinha nascido o fado e onde ele se canta ?
Descobri mais o fado através de fadistas amadores que cantavam em tabernas, que é uma forma bastante específica do fado. Para mim era a mais acessível, talvez por causa da minha timidez, era mais fácil encontrar-me com estas pessoas que são mais anónimas, do que outras do meio do fado, consideradas artistas. Encontrei depois pessoas que também faziam pesquisas sobre o fado, frequentavam casas onde o fado é uma arte, uma expressão musical. Por vezes as casas de fado são turísticas. Para mim o contexto é um pouco mais distante.

Acha que há uma distância entre essas pessoas, quando são vedetas, são mais difíceis de aproximar?
Sim e também reparei que às vezes, para o fado amador havia uma maior escuta das pessoas presentes, apesar do barulho, do que em casas onde o fado tem uma visão maior, que é um ritual, um bocado privilegiado.

Chama fado amador àquele que se canta de uma maneira espontânea ?
Sim, isso é o que eu chamo o verdadeiro fado. Em casas de espectáculos por vezes, têm um carácter completamente diferente, têm que fazer mais atenção ao cenário, às pessoas que estão presentes. Enquanto o outro não, sai da alma. Não há preocupações de estar a pensar : “será que está a agradar a alguém ?”.
O que existe no fado amador é a participação das pessoas, não há só uma pessoa a cantar. Fisicamente há, mas todos os espectadores desafiam o cantor, é colectivo, é espectacular.

Chama-se a isso uma desgarrada...
Quando vejo os cantares, também vejo o público a desafiar, fazer sentir que está presente, conseguir provar alguma coisa.

Esse estudo durou um ano ? Quando voltou à Universidade, qual foi a reacção?
Acho que ficaram bastante interessados, há muitos estudantes e professores que nem sempre estão muito envolvidos nestes assuntos.

No meio disto tudo, acabou por fazer amigos em Lisboa?
Sim. Fiz contactos com músicos, que cada vez que ia lá, ia vê-los. Também é interessante seguir a evolução turística de Lisboa, ver como as pessoas vivem e depois comecei a trabalhar para completar as informações que tinha para o trabalho de Filosofia, e escrever algo de mais geral, de mais simples.

E o livro ? serviu de mémoire para a universidade?
O livro não.

O livro foi feito graças às pesquisas para o “mémoire”?
Sim. O “mémoire” foi uma base e depois fiz o livro.

E agora continua a interessar-se pelo assunto, ou considera que acabou ?
Acho que fazer um livro assim, é bastante reduzido em termos de espaço de páginas, por exemplo fiz perguntas que merecem dez páginas cada uma. Por exemplo, estou muito interessada na ligação do fado com a propaganda da ditadura. E acho que isto fazia mais uns detalhes...

Agnès nunca pensou em interessar-se pelas diferenças entre o fado de Lisboa e o de Coimbra?
A pergunta é muito interessante... e poderia fazer um assunto de tese...

M. F. Pinto

*Teremos que convidar um dia Agnès Pellerin, se ela aceitar, a vir falar-nos de integração, pois o assunto interessa-nos.

 

Outubro 03
Entrevista com a nova coordenadora do ensino,
Dra. Gertrudes Amaro

Gertrudes Amaro foi professora do ensino secundário, passou em seguida para o ensino politécnico. Fez o mestrado em Boston, nos Estados-Unidos, regressando a Lisboa por convite do Instituto da Inovação Educacional, onde foi Directora de Serviços durante 9 anos.
Enquanto foi professora de ensino politécnico, leccionou na Universidade da Beira Interior, deu colaboração na Faculdade de Ciências de Lisboa, professora de mestrado na Universidade Católica e na Universidade dos Açores, nalguns cursos intensivos.
Enquanto esteve em Castelo Branco, coordenou o polo do projecto Minerva, ligado à implantação de computadores nas escolas básicas e secundárias e coordenadora da Unidade Matemática e Informática
Já em Lisboa, no Instituto da Inovação Educacional, passou a ser a representante de Portugal junto da rede de avaliação da aprendizagem dos alunos na OCDE, durante 7 anos. Foi igualmente Coordenadora do projecto internacional “TIMSS”, sobre a avaliação dos alunos em matemática, que se tornou mais conhecido após a publicação dos resultados de estudos feitos sobre alunos de 43 países.
A coordenação de vários projectos, alguns deles internacionais, permitiram-lhe conhecer muitos sistemas educativos e escolas em todo o mundo, desde Inglaterra até à Austrália, passando pelo Japão, Estados-Unidos...
Em termos de relações com as Comunidades, reconhece que se limitam às “informações que recebia no Instituto, mas estava até agora a representar o Ministério, numa rede internacional de sistemas educativos que tinha essas dimensões contempladas”. 

No ano passado, o início das aulas foi bastante atribulado com muitos problemas. Como estão a correr as coisas este ano? Os professores já foram todos colocados?
Neste momento, (20 de Setembro) creio que só temos para colocar quatro professores devido à passagem à reforma de alguns professores e não ter havido uma comunicação correcta entre o Ministério da Educação e a Coordenação. Entrei como Coordenadora no dia 1 de Setembro, havia ali uma pequena imprecisão e foi por isso que se atrasou um pouco a atribuição destes quatro lugares. Mas já está tudo em curso, os professores já foram indicados, agora é a questão do processo que demora sempre um bocadinho. O resto já está tudo atribuído e colocado, quer os professores destacados, quer os professores contratados. Haverá uma ou outra situação que escape e que tem a ver com alguma indecisão ou desistência de alguns professores. Há horários pequenos e as pessoas constatam que com aquele vencimento não podem viver em França. 
Penso que a situação está dentro da normalidade, dentro de aquilo que tem sido os anos anteriores, mas haverá uma zona ou outra em que haverá alguns ajustamentos, em relação às escolas, aos horários dos professores ou dos próprios cursos dos alunos. Os cursos funcionam também consoante o número de alunos, têm uma determinada atribuição de horas e por vezes é preciso fazer alguns ajustamentos. 
Depois também há que ter em conta que as autoridades francesas não são todas iguais na resposta e com o problema do “Arrêté d’acceptation”, os processos burocráticos não correm todos ao mesmo tempo, há pessoas que são mais céleres, outras menos e é bom também ter isso em conta. Penso que nos próximos dias estará tudo a funcionar em pleno.

Numa entrevista ao jornal Encontro, o Embaixador de Portugal, Dr. António Monteiro, declarou que o ensino do português era das suas principais prioridades. Acha que continua a sê-lo para o actual governo?
Sim, o ensino do português como língua viva. Temos que dedicar com todo o apoio, toda a divulgação, sobre o que significa aprender português como língua viva para quem vive num país que não é Portugal. Quando vivemos na Europa, temos línguas da comunidade, a nossa língua é uma língua da comunidade, é uma língua obrigatória nas comunicações da comunidades. Podemos viver em França, em Espanha, em Inglaterra, na Dinamarca, etc., mas tendo a língua portuguesa o seu papel muito importante na comunidade, é a dimensão forte que o governo quer desenvolver.

Alias, o Embaixador falou na integração do ensino da língua e da cultura a todos os níveis no ensino francês.
Exactamente. Se nós conseguirmos que na primeira opção de línguas, os alunos do primeiro ciclo façam opção por língua portuguesa, se tivermos muito bons alunos que são de origem portuguesa mais os alunos que começam a ter vontade de aprender português, e que isso seja oferecido dentro do sistema educativo francês, é claro que estamos a caminhar muito bem.

Nessa altura, o Ministro Jack Lang, referiu essa vontade, mas depois no terreno não se concretizou como se esperava...
Mas acho que voltou a repensar a sua posição, e temos neste momento indicadores de que, para o ano, vão abrir os concursos para os professores franceses, para o ensino do português língua viva.

Mas hoje o ministro é o Luc Ferry e terão decorrido recentemente negociações inter-governamentais entre os dois países...
É a questão da redefinição das redes, é o que acontece em todos os países. Definir uma rede e vê-la corresponder às necessidades em qualquer país, é sempre uma controvérsia, é sempre muito difícil. Portanto, o problema que se passa em França, também se passa em Portugal, e em qualquer outro país da comunidade. O estudo das redes e a oferta de cursos também têm a ver com as nossas crianças que nós temos, e é a nossa principal preocupação, porque não temos muitos milhares de crianças, deveríamos ter milhões para nos garantir o futuro.
Acho que não houve nenhum retrocesso em relação a essa política. O que poderá ter havido é uma vaga de acalmia para situar exactamente as necessidades em termos do corpo docente e de oferta e procura. Mas tivemos, da parte de algumas Academias, pedidos de mais horas de ensino do português como língua viva, nos chamados cursos integrados.

Na última década, o número de professores de português em França, foi reduzido de 415 para cerca de uma centena, é o princípio do fim...?
Eu não aceito assim. Eu acho que estamos a fazer um esforço muito grande em termos de política externa. Numa época em que nós estamos a dar o apoio ao ensino da língua portuguesa, em primeiro na escola primária, em todos os sítios onde haja realmente essa vontade por parte das escolas francesas, da parte do sistema educativo francês, e nós conseguirmos lá chegar, acho que é muito bom. Mas é verdade que em Portugal também ensinamos o francês como língua estrangeira, e quem dá francês são os professores portugueses. Acho que essa questão não deve ser escamoteada. As comunidades têm todo o apoio naquilo que é uma oferta que será em função das necessidades dessas próprias comunidades.

Que pensa do ensino da língua no meio associativo tal como tem vindo a acontecer?
Esse assunto, digo-lhe com muita franqueza, é um assunto que precisa de ser estudado com muito cuidado. Há, realmente, que compreender bem a dinâmica das associações e ver bem como esse ensino é feito, a qualidade que tem. É um assunto para ser estudado.

Há 10 ou 15 anos que ouvimos dizer a mesma coisa, nomeadamente por parte dos políticos. “É um assunto que tem de ser estudado, que tem de ser avaliado... e finalmente continua sempre na mesma.
Daquilo que está para traz, da acção da antiga coordenação, não posso falar. A nível político, acho que há um interesse de perceber a oferta e a qualidade da oferta. Neste momento é ordem do dia, em todas as dimensões. Toda a gente quer que se estude a qualidade da oferta porque esta tem a ver com os clientes. Não é possível definir uma política sem ter noção da qualidade da oferta. É evidente que o apoio tem muito a ver com essa qualidade.

Temos visto professores que se queixam permanentemente de nunca serem ouvidos pela Coordenação e dizem que quem está no terreno é que conhece a situação porque tem experiência...
As pessoas, normalmente, têm sempre muitas experiências pessoais. Experiências de dimensão de grupo, eu acho que há instâncias em que isso acontece. Eu tenho essa preocupação, acho que é possível, a médio ou a curto prazo ponderar essa experiência que os professores têm e tomá-la em consideração. 

Qual é o papel do Instituto Camões...
Não lhe posso responder porque não é da minha área. Terá de ver com o Instituto Camões.

Mas há uma interligação com a Coordenação?
Nós vamos tentar tudo no máximo. Tentar que os esforços a nível de formação, de passagem de mensagens, tudo o que tem a ver com a língua e cultura portuguesa. Temos que nos unir e fazer esforços no mesmo sentido.

E também alguma coordenação com a Gulbenkian?
Também. São coisas que, quem está no terreno pode ajudar, temos que nos unir. Acho que acima de tudo, a comunicação social tem de fazer passar uma informação séria, correcta, porque por vezes querem-se grandes títulos e não se põem lá as respostas nem aquilo que as pessoas disseram. Isso é uma coisa que me preocupa, normalmente até me nego de dar entrevistas por causa disso. Acho que não é bonito, não tem impacto, nem faz pensar as pessoas sobre aquilo que devem pensar correctamente. 
As pessoas, os pais, os encarregados de educação, as famílias, estão interessadas em saber exactamente o que é o melhor para o futuro dos seus filhos. Quando virem um texto escrito com clareza, que lhes explica que, por exemplo, aprender a língua portuguesa na perspectiva que ela é útil na África, na América, na Austrália ou nas cinco partidas do mundo, como se dizia antigamente, eu acho que isso é que é fundamental. Temos de ter consciência que o português é falado por milhões de pessoas.

Em muitas família portuguesas, os pais falam exclusivamente em francês com os filhos. Também há cada vez mais casais mistos e nem sempre é fácil. Para essas crianças, o português é uma língua estrangeira...
A mãe é capaz de ter mais influência quando as crianças são pequenas, mas hoje os casais já dividem tudo, os pais já conversam tanto com os filhos quanto as mães, isso é lindo. Quando a língua é falada em casa pelo pai e pela mãe, é claro que isso ajuda para que as crianças se sintam mais próximas e aprendam uma segunda língua, a língua materna e/ou a língua paterna, com a mesma fluência. Agora os pais têm de ter a preocupação de falar com eles nas duas línguas e não dar predominância a uma se querem realmente que fiquem bilingues. Isso são só vantagens para os filhos. Quanto mais línguas tivermos a capacidade de aprender, mais versáteis somos, quer do ponto de vista intelectual quer da comunicação, para sabermos o que se passa à nossa volta com profundidade. Eu sofri, quando era nova para aprender línguas, mas hoje sinto-me feliz, quando numa reunião, por exemplo na OCDE, constato que sou das poucas pessoas que ouve sem precisar de tradutor, inglês, francês, espanhol ou italiano. 

O facto das crianças aprenderem simultaneamente duas línguas, tem sido um vasto debate, nomeadamente entre psicólogos... 
O problema é diferente, quando nascemos num meio em que se falam duas línguas diferentes e quando vamos para a escola aprender a língua. Aí é que o debate é diferente, é saber se é uma vantagem ou não aprender outras línguas numa idade mais precoce. Não sei se haverá alguma coisa provada em relação a isso, objectivamente. Há realmente uma discussão por parte dos psicólogos, dos puristas das línguas e outros assim como há estudos contraditórios. Nas questões das ciências humanas não há leis, não é como a matemática.  

Quais são as suas perspectivas? Quanto tempo tenciona ficar por cá?
Eu, normalmente, não ponho metas. Estarei enquanto eu achar que estou a fazer um trabalho válido e enquanto achar que as respostas que vamos encontrar serão mais coerentes e as mais de acordo com os interesses de todos os intervenientes.

Gostaria de acrescentar algo mais?
Desejo muitas felicidades ao vosso jornal, que se divulgue e que ajude a divulgar. E se pudermos colaborar com o vosso jornal... que colabore também com a coordenação para passar informações objectivas aos pais, às famílias, aos professores. Isso é das coisas mais importantes, e é aquilo que realmente precisamos. Que esse esforço seja feito dos dois lados. Se for assim, acho que estamos todos de acordo em colaborar.

 

Julho/ Agosto 03
Fernando Afonso, la trajectoire d'un vice-champion d'Europe
de culturisme devenu homme d'affaires

Né au Portugal et arrivé en France à l’âge de trois ans, Fernando Afonso a très peu étudié, il est allé jusqu’au CAP de comptabilité, et s’est lancé très jeune dans le travail.
Lorsqu'il avait 18 ans, ses parents retournent au Portugal, lui, préfère rester en France, se retrouvant seul et sans un sous en poche.
C’est sa passion pour les sports de haut niveau, tels que la boxe et sa stature physique qui l'ont conduit naturellement à des emplois de protection de biens et de personnes, à l’âge de 19 ans.
Cherchant du travail comme portier dans les boîtes de nuits, il s’est fait engager dans une discothèque portugaise la Costa do Sol, à Villeneuve Saint-Georges (banlieue parisienne).
A 33 ans, Fernando Afonso, est aujourd’hui à la tête d’une PME de sécurité de 130 personnes, créée il y a 4 ans.
C'est l'expérience acquise et les relations tissées avec la clientèle, alors qu’il était directeur dans une autre société, durant trois ans, qui lui ont permis d'éviter les erreurs et de gérer “convenablement ses affaires".
Certains clients l'ont suivi, l’aidant ainsi à démarrer son activité. Aujourd’hui il s’est forgé une renommé et les nouveaux contacts arrivent naturellement grâce à cela.
Malgré le succès, il a su rester humble, gardant la tête sur les épaules, et “ne s'est jamais laissé aveugler par la notoriété des stars" qu’il côtoie régulièrement.
Pour lui, “rien n’est jamais acquis”, mais avoue que sa plus grande revanche sur la vie, est de pouvoir s’acheter une voiture aujourd’hui aussi facilement qu'un paquet de cigarettes quelques années auparavant.
Le sport reste sa passion, Fernando Afonso s'entraîne toujours en salle, saute en parachute avec ses amis policiers du RAID, et s’exerce au tir dans un club.
Toujours aussi intéressé et lié à ses racines, Fernando s’est associé à un autre compatriote pour acheter un restaurant de spécialités portugaises à Puteaux (banlieue parisienne).
Déjà consacré en couverture du journal Encontro, dans l’édition de septembre 1998, lors de son titre de vice-champion d’Europe de culturisme, nous avons repris contact afin de parler de sa fulgurante ascension dans le milieu des affaires.

Qu'est ce qu’une entreprise de sécurité ?
C'est principalement l'assistance et la protection de biens et de personnes, mais le domaine d'application est très vaste et cela va de la protection rapprochée à la surveillance de magasins, la gestion de portiers des boîtes de nuit. Il y a la sécurité publique, c'est l'affaire de la police et la sécurité privée où intervient ma société.

Nous sommes dans votre bureau à Boulogne-Billancourt. Accrochées aux murs, il y a des photos de vous avec des stars internationales telles que Luis Figo, Mariah Carey, Adriana Karembeu, Steven Seagal, Eddy Barclay, Charles Aznavour et quelques dizaines d'autres. Pourquoi et comment êtes-vous contacté par ces personnalités pour assurer leur sécurité ?
C’est venu à travers des connaissances, du relationnel. J’ai commencé comme portier de boite de nuit, c’est ainsi que j’ai fait la connaissance de certaines personnes qui m’ont demandé de travailler pour eux. Ce sont en général des gens riches qui de par leur acti-vité ou leur statut, ont besoin d’être protégés. J’ai été par exemple chauffeur et garde du corps d’une danseuse-étoile russe et je devais l’accompagner partout ce qui m’a permis de faire beaucoup de rencontres dans ce milieu.

Les rencontrer c’est une chose, encore faut-il gagner leur confiance pour travailler pour eux…
Oui, il faut avoir une structure, probablement une bonne présence et un bon contact. C’est certainement l’un de mes atouts et c’est pour cela que j’ai créé une société. Ce sont des gens qui  ne se laissent pas aborder facilement, il faut être patient, discret et surtout recommandé par leurs semblables. Après cela devient plus facile, à partir du moment où ils sont satisfaits par le travail qu’on accomplit.

Finalement votre fond de commerce repose sur le bouche-à-oreille ! …
La protection rapprochée, oui, mais aujourd’hui cela ne représente plus grande chose sur l’ensemble de mon activité, surtout depuis ce qui s’est passé aux Etats Unis, le 11 septembre et la crainte d’attentats. Il y a beaucoup moins de demande car ces gens ne voyagent que quand c’est strictement nécessaire, notamment les Américains. Ensuite, il y a les budgets qui sont aussi plus réduits, donc cela ne m’intéresse plus autant. Dernièrement j’ai refusé Elton John, quand il est venu à Paris, à cause d’un problème de budget.

Il est étonnant que des gens aussi riches discutent autant le montant à allouer à leur protection ! …
Parfois, ce sont ceux qui en ont le plus qui discutent les prix. Les moins aisés sont souvent moins regardants et payent d’avantage. Quand il fallait me faire connaître je faisais des prix bas pour gagner des parts de marché, aujourd’hui, je n’ai plus ce besoin et c’est moi qui impose mes tarifs. S’ils n’acceptent pas, je ne travaille pas.

Nous présumons que vous êtes sous tension permanente lorsque vous travaillez, il faut avoir les yeux partout, cela doit être difficile de protéger Ricky Martin, Madonna ou Mariah Carey d’une foule de fans.
Il en est de même pour les portiers des boîtes de nuit, ils doivent pouvoir se maîtriser face à des situations parfois délicates…
C’est un travail qui demande effectivement beaucoup de tension, de vigilance, de présence et d’efficacité car le client doit se sentir rassuré. Aujourd’hui dans le domaine de la sécurité, on ne peut plus se permettre d’avoir une agressivité. Les lois sont de plus en plus strictes et le rôle du portier est quasiment de l’accueil. Il faut savoir parler et recevoir la personne. Il faut aussi avoir la tête froide pour supporter certaines personnes.

Vous nous avez dit que vous aviez démarré votre société avec 5 employés et que vous gérez aujourd’hui - 5 ans après - environ 130 personnes, il faut que la demande soit forte pour pouvoir les payer.
Mon réseau est bien structuré, quand les radios telles que NRJ et autres accueillent des vedettes internationales ils m’appellent pratiquement en exclusivité, pour que je les accompagne et assure leur sécurité notamment dans les discothèques et autres endroits branchés.  Il faut dire que je fournis les portiers pour la plus part des grandes et plus renommées boîtes de Paris.
L’autre partie importante de mon activité concerne la vigilance dans la grande distribution, c’est-à-dire des centres commerciaux tels que Carrefour, Auchan, Leclerc, etc. Il y a aussi le gardiennage, des pompiers, des maîtres-chiens pour des sites spécifiques tels que des endroits où il y a des manifestations, des fêtes ou des immeubles.

Vous avez acheté un restaurant portugais. Vous travaillez également de plus en plus, en contact avec la communauté !…
C’est une sorte de retour aux sources pour moi. Je suis portugais avant tout. Je vais pouvoir prouver aux jeunes, que les Portugais peuvent arriver à faire quelque chose de bien, et qu’ils peuvent évoluer comme tout le monde, ailleurs que dans le milieu du bâtiment ou des entreprises de ménage.
Lorsque je suis devenu vice-champion d’Europe de culturisme, j’ai participé en tant que portugais. C’est ainsi que j’ai eu droit à la première page du journal Encontro, qui disait que j’étais le “Portugais le plus musclé de France”. J’étais très content et fier, et cela m’a apporté un peu de reconnaissance des gens, notamment là où j’habite, au Portugal.

La communauté portugaise, qu’en pensez-vous ??
J’espère que je la verrai toujours du bon œil, que je serais toujours aussi fier de travailler pour elle et avec elle. Je l’ai déjà fait. Pour moi, il n’est pas question de foncer au Portugal, j’aime beaucoup la France, et elle m’a apporté beaucoup, mais travailler pour et avec les Portugais, c’est une fierté pour moi. 

A. C.

 

Julho/ Agosto 03
Entrevista com o Ministro dos Negócios Estrangeiros
e das Comunidades Portuguesas, Dr. António Martins da Cruz

Nem sempre é fácil obter declarações exclusivas dos ministros sem terem havido contactos prévios com os assessores, para discussão eventual dos assuntos a abordar.
Aproveitámos o momento em que Sr. Embaixador nos apresentou, durante a recepção consagrada aos empresários, tendo o Sr. Ministro acedido imediatamente à nossa solicitação de entrevista.

O senhor Ministro está estes dias em Paris, mais como Ministro dos Negócios Estrangeiros ou como das Comunidades?
Estou aqui estes dois dias e meio, claramente como Ministro das Comunidades Portuguesas. É obvio que, por exemplo, estou aqui nesta recepção, a fazer diplomacia económica, porque já arranjei aqui dois ou três negócios para Portugal, com contactos franceses e portugueses. Sou o primeiro ministro que é simultaneamente, dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas, e tenho muito orgulho nisso, porque acho que chegou a altura de tratarmos as Comunidades Portuguesas como Portugueses e não como uma espécie de grupo de pessoas assistidas. Não sei se leu a minha mensagem do 10 de Junho, que se chama “Horizontes do Futuro”, porque acho que é o reencontro dos Portugueses que vivem fora e dentro, neste projecto que é europeu e nacional.

Com o acréscimo “Comunidades Portuguesas” a Ministro dos Negócios Estrangeiros, não acha que o Secretário de Estado deste sector tem menos poder, protagonismo e visibilidade que no passado ?
De maneira nenhuma. O Dr. José Cesário, não só é um grande amigo meu, como é um grande político há mais de 20 anos e um extraordinário Secretário de Estado das Comunidades. Trabalhamos em equipa. No Ministério, trabalho em equipa com os meus três Secretários de Estado: um nos assuntos da Cooperação, outro nos assuntos Europeus e outro nos assuntos das Comunidades Portuguesas. Dividimos o trabalho, quer dizer que, em vez de haver uma hierarquia, há uma divisão de trabalho. Eu estou aqui hoje, o Dr. José Cesário está com o nosso Primeiro-ministro em Nova Iorque e em seguida no Canadá. Temos uma diáspora portuguesa muito grande, alcança quase todos os países do mundo, de maneira que nós os dois não somos suficientes até, para cobrir todos os pedidos que nos fazem os Portugueses.

Este Governo considera provavelmente que atribui mais importância do que qualquer outro, às expectativas das Comunidades Portuguesas e ao valor acrescentado que estas podem representar para o nosso país. No entanto, em Portugal, a Comuni-cação Social só fala dos emigrantes quando há desastres ou crimes.
Qual é a sua opinião ?

Sabe, o assunto é muito difícil, é muito português. Nós portugueses, somos muito dados ao sentimento da desgraça e ao negativismo. Eu acho que a mensagem que temos procurado passar, e fizemo-lo pela primeira vez, é a seguinte : os portugueses que vivem e trabalham no estrangeiro têm que confiar neles próprios. Têm que se integrar bem nos países onde vivem. Têm que adquirir a nacionalidade desses países onde vivem, têm que participar na vida política. Não é incompatível, as pessoas hoje em dia, terem duas nacionalidades, não é incompatível continuar a ser português e ensinar a língua e cultura portuguesa aos filhos, ou ser eleito Presidente da Câmara, ou Deputado Regional, ou Deputado Federal. Não é incompatível! Estamos já a reunir portugueses com sucesso na política, em vários países, para que eles transmitam a lição, para que transmitam o que aprenderam como políticos, às gerações mais novas, para que estas possam seguir o exemplo. Quanto mais integrados estiverem os Portugueses no país onde vivem, melhor é para eles e para Portugal.

A língua é um factor de identidade...
... Poderosíssimo, de identidade nacional. Nós temos, em todo o mundo, cerca de 500 professores. Custam 40 milhões de euros aos contribuintes portugueses, o ensino de português aos filhos dos portugueses e aos luso-descendentes. Temos professores em França, em Espanha, na Alemanha, só não temos nos países onde o sistema de educação não é compatível, o que é o caso dos Estados-Unidos ou do Canadá, porque as autoridades locais não o permitem. Mas mesmo assim, apoiamos as associações portuguesas que querem contratar professores portugueses, para ensinarem aos mais novos.

Isso é a grande novidade, como é que se passa com as associações no Canadá?
Há vários casos no Canadá e nos Estados-Unidos. Algumas recebem subsídios da nossa parte. Depois se gastam esse dinheiro com professores ou com outras coisas, isso é lá com elas. Mas são subsidiadas.

O Sr. Ministro sabe que existe uma associação de órgãos de comunicação social das comunidades, chamada PortPress21.
Sim, sei. Mas porquê 21?

Foi constituída pelos 21 convidados a Lisboa aos “Encontros para a Parti-cipação”, pela Secretaria de Estado das Comunidades e pela Direcção Geral dos Assuntos Consulares. Estamos todos de acordo com uma coisa: vamos ter muita dificuldade em manter a nossa língua nestes órgãos porque não temos pessoal qualificado suficiente e carecemos totalmente de apoios. Ao jornal Encontro, foi-lhe suprimido o porte pago, por ser, segundo o Instituto da Comunicação Social, um jornal das “Comunidades” para as Comunidades. Não acha que com o desaparecimento destes órgãos, a ligação com Portugal se vai extinguindo pouco a pouco ?
Podem chegar por internet, hoje em dia...

O Sr. Ministro sabe que não é suficiente !...
Não, não é. Eu acho que o problema do porte pago é importante e é preciso encontrar uma solução. Os outros problemas, como o problema da distribuição, são problemas em que o Estado não pode ter mecanismos para fazer a distribuição dos meios de comunicação social. O Estado inglês não subsidia a venda do Financial Times. Então porque é que o Estado português há-de subsidiar a venda do jornal Encontro?

Não foi essa a minha pergunta...
Pode haver soluções de apoio indirecto, o porte pago é uma delas. É preciso encontrar fórmulas com imaginação.

Sr. Ministro, como é que resumiria este conjunto de comemorações aqui em França,
à volta do Dia de Portugal ?

Eu acho que é importante, e, queria louvar o Embaixador de Portugal em Paris, que é o grande arquitecto destes três dias, que começaram com este encontro com empresários portugueses, luso-descendentes e franceses. Vou continuar com um jantar no Cercle de Paris, com decisores, com fazedores de opinião. Depois darei uma entrevista, em directo, durante duas horas e meia na Rádio Alfa, em que estarei acompanhado por representantes dos Países da CPLP em França, para darmos a dimensão da CPLP. Depois vou inaugurar uma exposição de Vieira da Silva, que é um grande traço de união entre as culturas portuguesas. Estarei no Domingo, durante o dia todo, em Pontaut-Combault, para celebrar eventos culturais com a comunidade portuguesa, não só de Pontaut-Combault, mas de todas as regiões que confluíram para esta terra para celebrar o 10 de Junho.        

Já reparou, que o nosso dia nacional, é o dia de um poeta ? Na maioria dos países, é o dia de uma revolução, como a França ou os Estados-Unidos.
Acho que os portugueses deviam meditar mais isto.

Recentemente, o Governo português apoiou frontalmente a iniciativa de George Bush e Tony Blair, no que diz respeito à intervenção no Iraque. A posição da França era contrária.Que consequência pode ter essa atitude para Portugal e para a comunidade portuguesa de França?
Não põe problema de espécie alguma, visto que são situações normais de política externa, vividas por países independentes. O Primeiro Ministro Durão Barroso já se encontrou com o Ministro Jean-Pierre Raffarin e com o Presidente Jacques Chirac ; eu também já encontrei o meu homólogo francês e tudo se passou bem. Para os portugueses daqui, também nada vai mudar.

António Cardoso
Entrevista realizada no dia 8 de Junho

 

Julho/ Agosto 03
"La Harissa" un groupe de musique à la sauce portugaise

Originaire de Cergy-Pontoise en banlieue parisienne, le groupe “ LA HARISSA” est devenue en l’espace de trois albums un incontournable  de la scène Hip-Hop, mais aussi et surtout pour les plus de deux millions de Portugais résidant en France, première et seconde générations confondues.
Composé des deux frères Malheiro, Christophe et Sébastien, 27 et 30 ans, plus connus sous leurs noms de scène, Sirando et Block Pata, La Harissa a créé un nouveau genre, bien à lui, le Hip-Hop Portos Latino. Leurs albums, “Portos Ricos”, en 1997, “Conquistador” en 2000 et “Portugal Rap Star” en 2002, sont un mélange de textes humoristiques, déjantés ou plus sérieux, parfois en Portugais, et de Beat Hip-Hop. Ils ont également fait un petit clin d’œil à la génération un peu plus an-cienne dans leur dernier album, en faisant un duo avec Linda de Suza intitulé Les gens des baraques.*
A l’occasion de leur tournée au Portugal cet été, avec de nombreuses dates dans les plus grandes discothèques du pays, nous les avons reçus pour en savoir un peu plus, sur leurs débuts, sur cette tournée, et sur leurs projets.

A votre avis, quelle tranche d’âge est la plus concernée par votre musique ?
Les 15 - 40 ans. Mais ça dépend des morceaux. En gros c’est la deuxième génération, mais comme c’est difficile de lui donner un âge exact…

Comment vous définissez la musique que vous jouez, que vous interprétez ?
C’est du Rap à la tendance portugaise. En fait, le Rap c’est la diction et la musique qui l’accompagne c’est du Hip-Hop. Et nous, on y a apporté la touche portugaise. C’est donc là que La Harissa se différencie des autres groupes. On a apporté une nouvelle touche, une nouvelle tendance, tout en gardant les ori-gines latinos. C’est donc de là qu’on a fait la contraction du nom du style musical, Portugais et Latino, c’est devenu Portos Latino. Donc ce qu’on fait c’est du Hip-Hop Portos Latino.

Si on prend exemple sur Radio Latina, pour eux, les “latinos”, c’est tout ce qui est hispanique.
Jusqu’à ce que les Portugais s’énervent un peu plus…

Heureusement, il y a les Brésiliens pour rappeler qu’on est aussi des “latinos”.
Radio Latina surfe sur un phénomène de mode latino-américain mais ils n’ont pas envie de nous reconnaître en tant que “latinos”. La question à leur poser, c’est qu’est-ce que la latinité en Europe sans le Portugal ?

Il faut donc s’imposer ?
Bien sûr !

Et c’est ce que vous faites ! Vous êtes les seuls ?
Oui, on est les précurseurs du genre, il y en a d’autres, on reçoit des maquettes et des cd de gens qui tentent et qui revendiquent ça.

Parlez-nous de vos débuts, lorsque vous avez commencé à vous produire en public.
En majorité, c'était des jeunes d'origine portugaise qui venaient nous voir.
Ça a commencé avec deux maquettes, avant de sortir l’album “Portos Ricos”. C’était le genre Underground, c’est-à-dire qui ne touchait que la population adepte de cette musique, en cercle fermé, en fait. Et à partir de là, on a commencé à voir qu’il y avait des problèmes, on a sentit que, comme on était ni noir ni arabe, dans le milieu du Rap, on était pas à la mode. Donc le fait d’être portugais et de revendiquer notre Portugal, c’était pas bien vu, mais nous ça nous a amusés sur le coup et on s’est dit “si c’est comme ça, on va encore insister”. Et puis du coup, on a fait notre premier album “Portos Ricos” en 1997. Portos, pour le terme péjoratif et puis en référence aux Porto Ricains. Les Porto Ricains d’Europe, en fait, ce sont les Portugais.

Vous avez essayé d'abord dans votre quartier, devant des amis… ?
Oui, au départ, ll y a près de 8 ans, on a fait des concerts MJC, dans les maisons de quartier, les maisons de la jeunesse. On a réellement été découvert au Printemps de Bourges.

Votre premier grand concert.
C’était avec “Portos Ricos”, au Divan du Monde, c’est une salle parisienne branchée, c’est là qu’on a eu la grosse sensation.

Vous avez un producteur et un éditeur exclusif ?
C’est la maison Next Music. Ils s’occupent de la production, ils éditent… ils font tout. Mais, il a eu un changement de patron, et du coup avec le nouveau, on s’entend encore mieux. C’est pour ça qu’il y a beaucoup de choses qui sont en train de se faire, car on leur a fait prendre conscience que La Harissa évoluait en travaillant sur un socle de luso-descendent, de portugais et de ceux qui se sentent portugais. On a réussit à vendre près de 80 000 exemplaires, ce qui veut dire qu’on est pas loin du disque d’or. Les sociétés françaises ne comprennent pas comment on arrive à générer tout ça. On a passé beaucoup de temps à leur expliquer qu’il fallait se concentrer sur quelque chose de précis.

Vous vous êtes aussi produits dans des boîtes portugaises, bonne expérience ?
Oui, bien sûr ! Le problème c’est que les boîtes portugaises, il y en a pas assez. Il y a tellement de jeunes portugais, et tellement peu de chose pour eux. Je trouve que les dirigeants de ces boîtes de nuit sont un peu trop prétentieux. Apparemment tous les jeunes portugais passeraient par leurs discothèques, ce qui c’est faux.

La participation de Linda de Suza, ça ne fait pas un peu trop mélange des genres?
Non, c’était un clin d’œil. On s’est rencontré avec Linda de Suza, elle nous a dit “c’est vous La Harissa ? J’ai déjà beaucoup entendu parler de vous !” Elle était très sympa, et nous a dit qu’on était le phénomène de mode du moment, et c’est elle qui s’est proposée, pensant que se serait marrant de faire un duo entre, elle qui est de la première génération et nous de la seconde.

Cet été, vous allez faire une tournée au Portugal, dans les grandes discothèques du pays.
Qu'en est-il exactement ?

On va présenter un concept. Dans la plus grosse boîte du Nord, le Pacha à Ofir, on va faire les trois premiers mardis du mois d’août (le 05, le 12 et le 19 août). Chaque soir, on fera un spécial album, c’est-à-dire, le premier mardi, “Portos Ricos”, le deuxième mardi, “Conquistador”, et le dernier mardi, “Portugal Rap Star”. On répétera la même chose dans la grosse boîte du centre, Império Romano à Marinha Grande, les trois premiers lundis du mois d’août (le 04, le 11 et le 18 août). On s’est concentré sur les deux grosses boîtes du pays, une au nord, l’autre plus au centre et puis on s’est offert un petit extra avec Discoteca & Companhia à Covilhã le 14 août, pour les gens qui sont un peu plus vers l’intérieur. Pour le Sud, c'est en négociation, notamment avec le Festival de Paredes de Coura, qui est le plus gros festival au Portugal, normalement on devrait le faire.

Vous chantez en français. Vous ne pensez pas que ça peut vous pénaliser au Portugal ?
Non ! On a déjà fait les trois plus grosses émissions télé au Portugal, Herman Sic, Curto Circuito et Câmara da Cruz, et on l’a fait en français. Eminem, il est numéro 1 là-bas et il rap en anglais, donc c’est pas une barrière. Malgré tout, il y a des textes en portugais, il y a des sonorités portugaises, donc tout ça fait que les gens adhèrent aussi. Le problème qu’il peut y avoir entre les jeunes de là-bas et ceux d’ici, c’est que les jeunes d’ici sont très saudade (sentiment de tristesse ou nostalgie, en portugais), très liés à leurs racines alors que les jeunes de là-bas, finalement, au contraire, ils essayent de se tourner vers l’extérieur.

D’où vient l’idée pour le nom “La Harissa” ?
En fait c’est une sauce qui pique, qui vient de la rue, qui n’a rien à voir avec le fait que se soit une sauce arabe. C’est une sauce de la rue, qui pique, et le rap vient de la rue… donc voilà !

D’autres projets après la tournée Portugal ?
Oui, à la rentrée, des scènes, le cd actuel de “La vache folle” encore en développement. En ce moment on enregistre un remix avec Lord Cossidy. Il y a le DVD de la tournée aussi. Et puis le lancement de la ligne de vêtements La Harissa Wear, le 5 juillet à La Bergerie à la Verrière (78).

*Pour plus d’infos :
www.la-harissa.com

Sandrine dos Reis

 

Junho 03
Retalhos de uma vida: Luci Bento, artista e mulher

Lucília Maria Bento, nasceu numa pequena aldeia perto de Castelo Branco. Entrou  na escola com seis anos, onde o seu jeito para as actividades plásticas foi imediatamente notado. Fazia continuamente montes de desenhos e quando acabava, oferecia-os a todos os que a rodeavam. Nessa altura, confessou que gostaria de ser professora de desenho, mas apesar dos conselhos do professor ao pai e das suas súplicas, não houve nada a fazer ; o pai tirou-a da escola com dez anos, declarando que ela estava quase uma mulher e como tal destinada a ser dona de casa, cozinhar e fazer limpeza. Quanto à pintura nem pensar nisso, o papel era caro e as tintas ainda mais !
Um jornalista suíço, que a entrevistou em 2000, disse : “fala-se muito das mulheres islâmicas, mas ainda há poucos anos, os portugueses agiam também de uma maneira muito esquisita”.
Lucília casou-se muito nova e o casamento não mudou em nada a sua vida, a incompreensão do marido era a mesma que a do pai. Teve dois filhos, o marido foi obrigado a emigrar para a Suíça por questões financeiras, onde ela veio ter com ele pouco tempo depois. Clandestina, Lucília Bento viveu fechada num pequeno apartamento sem poder sair, nem ver ninguém e onde teve o seu terceiro filho. O primeiro ia mesmo assim à escola e o outro estava em França, em casa de família.
No primeiro dia em que pode sair daquela espécie de gaiola, foi comprar uma tabuinha para cortar pão e tintas baratas, para crianças, e pintou-a. O marido, ao chegar a casa, ralhou com ela, dizendo : “porque é que estragaste a tábua” ? 
A vida continuou, limpar, cozinhar, as crianças, donde a última nasceu com grandes problemas de saúde, e sempre uma enorme vontade de pintar à qual ninguém ligava, Lucília fez uma grave depressão nervosa. O psiquiatra declarou ao marido  que a vontade que ela tinha de pintar era causada por uma espécie de loucura, o que levou o marido a dizer-lhe que mesmo o médico achava que ela era doida. Este médico, mais um que achou que uma pequena portuguesa, quase iletrada, querendo ser pintora, isso não podia ser um desejo ou uma vocação, só podia ser um sintoma de loucura !!!
Lucília pediu o divórcio, obteve a guarda dos filhos e lançou-se na vida artística, como o náufrago se agarra à única tábua de salvação visível.
- Em 1998, fez um curso de pintura a óleo, na Escola de Artes Virtuais em Lausana, SNC Grobéty e Vögeli. 
- Em 1999, sempre na Escola de Artes Visuais de Lausana, Lucília fez os : Curso de Pintura a óleo e  Curso de Desenho Académico.

Assim nasceu Luci Bento, aos 37 anos de idade, tendo ao seu activo, hoje, mais de 800 telas. Luci vive exclusivamente da Arte, exercendo o seu papel de mãe de família de dia, pintando incansavelmente de noite, no seu pequeno “atelier”. Várias matérias entram na composição dos seus quadros : fitas, pérolas, areia, mas com a aplicação da sua técnica bem pessoal. 
A sua pintura é figurativa, pode-se dizer que ela pinta séries de temas, passando pelos nus, flores, aves, casas imaginárias, projectando uma multitude de ideias, numa procura desesperada dela mesma.
Neste momento, Luci pinta de novo em estilo figurativo, que é um pouco um auto-retrato, com várias facetas, representando aquilo que ela é e o que aspira a ser, numa procura de realização, difícil de conseguir, sem ajuda talvez psicológica, de alguém que possa compreender este “resultado” de dois países, duas culturas, duas vivências, muita amargura e decepção.
Luci Bento fabrica também bonecas, possui uma enorme colecção (400 na Suíça), que perfazem com as que tem na sua casa em Portugal, mais ou menos um milhar de peças. Estas bonecas têm sido expostas em museus de várias cidades, (como por exemplo o Museu da Casa da Boneca, da Fundação Steineck, onde obteve um êxito enorme, pois os amadores de “poupées”, são numerosos.
As bonecas de Luci, muito bonitas, sumptuosamente vestidas, de olhar inquietante, são, diz-nos ela, a vingança da sua infância sem bonecas, que a mãe nunca lhe comprou, mas que agora lhe oferece de vez em quando, como para recuperar o tempo perdido, agora já tão tarde…
Falando com Luci, sobre os seus pais, sentimos que ela teria muito que dizer, mas que por pudor se cala, sendo mesmo assim com bastante ternura que fala da mãe, como se quisesse partilhar com ela a notoriedade que alcançou, uma necessidade absoluta de ser “reconhecida” pelos seus, de afirmar que tinha razão quando queria ser professora de Desenho. Luci fez várias exposições em França e na Suíça, onde tem exposições permanentes.
Neste momento a nova paixão de Luci Bento, que faz furor na televisão e imprensa, de tal modo que os estilistas começam a procurá-la, é pintar sapatos (todos os motivos decorativos desde as flores até à bandeira da Suíça), que estão patentes no Salão Artes e Criações de Genebra.
Uma reportagem efectuada na Suíça, foi difundida pela televisão portuguesa, o que encheu de orgulho, a família de Luci. Que exaustivo caminho para chegar até aí !

Maria Fernanda Pinto

 

Maio 03
Entrevista com Daniel Ribeiro

Daniel Ribeiro, correspondente da   RDP-Antena1 e do EXPRESSO, trabalhou na Radio França Internacional e é, desde há dois anos,   director de informação e programação da Rádio Alfa.

Daniel Ribeiro aparenta ser um homem discreto. Alguns dizem que "morde pela calada", que diz o que não pensa para tirar "nabos da púcara" e assenta a machadada quando menos se espera.
É verdade que alguns dos artigos que este jornalista radicado em França, publicou no Expresso e certas crónicas que ouvimos na Antena 1, deixam por vezes pairar o que alguns consideram como sendo insinuações.
Nós pensamos que o jornalismo é isso mesmo, é deixar dúvidas para quem as queira esclarecer, relatar factos comprovados com fontes seguras e deixar a interpretação a quem os ouve ou lê e que quem de direito, tal como a justiça, faça o seu trabalho.
O problema de muitos jornalistas é confundirem funções.
Daniel Ribeiro criticou bastante a rádio Alfa no início, hoje dirige essa estação, esperamos pois pelos resultados da prática para também exercermos o nosso direito à crítica. 

António Cardoso

É um dos poucos correspondentes para Portugal que fala da comunidade portuguesa. Por que razão ?
Porque por vezes há assuntos com interesse. Há também histórias engraçadas na comunidade, sobretudo alguns percursos de pessoas que me interessam. Quando há por exemplo dados estatísticos credíveis é necessário analisá-los e publicá-los.

Como explica que os outros correspondentes não o façam ?
Cada um faz as suas opções. Há poucos correspondentes portugueses em França, designadamente das televisões – que não têm cá ninguém.

Falar pouco da emigração não corresponde às directivas dos próprios órgãos de informação ?
Talvez. Portugal tem problemas com a sua emigração, assume dificilmente ser um pais de emigrantes. Não é por acaso que hoje os políticos, em Portugal, falam mais num pais de imigrantes... Nos média para os quais trabalho sempre consegui ter apoio para publicar as histórias sobre os emigrantes que proponho.

Fizemos uma pequena experiência em Portugal e perguntamos a 20 pessoas se sabiam quem era A. Sousa Mendes. Ninguém sabia…
Mas isso não é por falta de informação. Tem-se falado muito desse grande homem, há filmes, homenagens, livros...

Perguntamos também aqui a uma dezena de pessoas se sabiam o nome de tal ou tal ministro… Também não sabiam.
É natural... aliás os ministros também lá estão há pouco tempo. Eu sigo esta máxima : “os governos passam e os povos ficam”. Isso é o mais importante.

Em França, o jornal “A Bola” vendeu mais de cinco mil exemplares quando do jogo Benfica/Marselha. Os outros só vendem 80 exemplares, em média...
Comprova que as pessoas estão mais interessadas pelo futebol. Se calhar o Figo ou o Jardel fazem coisas que dão mais nas vistas do que os ministros.

Há quanto tempo está em França e porque saiu de Portugal ?
Há 21 anos e vim por motivos pessoais.

Saiu da RFI para dirigir uma rádio privada, comunitária. Quais são as diferenças que notou ?
Foi um risco que assumo. O comendador Armando Lopes convidou-me para modernizar a rádio. Aceitei porque sempre achei possível fazer uma boa rádio de raiz portuguesa, mas lusofona, em Paris.

É um jornalista confirmado, cobriu várias guerras. O que o levou a aceitar ir para a Rádio Alfa ?
Pelo que acabo de dizer. Avançando lentamente acredito que se possa fazer uma grande rádio em Paris.

Fez críticas no passado à Rádio Alfa.
A rádio parte de uma base comunitária para evoluir...

Para ser uma radio de civilização ?
Tem de evoluir e prever o futuro. A primeira geração de emigrantes chegou à idade da reforma e haverá cada vez mais lusodescendentes. A ideia é manter uma rádio portuguesa com grande abertura à lusofonia.

Porque razão a Rádio Latina não se abre à lusofonia ?
Acho que passamos hoje melhor música portuguesa, brasileira ou africana do que a Rádio Latina. Temos condições para competir com a Latina se avançarmos cada vez mais para a lusofonia.

E se as pessoas criticarem por se falar demasiado dos outros países lusofonos ?
Portugal nunca se limitou ao rectângulo. Portugal só é importante porque tem um passado de abertura e porque está na origem desse grande espaço cultural que é a lusofonia. Os portugueses são abertos e a Rádio Alfa morreria se continuasse ligada apenas à primeira geração de portugueses.

Que liberdade tem com Armando Lopes, presidente da rádio Alfa ?
A liberdade de falar com ele livremente. Em todos os média o director discute com os administradores as questões de fundo ligadas neste caso à rádio.

Não há boicote da parte do sector comercial ?
Não há boicotes na rádio. Há discussões.

Como se pode conservar ouvintes da primeira geração mais ligados ao folclore e ao fado e alargar
às novas gerações ?

Tem de se fazer programas para todos e há programas para todos !

Há pouco tempo uma fadista, Cristina Branco, ficou espantada e desagradada por ter sido entrevistada pela Rádio Alfa em francês.
Se foi, porque não recusou e não falou em português ?

Aparentemente as pessoas da entrevista só falavam em francês.
Respondo-lhe de uma forma mais larga. Eu defendo que devemos introduzir cada vez mais programas bilingues e acho que há pessoas, designadamente como essa fadista, que não devem ser divulgadas só para os portugueses. Penso que a Rádio tem de encontrar um equilíbrio, defendendo a língua, sempre, mas divulgando a cultura também em programas bilingues para alargar o auditório.

Mas a cultura é a língua portuguesa ?
Uma coisa é a cultura, outra é a língua. Uma pessoa pode ser culta, conhecer a cultura portuguesa a fundo e nem sequer saber falar português !

O que é para si o Conselho das Comunidades ?
Acho que tem funcionado mal. De quem é a culpa não sei – os conselheiros acusam os governos.

A RTPi pouco fala do CCP, a secretaria de estado vai nomear conselhos consultivos nos consulados...
Percebo pouco dessas coisas. O que sei é que a Rádio Alfa fala muito desses assuntos. Não compreendo muito bem qual é a ideia do governo. O que sei é que a comunidade necessita de órgão com força que os represente bem.

Há um conselheiro nomeado para a RTPi mas nunca foi ouvido.
Acho mal. Se o nomearam e não o ouvem há um problema.

O que pensa dos resultados para o CCP ?
Contava com uma fraca participação, mas ficou ainda mais abaixo das minhas expectativas.

Pouca gente vota também para a Presidência da República, para as legislativas...
O que caracterizou a emigração foram projectos individuais para sair da miséria. Penso que a tradição de votar não é forte nos portugueses e que também talvez o movimento associativo não se tenha adaptado às novas realidades ligadas à evolução da emigração portuguesa em França.
Penso que muitos dos lusodescendentes e outros vão passar a votar mais em França.

Qual a sua opinião sobre a mesa redonda recentemente organizada no consulado sobre a comunicação social em França ?
O que é preciso agora é ver o que vai acontecer. Se não acontecer nada, não serviu para nada.

Notou que na mesa não havia nem jornalistas nem empresários da comunicação social ?
Notei e penso que a composição da mesa foi infeliz porque dava um estatuto de menoridade aos profissionais do sector que trabalham em França.

Porque há tão poucos jornais na comunidade em França ?
As pessoas foram perdendo o hábito de leitura, que aliás a primeira geração já não tinha em Portugal...

É, por isso, inevitável manter um jornal ou uma revista ?
Mesmo em Portugal é difícil. Acho que aqui os jornais se deveriam virar mais para as novas gerações e também para o bilinguismo, bem como avançarem para a profissionalização, tal como as rádios.

Sobre a informação em Portugal o estilo é mais americano, de informação espectáculo. Aqui em França é diferente. O que pensa disso ?
Há exageros em Portugal com noticiários televisivos de duas horas, etc... Mas penso que por exemplo sobre a guerra no Iraque a TV portuguesa cobriu melhor do que a francesa. 

 

Maio 03
Entrevista com o Secretário de Estado
das Comunidades Portuguesas

Exmo Senhor Secretário de Estado, constata-se pelos números divulgados que as eleições para o Conselho das Comunidades Portuguesas foram mais uma vez um fracasso em termos de participação dos eleitores.
Muitos dos nossos compatriotas não compreendem que no mês que antecedeu este acto eleitoral, a Comissão Nacional para as Eleições tenha feito campanha na RTP I para o recenseamento e tenha “esquecido” o CCP. É obvio que isso não explica tudo, pois todos os órgãos de comunicação social independentes, das comunidades, deram largo destaque a estas eleições.
Também não lhe vamos pedir para comentar as razões desta falta de interesse dos emigrantes pelas estruturas que os poderiam eventualmente representar, porque cada um deles tem a sua própria resposta e a sua justificação.
Solicitamos em contrapartida que V. Exa tenha a amabilidade de responder ao seguinte :

Os ex-militares que lutam pela obtenção de direitos iguais aos dos residentes em Portugal elegeram quatro conselheiros sobre quinze em França. Deseja comentar ?
É um movimento cívico com expressão das comunidades. Confesso que estava à espera que elegessem mais, mas não é por isso que deixo de considerar a enorme importância nacional. Cumpre aliás que se diga que não é um movimento exclusivamente restrito e limitado a França, tendo cada vez maior expressão em muitos outros países.

Que benefício poderão retirar os portugueses que residem no estrangeiro em participarem nos actos eleitorais de Portugal ?
Essa é uma questão básica de civismo. Para os portugueses no estrangeiro poderem fazer sentir a sua força e a sua voz é fundamental que participem cívica e politicamente na vida dos países onde se encontram e na do seu país Natal. Como bem se disse nos últimos tempos, em democracia, quem não vota conta cada vez menos e ao não contar vê os seus direitos não realizados completamente por falta de atenção de quem governa.

Quais são os principais inconvenientes da falta de participação ?
A não participação conduz ao esquecimento por parte de quem tem poder decisório. É fundamental que as pessoas contribuam com a sua opinião para as grandes decisões colectivas e a verdade é que se todos entendermos que os portugueses que estão no estrangeiro devem fazer parte desse grande colectivo que é Portugal, então eles devem ser os primeiros a participar o mais activamente possível na vida pública portuguesa. Para que haja mais e melhores políticas dirigidas à diáspora é essencial acentuar decisivamente o número dos que votam.

O fecho de vários consulados (quatro em França) foi anunciado, sem que os utentes interessados tivessem conhecimento de possíveis alternativas. É erro de comunicação, uma estratégia política ou simplesmente cortes orçamentais e, é preciso escolher.
Está em causa uma reestruturação da rede consular. Não é fechar consulados, bem pelo contrário é melhorar as condições dos serviços prestados aos utentes na generalidade dos postos. Esta reestruturação tem como grandes medidas já anunciadas o início da emissão on-line dos Bilhetes de Identidade, o desenvolvimento do programa de gestão consular a nível informático e uma racionalização da rede consular. O Conselho de Ministros já aprovou o decreto-lei que visa permitir a criação dos centros emissores dos BI nos consulados, situação em que curiosamente ninguém fala, sendo esta a maior reforma que alguma vez se fez neste domínio, porém é evidente que uma rede consular que não é mexida há décadas possui evidentes desajustamentos relativamente à realidade concreta das diversas comunidades. Não faz assim sentido manter consulados de carreira em locais onde quase já não há comunidade, enquanto se deixam outras com dezenas ou centenas de milhar de pessoas completamente a descoberto. Por isso vamos abrir novas estruturas consulares em muitos locais onde são, absolutamente, indispensáveis e fechar outras em sítios, em localidades onde o trabalho consular se encontra reduzido a níveis insignificantes. Tem sido muito bem divulgado, pelo menos para quem quer ouvir que estamos a trabalhar ponderadamente em situações locais que evitem uma excessiva penalização para as pequenas comunidades atingidas pelos encerramentos. Este é um processo moroso e delicado e está ainda bem longe de estar concluído. Por isso espero que as pessoas tenham paciência e que os mais responsáveis acalmem a sua sede de protagonismo.

Como se pode explicar o facto que se mantenham três consulados na região de Paris, num raio de 40 km enquanto se obrigam outros portugueses a deslocações de centenas de km para chegarem a um consulado ?
Essa é uma matéria difícil que mereceu enorme ponderação. Inicialmente chegámos a pensar em encerrar esses consulados. Porém, várias personalidades locais com quem falámos, com destaque para o deputado Carlos Gonçalves, deram-nos os argumentos que nos convenceram a não o fazer. Os hábitos das comunidades aqui localizadas ainda não estão adequados a uma mudança radical na área da grande Paris. Por isso vamos manter a actual situação.

Alguns dos Conselheiros recém eleitos já dizem que a sua ideia de criar Conselhos Consultivos das Áreas consulares, tem como objectivo diminuir o papel do CCP !...
Estou farto de ouvir asneiras sobre essa matéria. Há pessoas que têm deturpado ostensivamente as nossas intenções com a criação dos Conselhos Consultivos das Áreas Consulares. O que nós queremos é ocupar um espaço perfeitamente vazio na relação entre o consulado e a comunidade da respectiva área. Trata-se de encontrar um conjunto de personalidades a nomear pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas na sequência de convite pessoal que traduzam um retrato real de cada comunidade e que periodicamente se sentam com o respectivo Cônsul para tratar apenas e tão só os problemas específicos daquela área consular. Pelo contrário, os Srs. Conselheiros das Comunidades - se o entenderem também poderão ter acento neste órgãos -, têm uma função muito mais global no aconselhamento directo do Governo relativamente às políticas a dirigir à totalidade das comunidades portuguesas no mundo. Há diferenças e objectivos perfeitamente evidentes entre os dois órgãos e só não os vê quem manifestamente não quer.

Entrevista conduzida por António Cardoso

 

Março 03
Cristina Branco, uma outra ideia do fado

Cristina Branco nasceu em Almeirim. Estudante em psicologia e destinada a uma carreira de jornalista, nada previa que esta jovem ribatejana se apaixonasse pelo fado. O fado, de uma maneira diferente, mesmo se o " déclic " terá sido um disco de Amália oferecido como prenda de aniversário dos 18 anos pelo seu avô.
Cristina é agora "produto" da multinacional "Universal", tal como Dulce Pontes. Estas editoras não brincam em serviço, tem de haver qualidade, voz, graça, sensualidade, espontaneidade, presença e força de vontade para que se aposte e se invista num mercado mundial.
Depois de termos ouvido o seu último álbum, “Corpo iluminado”, ficámos convencidos que Cristina Branco reunia isto tudo e ainda muito mais. Ficámos logo atentos, à espera de oportunidade para falar com ela, saber o que se escondia por detrás de tão melodiosa e sensual voz. “Sensus” é o seu novo disco, ainda mais sensual tal como o nome indica, provocante, quase erótico.
A escolha dos textos revela outra coisa, certamente a vontade de propagar uma das mais bonitas e ricas línguas do mundo, de a colocar em valor e lhe devolver a dimensão de outrora.
Cristina Branco já deu a volta ao mundo e segundo a responsável da “Universal”, os seus espectáculos são garantia de “casa cheia”. Estará em França em Maio, vai cantar em Bordéus, na sala Fémina, no dia 24 e em Paris, no Olympia, no dia 26. Aproveitámos a sua passagem por Paris em Fevereiro para a entrevistar. Afinal foi uma conversa sem rodeios onde a artista nos revelou a sua paixão pelo fado e pela língua portuguesa.

A escolha dos seus textos, de grandes autores, tais como Fernando Pessoa, David Mourão-Ferreira, Vasco de Graça Moura, não será demasiado elitista ?
Não, eu sou uma ávida leitora, não tem nada a ver com o que canto, mas é obvio que as minhas leituras tiveram que influenciar a minha carreira. Não consigo conceber um disco sem literatura. Há no entanto nomes como os de David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Mello que estão ligados ao fado, que foram descobertos pela grande maioria do povo através da voz de Amália, portanto através do fado. Não é nada elitista, pelo contrario, tenho a impressão que ao passar uma poema que eu gosto para um disco que onde é traduzido pelo menos em três línguas diferentes, já lhe dá uma universalidade complemente nova. Aquele poema deixou de pertencer a um simples livro com uma edição de três ou quatro mil exemplares para pertencer ao mundo inteiro e aos portugueses todos, claro.

Como e qual é o seu critério de escolha dos textos e quem os escolhe?
São sempre os textos que eu gosto, a procura é sempre minha, exceptuando o poema do Vasco de Graça Moura. Foi ele que mo deu porque sabia que eu estava a trabalhar em poesia erótica. Curiosamente é o último soneto editado em português no século XX. Esse foi-me oferecido, o resto é tudo escolha minha. Eu gosto que todos os meus discos tenham uma temática, este é um dos que tem uma temática mais vincada que é a sexualidade ou a sensualidade para não sermos tão óbvios, isso é também uma coisa que fere muito os portugueses. (risos)
Não concebo a ideia de cantar uma música sem que o poema me diga tudo.

Que leva uma estudante em psicologia e comunicação social a enveredar por uma carreira artística e particularmente no fado ?
É comunicar, é a forma mais óbvia, muito mais do que escrever ou fotografar, mais de que ouvir falar alguém, é ser eu a falar.

Não é demasiado simples ?
O canto surge por urgência, houve uma grande necessidade interior de rir e de chorar as minhas emoções e que não me importo de todo de partilhar com o público, que afinal de contas é anónimo.

Não se importa ou é um desejo de partilhar ?
Não me importo, não é o que quero. Tenho alguma dificuldade mesmo se agora já não é tanto, tive grandes dificuldades a encarar o público. No entanto, a vontade e urgência, como disse, em fazer aquilo que se ama é tão forte, tão premente que tem que se ser mais que outra coisa qualquer, independentemente do que está à nossa frente.

Acha que a música que interpreta é fado ?
Para mim é, acho que quando o fado chega, não há como deixá-lo sair. O exemplo que eu dou é o do “Avec le temps” de Léo Férré, que gravei há pouco tempo. É fado é a nossa música, está lá Portugal inteiro, independentemente de ser de um anarquista francês.

O que é o fado para si ?
É a vida, não destino, não acredito nada disso. O fado é... as emoções que passam e que podem passar na música, que é o veículo mais extraordinário para exteriorizar o que está cá dentro.

Não acha que há uma predominância de tristeza no fado ?
No fado de hoje, penso que não, foi de facto para uma geração que viveu essa tristeza por dentro e por fora, que infelizmente viveu quase sessenta anos enclausurada nessa tristeza e nessa deprimência da anti-liberdade. Mas não o é para a minha geração porque apesar de sermos o último país da Europa, estamos integrados nela, não estou a falar em termos políticos mas exclusivamente em termos sociais. Temos internet, temos milhares de coisas que nos aproximam do mundo inteiro e, é disso que nós temos de falar.

Presumimos que os seus amigos de Almeirim não viam com os bons olhos a sua ambição artística,
como começou ?

Achavam que era uma estupidez. Comecei por cantar um pedacinho de uma música e aquilo devia fica por ali, isto em 1996. Em 1997, conheci o Custódio (Castelo), e as coisa ganharam outra dimensão. Nessa altura, quando me ouviam cantar fado, achavam estranhíssimo, cantava naquelas festas de amigos, aparecia uma viola e éramos quinze a cantar. Cantar fado era uma coisa inconcebível para uma miúda que tinha vinte e poucos anos : que horror, que coisa tão caduca ! E era, eu também considerava, até o meu avô me ter oferecido o tal disco da Amália que fez todo o sentido para mim.

Regressando aos textos do álbum “Sensus”, tem alguma vontade de provocar ou é marketing ?
Também...(risos) é óbvio que é intencional, a primeira ideia não é intencional mas a reacção do público em relação ao “Corpo iluminado” de David Mourão-Ferreira - o álbum acabou por ter o mesmo título - despertou-me essa imagem: porque não, ousar? Não é marketing, é de facto uma ousadia e eu assumo cem por cento, foi também a vontade de mostrar uma parte do fado que não existe, ou que não existia até aqui. Porque não cantar o corpo?  Porque é que só tem que se cantar a família, a casinha branquinha com a toalhinha aos quadradinhos e o caldinho verde ?
Tenho a certeza que o público mais jovem está muito mais desperto para este tipo de poesia e de sonoridade. Não é mostrar vulgaridade de um texto que fala do corpo ou da sensualidade. Há textos de Camões, de Shakespeare, autores do século XII, do século XXIII e trata-se de mostrar como é que a sexualidade e a sensualidade se viveu e se vive hoje.

António Cardoso

 

Janeiro 03
Tânia Lobo, o rosto do programa "Comunidades" na RTPi

Podemos comprovar através de uma rápida sondagem que todos elogiam a apresentadora. Qual é o seu segredo ?
Agradeço muito esses elogios. É um prazer saber que as pessoas gostam do que faço e que quem lhes entra em casa todas as semanas é alguém que recebem com carinho. Para se ser pivot o essencial é saber comunicar com pessoas, e não ver a câmara como uma máquina que está ali a filmar, mas sim alguém com quem falamo
Tento ser simpática e ao mesmo tempo delicada e pouco agressiva nas entrevistas e na forma como apresento certos assuntos, se bem que às vezes é difícil dar notícias com “boa cara”, como por exemplo quando os portugueses estão a passar por situações complicadas, mas não podemos ser parciais

Nota-se que domina os assuntos que aborda. Num programa recente, a Dra.  Maria José Stock, presidente do Instituto Camões pareceu-nos perturbada com as suas questões, em nossa opinião pertinentes. Não submete as questões aos convidados antes do programa 
Nunca faço isso. Aliás é uma regra jornalística, nunca mostrar as perguntas aos entrevistados. Claro que as pessoas sabem o assunto sobre o qual vêm falar ao programa, mas é impossível e pouco ético dizer-lhes o que lhes vamos perguntar. Não sei se a Dra. Maria José Stock ficou perturbada, mas o essencial quando se está sentada na cadeira a apresentar um programa é ter perguntas preparadas e claro, conforme as respostas dadas, conseguir direccionar a entrevista para onde ela tiver de ir. Dando uma imagem, uma entrevista é como um rio, tem que se adaptar ao percurso que toma, sem claro, esquecer o objectivo principal que é passar pelos sítios certos, por vezes incómodos, mas que são necessários por serem actuais e informativos

Já algum convidado exigiu obter as questões ?
Já me aconteceu perguntarem se podiam ter as perguntas, e aí dou uma ideia do assunto, não as perguntas em si. Quando me “exigem” saber as perguntas tenho uma reunião com a coordenadora do programa, a Marta Jorge e decidimos juntas se fazemos isso ou não. Pode haver casos em que sim, mas depende da importância do assunto. Por exemplo, temos que entrevistar o Jacques Chirac e o gabinete de imprensa pede-nos as perguntas. Vamos pensar, é uma questão a considerar se for um assunto de muita importância para a comunidade portuguesa

Quais são os critérios de selecção das notícias e reportagens do "Comunidades" ?
Actualidade, assuntos que sejam próximos à comunidade portuguesa em Portugal e no estrangeiro. Histórias de vida de pessoas que actualmente residem fora do país ou que já regressaram
Gostaríamos de ter imagens de mais países, mas a rede de correspondentes é limitada e como é impossível estar em todos os sítios do mundo, muitas vezes recorremos a telefonemas

Quais são as principais fontes 
A nossa rede de correspondentes, os jornais feitos nas comunidades, portais com notícias sobre os portugueses no estrangeiro, assuntos ligados à  secretaria de estado das comunidades. Contactos com associações, clubes e instituições nas comunidades portuguesas no mundo

No dia em que estavam em Portugal 21 órgãos de Comunicação Social das Comunidades, foi convidado ao seu programa o administrador de uma publicação para os emigrantes, que reside em Lisboa. Podemos apurar que o convite para o programa foi feito no próprio dia de emissão. (28 de Novembro
Porque não ter aproveitado a presença destes medias das comunidades e convidar ao seu programa um director de um jornal, por exemplo o da Austrália, que teve 52 horas de voo para participar nos "Encontros para a Participação", organizados pela secretaria de Estado das Comunidades ?
Todos os convidados seriam bons convidados.
Decidimos escolher a pessoa em Lisboa porque era a mais facilmente disponível

Os correspondentes da RTP que se ocupam de França, estão baseados em Bruxelas.  Não pensa que esse facto prejudica a informação deste país para Portugal
Concentrar os correspondentes em Bruxelas foi uma decisão da RTP. Os correspondentes viajam cada vez que a notícia assim o exija.

Segundo afirmou Nuno Santos, director adjunto da RTP, vai haver uma nova grelha de programação na RTP Internacional a partir de Fevereiro. Vamos continuar a ver o seu bonito rosto ?
Estou como estagiária profissional até dia 4 de Janeiro de 2003 por isso não sei se vou continuar a apresentar o “Comunidades”. Será uma decisão da administração. Eu adorava.
Foi quase um ano de experiência e contacto com uma realidade que eu não conhecia assim tão bem e é fantástico e muito enriquecedor o contacto com os portugueses que vivem no estrangeiro.

 

Novembro 02
Entrevista Dan Inger

Dan a questão das pessoas é sempre a mesma, como pronunciar Inguer, ou Inger, qual a origem deste nome ?
A resposta é simples, em português é mais fácil ler-se da maneira como está escrito, principalmente quando se tem dúvidas da origem da palavra.
Quanto à origem de Dan Inger, foi quando saí da tropa, fiz uma actuação num restaurante cujo proprietário era um português, e Daniel, não correspondia àquilo que eu cantava (Elvis, Johnny Halliday, Eddy Michel e outros), sempre relacionado com o “Blues”. Daí surgiu a ideia de abreviar Daniel em Dan e Inger do inglês “cantor”.

Após alguns anos de galera, parece que conseguiste finalmente atingir alguns dos teus objectivos, sobretudo com este último trabalho ?
Penso que, a partir do momento em que comecei a cantar em português, encontrei uma estrela mais adaptada ao meu percurso, uma estrela mais gira que entrou no meu coração. Não posso explicar o que senti, mas uma coisa é certa, houve efectivamente uma mudança, mas sobretudo uma mudança positiva. Canto em português mas num outro estilo musical ao qual não estamos habituados. Reconheço que talvez tenha sido ligeiramente e involuntariamente influenciado por Rui Veloso, não só a nível musical, mas também pessoalmente.

Gravaste e produziste um primeiro álbum e um segundo que foi gravado ao vivo com um produtor, mas os resultados ficaram aparentemente aquém das expectativas...
O primeiro disco foi muito positivo para a minha carreira, o segundo teve mais impacto. Nesse segundo álbum está incluída uma canção do Rui Veloso que interpretei pela primeira vez e em português, “Morena de Azul”. “Atlântico Blues”, este álbum que foi agora editado, já era uma ideia antiga.
Ainda não tinha encontrado autores portugueses, como sabes nasci em França e não me sinto com capacidade de escrever em português.
Quanto à música, não é um problema para mim faço o que gosto, depois o público é que decide. Já tenho um público francês que, recebeu muito bem este último trabalho em português, agora vamos a ver como é que ele vai ser recebido em Portugal.

Os dois primeiros álbuns foram mais destinados a um público francês, não ?
Não, é verdade que todos os temas estão gravados em francês, salvo como já disse, um tema do Rui Veloso no segundo álbum. O resto, para quem me conhece, sabe nos temas que escrevi há sempre uma alusão a Portugal, às minhas origens e a um certo mal estar em relação às minhas interrogações pois não sou francês nem português. Penso que este álbum permitiu-me de me situar um pouco mais.

O álbum “Atlântico Blues” está a obter grande sucesso não só na comunidade portuguesa em França, mas também no meio hispânico e francófono. E em Portugal ?
Vou brevemente para Portugal para efectuar diversos “Show Case”, mas já estive em Portugal durante o período de férias, e sinto-me feliz, porque segundo as informações que tenho, o álbum está a ser bem recebido mesmo se existe aquela imagem negativa do português do estrangeiro. Felizmente na altura em que estive fui bem recebido, fui convidado a diversas rádios e actualmente já estão agendadas várias entrevistas em diversos médias.

Este álbum corresponde ao teu estilo musical habitual ?
Não, este álbum é para mim uma grande viagem, como fizeram os nossos antepassados navegadores que levavam para o mundo, mas também traziam entre outras coisas a Cultura.
Este álbum considero-o igualmente uma viagem e um encontro de culturas.
Não é por acaso que neste álbum participam diversos convidados de horizontes diferentes, os quais aproveito para saudar.

Esta entrevista foi concedida algumas horas antes da passagem de Dan Inger no Club Med World, a convite da Radio Latina.
Juntamente com Dan Inger,  foram também entrevistados alguns dos convidados que participaram no álbum Atlântico Blues, tais como Ricardo Vilas, Jorge de Sousa, Manuel da Fonseca e Patrick Caseiro.
Outros nomes conhecidos deixaram as suas vozes gravadas neste álbum que convidamos a descobrir.

Texto e fotos José Lopes

 

Outubro 02
Air Luxor para Portugal, em Orly Sud

Desde o dia 10 de Setembro, os voos regulares da Air Luxor com destino a Paris são servidos pelo Aeroporto de Orly, terminal Sud.
Entrevistada pela Vida Lusa, Linda do Vale, a jovem directora da companhia em França, refere que “Orly é o aeroporto com acesso mais fácil para as comunidades portuguesas que habitam em Paris, e que se concentram maioritariamente ao sul daquela cidade”.
A Air Luxor, voa regularmente entre Paris e Portugal desde Dezembro passado, utilizando o terminal 9 do aeroporto Charles de Gaulle, que segundo Linda do Vale “é geralmente assimilado aos voos charter”.
Agora, a partir do Aeroporto de Orly, a companhia contará com três rotações por dia entre Lisboa, Porto e a capital francesa. “Um destes voos da rota Lisboa-Paris terá ligação directa ao Funchal (para onde a Air Luxor já voa diariamente desde Abril 2001), sem que os passageiros tenham que sair do avião. É muito importante para a comunidade madeirense, que dispõe assim duma ligação diária Funchal-Paris e vice-versa”, referiu a responsável.
A partir de 27 de Outubro haverá igualmente um voo semanal (Sábados) Faro/Paris/Faro, via Lisboa.

Linda do Vale disse à Vida Lusa que a Air Luxor, “é uma companhia aérea Portuguesa com 14 anos de experiência que está a evoluir no transporte aéreo para novas rotas e destinos. Espera que esta mudança para Orly seja mais um passo na sua estratégia de expansão, do agrado de Portugueses e Franceses que habitualmente voam nesta sua linha regular”.

Linda do Vale volta à aviação comercial

Depois da Tap a Linda ocupou funções de responsabilidade na Air Liberté nomeadamente promovendo a companhia junto da comunidade portuguesa. Abriu uma agência de viagens quando saiu e agora volta de novo à aviação comercial, é um novo desafio ?
Sempre estive na aviação comercial, a agência de viagens foi um acaso, foi apenas a consequência do despedimento colectivo da Air Liberté. Serviu-me para conhecer o outro lado da barreira, no entanto enquanto estive na Air Liberté a agência já existia. Fui ver mais de perto mas, sempre na expectativa de voltar àquilo que eu prefiro, a aviação comercial. Surgiu esta oportunidade e, fizeram-me confiança para este desafio e vou tentar vencê-lo.

Poder-se-á dizer que a experiência adquirida na venda ao retalho através da agência de viagens foi frutífera para uma melhor compreensão da problemática deste sector, por vezes ignorado pelas companhias ?
Sem dúvida, embora tenha de dizer que, quando exerci funções nas companhias, as agências sempre tiveram o meu apoio e creio que isso é reconhecido. Tentei sempre transmitir às direcções gerais das quais dependia os problemas vividos pelas agências, foram sempre ouvidas e procurei sempre encontrar soluções. É natural que hoje tenha uma visão e uma sensibilidade mais adequadas às realidades e possa por isso ser um porta-voz mais eficiente deste sector.

A Air Luxor é uma Companhia de Aviação Portuguesa criada em 14 de Dezembro de 1988 pela família Mirpuri.
A família Mirpuri foi uma das primeiras em Portugal a dispor de uma pequena frota de aviões privados que utilizava nas suas viagens particulares e de negócios, sobretudo em Portugal e Espanha.
No final dos anos oitenta, com a liberalização do sector do transporte aéreo na Europa, decidiu-se a transformar o departamento de aviação privado da família numa Companhia Aérea, que servisse também outros clientes. Como o objectivo era prestar um serviço de transporte aéreo de elevada qualidade e personalizado, a palavra-chave escolhida foi luxo e assim nasceu a Air Luxor.
A Companhia cresceu ao longo dos anos, primeiro dentro da área da aviação executiva, e depois com aviões de grande porte. O primeiro avião a jacto, um Citation I, chegou à Companhia no início dos anos 90 e veio substituir os aviões a hélice utilizados até então. A frota de “Jactos Executivos” foi sendo progressivamente aumentada e actualizada e hoje a Air Luxor opera os mais recentes modelos dos maiores construtores mundiais.
A sua frota inclui os aviões Falcon 2000, Falcon 900, Citation Excel e Citation X, que podem voar não só dentro da Europa como para qualquer parte do mundo.
Em 1997 a Air Luxor inicia a operação de aviões de grande porte. Os primeiros modelos voados foram o Lockheed Tristar e o Boeing 757-200, especialmente vocacionados para voos de longo curso. Presentemente a Air Luxor opera sobretudo aviões Airbus da última geração e de tecnologia “fly-by-wire”, o Airbus A320 para o médio curso e o Airbus A330 para o longo curso, este último com uma capacidade para 355 passageiros e capaz de voar mais de 12 000 km sem abastecer.
A Air Luxor posiciona-se hoje como uma Companhia Aérea de referência na Europa Comunitária, com bases em Lisboa e Paris, voando para uma diversidade de destinos de médio e longo curso, tanto em voos regulares como em voos charter. Os principais mercados são Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Bélgica, Brasil, Tailândia, Estados Unidos, Cuba e República Dominicana.
Para além do seu negócio principal, o transporte aéreo de passageiros e carga, a Air Luxor desenvolveu ao longo da última década uma série de negócios derivados, como a ambulância aérea, a carga aérea, consultoria e gestão de jactos executivos, manutenção de aviões e ainda o desenvolvimento de terminais aeroportuários privados em vários aeroportos, sobretudo na Ásia, Europa e África, especializados na assistência a “Jactos Executivos”.
A Air Luxor é ainda proprietária de um dos principais “Tour Operators” em Portugal, a Air Luxor Tours, especializado na criação e venda de pacotes turísticos para os destinos Air Luxor de médio e longo curso. 

 

Maio 02
Entrevista com Jorge Ruivo

“Portugais et population  d’origine portugaise” Um livro de Jorge Ruivo que apresenta e  analisa a imigração portuguesa em França desde os anos 60 até hoje, com base nos  recenseamentos e estudos estatísticos.
Biografia: Né le 21 mars 1967 à Cartaria - au Portugal - il est arrivé en France très jeune (à l’âge de deux ans), et y a fait toute sa scolarité. A l’issu de son parcours universitaire il obtient un diplôme de Maîtrise d’économie internationale à l’Université Panthéon-Sorbonne à Paris et un diplôme de troisième cycle d’économie européenne à l’Université Paris-Nord. Préoccupé par l’image du Portugal et des portugais en France, il s’implique dans un projet associatif qui lui permet d’agir afin d’essayer de commencer à faire évoluer les clichés. Parallèlement à son activité professionnelle il reste toujours attentif aux activités et à l’évolution de la communauté portugaise de France.

Qual é o público-alvo do seu livro ?
Apesar do livro ter um grande número de dados estatísticos, este não é um livro científico. O livro pretende fazer um apanhado da evolução da emigração portuguesa durante os últimos quarenta anos isto sob o aspecto estatístico (censos, localização, origens, vida social e profissional,...) analisando os dados sobre um outro ponto de vista salientando algumas particularidades próprias à comunidade portuguesa de França. Sendo assim, os primeiros interessados pelo livro são, sem dúvidas, os portugueses e descendentes de Portugueses em França. Os emigrantes portugueses, em geral, não tem forçosamente uma visão global da situação da comunidade neste país. O livro permite saber que em geral o emigrante português é cada vez mais proprietário da sua habitação, que as segundas gerações fizeram poucos estudos mas que conseguiram subir um pouco na escala social, que apesar de existir ainda fortes ligações com Portugal os jovens casam cada vez mais com franceses(as), que os emigrantes de França continuam a ser a comunidade que mais transfere dinheiro para Portugal,... O livro, segundo algumas informações, também interessa franceses que tem um bom relacionamento com os portugueses de França e que desejam obter uma importação mais genérica.

Qual é o objectivo do autor ?
Não foi apenas um. Foram vários. Um deles foi de realizar um documento que nunca tinha sido feito sob esta forma. Também foi para escrever sobre a comunidade portuguesa de França sob ponto de vista digamos mais “positivo” do que o que tinha sido feito até hoje. A imagem que tem, ainda hoje, a primeira geração presente em França continua de ser a do marido que trabalha na construção civil e a esposa na limpeza de casa. Mas ninguém fala do que esse casal conseguiu construir em França à força de muito trabalho e de uma coragem fora do comum (salários, casa em França, casa em Portugal...). Será que os franceses conhecem esta realidade ? Se a conhecessem as coisas provavelmente mudariam “um pouco”. Fazer evoluir as mentalidades é um trabalho de fundo de necessita muito tempo, muito trabalho e a boa vontade ... de todos nós !

Como e quem financiou a edição ?
A edição não teve nenhum financiamento. Foi apenas um contrato assinado com a editora que, após ter lido o trabalho, aceitou de publicar o livro tomando a seu cargo o risco financeiro.

Quais foram as principais fontes de referência ?
As fontes principais francesas de estatística foram os censos do INSEE (Instituto Nacional de Estatística Francês) e o INED (Instituto Nacional de Demografia Francês) em particular o estudo MGIS (Mobilité Géographique et Insertion Sociale) publicado em 1995 que foi um estudo que incluía muitos pormenores sobre as comunidades estrangeiras radicadas em França. A fonte estatística portuguesa foi o INE - Instituto Nacional de Estatística. Foram, naturalmente, utilizados uma série de documentos e livros tanto de autores franceses como portugueses.

Principais dificuldades para obter informação ?
Não tive dificuldades particulares em obter essas informações devido, principalmente, a um bom contacto no INSEE.

Pensa que as mesmas conclusões se podem aplicar a outras comunidades portuguesas residentes noutros países (diferenças Europa/América do Norte e Sul/África) ?
Não. Se bem que a diminuição do número de casos de emigração é uma realidade para todos os países que acolhem os emigrantes portugueses, a emigração portuguesa parece ter características bastante diferentes consoante os país de destino. É me difícil falar de comparar com outros países visto que não foi um tema desenvolvido no livro. No entanto, penso que se observamos a emigração norte-americana e a europeia, podemos distinguir alguns pontos de divergência entre outros a concentração (mais concentrados na América mais dispersos na Europa) ou a ligação a Portugal (Viagens a Portugal mais frequentes para os emigrantes portugueses da Europa muito menos para os da América).

Que se pode fazer - além do seu livro - para alterarem os “clichés” ?
Como disse, é um trabalho de fundo de demora muito tempo mas mais que tudo necessita do apoio de todos. Como todos sabem a criticar por criticar é fácil e sem inte-resse. Seria, sem dúvida, muito mais construtivo criticar para melhorar. Mas o melhor seria de apoiar para melhorar. Apoiar as iniciativas que dão voz à nossa comunidade. Aquelas que contribuem corrigir esses “clichés” como : Divulgar os casos de sucesso na comunidade quer em termos pessoais, profissionais, sociais ou culturais. Naturalmente isto é, por parte, da responsabilidade da imprensa e dos diversos meios de comunicação (rádio, Internet,..) mas também de algumas personalidades públicas que tem impacto junto da comunidade francesa civil ou política. É necessário alguma solidariedade entre todos aqueles que tem capacidade de comunicação par que todos nós possamos usufruir duma melhor imagem.

 A.C.

 

Março 02
Entrevista com Mariana Otero

A primeira vez que li o nome de Mariana Otero foi através de um artigo num jornal francês que destacava o belíssimo trabalho de realização dum filme documentário sobre a televisão comercial e neste caso a SIC do ex. Primeiro-ministro, Pinto Balsemão.O filme passava no canal ARTE. Gravei e, ainda há pouco tempo, para convencer um conterrâneo reticente da pobreza da televisão portuguesa lhe fiz descobrir este filme que tornou Mariana Otero famosa e reconhecida como realizadora de talento.
Mariana Otero é de origem espanhola, fala português porque viveu cinco anos em Portugal e não esconde que tem grande carinho pelo nosso país e pelos portugueses.Soubemos que estava a preparar um filme sobre um casamento luso-francês. Quisemos saber mais e marcámos entrevista num café em Paris.

Un nouveau projet avec le Portugal, de quoi s’agit-il et qui le finance ?
En effet, c’est un filme de 52 minutes pour la télévision, il y a déjà un financement portugais et, en ce qui concerne la télévision française, ce sera une télévision câblée. Plus tard, on pourra peut-être passer à une télévision nationale. En ce qui concerne le Portugal c’est la télévision publique et l’Etat qui subventionnent le filme.

Donc 50/50 entre le Portugal et la France ?
Oui, c’est l’idée, ce n’est pas fini en ce qui concerne la production, mais en gros on prévoit que cela fera du 50/50. On peut démarrer, il n’y a pas de problème avec le financement portugais. L’idée est de raconter des noces entre un français e une lusodescendante portugaise ou réciproquement, dont le mariage se ferait au Portugal. Ce qui nous intéresse ce sont des français qui descendent au Portugal à l’occasion du mariage, qui rencontrent et découvrent le pays à travers la famille portugaise, les préparatifs des noces… On voudrait tout suivre, les préparatifs, avec tout ce que cela comporte : le choix et la nationalité des chanteurs, le rite à l’église qui n’est pas forcement le même ici et la bas, comment ils vont organiser tout ça, etc.Nous voudrions les suivre depuis le départ de la famille française et de la famille portugaise au Portugal, et les suivre la bas, suivre la rencontre des deux familles.

Vous cherchez la confrontation des coutumes ?
Confrontation, non pas forcement de la confrontation, je ne pense pas qu’il y a beaucoup de différences entre les Portugais et les Français. Il y des choses similaires, enfin, les Français ont quand-même des tas de clichés sur le Portugal donc, c’est intéressant de voir comment ils réagissent. L’image du Portugal a énormément changé en quinze ans, il y a des choses qu’on n’a même pas ici, je prends un exemple :  l’autoroute, t’as ta carte c’est très rapide, en France tu t’arrêtes pour prendre le ticket, puis tu t’arrêtes je ne sais pas combien de fois pour payer.

Vous partez déjà avec une idée toute faite !…
Non, c’est simplement une image qu’on a mais il y a des contrastes  très forts au Portugal. Parfois on voit des paysans qui travaillent encore avec des ânes etc., et simultanément on voit des trucs hyper modernes, j’ai parlé de l’autoroute, mais il y a d’autres choses qui ont énormément changé. Cette image, les Français ne peuvent pas l’avoir d’ici et un mariage c’est une occasion de voir deux univers qui se rencontrent.

Comment comptez-vous faire ?
On commencera avec le mariage civil, qui en général se fait quelques mois avant, puis on suivra toute la préparation. Souvent, les familles font cela ensemble. On ira jusqu’aux noces où la, il y aura vraiment la rencontre des deux familles et des deux cultures.

En fait, votre idée c’est de montrer l’erreur des clichés à travers ce filme…
Oui, c’est cela, voir un peu où en est l’intégration. La communauté portugaise est quand même très bien intégré, les gens ont évolué. C’est intéressant de voir leur trajet, de les retrouver au Portugal dans leur village où les parents ou les grands-parents sont restés. Voir l’histoire de la famille portugaise à travers le mariage puisque tout le monde se retrouve, toutes les générations à la fois, c’est une dimension un peu historique.

Ce sera un peu romancé ou plutôt documentaire ?
Ce sera un documentaire, ce qu’on appelle le cinéma direct, c’est-à-dire vraiment l’idée de filmer la vie comme elle est. Il n’y a pas d’interviews, on filme plutôt le gens qui se réunissent pour discuter du mariage et de la préparation. Nous filmerons la fête, les gens qui parlent, les gens qui vivent leur vie. Nous sommes une toute petite équipe, il y aura juste quelqu’un à l’image, la réalisatrice (moi), deux pour le son, une petite caméra, une perche, vraiment un tournage simple, glamour. Il n’y aura pas d’éclairage, enfin, vraiment comme si on tournait un filme de famille, sauf que ce ne sera évidemment pas le cas, on va construire.

Est-ce que vous allez évoquer aussi la difficulté de la réintégration des portugais au Portugal ?
Cela peut venir au cours des différents événements. Par exemple, la façon dont la famille est accueillie dans le village, dans les relations avec les autres, cela peut venir à l’occasion du filme mais on ne va pas le provoquer. Si on voit effectivement que la famille est mise un peu de côté, s’il y a des réactions particulières au village, on peut filmer effectivement.

Connaissez-vous des exemples de couples mixtes ?
Moi-même, je vis en couple avec un portugais, je suis française d’origine espagnole, j’ai toujours vécu en France, je vis avec un portugais, on n’est pas marié mais c’est pareil. Je suis parti cinq ans pour vivre avec lui au Portugal, maintenant c’est lui qui est parti pour venir vivre ici.

On vous a découverte il y a quelques années au cours d’une émission diffusée sur la chaîne “ARTE”, un documentaire que vous avez réalisé sur la télévision portugaise “SIC”, on peut en parler ?
Oui, oui bien-sûr.

Cela n’a pas été organisé de manière à provoquer des réactions polémiques ?
C’est vrai que cela a été un peu mouvementé après filme, mais organisé comment cela, les scènes que j’ai filmée ?

Ce sont des questions que peuvent se poser ceux qui connaissant Emídio Rangel, le directeur de SIC de l’époque. C’est une personne très compétente dans sa profession, qui a un sens du marketing très développé et certains prétendent qu’il voulait provoquer des réactions violentes pour faire parler de “sa chaîne”.
C’est possible, en tout cas, à moi il ne m’a rien dit. Quand je suis allée le voir pour lui présenter le projet en disant que je voulais faire un filme sur une télévision commerciale, et montrer comment cela fonctionnait, les rapports entre les gens, les programmes etc., il m’a dit, “pas de problème, je suis tout à fait d’accord, allez’ y”. Après j’ai eu le temps, j’ai pu repérer le temps que je voulait, il y a eu le tournage pendant deux ou trois mois et je n’ai eu aucun problème.

Tout à fait libre ?
Tout à fait libre, comme je voulais sauf une fois, une scène m’a été interdite car ils discutaient d’un nouveau programme et ils ne voulaient pas que la concurrence soit informée. C’est la seule contrainte à part évidemment les réunions de Conseil d’Administration.

Quand Emídio Rangel dit qu’il achète des programmes pour insérer dans la publicité, vous n’avez pas l’impression qu’il cherche à faire de l’effet, avec ce genre de provocation ?
Il ne le dit pas ainsi…

Oui, peut-être d’une autre manière mais c’est ainsi que les gens dont moi-même l’ont interprété. Vous n’avez jamais eu l’impression d’avoir été manipulé ?
(Rires) Quand il a vu le film, il n’était pas mécontent, toutefois après les réactions que cela a provoqué il ne semblait pas ravi. Il a précisé qu’il n’était pas d’accord avec le film.

Il ne pouvait avoir de l’impact que s’il manifestait son profond désaccord…
Je ne pense pas avoir été victime de manipulations de la part de qui que ce soit. La télévision commerciale est tellement dans son univers qu’il ne s’est peut-être pas rendu compte de l’impact que cela pourrait avoir de montrer cette réalité.

Ce nouveau projet c’est pour le mois d’août ?
Oui, on cherche un couple mixte qui se marie au mois d’août au Portugal. On voudrait les suivre, avec une caméra. On s’intègre dans le décor, sachant qu’on est souvent la, au moment de la préparation, on est vraiment souvent avec eux ce qui facilite les contacts. Les gens s’habituent peu à peu à la caméra, se décontractent davantage, sont plus à l’aise et ils sont mieux à l’image. Si on vient que de temps en temps, les gens restent un peu coincés.

Est-ce qu’il y aura un casting ?
En principe non, on prend l’histoire telle-quelle, sauf si vraiment on trouve plusieurs candidats, dans ce cas on sera obligé effectivement de faire une sélection, mais nous n’avons aucun critère concernant les candidats.

António Cardoso

 

Dezembro 01

"Lua Vistà", novo nome para uma discoteca antiga


Marcámos entrevista com o Senhor Antunes, proprietário de uma célebre discoteca de la Queue-en-Brie, Val de Marne, região de Paris.

 

A discoteca “Cohyba”, era bem conhecida dos nossos compatriotas, agora tem um novo nome, “Lua Vistà”. Não é um pouco confuso para a clientela ?

Efectivamente pode parecer confuso mas não houve mudança de proprietários.

Fizemos simplesmente trabalhos de restauro na segunda sala, renovámo-la completamente.

Tive a ideia de criar um céu de luas e estrelas em fibra óptica, e ao mesmo tempo mudar de nome, um nome que corresponde mais a esta nova decoração. Lua Vistà é um nome mais latino. A empresa continua a ser a mesma, é uma das mais antigas empresas da noite em França, foi criada em Maio de 1990.

 

Esta discoteca foi também conhecida com o nome de “Tcha-Tcha-Tcha” cujo proprietário era Toni Apolinario ?

Exactamente, eu comprei ao Toni, e desde então não voltou a mudar de proprietários, a sociedade continua a ser a mesma.

 

Aparentemente, a mudança de nome de “Cohyba” para “Lua Vistà” não foi só devido à mudança da decoração ?

De facto, “Cohyba” foi um nome inspirado por uma das viagens que fiz a Cuba, e lembrei-me de baptizar a discoteca com esse nome. Ora acontece que, “Cohyba” é uma marca de tabaco, que me contactou, informando-me que só podia vender aquela marca, e além disso teria que pagar uma importância relativamente elevada, sobre direitos de utilização da marca.

Como renovámos a discoteca, decidimos mudar simplesmente de nome, e como já disse, atribuímo-lhe um nome mais português, sobretudo mais latino.

 

Os vossos clientes são jovens, principalmente?

Temos duas salas e um espaço VIP, completamente privado, com capacidade para 60 pessoas, um espaço que pode ser reservado para uma festa ou outro evento com bar privativo.

A sala “Lua Vistà”, está efectivamente destinada aos mais jovens, mas ao lado temos a sala “Fiesta”, onde se passa mais música portuguesa e latino-americana. Essa sala, é mais frequentada por pessoas a partir de 35/40 anos, bem que as pessoas possam transitar de uma sala para a outra sem problema.

 

O D'J Valdo é bastante conhecido, qual é a função dele?

O Valdo já “faz parte dos móveis da casa”, anima a sala “Fiesta”, porque é um género de música que ele gosta, e é uma das salas que começa a ter um grande sucesso, assim como uma clientela própria.

 

Pode-se ver pelo programa, que todas as semanas há um tema diferente. É uma programação anual ?

Sim, temos um programa diferente, todas as sextas-feiras, desde o artista ao vivo até às noites a tema. Temos que variar, para não cair em monotonias, e não podemos esquecer que as pessoas querem sempre coisas novas, e diferentes.

 

Há bastantes discotecas portuguesas, sente a concorrência ?

Sim, mas nós temos uma discoteca de referência, e cada qual tenta inovar para atraír a clientela. Quem visita a casa diz que, com respeito à decoração, é a melhor, neste momento. Quem conheceu o Tcha-Tcha-Tcha, que citou, não tem nada a ver.

 

As tendências também não são as mesmas...

Isso é uma realidade !

 

Quais são os dias de abertura da discoteca ?

Sextas-feiras, sábados e vésperas de dias feriados.

 

Quais são os critérios de ingresso na discoteca ?

Tentamos deixar entrar toda a gente na discoteca, as meninas têm entrada grátis até a meia-noite, claro que a nossa clientela é mais portuguesa ou de origem portuguesa, mas também temos clientes franceses.

 

Têm aqui um serviço de segurança bastante importante, e rigoroso. Nunca tiveram problemas com a polícia ou com a municipalidade ?

Não, pelo contrário, temos amigos, mas é como em todas as casas, não pode haver barulhos todos os dias, não temos problemas nem com a polícia, nem com a municipalidade. Quanto à segurança, é verdade que temos um serviço eficiente porque desde o início, tentei impor um pouco mais de rigor e ser restrito a nível da clientela. Por exemplo, se vier uma pessoa que não tenha boa apresentação, não é fácil entrar, se cheirar a álcool é ainda mais difícil. A partir das duas horas da manhã, se vier sozinho também é difícil. Entendo que deve haver um certo rigor para se ter uma casa correcta, e como lidamos com pessoas correctas, se por um motivo qualquer surge um problema, tentamos resolvê-lo e as pessoas compreendem que se o sistema é assim, é para que toda a gente se possa divertir e sentir à vontade.

 

Ainda há bem pouco tempo vieram a público vários problemas de discriminação em discotecas, já tiveram percalços desse género?

Não, felizmente nunca tivemos esse tipo de problema, mas na nossa casa também não podemos receber três mil pessoas, e, tudo o que podemos dizer, é que a nossa casa na origem está vocacionada para um público português.

 

Se vier aí um português com amigos africanos, ou de outras origens, qual é a vossa posição?

São recebidos como todos os clientes da casa, mas se vier um grupo de pessoas de outras origens, que nos faça pensar que o ambiente não lhes agrade, tentamos explicar, fazendo compreender qual é o público da casa. Geralmente, as pessoas bem intencionadas, compreendem.

 

José Lopes

 

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Junho 01  

Filho de peixe sabe nadar

 

Anthony Michael tem 16 anos, nasceu em França e vive actualmente em Portugal.

Fomos encontrá-lo no Cantinho dos Artistas, o Bar Dancing de Vasco Jorge, na Praia da Rocha.

 

Anthony, se te dissermos : Vasco Jorge. O que significa para ti ?

Anthony Michael : (Risos) A autoridade parental !

Agora a sério, Vasco Jorge é o meu pai, alguém por quem sinto muito orgulho.

 

Foi o facto de teres um pai cantor que te fez ir para o mundo da música ?

Penso que sim, embora até há pouco tempo atrás não me passasse pela cabeça, cantar, mas a música sempre foi uma das minhas paixões. Já em pequeno tinha a mania de agarrar em qualquer coisa para fazer de instrumento, uma raquete a fazer de guitarra, qualquer coisa servia para tocar bateria. Enfim acho que já estava predestinado.

 

Como é que foi a primeira vez que cantaste em público ?

Um drama ! Pus uma sala inteira a chorar. Tudo começou o ano passado, no dia do pai. Eu já tinha tocado piano e sintetisador em público, mas cantar nem sonhava. Nesse dia quis-lhe fazer uma surpresa. O meu pai tinha gravado há uns anos uma canção que se chama “Meu pai meu herói, meu amigo”, e eu achei que cantá-la, seria para ele uma grande homenagem. O resultado foi surpreendente e comovente. Chorou o pai, o filho e os clientes. A partir daí as pessoas começaram a pedir-me para cantar e até agora tem sido assim.

 

Há pouco dizias que a música era uma das tuas paixões. Qual é a outra ?

O futebol ! Isto faz-me lembrar uma velha canção que se chamava “eu tenho dois amores”, bem, contando a namorada tenho três ! É um grande problema porque jogo futebol, e não consigo de maneira nenhuma escolher entre a música e a bola.

 

Mas além disso continuas a estudar. Como é que concilias isso tudo ?

O mais difícil são os jogos, quando na véspera estou a tocar até as 5h da manhã e tenho que me levantar às 8h para ir jogar. Os meus pais até se passam ! Para a escola não tenho esse problema, até porque levanta-se logo a voz da “autoridade parental” a dizer : “É tudo muito bonito, mas há prioridades !” Durante a semana só trabalho à quarta-feira, porque no dia seguinte entro à 1h da tarde.

 

Talvez os nossos leitores não saibam, que tu começaste a jogar nos Lusitanos de Saint-Maur. Saudades desse tempo ?

Muitas !! Gostei muito de jogar nos Lusitanos. Tive um excelente treinador, o Jorge Plácido. Aproveito para enviar daqui o meu abraço. Foi uma boa escola e no fundo uma referência, porque quando vim para cá entrei logo no Portimonense.

 

Voltemos à música. Actuas habitualmente no Cantinho dos Artistas, já tiveste oportunidade de actuar noutros locais ?

Já sim. Até já ganhei uma taça. (Não é só no futebol que se ganham taças). Já animei a semana gastronómica aqui no Algarve, o convívio de Natal dos idosos, foi uma experiência muito engraçada e tenho feito algumas animações. Infelizmente tenho recusado alguns convites, porque enquanto estiver a estudar não posso fazer tudo.

 

Como é que os teus pais reagem a toda essa actividade ?

Mal ! Todos os fins de semana é uma guerra lá em casa. Mas só “refilam” no Sábado à noite, quando eu digo que tenho que me levantar às 8h da manhã. Depois quando chego a casa e digo que marquei um golo ou dois, dão-me um grande abraço e mandam-me dormir.

Numa coisa estamos de acordo, é que o que muitas vezes falta aos jovens da minha idade, é actividade.

 

Seres filho de um cantor é uma vantagem ou um inconveniente ?

Só pode ser um inconveniente. Qualquer músico que vá ao bar, pode fazer as “fífias” que quiser, que o meu pai não vai lá discutir com ele. Se for eu, é um problema.

Além do mais considero que é uma grande responsabilidade, porque as pessoas vão ali para ouvir o Vasco Jorge, sabendo que eu sou filho, vão comparar e prestar mais atenção. Por tudo isso acho que é um inconveniente.

Mas ser filho do Vasco Jorge tem uma grande vantagem, porque é um pai amigo, chato como todos os pais, mas um Pai Herói.

 

Gravar um disco é uma ideia que te seduz ?

Por enquanto não. Não quero para já lançar-me num mundo que me parece muito viciado. Agora estão na moda os Boys Band e não é exactamente isso que eu quero fazer. Vou esperar que a moda passe. De qualquer modo, como tenho um bom conselheiro, quando chegar o momento, logo se vê.

 

Estás em Portugal há três anos, que balanço fazes ?

Muito positivo. Gosto de Portugal, vivo ao pé do mar, tenho mais liberdade, é “bué da fixe”. Mas tenho muitas saudades de Paris, que é a minha terra.

 

Que mensagem gostavas de deixar aqui aos jovens da tua idade ?

Para já que procurem alguma actividade. Enquanto estamos ocupados não pensamos em fazer asneiras. Que é bom viver sem drogas, sem tabaco, sem álcool e é tão bom namorar, dançar, fazer desporto etc.

 

Aqui fica esta mensagem de um jovem de 16 anos. Futuro músico, futuro futebolista, quem sabe ?

Isso não importa. O que importa mesmo é que seja um HOMEM no futuro.

 

 

 

Abril 01 

Entrevista a Alex

 

Francisco António Alexandre Rodrigues, conhecido por Alex, nascido em Portimão, iniciou a sua carreira artística nos anos 60. Actuou pela primeira vez em África, Moçambique, Angola, África do Sul entre outros países. Em Portugal, participou na revista “Vinho Novo”, no teatro ABC e começou em seguida uma longa trajectória no estrangeiro desde a Europa ao Brasil até ao Japão, onde ganhou o primeiro prémio do Festival Internacional de Sappóro de 1978 com a canção, “Mitchió, Mitchió”. Em digressão pela Europa para a apresentação do seu novo álbum, “Segredos”, aproveitámos para entrevistar este simpático cantor.

 

Vida Lusa : - Já não vimos o Alex aqui por França há volta de 15 anos, que tem feito ?

Alex : - Vim de África para França há uns 30 anos com os meus pais. A minha pátria é Portugal mas sou filho do mundo. Voltei quinze anos depois a França mais para matar saudades e para mostrar o meu novo trabalho. A minha vida tem sido feita mais com base na América, Canadá e obviamente Portugal.

 

O continente americano é bastante atractivo para os artistas pois tem também muita imigração oriunda de Portugal…

Sim principalmente dos Açores e da Madeira, menos do continente.

 

Como se define o Alex enquanto artista ?

Eu canto tudo e, como sou autor compositor de todos os meus trabalhos, já são 46 álbuns, só em Portugal, desde que haja uma guitarra canto fado, canto técno, dance musique, folclore, rap ; tudo.

 

Um cantor generalista ?

Sim, vem-me uma ideia à cabeça, faço o poema, a música, a orquestração e por isso nos meus trabalhos é sempre difícil escolher uma canção para pôr nos topes porque as pessoas têm gostos diversificados e eu tento propor-lhes um pouco de tudo.

 

Geralmente, cada cantor tem um estilo próprio, você não se pode catalogar ?

Não, eu não tenho estílo específico, canto em português, inglês, francês, italiano, espanhol, etc. Gravo em português, na América gravei canções em inglês e também gravei três temas em francês há uns 20 anos assim como um tema muito bonito chamado, “je ne peux pas” que eu vou refazer agora no Natal, no meu próximo disco.

 

Considera-se um cantor português ?

Considero-me um cantor do mundo, sou Português de nascença, sou algarvio de Portimão, mas sou um cantor que nunca sabe o que vai fazer num palco pois adapto-me ao público. Se estiver numa aldeia, vou interpretar música dita “pimba” fazer aquelas brincadeiras que as pessoas gostam. Como é lógico, se estiver num casino, ou num espectáculo com maior dimensão, vou adequar o meu estilo de música.

 

O facto de viajar pelo mundo inteiro nomeadamente na América, permite-lhe encontrar comunidades portuguesas com modos de vida diferentes, qual é a sua opinião sobre os artistas que se produzem habitualmente para este público e como tem sentido as eventuais diferenças entre essas comunidades.

Na América, o respeito pelo emigrante é muito grande, é gente muito educada e tudo o que é Português, eles adoram. No Canadá, é exactamente a mesma coisa, além disso há uma colónia muito importante de gente maravilhosa de África, pessoas que me conheceram há 40 anos em África e que contribuíram a que eu tivesse salas maravilhosas.

No meu tempo, para se ser artista tinha de se fazer um exame na Emissora Nacional, tínhamos de prestar provas à frente de uma orquestra de 50, 60 músicos, um júri de três maestros, e, passávamos ou não. Hoje quem tem dinheiro faz uma cassete, torna-se artista. Portanto há muita gente que não representa a nossa música com condições. É claro que há nos dias de hoje uma maior abertura para o artista, seja ele qual for, desde que tenha um bocadinho de nível, que saiba interpretar. Eu não vendo música, eu gasto-me, porque sinto aquilo que dou e costumo dizer que cada interpretação minha tira-me meio quilo de cima do corpo, pois gosto do que faço. Agora há aqueles que querem entrar no meio à força, vivem uns tempos disso e desaparecem, ora nós, já cá estamos há 40 anos.

 

E a diferença entre os emigrantes da primeira geração e os lusodescendentes ?

O que eu acho interessante é que a nova geração continua a gostar muito de fado, é impressionante. Parece incrível, fado tornou a abrir portas. Os jovens gostam evidentemente da música moderna mas o fado está sempre presente. Os antigos, é a saudade, aquela ternura da terra onde nasceram mas a juventude que já nasceu fora de Portugal, que sejam Americanos ou Franceses que por vezes nem sequer querem ir de férias a Portugal continuam a gostar de fado. Mas Portugal evoluiu muito nestes últimos vinte anos e acredite que a nossa música, hoje está muito bem defendida. Há trabalho para toda a gente e, eu felizmente não me queixo.

 

O Alex já tem uma pontinha de pronuncia americana…

É normal, estou lá há muitos anos e o inglês é a minha segunda língua depois do português e em seguida o francês, no qual como costumo dizer : “desembrulho-me pas mal”.

 

Disse que gravou 46 álbuns em português, 68 na totalidade, em 42 anos de estrada, o que deixa adivinhar que já não é propriamente um jovem…

A idade não me assusta porque sou uma pessoa que no palco não tem idade. Estou duas horas num palco a dar a música que o público quiser, a dançar, pular sem qualquer problema. Eu tenho um grupo de bailarinos em Portugal que acompanha o meu espectáculo mais as minhas duas filhas. Eles ao fim de meia hora estão cansados e eu estou lá a dar… E, venha o segundo espectáculo se for preciso.

 

 

Fevereiro 01 

Entrevista a Carla Sofia

 

Carla Sofia pode ser considerada com uma das mascotes da Vida Lusa. Foi de facto o seu bonito rosto que ilustrou a capa do primeiro número em Dezembro de 1997.

Desde aí, Carla Sofia tem estado quase permanentemente em Portugal, onde continuou no teatro e gravou um novo álbum que saiu no ano passado. De volta “por uns tempos a Paris”, Sofia, - nome pelo qual muitos portugueses a conhecem - concedeu-nos uma nova entrevista.

 

Vida Lusa : - Fez em Dezembro três anos que foste entrevistada pela Vida Lusa. Que fizeste durante esse período ?

Carla Sofia : - Continuei as actuações junto da Comunidade Portuguesa, em França e noutros países, principalmente na Europa. Num desses espectáculos em França, vieram ter comigo e propuseram-me para gravar um álbum em Portugal. Como era o meu principal objectivo, aceitei e fui para Portugal novamente. O álbum saiu há alguns meses, com letra e música de Ricardo..., de Tony Carreira e uma versão de uma canção de Jean Jacques Goldmann. Não tem músicas minhas, é um álbum de Pope, Rock e música country, que tive de estudar para tentar ser diferente do que era habitual na Carla Sofia. O nome foi alterado de Carla Sofia, para só Sofia e também a maneira de interpretar assim como o visual.

 

Qual é a razão da alteração do nome, do estilo e da interpretação ? A produção desejava cortar completamente com o teu passado de artista e apresentar-te como uma novidade ?

Sim, não queriam que se falasse na Carla Sofia, mas sim de uma nova artista. Mandaram-me cortar o cabelo e enviaram-me a uma estilista. Teve de haver também um investimento da minha parte, do ponto de vista físico, tive que emagrecer. É verdade que hoje em dia, o mercado está de tal maneira saturado que não nos podemos limitar simplesmente a cantar e ter um rosto bonito. Temos de ser esbeltos, elegantes etc. Portanto tive que perder uns quilos para que fosse também um investimento de ambas as partes.

No entanto constatei que durante as muitas entrevistas que dei um pouco por todo o país, que, as pessoas conheciam o meu trabalho anterior e tinham os meus discos, portanto nesse aspecto a mudança de nome e outras coisas, não tiveram qualquer influência.

 

Como falas de investimentos, quem os fez do lado da produção e que tipo de contrato te foi proposto ?

A produção foi da Carreira Produções e ocupou-se dessa parte do visual, e a editora foi a Espacial que também ajudou bastante nessa parte, nomeadamente fornecendo roupas e noutros aspectos. No início entre a produção e a editora, eles ocupavam-se disso tudo, mas a certa altura, julguei que algumas coisas não tinham a ver comigo e comecei eu própria a cuidar da minha imagem em relação directa com a Editora.

 

Carreira Produções, é a empresa do Tony Carreira, essa mudança reflecte que alguma coisa falhou na tua relação com a produção?

Não digo que falhou, mas não estava propriamente ao meu gosto. Como se constatou que também não estava ao gosto da Editora, decidimos optar pelo meu gosto próprio e os conselhos da Editora.

 

Como se têm passado as vendas desse álbum ?

Em relação às vendas não sei pois não tenho qualquer controle, já que não tenho temas meus, não posso saber, mas em relação à aceitação do público tem sido boa.

 

Há algo que não compreendo, dizes que não tens temas teus mas és interprete, portanto, normalmente deverias ser remunerada em função das vendas desse trabalho e obviamente estar a par das vendas.

No contrato que assinei, eu abdicava das vendas para investimento por parte da produção e da edição em publicidade na televisão.

 

Ainda não percebi qual é a vantagem, já que aparentemente só podes ser remunerada pelas actuações em espectáculos. Parece-me impossível que uma sociedade de produção ou de edição possa reter os direitos devidos ao interprete, seja qual for a razão.

Não sou a única neste caso, há muitos e já o meu anterior contrato foi assim. A única maneira de escapar é que o artista já seja muito conhecido, que bata o pé e exija receber os royalties.

Mas no início, o artista tem de se sujeitar a certas condições.

 

Foi um contrato para um só álbum ou tem outras condições ?

No meu caso foi um contrato de quatro anos.

 

Continuo a não compreender como é que um artista, seja ele qual for, aceite de estar ligado a uma empresa de produção durante quatro anos, durante os quais só pode ser remunerado pelos eventuais espectáculos que as campanhas de publicidade podem gerar.

Nem é bem assim porque isso seria bom demais para mim. A produção tem também a exclusividade dos espectáculos. Não me posso queixar porque as condições do contrato eram estas e eu aceitei-as. Eu tinha necessidade de editar um novo álbum para as pessoas começarem novamente a ouvir falar de mim, portanto tive que me sujeitar à exclusividade.

 

De facto o sistema posto em prática por essas empresas é fácil de compreender e é simplesmente escandaloso. Trata-se sem a menor dúvida de um abuso de posição dominante, que coloca quem quer começar ou reactivar uma carreira, - sem brincar com as palavras - numa total dependência.

Então como têm corrido esses espectáculos exclusivos ?

Não muito bem. É uma realidade que o mercado em Portugal está muito saturado, cada vez há melhores e novos talentos, o que é muito bom porque valoriza a nossa música. A concorrência é salutar porque nos faz evoluir e faz com que sejamos mais exigentes com nós próprios.

 

Esperamos que não haja muitos na tua situação porque se não têm outras actividades para viver, morrem de fome...

Infelizmente, há alguns. De facto se não tiverem uma situação paralela...

No meu caso, sou autora-compositora, não me limito só a cantar, também escrevo para os outros. Vai sair brevemente em Portugal um álbum de um grupo novo que se vão estrear com dois temas meus e faço bastantes trabalhos de estúdio, dobragens, etc. Portanto é uma situação que eu tenho tido em paralelo com a música, senão era impossível.

Também tem que se ter em conta os investimentos que realizam as produtoras e as editoras, no meu caso, eu não gastei um centavo. Daí o facto de me sujeitar a certas coisas. Se tivesse de produzir, era diferente, tinha de assumir esses gastos.

 

Sim, não gastas mas também não recebes. Como se traduz a dita exclusividade em relação aos espectáculos ?

O artista está em casa descansado e o produtor é que entra em contacto com os empresários, com as comissões de festas em toda a parte do Mundo mas principalmente em Portugal. Marcam os espectáculos, tratam do correio do envio do material de promoção e nós apresentamo-nos no local com estadia e transportes pagos. Mais uma vez são eles que investem, deslocam-se quando é necessário e depois nos espectáculos organizam tudo, incluindo o som as luzes etc.

Antigamente quando eu produzia, tinha de levar e fazer montar o som e as luzes, pagar aos músicos, aos técnicos e organizar essas coisas todas.

 

É evidente que um artista tem necessidade de alguém que trate da produção e longe de nós a ideia de pôr em causa a seriedade de quem quer que seja ou o trabalho que realizam e os riscos que os produtores correm. No entanto depreende-se por tudo o que nos relatas que nestes casos, o artista fica de pés e mãos totalmente atadas à produção durante quatro anos, sem o direito a receber o que quer que seja das vendas do seu trabalho.

Presumo que no mínimo, exista uma garantia de poder actuar num determinado número de espectáculos ?

Essa foi uma clausula recusada. Não existe nenhuma garantia.

 

Isso revela que o artista pode ficar em casa indeterminadamente à espera que o telefone toque. No teu caso, o telefone tocou muitas vezes ?

Infelizmente não. Nesse aspecto não correu muito bem mas noutros foi positivo, pois o meu objectivo era que as pessoas voltassem novamente a ouvir falar de mim. Ora esse objectivo foi atingido e abriram-se novas portas e novos horizontes. Como já não gravava nada há muito tempo teria de apresentar às editoras um trabalho já feito e acabado. Neste caso, o risco que as editoras não quisessem o trabalho, foi a produtora que o assumiu. Eles correram o risco de perder o investimento. Agora que tenho este trabalho feito já tenho outras editoras que graças à promoção e por gostarem da voz e provavelmente do visual, se mostraram interessadas. Portanto esta é a parte boa deste contrato e era no fundo o que eu pretendia.

 

Como é lógico, o risco faz parte do dia a dia de todas as empresas. Os produtores fazem sempre uma avaliação dos riscos e não apostam em quem não corresponda a determinados requisitos. Mas em qualquer parte do Mundo, os artistas são remunerados em função dos resultados das vendas dos trabalhos que interpretam. O tipo de contrato que dizes ter, parece mais um golpe de um produtor que quis ganhar uns tostões, sendo claro que o artista, tendo ou não sucesso, não terá qualquer interesse em o renovar.

Em relação à produção de facto, deixa um bocado a desejar, no entanto, devo dizer, que fui muito bem tratada pela editora, não tenho razão de queixa deles, fizeram o que era necessário. Investiram num video-clip, pagaram deslocações, hotéis, comida etc. Não tive qualquer problema com eles.

 

Agora voltaste a Paris. Contas ficar algum tempo ?

Sim, fiz uma pausa, uma pausa para novos projectos. Actualmente estou a analisar qual será o melhor caminho, ver que tipo de propostas serão as mais interessantes para a carreira que quero seguir e também o estilo de música pelo qual devo optar. Gostei muito de gravar este último álbum mas talvez agora vá para um estilo mais ligeiro, estou a ponderar e logo se vê.

 

Qual é o teu estilo de música ?

O romântico sem dúvida, a balada, embora também goste de cantar outro tipo de ritmos mas o que tem mais a ver comigo, é a balada romântica.

 

A.C.

 

 

 

 Janvier 01

Interview avec Philippe Seguin, candidat à la Mairie de Paris

 

Vida Lusa : - Une des questions les plus importantes que les Portugais se posent par rapport à votre candidature à la Mairie de Paris, est le fait que vous ayez fait une énorme campagne contre le traité de Maastricht. Beaucoup de personnes, et pas seulement les Portugais, croient que vous êtes contre l’Europe. Pouvez-vous nous expliquer votre position ?

M. Philippe Seguin : - Certainement. Moi, je suis pour la construction européenne et comme beaucoup de portugais, pour une Europe qui soit respectueuse de la spécificité de chacun des pays membres. Je crois qu'on ferait une très mauvaise Europe si les Portugais se mettaient à ressembler aux français et si chacun perdait sa spécificité ; je vous donne un exemple : Ce n’est pas parce qu’on a fait des structures régionales en France, en Italie, en Allemagne, qu’il fallait les imposer au Portugal. Or, au nom de la conception européenne que je combats, on a essayé d’inventer des régions portugaises. Les Portugais ont dit très logiquement qu’ils n’en voulaient pas, parce qu’ils voulaient garder leurs habitudes. Ils participent à la construction européenne mais ils ne veulent pas qu’on leur impose des choix de l’extérieur. On construit ensemble mais on ne se renie pas soi même.

Ce que j’ai surtout reproché au traité de Maastricht, c’est le fait qu’il enlève la démocratie au niveau national, ce que je comprends tout à fait, mais on ne la rapporte pas au niveau européen. Par exemple : ce qu’on prend aux Parlements nationaux, on le donne aux exécutifs au niveau européen. Là, on a un déficit démocratique de la construction européenne qui a été consacré et aggravé par le traité de Maastricht, ce qui à mon avis nous interpelle tous.

Nous connaissons tous une crise politique dans nos pays actuellement, la France en particulier, l’Italie, les Allemands, etc… Pourquoi ? Parce que les gens ont en face d’eux, des élus qui n’ont plus de véritable prise sur les problèmes, alors qu’en revanche, ils n’ont aucune façon de désigner ou de sanctionner ceux qui décident. Donc, ma critique à la construction européenne, ne s'applique certes pas à ce principe, c’est une évidence absolue mais, en revanche, il faut que nous construisions ensemble quelque chose qui reste un ensemble démocratique et qui préserve nos valeurs.

Si le Portugal, l’Espagne, la Grèce, sont rentrés si rapidement dans l'Europe, après leur accession à la démocratie, c’était précisément pour les aider à conforter leur démocratie. Il y avait toutes les raisons économiques du monde pour leur dire : attendez à la porte. C’est dire que, si nous voulons faire l’Europe, c’est aussi pour parfaire notre démocratie commune. Et, c’est grave de l’oublier, au nom de je ne sais pas quelle technocratie et quelle bureaucratie.

 

Peut-on dire que vous êtes contre l’idée des états unis d’Europe ?

Pas du tout, mais je suis contre un système non démocratique. Or actuellement l’Europe, ne fonctionne pas de manière démocratique. Ce qu’on enlève aux parlements portugais, français etc… on ne le donne pas au parlement européen. On le donne à la Commission ou au Conseil des Ministres.

 

L’Europe vient de décider d’interdire l’utilisation des farines animales. C’est quand même une décision importante pour l’avenir…

Oui bien sûr. Il y a des décisions intéressantes mais vous avez aussi des décisions qui vous tombent sur le dos sans que vous sachiez d’où ça vient et sans avoir eu la possibilité de discuter, de dire de faire attention. Par exemple : tous les poissonniers, les marchands de fromage qui sont dans la rue aujourd’hui à Paris ou à Lisbonne, ils ont appris qu’il y avait des normes qu’ils devaient absolument respecter et qui ont été inventées sans qu’il y ait eu débat démocratique.

 

Plus de deux tiers des européens non français qui sont en France, sont d’origine portugaise. Vous avez pris dans vos listes un représentant de cette communauté. Sachant que traditionnellement cette communauté n’a pas été habituée à voter, quelles sont vos attentes ?

Au-delà du profil électoral, j’avoue que je ne suis pas sans arrière-pensées. Dès lors que c’est la première fois que cette possibilité est ouverte, je crois qu'il est de mon devoir d’amorcer la pompe. Et donc, même si à la limite ça n’apportait rien, d’appliquer la loi dans son esprit - ce qui n’est pas le cas, compte tenu de la personnalité que j’ai choisie - cela permettra qu'il y ait encore plus de portugais inscrits sur les listes électorales dans 6 ans.

Nous avons décidé librement une règle du jeu pour les élections locales, il faut qu’elle joue complètement.

 

 

 

 Janvier 01

Interview du Maire du 12ème arrondissement de Paris, 

M. Jean François Pernin 

 

Vida Lusa : - Quelles sont vos perspectives pour cette campagne électorale, M. le Maire ?

M. Jean-François Pernin : - Naturellement, nous serons avec M. Philippe Seguin que nous voulons voir Maire de Paris. Nous avons une mission très importante dans cet arrondissement puisque nous avons 140 000 habitants, c’est un des arrondissements les plus importants de l’Est parisien. Nous sommes à l'origine d'un certain nombre de réalisations, notamment des espaces verts ce qui fait du 12ème, l’arrondissement le plus vert de Paris. De même, nous avons œuvré pour l’accueil des communautés européennes, comme dans le quartier de la gare de Lyon où il y a une très forte communauté portugaise que je connais bien.

Vous dites que c’est l’arrondissement le plus vert de Paris mais vous avez déjà le bois de Vincennes…

Oui, le Bois de Vincennes fait partie du 12ème arrondissement mais en plus nous avons fait ce que nous appelons la Coulée Verte. C’est une promenade plantée qui va du bois de Vincennes à la Bastille, nous avons réalisé 13 hectares de parc à Bercy et surtout, le plus important pour les habitants, nous avons créé de nombreux petits espaces verts dans les quartiers. Ce qui fait que chaque habitant de cet arrondissement est à moins de 500 mètres d’un espace vert.

 

Votre famille est dans le 12ème depuis très longtemps, votre père, M. Paul Pernin, a été Maire de 83 à 1994 et vous lui avez succédé.

Ma famille habite cet arrondissement depuis plus de 100 ans, j’habite près de la gare de Lyon et mes enfants y sont nés.

 

Si ma mémoire est bonne, c’est dans le 12ème que Jacques Chirac a lancé sa première campagne …
Tout à fait, c’était au cours d’une réunion dans le 12ème. C’est un arrondissement très aéré du point de vue de l’urbanisme, très agréable à vivre et représente donc un peu tout ce qu’on aimerait voir dans sa ville et dans son pays.

 

Est-ce que vous savez combien de résidents européens non français habitent votre arrondissement ?

Environ 10% (14 000).

 

Pensez-vous que cela risque d’influencer de manière significative les résultats électoraux ?

C'est très important que ces communautés se sentent bien intégrées dans l’arrondissement, cela me semble primordial. De nombreuses personnes de la communauté européenne  viennent me voir à la Mairie et cela se passe très bien. Alors, naturellement leur vote est fondamental parce qu'avec plus de 10% de votes pour le mois de mars, finalement ils ont le résultat entre leurs mains.

 

La population portugaise représente plus de 2/3 de ces européens, le fait de prendre un candidat portugais dans vos listes, c’est un clin d’œil et une manière d’essayer de les faire voter en votre faveur ?

Un candidat, et quel candidat ! Si je peux me permettre… C’est à la fois un clin d’œil et c’est aussi reconnaître que ces communautés ont leur place dans la vie de la cité.