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Opinião

TIMOR! Basta de martírio...

 

Por Luís Barreira 

 

Não é sem uma angústia especial que constatamos, mais uma vez, o sofrimento do pobre povo de Timor.

Sabíamos que o processo de independência de um novo país, nascido de um combate desigual, ao longo de dezenas de anos e num contexto internacional cheio de armadilhas e ameaças, não era simples, nem isento de problemas.

É também evidente que, quando um povo luta pela implantação e afirmação do seu próprio país, em condições tão adversas como fez o povo timorense, é porque aspira a um futuro melhor do que aquele que tinha sob a ocupação das tropas indonésias. Quando tal não acontece, as interrogações, contradições e conflitos de toda a espécie, acabam por se sobrepor às superiores razões, que conduziram este povo à sua independência.

Também tínhamos a consciência de que, independentemente dos fortes laços históricos de amizade e solidariedade do povo português para com esta jovem nação, Portugal não dispunha (nem dispõe) de meios que permitam ajudar, convenientemente, este País longínquo, “encravado” entre a populosa Indonésia, que não lhe facilita a vida e a grande Austrália, que não esconde o desejo de o controlar.

O que actualmente se passa, com sintomas que se vinham manifestando há alguns meses, não é fácil de discernir a quem, a muitos milhares de quilómetros de distância e com toda a carga sentimental que nos une a essa população, observa: a selvajaria de grupos organizados, que espalham o terror entre as populações indefesas; o desmembramento de um exército, que supostamente deveria ser o baluarte da defesa do País e que hoje combate entre si; as contradições políticas, patentes e latentes, entre camaradas de armas, forjados em décadas de luta extremamente difícil e o vaivém contínuo das populações, a quem tudo falta, fugindo para as montanhas, mas regressando apressadamente às suas casas, na tentativa de salvar os seus parcos haveres.

No entanto, colocando o coração de parte e o desejo idílico de ver rapidamente esta  sociedade organizada, em torno do bem estar da sua população, não será muito difícil, aos portugueses, compreender as actuais dificuldades desta jovem nação. Nós próprios, embora num contexto diferente e com quase mil anos de independência, tivemos, na nossa história recente, episódios semelhantes, para já não falar dos atribulados processos de independência de algumas das nossas ex-colónias.

Num país com graves carências, como é o caso de Timor, aos observadores distantes que, como eu, tentam interpretar as causas da actual situação, a origem dos  problemas pode ser múltipla e estar dispersa entre: a insatisfação e frustração de alguns sectores da população, com altos níveis de desemprego (e a marginalidade que tal engendra) e as enormes dependências externas, no domínio das necessidades básicas; a acção do que resta dos desestabilizadores pró-Indonésia, tentando demonstrar as vantagens da inclusão deste território no “grande irmão muçulmano”; a má governação dos (pouco preparados) órgãos de soberania deste recente País; alguns pequenos conflitos étnicos, levados ao extremo pela má repartição das vantagens do Estado; as contradições políticas entre os diferentes órgãos de soberania, cujas origens podem estar ligadas a diferentes concepções sobre o futuro do País, etc, etc.

Naturalmente que, a todas as causas internas, devemos associar as causas externas, que não são menores.

Do petróleo de Timor até à pretensão de uma área de influência exclusiva da Austrália, com interesses associados nesta zona da Ásia, as pressões sobre o  povo timorense têm sido muitas e bastante duras, para este pequeno povo, repartido entre um passado histórico e religioso, com profundas influências portuguesas e um futuro que deve ser determinado pela geo-política desta zona do globo.

Num imbricado de problemas que não podemos resolver e com a clara convicção de que pouco podemos fazer, os portugueses deixam cair uma lágrima por cada criança timorense que chora, por cada família inocente que é assassinada, por cada rosto que espelha sofrimento.

Com o sentimento de uma profunda admiração e amizade para com eles, resta-nos esperar que, o que quer que decidam para o futuro de Timor, ele seja realizado com o mínimo de sacrifício para este martirizado povo. Já chega!...

 

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A glória do autor de “Luuanda” 

no Prémio Camões

Por Fernando Cruz Gomes

 

Luandino Vieira, hoje com 71 anos, acaba de ser galardoado com o “Prémio Camões”. Nada mais justo. Nada mais lógico. De facto, o Prémio, que é o mais importante galardão literário da lusofonia, foi criado, em 1988, para distinguir um escritor cuja obra contribua para o enriquecimento cultural e literário em Português. Luandino Vieira é um dos criadores da ficção angolana, não deixando de ser um notável escritor lusófono, no que o termo tem de “globalizante”.

O homem-escritor pensa como se no musseque estivesse, usando e abusando, no melhor sentido do termo, da língua mesclada de Português e Quimbundo, que se fala no subúrbio das grandes cidades. A africanidade lusíada tem nele um dos maiores expoentes.

E tem História... se deixarem a História ter memória.

Corria o ano de 1965. Na (então) Emissora Oficial de Angola, a notícia caiu como uma bomba. É que a Sociedade Portuguesa de Escritores atribuira o prémio de Novela ao livro “Luuanda” de Luandino Vieira. Dois ou três jornalistas da “geração de ouro do Jornalismo angolano” ficaram mais do que eufóricos. É que o “Luuanda” de então dava a conhecer uma corrente – não apenas literária, desenganem-se os que pensam assim... – que era seguida, em pensamento só, claro, por muitos dos que, na altura, pensavam. E que seguiam, talvez, o pensamento de um Aníbal de Melo, que já andava nas matas, ou de um Machado Saldanha que acabara por fundar um Jornal que ia na mesma calha, embora muito mais “português” do que “angolano”.

Dois dos jornalistas que saudaram – a medo, que os tempos não eram para heroísmos, como dizia o grande Aníbal de Melo – a obra premiada e a coragem dos que apontaram o nome de Luandino Vieira, tiveram de ser os “instrumentos” da luta que o governo de então desde logo abriu contra o escritor e contra a Sociedade Portuguesa dos Escritores. Tem destas coisas os imponderáveis de uma profissão-missão que é mais um “modo de morte” que um “modo de vida”. Pela voz de Rui Romano, que já lá vai, receberam indicações de que, todos os dias, teriam de fazer uma nota a “repudiar” a atribuição do Prémio. Ele não concordava (nós sabíamos) mas a ordem vinha de cima. E naquela altura quem não tivesse coragem para se auto-imolar, teria de cumprir.

José Nunes Pereira e quem estas linhas traça eram os encarregados do tal “repúdio”. Que foram cumprindo em sucessivas notas do dia da então “Maçadora” Oficial, que só viria a mudar com a clarividência de um senhor, Oliveira Pires, que haveria de ser saneado pelos “todo poderosos” senhores que pegaram nas rédeas de Portugal depois do 25 de Abril. Mas... naquela altura só havia pigmeus a mandar nos destinos da Rádio Oficial.

O “repúdio” ficou então entregue aos dois novatos Jornalistas. Que acharam que deveriam dividir, entre si, o sacrifício. “Hoje... repudias-te tu”, diziam de si para si. “Não... não... repudia-te tu, que eu paguei ontem o café”, insistiam. O Zé Nunes Pereira lembra-se, decerto. E a mim nunca me esqueceu. Nunca me esquecerá e já contei aos meus.

“Luuanda” haveria de ser editado apenas em 70. Depois... foi apreendido. Como era hábito. O escritor... escolheu o caminho da coragem. E foi enviado para o Tarrafal onde esteve 11 anos. Se juntarmos ao tempo em que esteve preso, em Luanda... hemos de concordar que a sua “coragem” foi bem “temperada”.

Lembrar isto, hoje e aqui, não é mais do que dar um abraço longínquo ao velho Luandino, agora a viver em Portugal, ainda que mergulhando todas as suas raízes na Angola que ambos amamos. Ele e muitos outros da “geração de ouro” dos Jornalistas e Escritores daquele País que não há maneira de encontrarem a paz do futuro, nem que seja numa campa rasa, algures, na terra querida que teimam em nos negar.

Com “Luuanda”, e com o Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores, Luandino Vieira teve a tortura e a prisão. Com o Prémio Camões... um cheque de 100 mil euros e a consagração. Honestamente, muito honestamente, não sei – teimo em não saber – qual o “prémio” que mais alegria deu ao escritor. Por mim e pelo meu irmão Nunes Pereira – que não vejo há montes de anos... – sei bem qual foi o “melhor”. Mas... não digo! Adivinhe o leitor.