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Costa do Sol e Mikado: Locais incontornáveis
da diversão nocturna (Conversa
com José da Silva) Julho/Agosto
05
- Entrevista com o Embaixador de Portugal em França, Dr. João Rosa
Lã: “O ensino do Português é uma das nossas principais
preocupações” Julho/Agosto 05
-
Pauleta:
“Temos todas as condições para fazermos um grande Mundial”
Junho
05
-
Cristina
Branco em entrevista:
“Sou um camaleão que
canta o que quer”
Fevereiro 05
-
Entrevista
com Maria Mendes de Oliveira: TARIKAVALLI,
uma estrela portuguesa! Novembro
04
-
A
ressurreição do Fado?
Entrevista com a
fadista Mané
Setembro
04
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Agora
também tenho… A televisão de Portugal (conversa com Fernando
da Silva, da empresa TéléGare)
Maio 04
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"A
medicina legal é muito mais uma ciência de vivos do que uma ciência de mortos", Prof. Pinto da Costa Março
04
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Secretário
das Comunidades Portuguesas entregou primeiros Bilhetes de
Identidade feitos no Consulado de Paris Janeiro 04
-
Entrevista
com Agnès Pellerin, jovem autor de um livro intitulado "Le
Fado", lançado pelas Edições Chandeigne Dezembro 03
-
Entrevista
com a nova coordenadora do ensino, Dra. Gertrudes Amaro Outubro
03
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Fernando
Afonso, la trajectoire d'un vice-champion d'Europe de culturisme
devenu homme d'affaires
Julho/Agosto 03
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Entrevista
com o Ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades
Portuguesas, Dr. António Martins da Cruz
Julho/Agosto 03
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"La
Harissa" un groupe de musique à la sauce portugaise Julho
/
Agosto 03
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Retalhos
de uma vida: Luci Bento, artista e mulher Junho 03
-
Entrevista
com Daniel Ribeiro
Maio 03
-
Entrevista
com o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas Maio
03
-
Cristina
Branco, uma outra ideia do fado Março 03
-
Tânia Lobo, o
rosto do programa "Comunidades" na RTPi Janeiro 03
-
Entrevista Dan
Inger Novembro 02
-
Air Luxor para
Portugal, em Orly Sud Outubro 02
-
Entrevista com Jorge Ruivo
Maio 02
-
Entrevista com
Mariana Otero Março 02
-
"Lua
Vistà", novo nome para uma discoteca antiga
Dezembro
01
-
Filho
de peixe sabe nadar Junho
01
-
Entrevista
a Alex Abril
01
-
Entrevista
a Carla Sofia Fevereiro
01
-
Interview
avec Philippe Seguin, candidat à la Mairie de Paris
Janvier 01
-
Interview
du Maire du 12ème arrondissement de Paris,
M.
Jean François Pernin Janvier
01
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Julho/Agosto
05
Costa
do Sol e Mikado: Locais incontornáveis
da diversão nocturna
Conversa
com José da Silva, um dos proprietários da discoteca Costa do Sol, em
Villeneuve Saint-Georges, e da Mikado, em Paris.
Quer
falar-nos das discotecas Costa do Sol e Mikado?
A
Costa do Sol é uma discoteca vocacionada para os jovens de origem
portuguesa e que nela encontram além da música portuguesa, não a
saudade, como outrora os pais ou avós, mas uma certa forma de
divertimento diferente da que podem usufruir nas discotecas francesas.
A
“Costa” tornou-se um fenómeno que muitos ainda não compreendem,
sobretudo em Portugal. Há dez anos atrás alguns começavam a
interrogar-se sobre o que era essa discoteca dos emigrantes, apareceram
jornalistas, a televisão, rádios e, hoje em dia, é um
“partenaire” incontornável na área da diversão nocturna, tanto em
Portugal como em França.
Bastará
dizer que durante as férias produzimos os nossos shows em quase todas
as discotecas do país, de norte a sul.
Para
dar um exemplo dessa evolução, este ano fomos convidados pela Queen,
uma das mais reputadas discotecas de Lisboa, frequentada por todo o
jetset.
Achamos
graça ao facto das discotecas de Portugal, que pouca ou nenhuma música
portuguesa passam, convidarem a Costa do Sol, que tem como principal
bandeira a difusão da música portuguesa.
A
música portuguesa regressou às discotecas em Portugal nestes últimos
anos, em parte devido ao sucesso das tunas junto dos jovens. Tornou-se
frequente a apresentação de espectáculos com tunas e isso criou
outras exigências por parte dos jovens que começaram também a
interessar-se pela música popular tradicional.
As
queimas das fitas têm agora mais sucesso com Quim Barreiros que com
artistas internacionais.
A
Costa do Sol passa música portuguesa, mas de qualidade. Há certos
artistas que não têm lá lugar por não possuírem os níveis de exigência
que temos.
De
facto quando em Portugal, seja a políticos ou a empresários, damos
como exemplo os 3 ou 4 mil jovens luso-descendentes que se encontram
todos os fins de semana na Costa do Sol, as pessoas ficam atónitas e
impressionadas...!
Isso
revela efectivamente uma necessidade de identificação com as raízes
por parte destes jovens, que na sua grande maioria já são netos dos
primeiros emigrantes, totalmente desconhecida pela classe política em
Portugal. Mas em alguns sectores, tais como nas discotecas e outros
locais de divertimento já existem sinais de tentativa de aproveitamento
desses jovens que se deslocam ao nosso país no período de férias.
É
evidente que o nosso “savoir faire” também tem sido determinante.
Renovamos periodicamente a decoração, propomos sempre em primeira mão
todas as novas tecnologias e cuidamos da programação dos espectáculos
de forma meticulosa. Por exemplo, o site internet da Costa do Sol
(www.costadosol.net) foi um
investimento importante e inovador que se tem revelado bastante
produtivo. Por outro lado, tal como já referi, não vamos na conversa
de certos empresários artísticos que andam por aí a vender artistas
sem talento e ao desbarato.
A
culpa de existirem também é de certas associações que “compram”
má qualidade, depois queixam-se da falta de público e algumas
desaparecem. Diga-se na verdade que algumas só existem como alternativa
económica de famílias que as constituem para realizar benefícios com
espectáculos.
Existem
aquelas em tem que se beber um garrafão de vinho para se poder fazer
negócio, mas ainda bem que existem outras bem sólidas e eficientes.
Quanto à discoteca Mikado, é diferente, mais pequena, leva cerca de
500 pessoas, um público variado que vai dos 18 aos 50 anos e está
aberta das 5as aos Domingos à noite.
Propomos
igualmente ao longo do ano uma grande diversidade de espectáculos
exclusivamente portugueses.
Isso
leva-nos à questão seguinte, o José da Silva possui igualmente uma
empresa de espectáculos, pode dar-nos pormenores sobre esta segunda
actividade?
Efectivamente.
Chama-se Mundial Show, é uma empresa portuguesa que vende espectáculos
completos e tem dois parceiros importantes e essenciais para se poder
obter resultados positivos nesta área: uma das editoras mais
conhecidas, a Vidisco, e o grupo “Santamaria” que dispõem
provavelmente do maior e mais bem equipado estúdio de gravação de música
em Portugal. Além dos artistas consagrados que promovemos regularmente,
tais como os “Santamaria”, os “Canta Bahia” e outros, neste
momento apostamos na descoberta de novos talentos, o que nos é
frequentemente solicitado por canais de televisão e outros promotores
de espectáculos. Podemos obviamente responder a todas as necessidades
de um artista principiante, desde que possua as qualidades exigidas,
fornecendo-lhe um estúdio de gravação, uma editora, a promoção e um
vasto leque de propostas de espectáculos. Naturalmente estamos
igualmente preparados para receber artistas consagrados que, por razões
diversas, desejem mudar de editora de produtor ou de promotor.
Percebemos
que a ideia foi de reunir através de parecerias todas as competências
na área da edição e promoção musical para que um artista se possa
consagrar inteiramente ao seu trabalho...
Exactamente.
Actualmente estamos também a criar três grupos, reunindo talentos
diversos para desenvolver este sector. Constatando que muitos acabam por
razões de entendimento interno ou de zangas momentâneas, estes grupos
beneficiarão de um conceito musical nosso mas que nos permitirá de
mudar um ou outro elemento que não se assimile ou deixe de se enquadrar
num conceito destinado a uma pequena revolução no seio da música
portuguesa..
Está
a referir-se a algo que começou em Itália no princípio dos noventa e
que culminou com inúmeros processos nos tribunais ?
A
diferença é que não tencionamos mudar os vocalistas, mas sim os músicos
quando isso se tornar necessário. Também deve compreender que, quando
se investe durante 4 ou 5 anos num grupo, não se pode estar à mercê
dos humores de um ou outro músico que de repente quer estragar tudo.
Registamos
e somos obviamente proprietários do nome do grupo que constituímos. Se
um elemento sair não poderá utilizar o nome do grupo, é tudo.
Quais
são os mercados que a Mundial Show pretende abranger ?
Infelizmente,
a nossa língua exporta-se mal em termos musicais. Concentramo-nos por
isso logicamente no mercado nacional e junto das comunidades espalhadas
pelo mundo.
Qual
é para si a razão da ausência da música portuguesa nos mercados
internacionais ?
Além
do problema da língua, julgo que não sabemos vender-nos como deveríamos.
Em Portugal as editoras distribuem toda a música estrangeira. Se em
França, em Inglaterra, nos Estados Unidos e noutros países não se
vende música portuguesa fora das comunidades, isso deve-se
essencialmente à falta de conhecimento e neste caso temos todos de
assumir as culpas dessa situação, particularmente as editoras e os
empresários artísticos portugueses. O problema é também que andam
por aí umas pessoas com cassetes gravadas na mão, convencidas que os
filhos são artistas, a vendê-los em tudo o que é sítio e isso
dificulta a acção dos profissionais que propõem qualidade.
Felizmente
há exemplos que nos enchem de orgulho. Ainda
há pouco tempo estive em Barcelona e constatei que os bilhetes para os
concertos dos Madredeus estavam esgotados um ou dois meses antes.
Neste
momento já tenho uma proposta para os Santamaria actuarem no mês de
Outubro para franceses. Viram-nos ocasionalmente e mostraram-se
imediatamente interessados.
É
pois um longo e lento trabalho que também me proponho desenvolver,
nomeadamente com estes grupos que queremos lançar.
AC
Julho/Agosto
05
Entrevista
com o Embaixador de Portugal em França, Dr. João Rosa Lã:
“O
ensino do Português é uma das nossas principais preocupações”
Senhor
Embaixador, chegou há quase um ano a Paris, já se poderá começar a
falar do primeiro balanço?
Cheguei
em Novembro, ainda não faz um ano… Tivemos no entanto uma intensa
actividade e acontecimentos de grande relevo, dos quais destacaria a
visita de Estado de Sua Exa. o Presidente da República, Dr. Jorge
Sampaio, a única visita de Estado este ano e a primeira a França de um
presidente português desde 1989, e as visitas do Sr. Primeiro-Ministro,
Dr. Santana Lopes e a do Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr.
Freitas do Amaral.
Preparámos
igualmente a Cimeira Luso-francesa de Angoulême que foi finalmente
anulada devido à preparação das eleições legislativas. Visitei já
Toulouse, Lyon, Bordeaux, Nice, Lille e Rouen para contacto com as
nossas comunidades. Tivemos um Seminário Consular que permitiu melhorar
a nossa coordenação e criar, por exemplo, um telefone de emergência
em todos os Consulados em França.
A
ministra da Educação e o secretário de Estado das Comunidades
Portuguesas anunciaram recentemente que o Governo não tinha meios para
continuar a enviar professores de português para o estrangeiro. Quando
se conhece o contributo dos emigrantes portugueses para o
desenvolvimento do nosso país, estas declarações serão provavelmente
mal interpretadas por alguns...
Ainda
não tenho conhecimento dessas declarações, mas não creio que a intenção
seja de prejudicar o ensino do português no estrangeiro. Essa tem sido
uma das nossas principais preocupações e continuará a ser. Esse foi
aliás um dos temas principais da visita do Sr. Presidente da República
a França, que atribui a esse assunto uma importância primordial.
Continuamos todos mobilizados nesse sentido e regozijo-me pessoalmente
pelo excelente trabalho desenvolvido pela Sra. Coordenadora do Ensino,
Dra. Gertrudes Amaro. Quanto à possibilidade de recrutamento local dos
professores, não vejo porque é que um professor contratado nessas
circunstâncias teria menos competência do que alguém que venha de
Portugal. O problema é a necessária racionalização dos meios que
temos ao nosso dispor e uma melhor adaptação à evolução da própria
comunidade, que não é a mesma de há trinta anos.
Abrimos
recentemente novos cursos em Lille e em Lyon, há contactos permanentes
com responsáveis franceses para implementarmos cada vez mais o ensino
do português como língua viva estrangeira e abrem-se todos os dias
novas perspectivas nesse campo, porque o português tem de ganhar espaço
como língua estrangeira nos diferentes currícula. Ainda há poucos
dias estabelecemos uma parceria com a Caixa Geral de Depósitos para
facultar maior informação aos pais dos alunos e existem outras
iniciativas do mesmo género no sentido de promover o ensino do português
junto da população francesa.
Um
dos problemas apontados é a falta de coordenação dos professores,
fala-se justamente de cursos fechados em Lille, devido a múltiplas ausências
de professores, que dão também aulas em associações...
Isso
não é bem assim, não há falta de coordenação. Haverá realmente
alguns problemas que deverão ser resolvidos. O ensino da língua
facultado pelas associações, bem como o ensino a nível privado tem
sido e continua a ser extremamente importante. Agora há que estabelecer
regras para que exista a necessária complementaridade entre todas as
ofertas.
Um
proprietário de uma discoteca que entrevistámos para esta edição
refere-nos que recebe todos os finais de semana cerca de 4 mil jovens
luso-descendentes que têm necessidade de se encontrar e conviver entre
eles ao som da música portuguesa. Lamenta que em Portugal, nomeadamente
certos responsáveis políticos, considerem que estes jovens já estejam
completamente integrados nos países de residência e por consequência
perdidos para o nosso país. Que pensa disso?
Não
posso concordar com isso, considero extremamente positivo que esses
jovens procurem discotecas portuguesas para se divertir e isso deixa-nos
antever perspectivas muito positivas para o futuro. Por isso os nossos
esforços têm sido constantes no sentido da manutenção desses laços,
mesmo se defendemos uma boa integração no país onde vivem. Uma coisa
não impede a outra e a melhor prova disso é o contributo e o apoio que
damos à reunião dos eleitos municipais de origem portuguesa que
decorre todos os anos no Senado francês e que terá lugar dentro de
alguns meses. Como até aqui, continuarei, assim, a insistir na
participação cívica dos portugueses em França, onde lhes foi
reconhecido desde 2001 o direito de participar nas eleições europeias
e autárquicas. Hoje mais de 50 000 portugueses estão já recenseados
nas listas eleitorais francesas, mas este número está muito longe de
corresponder à dimensão demográfica da nossa Comunidade e ao seu peso
na sociedade francesa. Um especial esforço de mobilização tem de ser
levado a efeito para convencer as centenas de milhares de portugueses a
recensearem-se, tanto aqui em França, nas "Mairies", como em
Portugal, através dos Consulados.
À
semelhança do que acontece com outras comunidades que dispõem de
importantes “lobbys”, apoiamos obviamente a criação de estruturas
que possam dar mais força e mais visibilidade à nossa comunidade.
Contamos por isso com todos mas, sobretudo, com os jovens e os empresários
junto dos quais vamos tomar em breve algumas iniciativas nesse sentido.
Senhor
Embaixador, porque razão a festa do Dia de Portugal decorreu este ano
no Consulado de Portugal em Paris, quando habitualmente por hábito a
comunidade é convidada à Embaixada?
Não
vejo nada de anormal no facto que seja o Cônsul-Geral de Portugal em
Paris a convidar a comunidade a festejar o 10 de Junho, Dia de Portugal
e das Comunidades Portuguesas.
Como
sabe, ainda há pouco tempo a Embaixada recebeu cerca de 900 pessoas da
comunidade, por ocasião da visita de Estado do Presidente da República,
e pouco tempo antes aconteceu a mesma coisa quando cá esteve o
Primeiro-Ministro. Este ano decidi ir ao encontro dos portugueses da
região de Toulouse, onde a cidade de Lisboa foi a convidada de honra na
“Marathon des Mots”, e que poucas oportunidades têm de conviver com
o Embaixador.
Desde
que cheguei, já percorri uma boa parte deste país para me encontrar
com portugueses de outras regiões e tenho a intenção de continuar
nessa via.
O
Governo decidiu voltar a separar o ICEP do IAPMEI, espera-se uma
desvinculação das delegações do ICEP das embaixadas e consequentes
alterações em relação à chamada “diplomacia económica”?
Não,
o que está em causa é a reorganização das estruturas por forma a
torná-las mais produtivas e eficientes. Este governo já tornou público
o seu empenhamento no desenvolvimento da chamada "diplomacia económica".
Aliás esta tem sido, desde a minha chegada, outra das prioridades,
tentando reforçar os laços empresariais luso franceses e atrair
investimentos franceses para Portugal.
Tenho
muita esperança nos desenvolvimentos que ultimamente têm nascido no
seio da própria comunidade, tais como a nova Câmara de Comércio
Franco-Portuguesa e o Clube Atlântico.
António
Cardoso
Junho
05
Pauleta:
“Temos todas as condições para fazermos um grande Mundial”
Quase
no final da época futebolística 2004/2005, que certamente não ficará
na memória de Pedro Pauleta como a melhor da sua carreira, fomos ao
encontro do avançado açoriano para fazer um balanço deste segundo ano
no Paris Saint Germain e traçar algumas linhas para o futuro da sua
carreira e da selecção das quinas.
Está
muito próximo do recorde de Eusébio de golos marcados ao serviço da
selecção portuguesa. O que significa para si alcançar esta marca?
A
determinada altura bater esse recorde passou a ser também um dos meus
objectivos na selecção. Não vai ser fácil porque cada vez faltam
menos jogos, mas espero ainda conseguir alcançá-lo. No entanto, o meu
objectivo principal é ajudar Portugal a estar presente no Mundial.
O
que significa para si representar a selecção nacional?
A
selecção é o sonho de qualquer jogador de futebol, é representar o
seu país. Já estou na selecção há alguns anos, cerca de 9 ou 10, e
é obvio que sinto um orgulho enorme em representar a equipa das quinas.
Quais
são para si as melhores selecções europeias neste momento? Quem acha
que vai ter uma boa performance no próximo Mundial?
Penso
que actualmente na Europa a Alemanha e a Inglaterra são duas selecções
muito fortes. A Inglaterra porque cada vez mais os jogadores ingleses
estão a afirmar-se nos grandes clubes europeus. E a Alemanha, sendo a
anfitriã, de certeza que vai aparecer muito forte e vai contar com o
apoio do seu público.
E
Portugal? Até onde podemos ir?
Acho
que temos todas as condições para, primeiro, nos classificarmos e,
depois, fazermos um grande Mundial.
Fala-se
do eventual regresso do Figo. Acha isso possível? Gostaria que
acontecesse?
O
Figo é sempre bem-vindo na selecção. É um grande jogador que
conhecemos muito bem. Ficaria muito contente que ele voltasse, porque
sou bastante amigo dele e acho que é um dos grandes emblemas futebolísticos
de Portugal.
O
que é que correu mal no último Europeu, o que faltou?
Passou-se
muita coisa. Houve muitos problemas com o treinador, com a federação.
Depois, com a falta de sorte e a falta de organização, os desaires
acontecem com mais facilidade. Mas também não podemos descarregar toda
a culpa nestes factores, temos de assumir igualmente a nossa parte. O
futebol é assim, umas vezes ganha-se, outras não.
Uma
das razões invocadas para o desaire foi o desgaste físico de alguns
jogadores, devido a épocas longas e cansativas nos respectivos clubes.
Acha que esta alegação é legítima?
Não.
Isso não é uma desculpa, pois os outros jogadores também tiveram a
mesma carga de trabalho. O que aconteceu foi que entrámos mal no
primeiro jogo e depois, como já disse, existiram muitos problemas que
influenciaram.
Este
ano ainda faltam dois jogos, ambos difíceis. Quais são as perspectivas
para esta fase de qualificação?
Faltam
dois jogos importantes este ano. Um deles é com o adversário directo,
a Eslováquia. Se a conseguirmos eliminar em casa ficamos mais perto de
estar apurados, senão as coisas complicam-se. Mas estamos na frente e
queremos manter essa posição, pois queremos estar no Mundial, que é o
nosso principal objectivo.
Quais
os pontos fortes e os pontos fracos da equipa das quinas, na sua opinião?
Não
acredito que haja pontos fracos. Temos uma grande selecção, constituída
por grandes jogadores, o ambiente no balneário é bom, temos um bom
treinador... penso que a selecção mudou muito e que hoje somos uma
equipa bastante forte. O que poderíamos chamar de ponto fraco é a
nossa mentalidade, a mentalidade portuguesa de pessimista, mas isso está
a mudar. Estamos cada vez mais fortes a esse nível.
Nos
últimos anos tem-se assistido à afirmação dos clubes portugueses na
Europa. O Porto primeiro e agora o Sporting. Como vê este prestígio
crescente?
É
principalmente bom para o futebol português, porque quanto mais se
falar de Portugal na Europa, melhor. Quando se trabalha muito e se
consegue chegar onde as nossas equipas têm conseguido chegar é
gratificante. Há dois anos e o ano passado, o Porto e, este ano, o
Sporting, são um bom exemplo desse sucesso. É muito bom para o futebol
português.
Qual
é o balanço que faz desta época do Paris Saint Germain?
Foi
uma época que começou mal. Houve a mudança de treinador e de
jogadores, o que foi difícil de gerir. Muitas coisas se passaram
durante este ano e ainda recentemente tivemos um novo presidente. Tudo
isso contribuiu para desestabilizar a equipa. O problema com as claques
também não ajudou a motivar. Estamos ainda a fazer tudo o que é
humanamente possível para terminar da melhor maneira, mas nunca vai
deixar de ser uma má época.
Houve
uma altura em que o Pauleta também não estava bem. O que aconteceu?
O
que se passou comigo passou-se com todos os jogadores. Quando se joga
numa equipa que não está bem, o seu próprio rendimento acaba
afectado. É normal que houvesse momentos em que eu estivesse menos bem.
Foi uma má época para todos. Desde que cheguei a França foi a minha
época menos conseguida, mas espero ainda terminá-la bem. E, com
optimismo, pensar que a próxima vai ser melhor.
Por
vezes sente-se uma certa dependência da equipa em relação ao seu
rendimento pessoal. O que pensa disso?
Isso
não pode ser. Um clube como o PSG, que quer jogar para os três
primeiros lugares, não pode depender só de um jogador. Esse é um dos
problemas da equipa.
Sente-se
essa pressão? Como lida com ela?
Pressão,
não. Não existe pressão no futebol para mim. É a minha profissão,
que faço o melhor que posso. Tenho alguns momentos menos bons como
qualquer pessoa.
A
pressão não contribuiu para o momento menos bom que atravessou no início
do ano?
Não.
O meu rendimento depende muito da forma como a equipa joga. É natural
que quando a equipa não esteja a jogar bom futebol, não ganhe, não
ataque, o atacante sinta falta disso.
No
decorrer da época houve uma mudança de treinador, Laurent Fournier
substituiu Vahid. Quais as principais diferenças entre os dois?
São
mentalidades diferentes. Vahid tinha uma personalidade muito forte,
muito vincada, era muito agarrado às suas ideias e esse conjunto fez
com que houvesse um momento de saturação e, como os resultados não
acompanhavam, houve a tal mudança.
Mas
isso é frequente no futebol, quando as coisas não correm bem, o
treinador é o primeiro a sair.
O
que mudou com Fournier?
Foi
um alívio para alguns jogadores que não se sentiam bem com o Vahid.
Libertaram-se, soltaram-se mais e desse modo integraram-se com mais
facilidade no grupo.
E
para si, foi um alívio?
Não.
Eu tinha uma boa relação com o Vahid, tenho igualmente uma boa relação
com o Fournier. Mas é verdade que com o Fournier a equipa melhorou a nível
psicológico, os jogadores descontraíram-se mais desde a saída do
Vahid. Mas a culpa também não é só dele.
Quem
é que acha que seria o treinador indicado para a próxima época?
Na
minha opinião não há enquanto não se resolverem todos os outros
problemas internos do clube. É a mesma coisa que começar a construir
uma casa pelo telhado ou pelas janelas, não vai dar uma casa muito boa,
não vai durar muito tempo. Logo, enquanto não houver uma organização
no PSG, as coisas vão ser sempre assim.
Francis
Graille também acabou por ser despedido. Veio para o clube pelas mãos
dele, o que significa para si este despedimento?
Era
uma pessoa de quem eu gosto bastante, sou amigo dele, mas actualmente no
futebol até os presidentes estão sujeitos a serem despedidos. Vamos
esperar para ver os projectos do novo presidente.
Continuas
a ser o melhor marcador da equipa com 13 golos. O que significa para ti
marcar um golo?
Para
mim significa tudo, é a minha principal missão. Só me sinto bem
quando marco, pois fui contratado para isso. E o golo, ou os golos, é
que dão as vitórias, e elas é que dão os pontos. Os golos são a
parte mais importante do futebol.
E
quando não marca, o que sente?
Fico
triste, penso bastante no jogo e sobretudo penso em me preparar o melhor
possível para no próximo jogo poder marcar.
O
público é apelidado muitas vezes de 12.° jogador. O PSG e os seus
adeptos andaram de costas viradas durante toda a época, houve momentos
de verdadeira tensão, um deles inclusive com o Pauleta, o que se
passou?
Os
adeptos do PSG são muito expressivos. Num jogo contra o Toulouse,
chegou a minha vez de ser assobiado. No momento não aceitei muito bem,
porque não pensei que fosse justo. Mas isso é perfeitamente normal,
faz parte do futebol quando uma equipa não joga bem e um jogador tem de
aceitar.
E
o futuro próximo? Como e onde o vê?
Tenho
mais um ano de contrato com o PSG, até 2006, e em princípio devo ficar
e cumprir até ao final. Vamos ver. Só vou decidir no final da época.
Já
teve outras propostas?
Existem
alguns clubes interessados, algumas propostas. Mas como tenho contrato,
não penso nisso.
Algumas
dessas propostas vieram de Portugal?
Também.
Houve alguns contactos de Portugal, mas nada de concreto por enquanto.
Se
houvesse uma proposta concreta de um clube onde gostasse de jogar, vamos
dizer, por exemplo, em Portugal, mas se isso implicasse um salário
inferior, aceitaria?
O
dinheiro nunca foi determinante. Claro que a um dado momento foi
importante, mas nunca foi determinante para as escolhas que tomei. Agora
é obvio que tenho de pensar bem. A minha carreira está a terminar,
tenho 32 anos, e não vai ser neste momento que vou sair do PSG por
ganhar mais ou menos, essa escolha será sempre em função do meu bem
estar e da minha família.
Há
algum campeonato, tirando o português, onde gostasse ainda de jogar?
O
inglês é um campeonato de que gosto imenso, mas com a idade que tenho
não me meto isso como objectivo. Talvez se tivesse sido há alguns
anos... Agora dificilmente jogarei noutros campeonatos que não o francês,
o português ou o espanhol, onde já joguei e de onde tenho uma proposta
de um
clube.
Acabar
a carreira em Portugal...
ainda pensa nisso?
Já
não é uma prioridade. Não penso nesse sentido. Se tiver de acabar
aqui, acabo.
Quanto
mais tempo pensa jogar?
Mais
dois ou três anos. Tudo depende se ficar no PSG, se renovar ou não.
Vive
em Paris há algum tempo. O que prefere na cidade?
Paris
é uma grande cidade, de que toda a gente gosta.
Quase tudo está à nossa disposição.
É
difícil eleger um sítio, uma coisa em particular. É uma cidade fantástica.
Criou
uma escolinha de futebol nos Açores e, em Março último, deu-se o
primeiro torneio. Como correu este primeiro evento?
Correu
muito bem. Foi bastante satisfatório tanto para mim como para os pais
e, principalmente, para os miúdos. A escolinha do Simão (Sabrosa) e do
Benfica estiveram presentes. Espero
dar continuidade ao projecto e quero já a partir do ano que vem levar
uma equipa francesa, se possível o Paris Saint Germain.
Ana
Carvalho
Fevereiro
05
Cristina
Branco em entrevista
“Sou
um camaleão que canta o que quer”
Poucos
dias depois do lançamento de “Ulisses”, o novo disco de Cristina
Branco, a artista esteve em Paris para uma apresentação ao Senado
francês e um encontro organizado pela Cap Magellan. A Vida Lusa
conversou com a cantora.
Depois
de uma digressão pela Holanda, um país onde tens um óptimo
acolhimento desde muito cedo, como foi o espectáculo no Senado francês?
Frio.
Era um ambiente muito formal, num espaço muito barroco que pouco tem a
ver comigo.
Mas
eles gostaram imenso. Na Radio Classique (que organizou o evento)
disseram-me que receberam imensos e-mails dos senadores a dizer que
tinham gostado muito, que tinha sido uma iniciativa fantástica. Foi até
engraçado porque a certa altura pedi para cantarem comigo e, para minha
surpresa, os velhos senadores, que estavam muito silenciosos, começaram
todos a cantar.
Em
relação a este CD que acabas de lançar, “Ulisses”, li em várias
entrevistas que o consideravas um “disco de ruptura”. Há alguns
temas que de facto suscitam mais surpresa, mas parece-me que se mantêm
determinadas referências que fazem parte do teu universo.
Não
é uma ruptura num sentido muito radical. As pessoas sabem que eu não
sou propriamente agarrada ao fado. Além disso, sempre tive muito
interesse em muitos géneros musicais. Então, neste disco, para além
de estar a cantar aquilo que me apetece, o que aliás é básico para
mim em qualquer disco, comecei a cantar noutras línguas. Isso não é
vulgar dentro da música portuguesa, porque é quase uma ousadia.
Este
trabalho prova também uma outra coisa, para mim muito importante. Vem
mostrar que, se for de facto cantora de fado, não canto só fado. Sou
uma espécie de camaleão que canta o que quer. Enquanto que um fadista
só canta fado, eu canto também fado. Canto fado, entre outras coisas.
É
um álbum muito ecléctico.
Este
álbum fala do meu gosto pessoal, da música que eu gosto de ouvir e de
interpretar. E também daquilo que gosto de re-interpretar, porque uma
parte das músicas são re-interpretações de coisas que outras pessoas
fizeram.
É
curioso como, apesar de ser comum ouvir-te sublinhar alguma distância
em relação ao fado, as pessoas genericamente se referem a ti como
“Cristina Branco, a fadista”.
Nem
fui eu que fiz questão de sublinhar a diferença. Quando saiu o meu
primeiro álbum e ouviram--me a cantar, por exemplo, Zeca Afonso e Sérgio
Godinho, à mistura com fados tradicionais, os velhos do Restelo iam
morrendo. Houve uma polémica enorme porque as pessoas associavam-me só
ao fado.
Então,
eu própria vim a público dizer que nunca tive qualquer intenção de
ser fadista. Só há pouco tempo, para uma cena dum filme inglês,
cantei numa casa de fados! Fora isso, nunca cantei numa casa de fados e
nunca hei-de cantar. Para mim a música passa por outros universos,
nunca por aquelas quatro paredes e as toalhinhas aos quadradinhos.
Fizeste
questão de não te definires como fadista para depois não teres de
seguir as regras do fado. No fundo, foi para teres mais liberdade?
Exactamente.
Aliás, a propósito disso, a FNAC agora vai mudar os meus discos da secção
de fado para a secção da música portuguesa. Eu acho bem. É mais
verdadeiro.
Este
disco tem muitos sabores - encontramos uma música da Joni Mitchell,
outra da Mercedes Sosa - esta recolha tem a ver com os teus gostos
musicais quando eras mais nova, ou são coisas que tens descoberto
agora?
Há
muita influência em todos os meus álbuns da música que fui ouvindo
desde muito nova. Os meus pais são grandes melómanos e sempre tiveram
em casa uma colecção enorme de discos. Quando cheguei à adolescência
não tive necessidade de pegar na minha mesada, comprar discos e
descobrir a música da moda. Fui ouvindo os discos dos meus pais, que
eram muito eclécticos, e não fiquei apenas na música da minha época.
Jazz, blues, música de intervenção portuguesa, música francófona,
tudo isso constituiu a minha educação não só musical como também
intelectual. Se começasse a dizer do que gosto, a lista não parava!
Quais
são os primeiros nomes que te vêm à cabeça?
Fora
do mais óbvio, gosto de Bruce Springsteen, dos Pink Floyd sabia os
discos todos de cor, adoro Simon & Garfunkel, Maria Bethânia, Chico
(Buarque). São os que tenho comprado ultimamente.
Foi
uma pequena surpresa encontrar neste álbum “Alfonsina y el mar”...
a Mercedes Sosa fazia parte dos discos dos teus pais?
O
interesse pelo poema “Alfonsina” é mais recente, surgiu através de
uma viagem à Argentina, onde fui há pouco tempo. Mas já conhecia a música
e tinha uma relação com o país sem nunca lá ter estado, através das
músicas da Mercedes Sosa que os meus pais ouviam. O tema
“Alfonsina” nunca me tinha despertado qualquer coisa de especial,
mas depois da viagem, quando comecei a trabalhar neste disco houve uma
fase em que ouvi muito a Mercedes. Voltei aí a encontrar a
“Alfonsina” e pensei “isto tem tanto a ver com a saudade e a
nostalgia”. Então decidi explorar a música que, aliás, é linda de
morrer. Penso que é mais uma contradição dentro deste álbum, onde
digo que quero cantar coisas alegres e aí no meio surge esta história
de um suicídio tristíssima que é a da “Alfonsina y el mar”.
É
também uma provocação o facto de o tema em que cantas os sentimentos
da saudade, da tristeza, do fado, ser interpretado em espanhol?
(Risos)
Sim, isso ocorreu-me. No fundo, “Ulisses” foi a minha desculpa para
fazer uma viagem geográfica que me desse a oportunidade de cantar
noutras línguas.
E
depois da viagem, chegaste a algum destino?
Sim,
já sei o que vou fazer a seguir. Os discos saem com uma frequência
quase anual, portanto na Universal assim que sai um começa-se logo a
trabalhar no seguinte. Mas independentemente disso ou de quaisquer
constrangimentos externos, tenho uma definição musical muito grande
dentro de mim.
Neste
álbum encontramos uma colaboração com o Júlio Pomar. De onde surgiu
esse projecto?
O
Júlio Pomar é a minha mais recente paixão. No Verão passado recebi
um telefonema dele quando estava em casa, depois de ter o meu filho, a
dizer-me que ia lançar um livro e que queria que cantasse um poema seu
na noite do lançamento. Eu fiquei muito entusiasmada.
Fui
a casa dele à espera de encontrar um velhinho fragilizado e encontrei
um guerreiro, um doce de pessoa tão segura de si e com um carácter tão
forte.
Ele
tinha um poema específico que queria que interpretasses?
Não.
Ele tem centenas de poemas e está sempre a mexer-lhes. Por isso é que
os publica, porque senão continuaria eternamente a alterá-los. Mesmo
assim, o poema que escolhi para este disco já foi mexido e já está
diferente, apesar de ter sido publicado em livro e também no meu álbum.
É
muito conhecido o facto de teres uma recepção muito maior no
estrangeiro do que em Portugal. Como é no caso dos portugueses que estão
fora?
Os
emigrantes não vão muito aos meus concertos, seja em que país for.
Curiosamente, a promoção de um espectáculo que fiz há pouco tempo na
Suíça foi muito direccionada para os portugueses. Por entre a maioria
suíça, havia cerca de vinte portugueses na sala, o que para mim já
foi uma vitória. Eles gostaram imenso, mas confessaram-me que não iam
à espera de ouvir o que encontraram.
Neste
caso foi uma surpresa pela positiva para eles, mas de qualquer modo eu não
gosto de estar a enganar as pessoas, ou seja, não gosto que promovam os
meus concertos como sendo concertos de fado. Para os estrangeiros é um
pouco indiferente porque não conhecem muito rigorosamente o fado. Mas
os portugueses criam expectativas de irem assistir a um espectáculo
mais tradicional e podem sentir-se defraudados ao ouvir-me cantar em
inglês ou francês músicas de muitos géneros. Por isso faço questão
de não promover como fado os meus concertos. É mais honesto e
verdadeiro.
Mas
genericamente os portugueses cá fora não vão muito aos meus
concertos. Primeiro, a promoção não é especialmente dirigida para
eles. Segundo, porque mesmo que fosse são pessoas culturalmente pouco
atentas.
Achas
que isso se aplica também às novas gerações?
Não,
referia-me mais àqueles que estão cá, no caso da França, há 40
anos. Hoje, das novas gerações tenho conhecido gente interessantíssima,
pessoas que cultivam a língua, a cultura e vão à descoberta do que se
está a fazer agora nestas áreas. Mas a verdade é que não posso
afirmar que sejam muitos os que têm chegado até mim.
Convives
bem com o público?
Com
as pessoas sim, com a exposição não. Convivo muito mal com a questão
da imagem. Detesto as sessões fotográficas. Sinto-me mal com as câmaras.
A exposição, para mim, é o pior desta profissão.
Não
é um pouco contraditória essa dificuldade em expor-se, não só com a
tua actual actividade, mas também com o desejo que tiveste desde cedo
de ser jornalista?
Eu
queria ser jornalista do lado de lá. O jornalismo que me interessava
era o da imprensa escrita, o de investigação, ou seja, nunca numa
perspectiva de dar a cara. Simplesmente não gosto de me mostrar. Mesmo
o facto de ter de me apresentar em público é uma dificuldade enorme,
é um processo de interiorização que demora algum tempo. É estranho,
não é?
Imagina
a paixão que é preciso ter para conseguir suportar tudo aquilo.
E
projectos para o futuro?
Neste
momento tenho um projecto que já tem dois anos e que é para
concretizar no próximo Natal. Fui convidada pela orquestra do
Concertgebouw para fazer um concerto muito especial, com música
tradicional de Natal portuguesa. Eu, o Ricardo Dias e o João Paulo
Esteves da Silva estamos a fazer uma busca de material, de música que
nunca ninguém gravou e ninguém ouviu em palco. Vai ser muito especial.
Carolina
Borges
Novembro 04
Entrevista
com Maria Mendes de Oliveira
TARIKAVALLI,
uma estrela portuguesa!
Maria
Mendes de Oliveira - TARIKAVALLI, é
uma luso-descendente, nascida em França. Os seus pais chegaram a este
país como, tantos outros, nos anos sessenta, em busca de uma vida
melhor.
Maria
estudou na Sorbonne, em Paris, especializou-se em dança indiana depois
de ter assistido a vários espectáculos e ter ficado subjugada. “À
medida que descobria e aprendia tudo o que envolvia essa dança, mais
vontade tinha de continuar”.
Mas
o verdadeiro ponto de partida foi quando assistiu a um desses espectáculos
interpretado por uma bailarina profissional francesa : “se uma
francesa pode fazer isto e ter sucesso, eu também posso”, concluiu.
Deslocou-se
inúmeras vezes à Índia para participar em grupos de trabalho,
impregnou-se durante vários anos de cultura e hábitos locais e acabou
por conseguir uma bolsa de estudo atribuída pelo Ministério dos Negócios
Estrangeiros francês que lhe permitiu estudar nesse país.
Perguntámos
a Maria Oliveira a origem do nome Tarikavalli : “é o nome concedido
pelo Mestre de formação no fim do ciclo. Os professores indianos dão
um nome aos alunos quando consideram que estes estão
“transformados” e dominam finalmente a arte ensinada. “Tarika”
é uma estrela e Valli é uma grinalda, a tradução em português de
TARIKAVALLI, será “grinalda de estrelas” ou ainda uma “trepadeira
de estrelas”. É um presente que os indianos oferecem a Deus, tendo
por isso um significado tradicional e profundamente religioso para este
povo”.
Lembra-nos
que não mudou de nome : “chamo-me Maria Mendes Ferreira de Oliveira,
Tarikavalli, transformou-se num nome artístico...”.
Agora,
o seu Mestre indiano instalou-se também em Paris e acompanha Maria por
todo o lado nos seus espectáculos.
Maria
não tem muitos contactos a nível da comunidade portuguesa em França,
mas desloca-se a Portugal uma ou duas vezes por mês para ensinar esta
dança aos portugueses e participar em grupos de trabalho dedicados a
esta actividade. “O facto de ser convidada a ensinar em Portugal é
muito importante para mim e dá-me grande alegria pelo facto dos meus
pais terem emigrado por razões económicas e saber que têm orgulho por
aquilo que eu faço”.
Confessa
que gostaria de ir viver para Portugal onde não tem concorrência na
sua arte, “por enquanto, porque estou a formar bailarinas que amanhã
estarão no mercado, mas é uma decisão difícil de tomar”.
No
espectáculo do dia 10 de Novembro, Maria vai actuar com um ou dois
textos traduzidos em português : “já resultou em Portugal, o público
foi muito receptivo, espero ter muitos portugueses no meu espectáculo e
que apreciarão”, disse à Vida Lusa.
Nós
também, esperamos que a nossa comunidade vá descobrir esta estrela que
também quer brilhar entre nós.
AC
Setembro
04
A
ressurreição do Fado?
Entrevista
com a fadista Mané
O
autor desta entrevista conhece e aprecia a Mané, há mais de vinte
anos. Reconhece gostar de fado, da voz, da maneira como esta ela o
interpreta, da artista e da pessoa. Ver pois na FNAC, o antro da promoção
da música francesa, grandes cartazes e uma secção consagrados ao seu
último álbum, foi um enorme prazer que não ousaria tentar disfarçar.
Depois
de ouvir os temas do CD, não nos admira tal empenhamento na promoção
e na produção por parte de franceses que amam a nossa canção
nacional.
Não
quisemos aqui elogiar ou até comentar o disco de Mané, deixamos isso
ao critério dos leitores, queremos apenas alertar aqueles que gostam
realmente de fado, dizer-lhes que existe qualidade, que temos grandes
talentos artísticos entre nós e que… vale a pena procurá-los.
Encontrámo-nos
obviamente num restaurante português para falar do seu último álbum e
sobretudo de Fado.
Foi
uma surpresa muito agradável constatar que o seu último disco de fado
está a ter grande sucesso em termos de vendas, em França. Quer
contar-nos a história deste álbum?
Conheci
duas pessoas francesas, ligadas ao mundo do disco. Um dia apareceram em
minha casa perguntando se eu estaria interessada em gravar um disco. Um
deles era um produtor que gostava muito de fado e já tinha produzido três
grandes nomes portugueses em França. Fiquei muito admirada mas aceitei
com muita alegria, claro.
O
disco foi gravado no ano passado e está à venda nos canais habituais
franceses, nomeadamente na FNAC com quem foi estabelecido um
partenariado. Vende-se efectivamente bem tendo em conta que não houve
grande promoção com excepção da própria FNAC que o colocou várias
vezes em destaque com grandes cartazes nos pontos de venda.
Estou
bastante orgulhosa, primeiro por me terem convidado e em seguida por ter
feito este trabalho.
Quais
são as características deste seu último trabalho?
Eu
dei-lhe o nome de “Subtil” porque na realidade julgo ter havido
alguma subtileza em ter introduzido fados clássicos.
Tenho alguns inéditos e depois tenho alguns do chamado “fado
canção”, não existe este nome, mas enfim chamemo-lhes assim. Fui
cantando à minha maneira privilegiando efectivamente o tradicional para
fugir um pouco àquilo que se vem fazendo ultimamente e me parece
desvirtuado.
Ou
seja, o que é que se está a fazer agora no fado?
Eu
penso que o facto de se andar a dizer que o fado vem do Jazz, que vem do
Blues, da Morna ou de não sei o quê e o que algumas pessoas em
Portugal - que eu não vou citar - andam a fazer foge a meu ver, àquilo
que é o fado.
Quer
dizer que o fado está a ser descaracterizado por alguns interpretes de
sucesso de hoje, quer dar exemplos?
Sim,
é isso. Há pessoas que cantam excepcionalmente bem, mas as interpretações
que fazem descaracterizam o fado deixando-se levar por essa onda de
inovação. Quanto a exemplos não quero nomear ninguém.
Não
quer falar de nomes devido à tal solidariedade que dizem existir no
meio do fado?
Ainda
bem que existe alguma, não estou a criticar ninguém, tenho alguns anos
de carreira e de experiência, penso por isso poder permitir-me tecer
algumas considerações que julgo serem construtivas e não negativas.
Nós
vamos avançar com alguns nomes : Carlos do Carmo, Nuno da Câmara
Pereira, António Pinto Basto, Mísia, Mariza, Cristina Branco…
Carlos
do Carmo não é novo no fado, tem interpretações que fogem talvez um
bocadinho àquilo que é considerado o fado pelos puristas. Agora será
também necessário reflectir se os puristas não pararam no tempo
mantendo convicções que impedem o fado de evoluir. O fado é música,
e como qualquer música de qualquer país do mundo sofre evoluções. O
Carlos do Carmo não o desnatura, o Nuno da Câmara Pereira já não é
bem fado, é mais balada e o António Pinto Basto é na mesma linha, são
pessoas que cantam muito bem, mas quanto a mim não é fado. A Mísia,
disse ultimamente numa reportagem que aquilo que ela cantava não era
fado, contrariamente ao que dizia no início da sua carreira. Em relação
à Mariza ou à Cristina Branco, estão sem dúvida a fugir bastante ao
fado. A única que me parece, a mim, para a minha sensibilidade e para
os meus conhecimentos, que está a efectivamente a seguir a tradição
fadista, introduzindo novas cores e dando ao fado novas oportunidades,
novas melodias, novas harmonias, com uma forma de dizer amor diferente,
é a Katia Guerreiro.
Não
acha que para o fado ter sucesso a nível internacional era necessária
uma grande evolução de estilo, tanto musical como na interpretação e
que os artistas citados têm conseguido impor-se graças a isso?
Estou
de acordo, tenho obrigatoriamente que estar de acordo, daí que eu tenha
dito à instantes que o fado necessita de evolução. Essa evolução
passa pela busca das raízes, das influências africanas das nossas
antigas colónias ou da música internacional, mas não fujamos das
bases porque senão estamos mal.
Num
outro registo vou dar-lhe um exemplo do que fiz nos meus dois últimos
concertos : Decidi cantar “Uma casa portuguesas” e a “Lisboa
antiga” que já não cantava há anos. Os meus músicos ficaram atónitos
mas foi o que vi noutros concertos de colegas que têm grande sucesso no
estrangeiro. Não é para copiar mas creio que todos nós temos o
direito de tirar ilações das coisas que funcionam. O público tem memória
auditiva e com o repertório da Amália associa tudo ao fado.
Salvo
raras excepções de concertos de alguns dos artistas que citámos nas
grandes salas de espectáculo parisienses o fado, em França, só se
ouve nos restaurantes. Tendo em conta a fraca capacidade financeira dos
restaurantes e por vezes as carência profissionais de certos proprietários,
a oferta de fado de qualidade parece-nos muito pobre. O resultado é que
essas casas são frequentadas quase exclusivamente por portugueses e o
fado vive praticamente num gueto. Qual é a opinião da Mané, que anda
por cá há cerca de vinte anos?
Tudo
isto é muito complicado : para fazer evoluir o fado com dignidade, é
preciso estudar vários parâmetros tais como, de onde vem, como se faz,
para onde se vai e, é preciso qualidade. O público francês é mais ávido
de qualidade que o português que é muito mais saudosista, o que se
compreende. Dificilmente, sobretudo nos ditos restaurantes portugueses,
frequentados essencialmente pela massa trabalhadora portuguesa, saudosa
de ouvir fado, se pode produzir qualidade adequada a um público
conhecedor e exigente como é o francês. Essa pergunta tinha eu vontade
de a colocar : qual é o futuro do fado em França?
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