|
Textos
publicados Textes
publiés
Dezembro
00
Entrevista
a João Carlos Cardoso
Um
dos melhores operários de França é Português
Sem
entrar em demagogias como alguns colegas da Comunicação Social em
Portugal, particularmente da rádio e da televisão ao afirmarem, sem
outras explicações que “um Português tinha sido considerado o
melhor operário de França”, quisemos este mês dar relevo especial
ao nosso compatriota João Carlos Cardoso, que foi o vencedor na
categoria 5 (trabalhos em mármore), do Grupo 3 (Métiers du patrimoine
architectural) do concurso “Meilleur Ouvrier de France”, (MOF). Este
concurso, criado por decreto de Mallarmé - a não confundir com o poeta
autor de “Un coup de dés jamais n'abolira le hasard” - decorre
todos os três anos, e distingue o melhor operário (ou artesão) de
cada uma das cento e poucas especialidades inseridas em 19 grupos que
entram no concurso. Também há poucos anos um pasteleiro de origem
portuguesa foi galardoado com esta distinção.
Marcámos
naturalmente uma entrevista com João Carlos Cardoso. Ficámos agradados
com a modéstia e as qualidades humanas do personagem e impressionados
com o talento do artista.
A.C.
VL
: - O Sr. João Carlos Cardoso é o “Meilleur Ouvrier de France” na
categoria de trabalhos com Mármore. Sabe quantos concorrentes
participaram nessa categoria ?
JCC
: - Não exactamente, sei que eram mais de cem no início e que nas
provas finais éramos 3.
O
Senhor ainda é jovem, há quanto tempo trabalha no mármore ?
Há
18 anos, tenho trinta e cinco.
Começou
cedo !... Foi a sua primeira profissão ?
Foi,
o meu pai já trabalhava no mármore e fui iniciado por ele. Ele era
marmorista em Pêro Pinheiro, veio para França em 1965 e depois
continuou esse trabalho aqui.
E
o Senhor, vive em França há muito tempo ?
Vim
com 9 meses e dos 11 até aos 17 fui estudar para Portugal.
O
mármore é uma das artes que tradicionalmente os portugueses dominam
bem, não é verdade ?
Sim,
pode-se dizer que em Portugal houve sempre grandes escultores e obras de
grande qualidade desde há vários séculos.
Sabe-se
que há em todas as áreas, artistas com grande talento mas que têm na
maior parte dos casos grandes dificuldades para as fazer conhecer do público
e obviamente dos clientes potenciais. Pensa que o facto de ter sido
distinguido como, M.O.F. , lhe vai trazer um acréscimo de notoriedade e
que assim poderá vender mais facilmente as suas obras ?
Penso
que sim mas devo dizer-lhe que antes do concurso eu já era conhecido
como um dos quatro melhores escultores do mundo pelos franceses e pelos
italianos. Já fui convidado de honra na Itália, em Verona numa exposição
onde estavam os 250 melhores escultores do mundo. Portanto considero que
é natural ter ganho o concurso do “Meilleur Ouvrier de France”.
Digamos que já podia ter acontecido há muito mais tempo.
É
verdade que uma maior notoriedade em França e no estrangeiro, já que
este concurso tem uma reputação mundial e particularmente nos Estados
Unidos, vai certamente permitir um contacto mais fácil com clientes que
procuram os melhores em cada ramo.
Sente-se
totalmente realizado ou considera que ainda não atingiu os seus
principais objectivos e neste caso que lhe falta ?
Em
primeiro lugar, talvez vender umas peças em Portugal e poder expor no
meu país de origem, seria uma boa coisa e trabalhar com grandes deste
mundo, - já trabalhei para o Rei Fahd da Arábia Saudita, trabalhei
para o Sultão de Brunei e com alguns grandes arquitectos.
Quando
diz que trabalhou para... Quer dizer que executou encomendas ?
Sim,
encomendaram-me peças e uma delas foi feita em Ryad.
Presumimos
que estes trabalhos demorem bastante tempo a ser realizados. Disse-nos há
pouco que foi necessário um bloco de 20 toneladas de mármore para
fazer a pantera. Quanto tempo demorou a realizar esta obra e qual é o
preço que conta vendê-la ?
Demorei
três anos à razão de 12 horas de trabalho por dia, espero vendê-la
por 3 milhões de francos (100 000 contos).
E
durante esse tempo, como ganha a sua vida, o benefício da venda das peças
que realizou anteriormente dá para financiar as seguintes ?
É
um pouco isso, se não as vender é complicado mas agora também tenho
uma empresa que me permite ter um movimento de obras e ter um movimento
de dinheiro que me possibilita fazer esculturas sem ser obrigado a vendê-las.
O que eu pretendo antes de tudo é fazer uma colecção e poder expor de
capital em capital no mundo inteiro. Vender as peças é bastante bom do
ponto de vista monetário mas não ter peças para expor torna-se
negativo.
O
facto de ter uma empresa, ter empregados e provavelmente sócios que
esperam ter benefícios, quer dizer que vai de certa forma
industrializar a sua actividade ?
Não,
a minha arte só eu é que a exerço no meu atelier. Sou o único a
fazer escultura. A minha empresa faz decoração interior, são casas de
banho, halles de entrada, apartamentos de luxo sobretudo em Paris e de
uma maneira geral, a decoração em tudo o que tem a ver com mármores,
granitos, pedras semipreciosas, mesas, colunas etc. No fundo esta
actividade permite-me sobretudo de não ser obrigado a vender as peças
que faço. No caso da pantera, ela tem olhos de jade e para poder
comprar o jade é preciso bastante dinheiro.
Nunca
tentou recorrer a financiamentos externos, por exemplo dos bancos ou de
instituições de arte para realizar os seus projectos ?
Por
enquanto não. Não tenho nenhuma instituição que ajude. Indicaram-me
uma associação de marmoristas que aparentemente fornecem matéria
prima com melhores condições. Foi a única solução que até agora me
foi sugerida.
Outubro
00
Entrevista
a Dulce Pontes
A
entrevista com Dulce Pontes estava marcada pela editora Uniersal num
grande hotel da zona dos Champs Elysées. Dias antes, tinha visto um
filme com a bonita Julia Roberts no qual um jovem livreiro apaixonado
pela actriz se fazia passar por jornalista para iludir os guardas
costas, secretárias e agentes. Senti alguma semelhança com a cena pois
se estas entrevistas fazem parte do meu trabalho habitual, reconheço
que sou um dos numerosos admiradores desta fabulosa artista. A Universal
concedeu-nos o máximo 3/4 de hora com a nova diva portuguesa. Dulce
Pontes apareceu radiante e descontraída na “suite” e começámos a
falar naturalmente. Não me apercebi que afinal a entrevista durara 1
hora e meia. Podíamos continuar indefinidamente se a agente não me
olhasse de uma forma reprovadora mas simpática.
Dulce
falou-nos com paixão, da sua profissão, da sua vida e da sua luta para
continuar a cantar o que sente sem ter que obedecer forçosamente às
regras do sistema e obviamente do comércio.
Vida
Lusa : - Temos reparado que muitos portugueses dizem-nos ter comprado a
versão francesa da Canção do Mar, interpretada por Helene Segara.
Este disco tornou-se efectivamente um grande sucesso, talvez o maior
desta cantora. Não acha que é pena não ter sido a Dulce Pontes a
gravar em francês ?
Dulce
Pontes : - Quando gravei essa música, embora ela tenha tido uma altíssima
exposição, não só a nível de uma telenovela no Brasil por exemplo,
como no filme Primal Fear, não tinha nessa altura uma multinacional ou
uma editora que fizesse aquele esforço no sentido de promover a música
e poder expô-la. Os discos não existiam à venda, eram difíceis de
encontrar. Não aconteceu nesse tempo de qualquer forma, fico contente
que uma pessoa estrangeira se interesse pela música portuguesa, só nos
valoriza.
Como
explica o facto que salvo raras excepções, tais como por exemplo a Amália
ou noutro registo, Maria João Pires, a canção portuguesa e geralmente
os artistas portugueses, tenham tão pouca saída no estrangeiro ?
Eu
acho que não é só a questão dos artistas portugueses, embora neste
momento as coisas estejam a mudar muito lentamente. E, estão a mudar
graças ao público porque cada vez existem mais festivais de música étnica,
a chamada “world music”, música mais ligada às raízes e cada vez
se vende mais esse tipo de música. Só que por outro lado, todos os
meios que fazem com que a música chegue às pessoas, estão viciados,
estão muito estandardizados : as rádios internacionais só passam as músicas
que tenham aquele formato, com 3,5 minutos, nem mais um segundo, faz-se
música a metro, e a música acaba por perder - isto no âmbito geral,
estou a falar na música em geral e não só na portuguesa - no chamado
“music business” actual no mundo inteiro porque as pessoas querem é
fazer dinheiro rapidamente, acaba por perder a sua missão principal e
primordial. Se formos ao livro que eu considero mais importante, a Bíblia,
no princípio era o verbo, era o som, existe uma função muito
importante no som. Não se podem pôr as pessoas a funcionar como
carneirinhos, todos atrás uns dos outros, porque afinal esses grupos
aparecem e desaparecem ao cabo de um ou dois anos. Tem de se propor música
que toque profundamente as pessoas. Tanto os artistas, que são apenas
instrumentos, eu pelo menos considero-me só um instrumento e mais nada.
Foi-me oferecido o privilegio de comunicar através da música, e sinto
essa responsabilidade e sinto também a responsabilidade de sensibilizar
todas as pessoas que estão ligadas a essas estruturas nesse sentido.
Pode ser numa grande utopia na minha cabeça, mas é a única coisa que
me faz permanecer e me faz continuar a insistir porque não faço
qualquer tipo de cedências para ir pelo caminho mais fácil. Para mim
seria muito fácil cantar em francês ou em inglês, aliás, já faço
isso de vez enquanto em espectáculos ao vivo ou com o maestro Ennio
Morricone mas são coisas pontuais, são temas de filmes, digamos que é
um caminho paralelo, aquele principal que eu quero levar, ou seja,
cantar em português e pesquisar música portuguesa na sua essência e
compor a partir daí. Esse é o caminho que eu quero seguir. Agora, não
é fácil fazer essa opção porque essas estruturas têm uma
mentalidade tão viciada e é tão fácil vender uma coisa que já tem
uma formula que é muito difícil, não só a música portuguesa mas
para qualquer músico que faça música mais ligada à essência, que
procure realmente uma elevação espiritual, essa é a missão da música.
A música é uma linguagem universal que nos transcende. A música tem
uma função específica, há músicas que fazem parte da nossa vida,
que marcam determinados momentos que vivemos…
Está
a tentar dizer-nos que as “Majors” controlam também os gostos do público?
Não,
as “Majors”, nem as rádios controlam, só controlam parcialmente
com música “fast food”, com música que vende rapidamente. E as
pessoas compram porque não têm oportunidade de ouvir, não podem
escolher. Têm de ir à procura mas já existe um grupo de pessoas que
faz isso. É um problema grande e difícil de ultrapassar porque é uma
questão de mentalidade e não venham culpar o público, não venham
dizer que o público é ignorante porque não é, isso não acredito e
nunca acreditei. Quando gravei o “Lágrimas”, nessa altura ninguém
se atrevia a cantar Amália Rodrigues ou Zeca Afonso, disseram que era
um suicídio artístico, ainda por cima com guitarras eléctricas e
essas coisas todas, também tinha fados acústicos embora não fossem
tocados da forma tradicional. O que é considerado tradicional hoje, não
é a mesma coisa que há 30 anos atrás. Quando a Amália Rodrigues começou,
também foi muito contestada, as pessoas diziam que não era fado, que
era flamengo e quando começou a introduzir poesias de altíssimo
calibre no fado, até os guitarristas costumavam dizer na brincadeira :
“lá vamos nós às óperas !”. Hoje são considerados fados
tradicionais ; aliás, alguns dos que eu gosto mais, foram compostos por
um francês, o Alain Ulman. O fado é um estado de espírito que pode
estar presente em pessoas de diferentes culturas… mas já estou a
falar de muita coisa ao mesmo tempo…
Só
demonstra que fala e sente essas coisas com paixão…
Sim,
com paixão e uma pontinha de revolta porque as coisas andam muito
devagar e eu não estou na música à procura da fama porque essa fama
tem um lado pernicioso e feio que eu não gosto. Estou na música porque
é a minha forma de estar na vida, não quero dizer que sacrifico porque
é uma palavra muito forte mas dou-me completamente e abdico de muita
coisa por causa da música. Foi-me dado esse privilégio, esse dom de
comunicação então eu vou respeitá-lo. Só sendo verdadeira comigo é
que consigo ser verdadeira na música que faço e só assim é que posso
comunicar.
Como
começou a sua carreira ? Pode considerar-se que os seus primeiros
passos na música tinham mais a ver com a música ligeira ou com o rock
e que a mudança foi ter vencido o festival da canção ?
(Dulce
deu uma gargalhada) - Não, isso foi mais uma coisa local, Montijo,
Alcochete, não passou daí e do meu sótão. A polícia apareceu lá no
sótão um dia às dez e meia da noite e acabou-se aí o grupo de rock
urbano. Comecei a estudar música com 7 anos, a tradição da música
existe na minha família, tenho um tio fadista, o Carlos Pontes, uma
figura muito carismática, um verdadeiro boémio e comecei a assistir às
fadistices desde miúda. Sempre que haviam festas adorava ir. Lembra-me
que o meu tio pediu-me para cantar a “Igreja de Santo Estevão” numa
dessas festas. Já gostava de cantar fado, só que não sabia a letra,
então ele estava atrás de mim a dizer-me a letra baixinho e eu
cantava. O meu avô paterno tocava concertina, nunca o vi dançar o
fandango mas segundo rezam as crónicas das pessoas locais, ele
costumava ganhar todos os concursos de fandango que faziam nessa altura.
O meu pai tem uma excelente voz, é tenor e da parte da minha mãe também
existem boas vozes mas nunca ninguém se profissionalizou. O meu irmão
canta muito bem e toca na minha banda, é engenheiro de sistemas.
Portanto comecei a cantar e a estudar música desde muito pequenina, os
meus primeiros “concertos” foram no Montijo, na rua do Norte, onde
nasci. A rua era como se fosse uma casa que se prolongasse, era como se
fosse uma só família. Comecei a fazer as minhas primeiras composições
num xilofone, foi assim que descobri que conseguia reproduzir os sons
que ouvia. Era daqueles xilofones que tinham bonequinhos, sabe ? Comecei
a procurar as notas e os sons do “parabéns a você” e do “malhão
malhão”. A minha mãe percebeu que eu estava a apanhar música de
ouvido mandou-me para uma escola de música, fiz o 4° ano de piano no
conservatório, estive numa escola de dança, fui professora de dança.
Nessa fase, estava quase a terminar o liceu, comprei um jornal onde vi
um anúncio que dizia, “procuram-se jovens entre os 18 e os vinte e
quatro anos, se gosta de cantar responda, temos uma boa oportunidade
para si”. Respondi a esse anúncio, foi no final de 88, andavam a
fazer essas audições há dois meses e de um dia para o outro a minha
vida mudou completamente. O Carlos Cruz escolheu-me para substituir a
Dora numa comédia musical que se chamava “Enfim sós”, onde tive
oportunidade de contracenar com Eugênio Salvador, com Virgílio
Castelo, Henrique Viana, Luisa Barbosa e foi assim mais ou menos a história
da Cinderela, foi assim que tudo começou. Em seguida, fiz uma outra comédia
musical, cantei publicidade para a rádio e para a televisão, cantei
tudo e mais alguma coisa, desde batatas fritas até pensos higiénicos.
Mas foi muito bom porque cantar em estúdio é completamente diferente
de cantar ao vivo e é importante para um cantor ter a experiência de
gravar publicidade pois tem oportunidade de aprender a relacionar-se com
o microfone em estúdio que é muito mais sensível. Em 1991 tive o
convite para ir cantar para o Casino Estoril onde estive durante um ano.
Uma noite em que o Júlio Isidro foi assistir, ele pensava que eu era
inglesa, propôs-me de integrar o elenco de cantores residentes e
resistentes do “Regresso ao Passado”. Foi também nesse ano que o Zé
da Ponte, (não temos nada em comum, não somos da mesma família) foi a
pessoa que me fez a primeira audição, me telefonou a perguntar se eu
queria ir ao festival da canção. Aceitei mas disse que tinha de ser o
Fred a escrever o poema. Gostei da música e correu bem. Depois foi a
Eurovisão e quando voltei houve um interesse enorme, muitos jornalistas
presentes, lembro-me que não tinha material de produção nenhum, não
tinha editora e tive a minha primeira grande desilusão. As pessoas
queriam comprar o CD e não havia nenhuma editora em Portugal que
quisesse gravar. Só gravei a “Lusitana Paixão” um ano depois. Sem
querer estar armada em vítima, tenho tanta sorte como azar, é igual,
andam sempre de mãos dadas. Há pessoas que dizem que foi muito fácil,
que foi muito rápido mas não têm realmente um conhecimento profundo
do que foi esse tempo.
Então
foi nessa altura que a sua vida se transformou radicalmente ?
Não,
a minha vida transformou-se a partir do momento em que eu gravei o “Lágrimas”,
e não foi imediato porque quando saiu em Portugal, foi assim um
bocadinho à experiência. Nos primeiros dois meses quase não vendeu
pois as pessoas não sabiam que esse disco existia. De repente, acho que
foi aquela publicidade de “boca-a-boca”, o disco começou a vender,
fizeram-se então os “clipes” e depois foi uma bola de neve. Em
seguida foram uma serie de coincidências, bem que não sejam só
coincidências : um Senhor chamado Donald Cohen, que eu não conheço de
lado nenhum, comprou o disco em Portugal e levou-o para um amigo dele
que tem uma Rádio em Los Angeles que é apaixonado por “World
Music”. Ele gostou e começou a passar a “canção do mar” todas
as manhãs. O produtor da Paramount que andava à procura duma música
com um certo caracter para dar mais ênfase a umas cenas dum filme, terá
ouvido o disco na rádio e de repente recebo um fax da Paramount a
perguntarem-me se a música poderia integrar o filme e se o Richard Gere
podia ter o meu CD na mão numa das cenas. Com o Ennio Morricone, também
foi assim : uma amiga dele comprou o disco e levou-lho precisamente na
altura em que ele estava à procura duma cantora portuguesa para uma
banda sonora. A partir daí foi realmente uma bola de neve com altos e
baixos, com uma coisa sempre boa que são os concertos.
Não
acha que a predominância actual do inglês e do espanhol na música
obriga os artistas que querem ter uma projecção internacional, a
cantar nestas línguas ?
Penso
que não, é verdade que há ainda essa visão um bocado limitada por
parte das multinacionais, é uma realidade. Elas próprias têm essas
limitações e quando têm música diferente já não sabem onde a
inserir.
Assinei
com a Universal, eles propuseram-me em Janeiro de gravar 5 temas do
“Primeiro Canto” em espanhol, ao que eu respondi redondamente não.
Não se consegue imaginar flamengo cantado em português ! É ridículo,
não faz sentido ! Por isso, aceitei gravar dois temas em espanhol, num
outro CD, por causa do mercado sul-americano. Eu sempre tive uma paixão
enorme pelo tango e pela “Balada para un loco” que por acaso foi
composta no ano do meu nascimento em 69 ! Experimentámos gravar um tema
que está no “Primeiro canto” que é plausível ser cantado em
castelhano : o “Pátio dos amores” e a “Balada por un loco” .
Foi o que foi acordado, e assim se fez.
Claro
que isto ao mesmo tempo é uma espécie de jogo de xadrez, é preciso
muita perícia, muita paciência e sobretudo conseguir um equilíbrio, o
que não é nada fácil conseguir.
Mas
a Amália também teve de cantar em inglês nos Estados Unidos e também
gravou em francês…
Também
já cantei em inglês e noutras línguas, até em basco, em japonês ou
em catalão em determinados concertos mas isso são coisas diferentes…
Insistimos
– A Celine Dion começou a cantar em inglês sem perceber o que
cantava, para responder às exigências do produtor e do mercado…
Sim,
mas se pensarmos na quantidade de pessoas que falam português, (200
milhões), somos a terceira língua europeia mais falada no mundo,
depois do inglês e do espanhol. Há de facto um largo trabalho e muita
luta a travar, e essa eu quero travá-la. Nem que tenha de recomeçar a
zero a cada vez. Não é uma questão de ambição, é porque isto é
importante que aconteça para as gerações que hão de vir.
É
a sua cruz ?
Não…
Pronto, acaba por ser… (riu). Tem a ver com o meu caracter. Se não
tenho uma coisa porque lutar, desmotivo-me, nasci assim.
A
ONU, (Organização das Nações Unidas), convidou-a a cantar por ocasião
do 52° aniversário em Nova York e acedeu também ao convite a Madrid
da Amnisty Internacional . Sente-se próxima das Instituições de
beneficência ?
Eu
acredito numa coisa que o Zeca Afonso dizia numa música que se chama
“Utopia” : “gente igual por dentro, gente igual por fora”.
Infelizmente, vivemos num mundo cheio de sombras, não se sabe muito bem
onde está a verdade e onde está a mentira. De qualquer forma, dentro
da minha intuição e daquilo que eu posso fazer, numa perspectiva
positiva, eu estou presente. Não tenho qualquer partido político ou
religião. Acredito em Deus, em Jesus, numa energia muito forte e
positiva que existe e acredito nas pessoas, naquilo que as pessoas têm
de bom. Portanto estou sempre pronta a participar e faço muitos espectáculos
de beneficência.
Que
impressão teve no seu primeiro contacto com Ennio Morricone, esse
monstro da música ?
Foi
uma experiência muito gira. O estúdio ficava nas fundações de uma
igreja que se chamava Dulce Maria. Tinha comprado uma garrafa de vinho
do Porto para lhe dar. Quando entrei no estúdio, só vi as mãos dele e
a orquestra. Aproximei-me, ofereci-lhe a garrafa tentando explicar-lhe
que não a devia mexer. Ora ele só fala italiano e eu nessa altura não
falava nada, agora já falo qualquer coisa, acenou com a cabeça,
deitou-a muito devagarinho, como se fosse um bebé e cobriu-a com o
casaco. Foi assim uma coisa muito bonita e que eu nunca mais vou
esquecer. Ele mandou a melodia, só tocada em piano e pediu-me para
gravar em estúdio para ouvir como eu cantava e depois faria o arranjo.
Fiquei muito surpreendida porque não é normal existir esse tipo de
atenção, sobretudo duma pessoa daquele nível. Cheguei ao estúdio,
fechei os olhos, comecei a cantar num silêncio de tremer. Não costumo
soar, nem quando faço grandes esforços mas terminei a transpirar das
pontas do cabelo até aos dedos dos pés. De repente ouvi a voz do técnico
: “O.k.”. Saí do estúdio, ele abriu-me a porta, tinha os olhos
cheios de lágrimas e deu-me um beijo na testa. Ficou gravado à
primeira.
Segundo
Miguel Sousa Tavares, este seu novo álbum, “O primeiro Canto” é
uma viagem quase antropológica “às origens da música”. Qual é a
sua definição desse trabalho ?
Esse
trabalho partiu dum conceito : os quatros elementos - Fogo, Terra, Água
e Ar. Não há nada mais universal. Depois houve uma busca o que me
levou a fazer uma viagem por terras de Portugal, deu-me um prazer enorme
contactar com todas aquelas pessoas mas isto já numa fase avançada da
composição do CD. Quando estava a compor, já estava a pensar nos
arranjos, quando pensava nos arranjos e nas sonoridades pensava nos músicos.
Era explorar em todos os sentidos e multitudes possíveis que eu
conseguia, todas as significações dos quatro elementos, tendo como
base a essência da música portuguesa e trazendo essas reminiscências
doutras culturas que estão presentes. Nós temos uma identidade muito
própria mas impregnada de impressões digitais de outras culturas.
Historicamente temos influências da África, da Índia, da Ásia. Sendo
assim, existe uma matéria prima de tal maneira multifacetada que
existem numerosos caminhos que se podem percorrer sem trair essa mesma
essência.
Partindo
de um conceito e fez uma viagem através das terras para o realizar.
Mudou alguma coisa em relação ao projecto inicial, depois dessa viagem
?
O
que mudou foi que em seguida apeteceu-me gravar o CD só sobre folclore
e é uma coisa que eu hei de fazer se Deus quiser. Inspirou-me muito
essa viagem. Quando parti para essa pesquisa, eu já estava a pensar
integrar determinados elementos dessa pesquisa em composições, como
foi o caso dos Pauliteiros de Miranda ou os cantares de Castro Verde
porque tinha a necessidade de ter uma presença masculina muito ligada
à terra. Quando pensei nos quatro elementos, embora seja uma coisa
simples, também podia ser uma coisa tão linear que se tornasse
absurdo, então quis manter uma coisa simples e deixar como uma abertura
para que as pessoas possam ouvir e voltar a ouvir redescobrindo novas
coisas. Não é um álbum que se ouça a primeira vez e que se descubra
imediatamente. Vou parecer um bocado pretensiosa mas citando Fernando
Pessoa : “Primeiro estranha-se e depois emprenha-se”. Por outro
lado, também foi uma aventura para mim : poder exprimir as minhas
ideias, escrever as minhas intuições que vêm da comunicação, do
contacto com as pessoas e com o mundo que me rodeia, poder compor,
cantar, fazer parte da produção…
Definiu
um público alvo ?
Não,
eu não penso assim porque não existe criatividade sem liberdade. Se nós
vamos partir para um trabalho a pensar : não vou fazer isto porque
não agrada a determinado público, isso não resulta. A criatividade é
uma coisa que nos foi dada por alguma razão e se nos foi dada, temos de
a respeitar na sua essência e essa essência só é respeitada se
existir liberdade e se não estivermos condicionados com medos. Na
altura falei com o Carlos Cruz sobre este trabalho, ainda não tinha
nada gravado e ele disse-me : - Não faça isso, isso não dá
resultado. É disco de platina em Portugal desde Janeiro. Parecia que
naquela altura tudo estava contra. Quando gravei o CD, ainda não tinha
Editora, estava a resolver problemas com a Editora anterior, paguei eu
própria o CD mas fiz exactamente como queria.
Assinou
com a Universal que é uma das “Majors” mais importantes do mundo. Não
se vai sentir encurralada pelo sistema?
Encurralada,
nunca, isso é que era doce ! Estou a tentar lutar contra um sistema que
muita a gente me diz que é impossível. Eu acredito que é possível
lutar contra. Se não for duma forma há de ser de outra.
A.C.
Setembro
00
Entrevista
a Carlos Pereira
A
nova geração de lusodescendentes não aceita uma atitude passiva face
ao evoluir dos tempos. Querem agir, tomar partido na tomada das decisões.
Carlos
Pereira, director da Coordenação das Colectividades Portuguesas de
França (CCPF), luta contra os preconceitos, ainda existentes, face à
emigração. Natural de Vila Real, este jovem luso de 35 anos, vive em
França desde os 18.
Porquê
a necessidade de formar a Coordenação das Colectividades Portuguesas
de França (CCPF)?
A
Coordenação das Colectividades Portuguesas de França nem sempre se
chamou assim. Inicialmente tratava-se do Conselho das Comunidades
Portuguesas, com delegações em todos os países do mundo onde residiam
Portugueses. Tratava-se, pois, de um órgão consultivo junto do Governo
Português. Entretanto, os Conselheiros eleitos por França decidiram
constituir uma associação, à qual deram o mesmo nome (o CCPF). Quando
o então Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr. Correia
de Jesus decidiu acabar com o Conselho, ficou em França a associação
com o mesmo nome. Seguidamente decidimos mudar de nome, guardando no
entanto a mesma sigla : CCPF. A CCPF tem pois mais de 15 anos, mas a sua
vertente actual só existe desde Outubro de 1990. Actualmente, a CCPF é
um colectivo nacional de associações e de federações de Portugueses
em França, com mais de 170 colectividades aderentes. O apoio à rede
associativa é a principal razão de existência da CCPF.
É
verdade que os lusodescendentes se vão afastando cada vez mais da Pátria
Mãe ou, pelo contrário, há uma nova geração que quer saber,
conhecer e participar activamente na cultura portuguesa ?
Actualmente
verifica-se que uma parte importante dos jovens de origem portuguesa
residentes em França (e também em outros países da Europa) querem
reforçar os laços que os une a Portugal. Durante alguns anos houve um
corte, essencialmente devido grande à desfasagem (cultural, social e
economicamente) entre a cidade onde viviam e a aldeia donde eram originários
os pais... único ponto de Portugal que conheciam ! Actualmente,
consideram que Portugal é um “país normal”, vão passar férias a
Portugal, visitam o país de norte a sul, vão fazer estágios a
Portugal no quadro dos programas europeus de mobilidade juvenil, e o
sonho de qualquer um deles é trabalhar em França para uma empresa
portuguesa, ou em Portugal para uma empresa francesa.
Considera
que o interesse emergente pelas raízes é consequente ao culminar da
nova era digital, em que podemos percorrer o mundo em minutos, esbatendo
diferenças culturais e derrubando fronteiras ?
O
interesse por Portugal é também consequência da entrada de Portugal
na União Europeia, o facto de Portugal fazer parte do “pelotão da
frente” da moeda única, da Expo'98, do Prémio Nóbel da Literatura,
da mobilização à volta de Timor, da digressão mundial dos Madredeus,
da RTP internacional, dos sucessos da selecção nacional no último
Europeu de futebol, etc. Tudo isto junto, faz aumentar o interesse que
os jovens lusodescendentes têm por Portugal. A internet permite aproximá-los
mais e levá-los a dizer, sem complexos, que conhecem melhor Portugal do
que os seus próprios pais.
O
seu trabalho vai muito na direcção de “quebrar e fugir dos estereótipos
da emigração”. O que quer dizer com isso ?
Há
imagens estéreotipadas que dificilmente conseguimos apagar. Uma grande
parte da nossa acção vai nesse sentido. Os Portugueses residentes no
estrangeiro são muitas vezes associados a classes
socio-culturo-profissionais que já não correspondem à realidade. Como
se todos os emigrantes fossem uniformemente iguais. Ora, uma comunidade
de um milhão de pessoas (é o número de Portugueses residentes em França)
é forçosamente heterogénia. Muitos são pedreiros e mulheres a dias.
Mas outros são engenheiros e doutores. Ainda bem que há uns e outros,
mas existem os dois ! Têm, pois, de parar de nos etiquetar todos de
consumidores de música foleira. O Festival de Teatro Português que a
CCPF organiza anualmente em França veio mostrar que há também um público
português para o teatro, e isso surpreendeu muita gente...
É
através da motivação para o movimento associativo que a CCPF
trabalha. Qual a real importância do associativismo ?
França
tem a rede associativa portuguesa mais intensa. Existem actualmente mais
de mil associações de Portugueses !!! Inicialmente criadas para
recriar a “aldeia” e o “terreiro” deixados para trás, as
associações foram, pouco a pouco, evoluindo para novas vertentes,
nomeadamente a do ensino da língua portuguesa (que não era devidamente
assegurado pelos governos). Recentemente, as associações que se criam
têm mais uma tendência criativa, são viradas para as artes
(fotografia, vídeo, teatro, cinema,...). Mas continuam a existir
bastantes associações cujo objectivo principal é a organização do
bailarico de fim de semana, que têm o seu grupo de folclore (há
actualmente mais de 260 grupos de folclore portugueses em França) e a
terem as suas equipas de futebol (não estão contabilizadas, mas
fala-se em mais de 2000 equipas no activo).
A
luta é por uma população, lusa, activa em França ?
Durante
muitos anos, a Comunidade portuguesa esteve virada para si própria,
fazia acções para consumo próprio, passava despercebida. Eramos os
bons trabalhadores simpáticos... Hoje, queremos ser muito mais do que
isso. Queremos fazer acções com visibilidade, para nosso consumo, mas
também para mostrar à população que vive connosco. Queremos que
falem mais de nós... Por exemplo, a CCPF tem actualmente uma campanha
para sensibilizar os Portugueses a se inscreverem nos cadernos
eleitorais de forma a poderem votar nas próximas eleições municipais
previstas para 2001. É a primeira vez que os Portugueses vão poder
eleger o presidente da Câmara Municipal da cidade onde residem. Mas,
para isso, é necessário estar inscrito... o que não acontece! Os
Portugueses de França não têm uma formação política e não estão
a ser muito activos neste domínio. Ora, uma Comunidade que não vota,
também não existe...!
A
CCPF leva a cabo, anualmente, uma iniciativa que pretende reforçar a
confraternização entre a comunidade de falantes do português mais
jovem - o Encontro Europeu de Jovens Lusodescendentes - Qual a
finalidade ?
O
Encontro Europeu de Jovens Lusodescendentes enquadra-se num projecto
muito mais vasto. Regularmente, a CCPF organiza encontros regionais de
jovens, em várias cidades de França, para debater temas como “a
dupla identidade cultural” ou agora “a implicação dos jovens na
vida associativa”. Mas pensámos que seria mais interessante se comparássemos
com o que se passa nos outros países europeus. Como vivem os jovens
desses países, se têm os mesmos problemas. Foi assim que nasceu o
Encontro Europeu que se realiza anualmente. Para além disso, temos
agendado em França, acções que permitem comparar com o que pensam os
jovens de outras comunidades (senegaleses, turcos, caboverdianos, espanhóis,
tunisinos, marroquinos...). Ainda antes do fim do ano, vamos organizar
um encontro entre jovens lusodescendentes e a Ministra francesa da
Juventude e Desportos. Como pode reparar, a nossa acção é muito mais
alargada.
Este
ano, o encontro teve lugar em Sintra, qual o balanço final ?
O
Encontro deste ano foi particularmente interessante porque optámos por
ter menos jovens do que habitualmente e foi um Encontro com uma vertente
formativa bastante importante. A maior parte dos jovens presentes já
está integrada nos corpos gerentes das associações onde militam, mas
todos reconhecem que não tem sido tarefa fácil. Não chega motivar os
mais novos para tomarem postos de responsabilidades nas direcções, é
também necessário que se ouçam de facto as suas reivindicações.
Ora, isto não acontece sempre. Vários jovens queixam--se de entrar
para as direcções porque sabem escrever na língua do país de residência
e porque têm um computador em casa. Ora, este critério começa a não
interessar verdadeiramente os jovens que se querem agentes de
desenvolvimento activo da associação, participando nas decisões
tomadas. Apesar de tudo isto, estamos optimistas quanto ao futuro, mesmo
sabendo que a transmissão de poderes não será fácil.
A
base do programa era a Formação, aliada ao intercâmbio entre
culturas, falado em português. Como foi aceite essa seriedade na ordem
de trabalhos ?
Esta
vertente foi-nos solicitada pelos jovens que participaram nos últimos
encontros (Aveiro em 1998 e Olhão em 1999). Os jovens necessitam deste
tipo de formação, ganhar motivações, saber como se montam projectos,
como se comunica. O nosso balanço é bastante positivo. Pensamos que
eles gostaram.
Depois
de dada a formação, os utensílios de trabalho, contactos, ideias e
conselhos, o que sentiu que lhes ficou ?
Quisemos
que os jovens saíssem de Sintra com contactos de organismos que os
podem ajudar e isso parece ter acontecido. Também conseguimos que os
jovens saíssem motivados e cheios de projectos. Isso é bom sinal. Os
encontros que tiveram com associações juvenis portuguesas, com
instituições, para além do próprio contacto entre eles, fez com que
nascessem ideias novas e, sobretudo, contactos inter-comunidades
portuguesas.
A
resposta e a forma de encarar o encontro, por parte dos jovens
participantes, correspondeu às espectativas ?
Pensávamos
que os participantes iam achar o programa do Encontro demasiado denso.
De facto, era denso... mas eles participaram sempre e mostraram sede de
querer saber sempre mais. Esta atitude deles reconforta a nossa maneira
de ver as coisas : o Encontro foi para trabalhar, depois cada um
continua de férias !
Paralelamente
ao Encontro Europeu de Jovens Lusodescendentes, a CCPF procede a outro género
de iniciativas, quer falar um pouco da agenda da CCPF...
Ainda
antes do fim do ano, vamos organizar a acção mais mediatizada da CCPF
: o Festival de Teatro Português em França que está na nona edição
e que já trouxe a França muitas das melhores companhias de teatro de
Portugal. Durante um mês, vamos organizar mais de cinquenta espectáculos
em 25 cidades diferentes, de Paris a Estrasburgo, passando por Dijon,
Canes, Bordéus, Pau... Outro dos eventos mais conhecidos da CCPF são
os Encontros Musicais Lusófonos, um festival de músicas portuguesas
que se inscreve na multiculturalidade e diversidade de influências das
sonoridades portuguesas. Já em princípios de Setembro vamos
co-organizar em Girona (Espanha) um Fórum sobre Acções de Mediação
Escolar, no quadro do programa europeu com parceiros de Espanha, França,
Bélgica e Alemanha. Para além disso, fazemos acções de formação de
dirigentes associativos, gerimos exposições e digressões artísticas,
temos um departamento de comunicação, etc. A CCPF tem hoje uma equipa
de nove profissionais da animação a apoiar as associações aderentes
e a realizar as nossas próprias actividades.
O
que acha que deveria ser feito, por parte do Estado Português, em prol
das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo ? Quais as
necessidades mais vigentes ?
A
maior necessidade é sem dúvida o apoio ao movimento associativo
português no estrangeiro. Os cinquenta mil contos que o Governo destina
anualmente para apoiar essas associações é ridículo. Estamos
conscientes de que as associações devem ser apoiadas pelos países
onde estão sediadas, mas também queremos afirmar que Portugal tem o
dever de apoiar estas associações que se batem para manter bem vivas a
língua e a cultura de Portugal. Também consideramos que faltam
incentivos para que as diferentes comunidades portuguesas se conheçam.
É importante que os Portugueses de França conheçam os Portugueses da
Bélgica, saber o que eles fazem, quais as suas acções, como estão
organizados. Quando a “malha” dos Portugueses do estrangeiro estiver
de facto a funcionar, Portugal só pode ganhar com isso. Estivemos
durante algum tempo esperançados que a RTP internacional fosse servir
precisamente para esse diálogo entre as Comunidades portuguesas. Enganámo-nos.
Porquê
uma certa “aversão” à palavra “emigrante” ?
Recentemente
tem havido uma tentativa de “eliminar” a palavra “emigrante” e
de a “substituir” por “Portugueses residentes no estrangeiro”.
Pessoalmente, continuo a ser emigrante - saí dum país para viver e
trabalhar num outro - e não creio que a “imagem” e os
“preconceitos” mudem só porque já não nos chamam de
“emigrantes” !
No
seu entender, qual o papel da emigração na troca e transmissão de
culturas e saberes ?
Os
Portugueses terão uma função importantíssima, mesmo fundamental, no
intercâmbio cultural, a partir do momento em que decidirem que vão
deixar de falar entre eles sobre Cultura portuguesa, mas que vão passar
a falar para os outros da Cultura portuguesa. Por vezes, estamos a
promover mais a cultura e a língua portuguesa, se falarmos em francês...
parece paradoxal, mas não é. É necessário que os Portugueses sejam
efectivamente (enfim) os reais Embaixadores da Cultura portuguesa no
estrangeiro. Não só a cultura popular. Não só para que os nossos
filhos conheçam a nossa cultura, mas também para que os filhos dos
nossos vizinhos nos conheçam melhor.
Cláudia Rodrigues,
redacção do Terra Natal
Junho
00
Entrevista
a Vasco Jorge
Em
Outubro de 1998, a Vida Lusa noticiou a abertura de um Bar Dancing,
O
Cantinho dos Artistas, na Praia da Rocha em Portimão. A notícia
mereceu destaque já que o criador deste projecto foi o conhecido cantor
de música portuguesa, Vasco Jorge. A Vida Lusa quis saber o que era
feito dele.
Vida
Lusa : - Olá Vasco Jorge, depois de teres vivido quase 20 anos em França
e sempre a viajar de um lado para o outro, como é que vives agora
debaixo do sol do nosso país ?
Vasco
Jorge : - Eu costumava dizer que vivia nos aeroportos ou na estrada,
cheguei mesmo a fazer uma canção chamada “Eu sou um vagabundo”.
V.L.
: - Que aliás teve muito sucesso !
V.J.
: - Teve sim. Continua a ser uma canção ouvida em Portugal. Mas penso
que o “vagabundo”, por mais voltas que dê acaba sempre por voltar
ao ponto de partida. O sol do nosso país foi sempre o meu objectivo. Eu
quando fui para França não fui para ficar, fui sim, para cantar.
Mas... há sempre um mas, acabei por ir ficando porque tinha sempre
trabalho e depois surgiu o amor na minha vida e a França começou a ter
outro encanto. Foram 18 anos com alegrias e tristezas mas a ideia de me
instalar definitivamente em Portugal, sempre foi uma ideia fixa. Assim
que surgiu a oportunidade não hesitei. Estou bem.
V.L.
: - Mas tu nasceste e foste criado em Lisboa, porquê o Algarve ?
V.J.
: - Primeiro porque necessito de ver o mar, (risos) creio que o meu pai
era marinheiro antes de conhecer a minha mãe. Ainda pensei na Costa da
Caparica, que foi sempre o meu local de “estacionamento” mas só de
pensar nos engarrafamentos da ponte e no stress das grandes cidades,
perdi logo a vontade. Além disso, durante muitos anos fui um
“chou-chou” aqui em Portimão, todos os anos era convidado para
participar nos eventos que aqui se faziam, senti muito carinho desta
gente criei amizades, por isso não estou em terra estranha e o mais
fantástico é que se quiser ir à praia vou a pé e não há
engarrafamentos.
V.L.
: - O Cantinho dos Artistas já festejou o seu 1° aniversário. Que
balanço fazes quando está prestes a festejar o 2° ?
V.J.
: - O balanço é positivo. O primeiro ano foi um pouco difícil. Era
preciso dar a conhecer a casa, adaptar-se à maneira de viver, estar e
ser das pessoas aqui etc. Mas quando festejamos o 1° aniversário já
as coisas tinham entrado nos eixos. Foi uma noite emocionante porque
senti que tinha ganho a batalha. A casa estava super lotada, toda a
gente quis festejar connosco. Oferecemos um bolo gigante e a festa foi
marcada com a presença do padrinho, o meu amigo e colega José Malhoa,
que aliás sempre que possível não deixa de marcar presença, a
madrinha é a Ana Malhoa mas não pode estar presente pois vinha de
nascer a pequena Índia Malhoa.
V.L.
: - O teu projecto era esse mesmo, um Cantinho de Artistas. Os teus
colegas têm aderido ao projecto ?
V.J.
: - Sim sem dúvida. Já se fizeram grandes noitadas naquele Cantinho.
Tem por ali passado grandes nomes da música portuguesa e não só,
curiosamente sempre que um artista estrangeiro compreende o nome da casa
vem sempre apresentar-se e já tive mesmo o privilégio de cantar em duo
com uma cantora inglesa, muito em voga no seu país, que é a Laureen.
Por ali têm passado cantores de música ligeira, fadistas, humoristas,
pintores, músicos, nomes conhecidos da radio e televisão etc. todos
com mais ou menos valor, mas o ARTISTA que têm estado sempre presente e
têm contribuído para o sucesso desta casa têm sido sem dúvida alguma
o público, todos os clientes que nos visitam e nos felicitam pelo bom
ambiente que temos.
V.L.
: - Falando de artistas, o teu último álbum data de 1997. Para quando
o próximo ?
V.J.
: - Boa pergunta ! É caso para dizer : como o tempo passa ! Bem,
acontece que tenho um álbum preparadíssimo a sair desde 97. Ainda não
tive disponibilidade, porque sair o álbum para o mercado é fácil,
ninguém precisa de mim. A editora trata do assunto, mas o meu contrato
implica também grande disponibilidade para promoção e aí é que está
o problema. Quando tenho um projecto entrego-me de alma e coração e o
Cantinho dos Artistas têm tragado o meu tempo por inteiro. Mas agora
que as coisas estão sobre rodas, muito em breve poderei dedicar-me a
esse álbum que já tem uma história para contar.
V.L.
: - Mas tempo para cantar encontras sempre, e tivemos mesmo o privilégio
de te ouvir cantar em inglês, espanhol, italiano etc.
V.J.
: - E isso dá-me um prazer enorme. Quando gravo os meus discos, tenho
que ter canções inéditas, não vou gravar sucessos internacionais que
toda a gente conhece, e nem sempre surge a oportunidade de cantar esses
sucessos nos espectáculos que faço porque as pessoas querem ouvir as
minhas canções e não aquelas que conhecem de cor. No meu bar é
diferente, até porque se cantasse as minhas canções todos os dias
apesar de ter uma grande colecção de álbuns gravados as pessoas
certamente fartar-se-iam, da minha voz, (modéstia à parte), não se
fartam, pois todos os dias me pedem para cantar.
V.L.
: - Notamos que o Fado também marca presença no Cantinho. Não é por
acaso pois não ?
V.J.
: - Claro ! O contrário seria como impedir um ex. futebolista de ver
futebol. O Fado foi o meu primeiro amor. Gravei o meu primeiro disco com
17 anos e sempre pensei acabar a minha carreira artística tal como
comecei, com um álbum de Fado.
O
facto de ter uma noite de fados no Cantinho, fazia parte do projecto e
espero poder levá-lo avante durante muito tempo. Todas as quartas
feiras fazemos um apontamento com viola e guitarra, temos sempre um
fadista convidado, mas os amadores também.
V.L.
: - Mas às quartas feiras apesar de haver Fado, também se pode dançar
?
V.J.
: - Sim, O Cantinho é um Bar Dancing com música ao vivo. A ideia
surgiu precisamente porque eu não sou grande adepto (agora) de
discotecas e gosto muito de dançar. Temos uma selecção musical
variada onde não faltam o tango, a valsa, o passo doble etc. Tentamos
sempre ter um músico diferente e se possível aqueles que os clientes
nos pedem. Às quartas feiras estão entregues, com grande orgulho meu,
ao meu filho Anthony Michael que está a seguir os meus passos na música.
V.L.
: - Vasco Jorge, saudades de França ?
V.J.
: - Muitas. Deixei em França grandes amigos, sempre dei muito valor à
amizade e graças a Deus foi coisa que nunca me faltou. Mas de vez em
quando tenho uma surpresa, aparece sempre um ou outro que vem de férias
e não deixa de vir ao Cantinho fazer uma visita. É sempre um prazer
quando vejo entrar pela aquela porta alguém que conheci em França ou
até noutro país. Já tem acontecido, simples anónimos que têm
seguido a minha carreira no estrangeiro, saberem que eu estou ali e
entrarem para dar uma palavrinha e pedir um autografo. Isso é para mim
um reconhecimento muito grande dos emigrantes para quem cantei tantos
anos.
V.L.
: - Vasco Jorge para terminar esta conversa queres deixar uma mensagem
para França ?
V.J.
: - Para os meus amigos um grande abração e espero vê-los em breve.
Ficam também aqui os meus votos sinceros para todos aqueles que desejam
regressar a Portugal o possam fazer e se possível nas melhores condições.
O
nosso país apesar de ser um país burocrático está em plena evolução
sócio económica. A nível da saúde existem já bons seguros que nos
permitem de ter uma assistência correcta. E a boa notícia : desde o
dia 1 de Maio 2000 foram aprovadas várias medidas sobre actos notariais
que facilitam espantosamente a nossa vida, sobretudo quem vem do
estrangeiro e têm montes de papeladas a tratar.
As
férias estão à porta, aqui fica a sugestão da Vida Lusa, passe pela
Praia da Rocha em Portimão e vá divertir-se no Cantinho dos Artistas.
Maio
00
Entrevista
a Casimiro Silva
Casimiro
Silva, é um dos fadistas e músicos mais conhecidos e reputados em França.
Só agora foi possível trocar impressões com ele sobre a sua vida de
fadista e sobre o fado em França.
V.L.
: - Casimiro, há quanto tempo estás em França ?
C.S.
: - Cheguei em Dezembro de 78, portanto há cerca de 22 anos.
V.L.
: - Como começaste a tua carreira ?
C.S.
: - Comecei em 67 no restaurante A Tipóia no Bairro Alto que ficava nas
traseiras do Solar da Hermínia por onde passei posteriormente.
V.L.
: - Mas não aterraste assim numa casa dessas por acaso ?
C.S.
: - Estudava no Passos Manuel, fazia um curso nocturno que se chamava na
altura Curso Geral de Comercio, as aulas terminavam cerca das 11, meia
noite, ou seja precisamente no momento em que começavam as noites de
fado. Eu habitava no bairro do Charquinho nas Portas de Benfica e um dia
fui convidado pelos pais de um amigo de escola, como andava sempre a
cantarolar lá em casa deles, convenceram-me a ir jantar com eles a uma
casa de fados que era “A Tipóia” no Bairro Alto. Foi assim a minha
primeira experiência numa casa típica de fado. Antes só tinha cantado
naquelas casas ou associações que davam fado vadio onde estava-mos à
espera da nossa vez com um papelinho na mão para mostrar-mos o que valíamos.
A Tipóia convidou-me em seguida a ficar como artista na casa, por
sugestão do celebre guitarrista Casimiro Ramos e do fadista Manuel de
Almeida. Portanto acabei logo com a escola pois não podia conciliar as
duas coisas e foi assim que enverdei no fado. Em seguida fui contratado
pelo marido da Hermínia Silva para cantar no Solar que me pagava nessa
altura mais oitenta escudos por noite.
V.L.
: - Mas tu és muito conhecido como violista. Já tocavas viola nessa
altura ou só cantavas ?
C.S.
: - Eu tinha 17 anos e era muito difícil nos tempos da ditadura, um
jovem menor ter carteira profissional o que era indispensável para
formular um contrato. Ora a minha primeira ambição era obter esse
famoso documento e a Hermínia Silva, o marido e o Manuel de Almeida
trataram dos trâmites necessários para o exame que era muito rigoroso.
Tratava-se de interpretar correctamente em termos de dicção, sentido
melódico, compasso musical sem falhas e, facilidade de colocação de
letras conhecidas noutras músicas. Assim que obtive a carteira de
interprete comecei a dedicar--me à viola nos tempos livres e os próprios
guitarristas das casas, sabendo da minha vontade de tocar viola,
deixavam-me praticar durante os intervalos e corrigiam-me ao mesmo
tempo. Foi assim que aprendi. Cinco anos mais tarde, obtive também a
carteira profissional de músico.
V.L.
: - O facto de trabalhares numa casa de uma das fadistas mais famosas de
Portugal, deve-te ter permitido de conviver com a fina flor do fado ?
Quem são ou quem foram os artistas portugueses que mais te marcaram ou
com os quais de identificas ?
C.S.
: - Indiscutivelmente, foi o Fernando Farinha, a Dona Maria Teresa de
Noronha, Fernando Maurício e Beatriz da Conceição, entre outros para
não alongar. Lamento todavia não ter tido a ocasião de cantar ou
acompanhar a nossa divina Amália Rodrigues.
V.L.
: - Porque vieste para França ?
C.S.
: - Nessa altura trabalhava numa casa do Porto com a Beatriz da Conceição
e o guitarrista Arménio de Melo, fui contratado para uma conhecida casa
de Versailles para acompanhar Carlos Macedo e Filipe Duarte, com um
contrato de 30 dias. A facilidade de tocar e cantar levou a que o patrão
da casa, o Agostinho, me convidasse a ficar. A morte dos meus pais
levou-me a esquecer um bocado o nosso país e por cá fiquei. Inaugurei
algumas casas de Paris, entre as quais o Petit Cardoso, o Expresso, o
Avril au Portugal etc…
V.L.
: - Sabemos que és um dos fadistas mais solicitados pelos empresários,
como vai o fado em França ?
C.S.
: - Conforme as pessoas o permitem ; faço minhas as palavras do meu
colega Joaquim Campos que a Vida Lusa entrevistou recentemente e cuja
analise coincide com a minha. Há uma mão cheia de praticantes, entre
guitarristas, violas e interpretes e também há quem procure aperfeiçoar-se
com mais ou menos vontade. Estes últimos têm facilidades que no meu
tempo não existiam assim como, a diversidade da discografia. Nós tínhamos
de recorrer ao contacto directo e não havia outra hipótese.
V.L.
: - Nas diversas categorias que compõem o fado em França : guitarras,
violas ou interpretes qual é a que melhor está representada em França
?
C.S.
: - Para mim são os violistas.
V.L.
: - São teus concorrentes, não ?
C.S.
: - Eu digo o que penso, também acho que nos outros sectores existe
qualidade, embora em quantidade mais reduzida. Acrescento umas palavras
de apreço para Manuel Corgas, guitarrista da autêntica escola de fado,
o nosso querido José Machado, viola, interprete e o homem que me
acompanha mais assiduamente, António de Almeida.
V.L.
: - Algum espectáculo recente que na tua opinião mereça relevo ?
C.S.
: - Sim, o da minha amiga Maria José em Bry-sur-Marne.
V.L.
: - Já que frequentas muito os restaurantes, como vai a cozinha
portuguesa em França ?
C.S.
: - Há muito boa qualidade, não gostaria de citar nomes mas gosto
muito de comer na Belle Epoque (da São) onde aliás trabalho e no Beirão
do Alfredo, a tal cozinha que faz a diferença. Há também restaurantes
que tentam implementar algumas das nossas tradições como por exemplo o
restaurante A Lareira em Montreuil que leva a efeito no domingo dia 21
de Maio, um convívio fadista. Trata-se de uma sardinhada com pimentos,
frango na brasa, vinho à descrição e claro o velho fado.
V.L.
: - Os teus detractores dizem que a tua excelente interpretação de
“Um copo mais um copo” é uma autobiografia.
C.S.
: - É verdade porque eu não bebo às escondidas mas já estou a
reduzir muito…
António
Cardoso
Abril
00
Entrevista
a Joaquim Campos
Informados
que Joaquim Campos estava a preparar um concurso de fado no Palácio das
Guitarras, marcámos encontro neste restaurante da simpática
Mariazinha, para entrevistar o conhecido fadista.
V.L.
: - Temos o hábito de o ver por terras de França desde há uns anos.
Ausenta-se por largos períodos mas volta sempre…
Joaquim
Campos : - Sim, vim com o Toni de Matos em 1985, nessa altura havia
alguns restaurantes onde havia fado em permanência tais como o Abril em
Portugal, o Petit Cardoso ou o Saudade em Versalhes para não falar em
mais. Existia um “mercado” satisfatório, chame-mos-lhe assim, cá
andei durante alguns anos e em seguida voltei para Portugal.
V.L.
: - Dizem que nessa altura o fado estava na moda em Paris e que era tudo
mais fácil…
J.C.
: - Não, o que havia era talvez mais seriedade no fado que se fazia, o
fado é sempre o mesmo. Desde qu |