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Dezembro
00
Entrevista
a João Carlos Cardoso
Um
dos melhores operários de França é Português
Sem
entrar em demagogias como alguns colegas da Comunicação Social em
Portugal, particularmente da rádio e da televisão ao afirmarem, sem
outras explicações que “um Português tinha sido considerado o
melhor operário de França”, quisemos este mês dar relevo especial
ao nosso compatriota João Carlos Cardoso, que foi o vencedor na
categoria 5 (trabalhos em mármore), do Grupo 3 (Métiers du patrimoine
architectural) do concurso “Meilleur Ouvrier de France”, (MOF). Este
concurso, criado por decreto de Mallarmé - a não confundir com o poeta
autor de “Un coup de dés jamais n'abolira le hasard” - decorre
todos os três anos, e distingue o melhor operário (ou artesão) de
cada uma das cento e poucas especialidades inseridas em 19 grupos que
entram no concurso. Também há poucos anos um pasteleiro de origem
portuguesa foi galardoado com esta distinção.
Marcámos
naturalmente uma entrevista com João Carlos Cardoso. Ficámos agradados
com a modéstia e as qualidades humanas do personagem e impressionados
com o talento do artista.
A.C.
VL
: - O Sr. João Carlos Cardoso é o “Meilleur Ouvrier de France” na
categoria de trabalhos com Mármore. Sabe quantos concorrentes
participaram nessa categoria ?
JCC
: - Não exactamente, sei que eram mais de cem no início e que nas
provas finais éramos 3.
O
Senhor ainda é jovem, há quanto tempo trabalha no mármore ?
Há
18 anos, tenho trinta e cinco.
Começou
cedo !... Foi a sua primeira profissão ?
Foi,
o meu pai já trabalhava no mármore e fui iniciado por ele. Ele era
marmorista em Pêro Pinheiro, veio para França em 1965 e depois
continuou esse trabalho aqui.
E
o Senhor, vive em França há muito tempo ?
Vim
com 9 meses e dos 11 até aos 17 fui estudar para Portugal.
O
mármore é uma das artes que tradicionalmente os portugueses dominam
bem, não é verdade ?
Sim,
pode-se dizer que em Portugal houve sempre grandes escultores e obras de
grande qualidade desde há vários séculos.
Sabe-se
que há em todas as áreas, artistas com grande talento mas que têm na
maior parte dos casos grandes dificuldades para as fazer conhecer do público
e obviamente dos clientes potenciais. Pensa que o facto de ter sido
distinguido como, M.O.F. , lhe vai trazer um acréscimo de notoriedade e
que assim poderá vender mais facilmente as suas obras ?
Penso
que sim mas devo dizer-lhe que antes do concurso eu já era conhecido
como um dos quatro melhores escultores do mundo pelos franceses e pelos
italianos. Já fui convidado de honra na Itália, em Verona numa exposição
onde estavam os 250 melhores escultores do mundo. Portanto considero que
é natural ter ganho o concurso do “Meilleur Ouvrier de France”.
Digamos que já podia ter acontecido há muito mais tempo.
É
verdade que uma maior notoriedade em França e no estrangeiro, já que
este concurso tem uma reputação mundial e particularmente nos Estados
Unidos, vai certamente permitir um contacto mais fácil com clientes que
procuram os melhores em cada ramo.
Sente-se
totalmente realizado ou considera que ainda não atingiu os seus
principais objectivos e neste caso que lhe falta ?
Em
primeiro lugar, talvez vender umas peças em Portugal e poder expor no
meu país de origem, seria uma boa coisa e trabalhar com grandes deste
mundo, - já trabalhei para o Rei Fahd da Arábia Saudita, trabalhei
para o Sultão de Brunei e com alguns grandes arquitectos.
Quando
diz que trabalhou para... Quer dizer que executou encomendas ?
Sim,
encomendaram-me peças e uma delas foi feita em Ryad.
Presumimos
que estes trabalhos demorem bastante tempo a ser realizados. Disse-nos há
pouco que foi necessário um bloco de 20 toneladas de mármore para
fazer a pantera. Quanto tempo demorou a realizar esta obra e qual é o
preço que conta vendê-la ?
Demorei
três anos à razão de 12 horas de trabalho por dia, espero vendê-la
por 3 milhões de francos (100 000 contos).
E
durante esse tempo, como ganha a sua vida, o benefício da venda das peças
que realizou anteriormente dá para financiar as seguintes ?
É
um pouco isso, se não as vender é complicado mas agora também tenho
uma empresa que me permite ter um movimento de obras e ter um movimento
de dinheiro que me possibilita fazer esculturas sem ser obrigado a vendê-las.
O que eu pretendo antes de tudo é fazer uma colecção e poder expor de
capital em capital no mundo inteiro. Vender as peças é bastante bom do
ponto de vista monetário mas não ter peças para expor torna-se
negativo.
O
facto de ter uma empresa, ter empregados e provavelmente sócios que
esperam ter benefícios, quer dizer que vai de certa forma
industrializar a sua actividade ?
Não,
a minha arte só eu é que a exerço no meu atelier. Sou o único a
fazer escultura. A minha empresa faz decoração interior, são casas de
banho, halles de entrada, apartamentos de luxo sobretudo em Paris e de
uma maneira geral, a decoração em tudo o que tem a ver com mármores,
granitos, pedras semipreciosas, mesas, colunas etc. No fundo esta
actividade permite-me sobretudo de não ser obrigado a vender as peças
que faço. No caso da pantera, ela tem olhos de jade e para poder
comprar o jade é preciso bastante dinheiro.
Nunca
tentou recorrer a financiamentos externos, por exemplo dos bancos ou de
instituições de arte para realizar os seus projectos ?
Por
enquanto não. Não tenho nenhuma instituição que ajude. Indicaram-me
uma associação de marmoristas que aparentemente fornecem matéria
prima com melhores condições. Foi a única solução que até agora me
foi sugerida.
Outubro
00
Entrevista
a Dulce Pontes
A
entrevista com Dulce Pontes estava marcada pela editora Uniersal num
grande hotel da zona dos Champs Elysées. Dias antes, tinha visto um
filme com a bonita Julia Roberts no qual um jovem livreiro apaixonado
pela actriz se fazia passar por jornalista para iludir os guardas
costas, secretárias e agentes. Senti alguma semelhança com a cena pois
se estas entrevistas fazem parte do meu trabalho habitual, reconheço
que sou um dos numerosos admiradores desta fabulosa artista. A Universal
concedeu-nos o máximo 3/4 de hora com a nova diva portuguesa. Dulce
Pontes apareceu radiante e descontraída na “suite” e começámos a
falar naturalmente. Não me apercebi que afinal a entrevista durara 1
hora e meia. Podíamos continuar indefinidamente se a agente não me
olhasse de uma forma reprovadora mas simpática.
Dulce
falou-nos com paixão, da sua profissão, da sua vida e da sua luta para
continuar a cantar o que sente sem ter que obedecer forçosamente às
regras do sistema e obviamente do comércio.
Vida
Lusa : - Temos reparado que muitos portugueses dizem-nos ter comprado a
versão francesa da Canção do Mar, interpretada por Helene Segara.
Este disco tornou-se efectivamente um grande sucesso, talvez o maior
desta cantora. Não acha que é pena não ter sido a Dulce Pontes a
gravar em francês ?
Dulce
Pontes : - Quando gravei essa música, embora ela tenha tido uma altíssima
exposição, não só a nível de uma telenovela no Brasil por exemplo,
como no filme Primal Fear, não tinha nessa altura uma multinacional ou
uma editora que fizesse aquele esforço no sentido de promover a música
e poder expô-la. Os discos não existiam à venda, eram difíceis de
encontrar. Não aconteceu nesse tempo de qualquer forma, fico contente
que uma pessoa estrangeira se interesse pela música portuguesa, só nos
valoriza.
Como
explica o facto que salvo raras excepções, tais como por exemplo a Amália
ou noutro registo, Maria João Pires, a canção portuguesa e geralmente
os artistas portugueses, tenham tão pouca saída no estrangeiro ?
Eu
acho que não é só a questão dos artistas portugueses, embora neste
momento as coisas estejam a mudar muito lentamente. E, estão a mudar
graças ao público porque cada vez existem mais festivais de música étnica,
a chamada “world music”, música mais ligada às raízes e cada vez
se vende mais esse tipo de música. Só que por outro lado, todos os
meios que fazem com que a música chegue às pessoas, estão viciados,
estão muito estandardizados : as rádios internacionais só passam as músicas
que tenham aquele formato, com 3,5 minutos, nem mais um segundo, faz-se
música a metro, e a música acaba por perder - isto no âmbito geral,
estou a falar na música em geral e não só na portuguesa - no chamado
“music business” actual no mundo inteiro porque as pessoas querem é
fazer dinheiro rapidamente, acaba por perder a sua missão principal e
primordial. Se formos ao livro que eu considero mais importante, a Bíblia,
no princípio era o verbo, era o som, existe uma função muito
importante no som. Não se podem pôr as pessoas a funcionar como
carneirinhos, todos atrás uns dos outros, porque afinal esses grupos
aparecem e desaparecem ao cabo de um ou dois anos. Tem de se propor música
que toque profundamente as pessoas. Tanto os artistas, que são apenas
instrumentos, eu pelo menos considero-me só um instrumento e mais nada.
Foi-me oferecido o privilegio de comunicar através da música, e sinto
essa responsabilidade e sinto também a responsabilidade de sensibilizar
todas as pessoas que estão ligadas a essas estruturas nesse sentido.
Pode ser numa grande utopia na minha cabeça, mas é a única coisa que
me faz permanecer e me faz continuar a insistir porque não faço
qualquer tipo de cedências para ir pelo caminho mais fácil. Para mim
seria muito fácil cantar em francês ou em inglês, aliás, já faço
isso de vez enquanto em espectáculos ao vivo ou com o maestro Ennio
Morricone mas são coisas pontuais, são temas de filmes, digamos que é
um caminho paralelo, aquele principal que eu quero levar, ou seja,
cantar em português e pesquisar música portuguesa na sua essência e
compor a partir daí. Esse é o caminho que eu quero seguir. Agora, não
é fácil fazer essa opção porque essas estruturas têm uma
mentalidade tão viciada e é tão fácil vender uma coisa que já tem
uma formula que é muito difícil, não só a música portuguesa mas
para qualquer músico que faça música mais ligada à essência, que
procure realmente uma elevação espiritual, essa é a missão da música.
A música é uma linguagem universal que nos transcende. A música tem
uma função específica, há músicas que fazem parte da nossa vida,
que marcam determinados momentos que vivemos…
Está
a tentar dizer-nos que as “Majors” controlam também os gostos do público?
Não,
as “Majors”, nem as rádios controlam, só controlam parcialmente
com música “fast food”, com música que vende rapidamente. E as
pessoas compram porque não têm oportunidade de ouvir, não podem
escolher. Têm de ir à procura mas já existe um grupo de pessoas que
faz isso. É um problema grande e difícil de ultrapassar porque é uma
questão de mentalidade e não venham culpar o público, não venham
dizer que o público é ignorante porque não é, isso não acredito e
nunca acreditei. Quando gravei o “Lágrimas”, nessa altura ninguém
se atrevia a cantar Amália Rodrigues ou Zeca Afonso, disseram que era
um suicídio artístico, ainda por cima com guitarras eléctricas e
essas coisas todas, também tinha fados acústicos embora não fossem
tocados da forma tradicional. O que é considerado tradicional hoje, não
é a mesma coisa que há 30 anos atrás. Quando a Amália Rodrigues começou,
também foi muito contestada, as pessoas diziam que não era fado, que
era flamengo e quando começou a introduzir poesias de altíssimo
calibre no fado, até os guitarristas costumavam dizer na brincadeira :
“lá vamos nós às óperas !”. Hoje são considerados fados
tradicionais ; aliás, alguns dos que eu gosto mais, foram compostos por
um francês, o Alain Ulman. O fado é um estado de espírito que pode
estar presente em pessoas de diferentes culturas… mas já estou a
falar de muita coisa ao mesmo tempo…
Só
demonstra que fala e sente essas coisas com paixão…
Sim,
com paixão e uma pontinha de revolta porque as coisas andam muito
devagar e eu não estou na música à procura da fama porque essa fama
tem um lado pernicioso e feio que eu não gosto. Estou na música porque
é a minha forma de estar na vida, não quero dizer que sacrifico porque
é uma palavra muito forte mas dou-me completamente e abdico de muita
coisa por causa da música. Foi-me dado esse privilégio, esse dom de
comunicação então eu vou respeitá-lo. Só sendo verdadeira comigo é
que consigo ser verdadeira na música que faço e só assim é que posso
comunicar.
Como
começou a sua carreira ? Pode considerar-se que os seus primeiros
passos na música tinham mais a ver com a música ligeira ou com o rock
e que a mudança foi ter vencido o festival da canção ?
(Dulce
deu uma gargalhada) - Não, isso foi mais uma coisa local, Montijo,
Alcochete, não passou daí e do meu sótão. A polícia apareceu lá no
sótão um dia às dez e meia da noite e acabou-se aí o grupo de rock
urbano. Comecei a estudar música com 7 anos, a tradição da música
existe na minha família, tenho um tio fadista, o Carlos Pontes, uma
figura muito carismática, um verdadeiro boémio e comecei a assistir às
fadistices desde miúda. Sempre que haviam festas adorava ir. Lembra-me
que o meu tio pediu-me para cantar a “Igreja de Santo Estevão” numa
dessas festas. Já gostava de cantar fado, só que não sabia a letra,
então ele estava atrás de mim a dizer-me a letra baixinho e eu
cantava. O meu avô paterno tocava concertina, nunca o vi dançar o
fandango mas segundo rezam as crónicas das pessoas locais, ele
costumava ganhar todos os concursos de fandango que faziam nessa altura.
O meu pai tem uma excelente voz, é tenor e da parte da minha mãe também
existem boas vozes mas nunca ninguém se profissionalizou. O meu irmão
canta muito bem e toca na minha banda, é engenheiro de sistemas.
Portanto comecei a cantar e a estudar música desde muito pequenina, os
meus primeiros “concertos” foram no Montijo, na rua do Norte, onde
nasci. A rua era como se fosse uma casa que se prolongasse, era como se
fosse uma só família. Comecei a fazer as minhas primeiras composições
num xilofone, foi assim que descobri que conseguia reproduzir os sons
que ouvia. Era daqueles xilofones que tinham bonequinhos, sabe ? Comecei
a procurar as notas e os sons do “parabéns a você” e do “malhão
malhão”. A minha mãe percebeu que eu estava a apanhar música de
ouvido mandou-me para uma escola de música, fiz o 4° ano de piano no
conservatório, estive numa escola de dança, fui professora de dança.
Nessa fase, estava quase a terminar o liceu, comprei um jornal onde vi
um anúncio que dizia, “procuram-se jovens entre os 18 e os vinte e
quatro anos, se gosta de cantar responda, temos uma boa oportunidade
para si”. Respondi a esse anúncio, foi no final de 88, andavam a
fazer essas audições há dois meses e de um dia para o outro a minha
vida mudou completamente. O Carlos Cruz escolheu-me para substituir a
Dora numa comédia musical que se chamava “Enfim sós”, onde tive
oportunidade de contracenar com Eugênio Salvador, com Virgílio
Castelo, Henrique Viana, Luisa Barbosa e foi assim mais ou menos a história
da Cinderela, foi assim que tudo começou. Em seguida, fiz uma outra comédia
musical, cantei publicidade para a rádio e para a televisão, cantei
tudo e mais alguma coisa, desde batatas fritas até pensos higiénicos.
Mas foi muito bom porque cantar em estúdio é completamente diferente
de cantar ao vivo e é importante para um cantor ter a experiência de
gravar publicidade pois tem oportunidade de aprender a relacionar-se com
o microfone em estúdio que é muito mais sensível. Em 1991 tive o
convite para ir cantar para o Casino Estoril onde estive durante um ano.
Uma noite em que o Júlio Isidro foi assistir, ele pensava que eu era
inglesa, propôs-me de integrar o elenco de cantores residentes e
resistentes do “Regresso ao Passado”. Foi também nesse ano que o Zé
da Ponte, (não temos nada em comum, não somos da mesma família) foi a
pessoa que me fez a primeira audição, me telefonou a perguntar se eu
queria ir ao festival da canção. Aceitei mas disse que tinha de ser o
Fred a escrever o poema. Gostei da música e correu bem. Depois foi a
Eurovisão e quando voltei houve um interesse enorme, muitos jornalistas
presentes, lembro-me que não tinha material de produção nenhum, não
tinha editora e tive a minha primeira grande desilusão. As pessoas
queriam comprar o CD e não havia nenhuma editora em Portugal que
quisesse gravar. Só gravei a “Lusitana Paixão” um ano depois. Sem
querer estar armada em vítima, tenho tanta sorte como azar, é igual,
andam sempre de mãos dadas. Há pessoas que dizem que foi muito fácil,
que foi muito rápido mas não têm realmente um conhecimento profundo
do que foi esse tempo.
Então
foi nessa altura que a sua vida se transformou radicalmente ?
Não,
a minha vida transformou-se a partir do momento em que eu gravei o “Lágrimas”,
e não foi imediato porque quando saiu em Portugal, foi assim um
bocadinho à experiência. Nos primeiros dois meses quase não vendeu
pois as pessoas não sabiam que esse disco existia. De repente, acho que
foi aquela publicidade de “boca-a-boca”, o disco começou a vender,
fizeram-se então os “clipes” e depois foi uma bola de neve. Em
seguida foram uma serie de coincidências, bem que não sejam só
coincidências : um Senhor chamado Donald Cohen, que eu não conheço de
lado nenhum, comprou o disco em Portugal e levou-o para um amigo dele
que tem uma Rádio em Los Angeles que é apaixonado por “World
Music”. Ele gostou e começou a passar a “canção do mar” todas
as manhãs. O produtor da Paramount que andava à procura duma música
com um certo caracter para dar mais ênfase a umas cenas dum filme, terá
ouvido o disco na rádio e de repente recebo um fax da Paramount a
perguntarem-me se a música poderia integrar o filme e se o Richard Gere
podia ter o meu CD na mão numa das cenas. Com o Ennio Morricone, também
foi assim : uma amiga dele comprou o disco e levou-lho precisamente na
altura em que ele estava à procura duma cantora portuguesa para uma
banda sonora. A partir daí foi realmente uma bola de neve com altos e
baixos, com uma coisa sempre boa que são os concertos.
Não
acha que a predominância actual do inglês e do espanhol na música
obriga os artistas que querem ter uma projecção internacional, a
cantar nestas línguas ?
Penso
que não, é verdade que há ainda essa visão um bocado limitada por
parte das multinacionais, é uma realidade. Elas próprias têm essas
limitações e quando têm música diferente já não sabem onde a
inserir.
Assinei
com a Universal, eles propuseram-me em Janeiro de gravar 5 temas do
“Primeiro Canto” em espanhol, ao que eu respondi redondamente não.
Não se consegue imaginar flamengo cantado em português ! É ridículo,
não faz sentido ! Por isso, aceitei gravar dois temas em espanhol, num
outro CD, por causa do mercado sul-americano. Eu sempre tive uma paixão
enorme pelo tango e pela “Balada para un loco” que por acaso foi
composta no ano do meu nascimento em 69 ! Experimentámos gravar um tema
que está no “Primeiro canto” que é plausível ser cantado em
castelhano : o “Pátio dos amores” e a “Balada por un loco” .
Foi o que foi acordado, e assim se fez.
Claro
que isto ao mesmo tempo é uma espécie de jogo de xadrez, é preciso
muita perícia, muita paciência e sobretudo conseguir um equilíbrio, o
que não é nada fácil conseguir.
Mas
a Amália também teve de cantar em inglês nos Estados Unidos e também
gravou em francês…
Também
já cantei em inglês e noutras línguas, até em basco, em japonês ou
em catalão em determinados concertos mas isso são coisas diferentes…
Insistimos
– A Celine Dion começou a cantar em inglês sem perceber o que
cantava, para responder às exigências do produtor e do mercado…
Sim,
mas se pensarmos na quantidade de pessoas que falam português, (200
milhões), somos a terceira língua europeia mais falada no mundo,
depois do inglês e do espanhol. Há de facto um largo trabalho e muita
luta a travar, e essa eu quero travá-la. Nem que tenha de recomeçar a
zero a cada vez. Não é uma questão de ambição, é porque isto é
importante que aconteça para as gerações que hão de vir.
É
a sua cruz ?
Não…
Pronto, acaba por ser… (riu). Tem a ver com o meu caracter. Se não
tenho uma coisa porque lutar, desmotivo-me, nasci assim.
A
ONU, (Organização das Nações Unidas), convidou-a a cantar por ocasião
do 52° aniversário em Nova York e acedeu também ao convite a Madrid
da Amnisty Internacional . Sente-se próxima das Instituições de
beneficência ?
Eu
acredito numa coisa que o Zeca Afonso dizia numa música que se chama
“Utopia” : “gente igual por dentro, gente igual por fora”.
Infelizmente, vivemos num mundo cheio de sombras, não se sabe muito bem
onde está a verdade e onde está a mentira. De qualquer forma, dentro
da minha intuição e daquilo que eu posso fazer, numa perspectiva
positiva, eu estou presente. Não tenho qualquer partido político ou
religião. Acredito em Deus, em Jesus, numa energia muito forte e
positiva que existe e acredito nas pessoas, naquilo que as pessoas têm
de bom. Portanto estou sempre pronta a participar e faço muitos espectáculos
de beneficência.
Que
impressão teve no seu primeiro contacto com Ennio Morricone, esse
monstro da música ?
Foi
uma experiência muito gira. O estúdio ficava nas fundações de uma
igreja que se chamava Dulce Maria. Tinha comprado uma garrafa de vinho
do Porto para lhe dar. Quando entrei no estúdio, só vi as mãos dele e
a orquestra. Aproximei-me, ofereci-lhe a garrafa tentando explicar-lhe
que não a devia mexer. Ora ele só fala italiano e eu nessa altura não
falava nada, agora já falo qualquer coisa, acenou com a cabeça,
deitou-a muito devagarinho, como se fosse um bebé e cobriu-a com o
casaco. Foi assim uma coisa muito bonita e que eu nunca mais vou
esquecer. Ele mandou a melodia, só tocada em piano e pediu-me para
gravar em estúdio para ouvir como eu cantava e depois faria o arranjo.
Fiquei muito surpreendida porque não é normal existir esse tipo de
atenção, sobretudo duma pessoa daquele nível. Cheguei ao estúdio,
fechei os olhos, comecei a cantar num silêncio de tremer. Não costumo
soar, nem quando faço grandes esforços mas terminei a transpirar das
pontas do cabelo até aos dedos dos pés. De repente ouvi a voz do técnico
: “O.k.”. Saí do estúdio, ele abriu-me a porta, tinha os olhos
cheios de lágrimas e deu-me um beijo na testa. Ficou gravado à
primeira.
Segundo
Miguel Sousa Tavares, este seu novo álbum, “O primeiro Canto” é
uma viagem quase antropológica “às origens da música”. Qual é a
sua definição desse trabalho ?
Esse
trabalho partiu dum conceito : os quatros elementos - Fogo, Terra, Água
e Ar. Não há nada mais universal. Depois houve uma busca o que me
levou a fazer uma viagem por terras de Portugal, deu-me um prazer enorme
contactar com todas aquelas pessoas mas isto já numa fase avançada da
composição do CD. Quando estava a compor, já estava a pensar nos
arranjos, quando pensava nos arranjos e nas sonoridades pensava nos músicos.
Era explorar em todos os sentidos e multitudes possíveis que eu
conseguia, todas as significações dos quatro elementos, tendo como
base a essência da música portuguesa e trazendo essas reminiscências
doutras culturas que estão presentes. Nós temos uma identidade muito
própria mas impregnada de impressões digitais de outras culturas.
Historicamente temos influências da África, da Índia, da Ásia. Sendo
assim, existe uma matéria prima de tal maneira multifacetada que
existem numerosos caminhos que se podem percorrer sem trair essa mesma
essência.
Partindo
de um conceito e fez uma viagem através das terras para o realizar.
Mudou alguma coisa em relação ao projecto inicial, depois dessa viagem
?
O
que mudou foi que em seguida apeteceu-me gravar o CD só sobre folclore
e é uma coisa que eu hei de fazer se Deus quiser. Inspirou-me muito
essa viagem. Quando parti para essa pesquisa, eu já estava a pensar
integrar determinados elementos dessa pesquisa em composições, como
foi o caso dos Pauliteiros de Miranda ou os cantares de Castro Verde
porque tinha a necessidade de ter uma presença masculina muito ligada
à terra. Quando pensei nos quatro elementos, embora seja uma coisa
simples, também podia ser uma coisa tão linear que se tornasse
absurdo, então quis manter uma coisa simples e deixar como uma abertura
para que as pessoas possam ouvir e voltar a ouvir redescobrindo novas
coisas. Não é um álbum que se ouça a primeira vez e que se descubra
imediatamente. Vou parecer um bocado pretensiosa mas citando Fernando
Pessoa : “Primeiro estranha-se e depois emprenha-se”. Por outro
lado, também foi uma aventura para mim : poder exprimir as minhas
ideias, escrever as minhas intuições que vêm da comunicação, do
contacto com as pessoas e com o mundo que me rodeia, poder compor,
cantar, fazer parte da produção…
Definiu
um público alvo ?
Não,
eu não penso assim porque não existe criatividade sem liberdade. Se nós
vamos partir para um trabalho a pensar : não vou fazer isto porque
não agrada a determinado público, isso não resulta. A criatividade é
uma coisa que nos foi dada por alguma razão e se nos foi dada, temos de
a respeitar na sua essência e essa essência só é respeitada se
existir liberdade e se não estivermos condicionados com medos. Na
altura falei com o Carlos Cruz sobre este trabalho, ainda não tinha
nada gravado e ele disse-me : - Não faça isso, isso não dá
resultado. É disco de platina em Portugal desde Janeiro. Parecia que
naquela altura tudo estava contra. Quando gravei o CD, ainda não tinha
Editora, estava a resolver problemas com a Editora anterior, paguei eu
própria o CD mas fiz exactamente como queria.
Assinou
com a Universal que é uma das “Majors” mais importantes do mundo. Não
se vai sentir encurralada pelo sistema?
Encurralada,
nunca, isso é que era doce ! Estou a tentar lutar contra um sistema que
muita a gente me diz que é impossível. Eu acredito que é possível
lutar contra. Se não for duma forma há de ser de outra.
A.C.
Setembro
00
Entrevista
a Carlos Pereira
A
nova geração de lusodescendentes não aceita uma atitude passiva face
ao evoluir dos tempos. Querem agir, tomar partido na tomada das decisões.
Carlos
Pereira, director da Coordenação das Colectividades Portuguesas de
França (CCPF), luta contra os preconceitos, ainda existentes, face à
emigração. Natural de Vila Real, este jovem luso de 35 anos, vive em
França desde os 18.
Porquê
a necessidade de formar a Coordenação das Colectividades Portuguesas
de França (CCPF)?
A
Coordenação das Colectividades Portuguesas de França nem sempre se
chamou assim. Inicialmente tratava-se do Conselho das Comunidades
Portuguesas, com delegações em todos os países do mundo onde residiam
Portugueses. Tratava-se, pois, de um órgão consultivo junto do Governo
Português. Entretanto, os Conselheiros eleitos por França decidiram
constituir uma associação, à qual deram o mesmo nome (o CCPF). Quando
o então Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr. Correia
de Jesus decidiu acabar com o Conselho, ficou em França a associação
com o mesmo nome. Seguidamente decidimos mudar de nome, guardando no
entanto a mesma sigla : CCPF. A CCPF tem pois mais de 15 anos, mas a sua
vertente actual só existe desde Outubro de 1990. Actualmente, a CCPF é
um colectivo nacional de associações e de federações de Portugueses
em França, com mais de 170 colectividades aderentes. O apoio à rede
associativa é a principal razão de existência da CCPF.
É
verdade que os lusodescendentes se vão afastando cada vez mais da Pátria
Mãe ou, pelo contrário, há uma nova geração que quer saber,
conhecer e participar activamente na cultura portuguesa ?
Actualmente
verifica-se que uma parte importante dos jovens de origem portuguesa
residentes em França (e também em outros países da Europa) querem
reforçar os laços que os une a Portugal. Durante alguns anos houve um
corte, essencialmente devido grande à desfasagem (cultural, social e
economicamente) entre a cidade onde viviam e a aldeia donde eram originários
os pais... único ponto de Portugal que conheciam ! Actualmente,
consideram que Portugal é um “país normal”, vão passar férias a
Portugal, visitam o país de norte a sul, vão fazer estágios a
Portugal no quadro dos programas europeus de mobilidade juvenil, e o
sonho de qualquer um deles é trabalhar em França para uma empresa
portuguesa, ou em Portugal para uma empresa francesa.
Considera
que o interesse emergente pelas raízes é consequente ao culminar da
nova era digital, em que podemos percorrer o mundo em minutos, esbatendo
diferenças culturais e derrubando fronteiras ?
O
interesse por Portugal é também consequência da entrada de Portugal
na União Europeia, o facto de Portugal fazer parte do “pelotão da
frente” da moeda única, da Expo'98, do Prémio Nóbel da Literatura,
da mobilização à volta de Timor, da digressão mundial dos Madredeus,
da RTP internacional, dos sucessos da selecção nacional no último
Europeu de futebol, etc. Tudo isto junto, faz aumentar o interesse que
os jovens lusodescendentes têm por Portugal. A internet permite aproximá-los
mais e levá-los a dizer, sem complexos, que conhecem melhor Portugal do
que os seus próprios pais.
O
seu trabalho vai muito na direcção de “quebrar e fugir dos estereótipos
da emigração”. O que quer dizer com isso ?
Há
imagens estéreotipadas que dificilmente conseguimos apagar. Uma grande
parte da nossa acção vai nesse sentido. Os Portugueses residentes no
estrangeiro são muitas vezes associados a classes
socio-culturo-profissionais que já não correspondem à realidade. Como
se todos os emigrantes fossem uniformemente iguais. Ora, uma comunidade
de um milhão de pessoas (é o número de Portugueses residentes em França)
é forçosamente heterogénia. Muitos são pedreiros e mulheres a dias.
Mas outros são engenheiros e doutores. Ainda bem que há uns e outros,
mas existem os dois ! Têm, pois, de parar de nos etiquetar todos de
consumidores de música foleira. O Festival de Teatro Português que a
CCPF organiza anualmente em França veio mostrar que há também um público
português para o teatro, e isso surpreendeu muita gente...
É
através da motivação para o movimento associativo que a CCPF
trabalha. Qual a real importância do associativismo ?
França
tem a rede associativa portuguesa mais intensa. Existem actualmente mais
de mil associações de Portugueses !!! Inicialmente criadas para
recriar a “aldeia” e o “terreiro” deixados para trás, as
associações foram, pouco a pouco, evoluindo para novas vertentes,
nomeadamente a do ensino da língua portuguesa (que não era devidamente
assegurado pelos governos). Recentemente, as associações que se criam
têm mais uma tendência criativa, são viradas para as artes
(fotografia, vídeo, teatro, cinema,...). Mas continuam a existir
bastantes associações cujo objectivo principal é a organização do
bailarico de fim de semana, que têm o seu grupo de folclore (há
actualmente mais de 260 grupos de folclore portugueses em França) e a
terem as suas equipas de futebol (não estão contabilizadas, mas
fala-se em mais de 2000 equipas no activo).
A
luta é por uma população, lusa, activa em França ?
Durante
muitos anos, a Comunidade portuguesa esteve virada para si própria,
fazia acções para consumo próprio, passava despercebida. Eramos os
bons trabalhadores simpáticos... Hoje, queremos ser muito mais do que
isso. Queremos fazer acções com visibilidade, para nosso consumo, mas
também para mostrar à população que vive connosco. Queremos que
falem mais de nós... Por exemplo, a CCPF tem actualmente uma campanha
para sensibilizar os Portugueses a se inscreverem nos cadernos
eleitorais de forma a poderem votar nas próximas eleições municipais
previstas para 2001. É a primeira vez que os Portugueses vão poder
eleger o presidente da Câmara Municipal da cidade onde residem. Mas,
para isso, é necessário estar inscrito... o que não acontece! Os
Portugueses de França não têm uma formação política e não estão
a ser muito activos neste domínio. Ora, uma Comunidade que não vota,
também não existe...!
A
CCPF leva a cabo, anualmente, uma iniciativa que pretende reforçar a
confraternização entre a comunidade de falantes do português mais
jovem - o Encontro Europeu de Jovens Lusodescendentes - Qual a
finalidade ?
O
Encontro Europeu de Jovens Lusodescendentes enquadra-se num projecto
muito mais vasto. Regularmente, a CCPF organiza encontros regionais de
jovens, em várias cidades de França, para debater temas como “a
dupla identidade cultural” ou agora “a implicação dos jovens na
vida associativa”. Mas pensámos que seria mais interessante se comparássemos
com o que se passa nos outros países europeus. Como vivem os jovens
desses países, se têm os mesmos problemas. Foi assim que nasceu o
Encontro Europeu que se realiza anualmente. Para além disso, temos
agendado em França, acções que permitem comparar com o que pensam os
jovens de outras comunidades (senegaleses, turcos, caboverdianos, espanhóis,
tunisinos, marroquinos...). Ainda antes do fim do ano, vamos organizar
um encontro entre jovens lusodescendentes e a Ministra francesa da
Juventude e Desportos. Como pode reparar, a nossa acção é muito mais
alargada.
Este
ano, o encontro teve lugar em Sintra, qual o balanço final ?
O
Encontro deste ano foi particularmente interessante porque optámos por
ter menos jovens do que habitualmente e foi um Encontro com uma vertente
formativa bastante importante. A maior parte dos jovens presentes já
está integrada nos corpos gerentes das associações onde militam, mas
todos reconhecem que não tem sido tarefa fácil. Não chega motivar os
mais novos para tomarem postos de responsabilidades nas direcções, é
também necessário que se ouçam de facto as suas reivindicações.
Ora, isto não acontece sempre. Vários jovens queixam--se de entrar
para as direcções porque sabem escrever na língua do país de residência
e porque têm um computador em casa. Ora, este critério começa a não
interessar verdadeiramente os jovens que se querem agentes de
desenvolvimento activo da associação, participando nas decisões
tomadas. Apesar de tudo isto, estamos optimistas quanto ao futuro, mesmo
sabendo que a transmissão de poderes não será fácil.
A
base do programa era a Formação, aliada ao intercâmbio entre
culturas, falado em português. Como foi aceite essa seriedade na ordem
de trabalhos ?
Esta
vertente foi-nos solicitada pelos jovens que participaram nos últimos
encontros (Aveiro em 1998 e Olhão em 1999). Os jovens necessitam deste
tipo de formação, ganhar motivações, saber como se montam projectos,
como se comunica. O nosso balanço é bastante positivo. Pensamos que
eles gostaram.
Depois
de dada a formação, os utensílios de trabalho, contactos, ideias e
conselhos, o que sentiu que lhes ficou ?
Quisemos
que os jovens saíssem de Sintra com contactos de organismos que os
podem ajudar e isso parece ter acontecido. Também conseguimos que os
jovens saíssem motivados e cheios de projectos. Isso é bom sinal. Os
encontros que tiveram com associações juvenis portuguesas, com
instituições, para além do próprio contacto entre eles, fez com que
nascessem ideias novas e, sobretudo, contactos inter-comunidades
portuguesas.
A
resposta e a forma de encarar o encontro, por parte dos jovens
participantes, correspondeu às espectativas ?
Pensávamos
que os participantes iam achar o programa do Encontro demasiado denso.
De facto, era denso... mas eles participaram sempre e mostraram sede de
querer saber sempre mais. Esta atitude deles reconforta a nossa maneira
de ver as coisas : o Encontro foi para trabalhar, depois cada um
continua de férias !
Paralelamente
ao Encontro Europeu de Jovens Lusodescendentes, a CCPF procede a outro género
de iniciativas, quer falar um pouco da agenda da CCPF...
Ainda
antes do fim do ano, vamos organizar a acção mais mediatizada da CCPF
: o Festival de Teatro Português em França que está na nona edição
e que já trouxe a França muitas das melhores companhias de teatro de
Portugal. Durante um mês, vamos organizar mais de cinquenta espectáculos
em 25 cidades diferentes, de Paris a Estrasburgo, passando por Dijon,
Canes, Bordéus, Pau... Outro dos eventos mais conhecidos da CCPF são
os Encontros Musicais Lusófonos, um festival de músicas portuguesas
que se inscreve na multiculturalidade e diversidade de influências das
sonoridades portuguesas. Já em princípios de Setembro vamos
co-organizar em Girona (Espanha) um Fórum sobre Acções de Mediação
Escolar, no quadro do programa europeu com parceiros de Espanha, França,
Bélgica e Alemanha. Para além disso, fazemos acções de formação de
dirigentes associativos, gerimos exposições e digressões artísticas,
temos um departamento de comunicação, etc. A CCPF tem hoje uma equipa
de nove profissionais da animação a apoiar as associações aderentes
e a realizar as nossas próprias actividades.
O
que acha que deveria ser feito, por parte do Estado Português, em prol
das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo ? Quais as
necessidades mais vigentes ?
A
maior necessidade é sem dúvida o apoio ao movimento associativo
português no estrangeiro. Os cinquenta mil contos que o Governo destina
anualmente para apoiar essas associações é ridículo. Estamos
conscientes de que as associações devem ser apoiadas pelos países
onde estão sediadas, mas também queremos afirmar que Portugal tem o
dever de apoiar estas associações que se batem para manter bem vivas a
língua e a cultura de Portugal. Também consideramos que faltam
incentivos para que as diferentes comunidades portuguesas se conheçam.
É importante que os Portugueses de França conheçam os Portugueses da
Bélgica, saber o que eles fazem, quais as suas acções, como estão
organizados. Quando a “malha” dos Portugueses do estrangeiro estiver
de facto a funcionar, Portugal só pode ganhar com isso. Estivemos
durante algum tempo esperançados que a RTP internacional fosse servir
precisamente para esse diálogo entre as Comunidades portuguesas. Enganámo-nos.
Porquê
uma certa “aversão” à palavra “emigrante” ?
Recentemente
tem havido uma tentativa de “eliminar” a palavra “emigrante” e
de a “substituir” por “Portugueses residentes no estrangeiro”.
Pessoalmente, continuo a ser emigrante - saí dum país para viver e
trabalhar num outro - e não creio que a “imagem” e os
“preconceitos” mudem só porque já não nos chamam de
“emigrantes” !
No
seu entender, qual o papel da emigração na troca e transmissão de
culturas e saberes ?
Os
Portugueses terão uma função importantíssima, mesmo fundamental, no
intercâmbio cultural, a partir do momento em que decidirem que vão
deixar de falar entre eles sobre Cultura portuguesa, mas que vão passar
a falar para os outros da Cultura portuguesa. Por vezes, estamos a
promover mais a cultura e a língua portuguesa, se falarmos em francês...
parece paradoxal, mas não é. É necessário que os Portugueses sejam
efectivamente (enfim) os reais Embaixadores da Cultura portuguesa no
estrangeiro. Não só a cultura popular. Não só para que os nossos
filhos conheçam a nossa cultura, mas também para que os filhos dos
nossos vizinhos nos conheçam melhor.
Cláudia Rodrigues,
redacção do Terra Natal
Junho
00
Entrevista
a Vasco Jorge
Em
Outubro de 1998, a Vida Lusa noticiou a abertura de um Bar Dancing,
O
Cantinho dos Artistas, na Praia da Rocha em Portimão. A notícia
mereceu destaque já que o criador deste projecto foi o conhecido cantor
de música portuguesa, Vasco Jorge. A Vida Lusa quis saber o que era
feito dele.
Vida
Lusa : - Olá Vasco Jorge, depois de teres vivido quase 20 anos em França
e sempre a viajar de um lado para o outro, como é que vives agora
debaixo do sol do nosso país ?
Vasco
Jorge : - Eu costumava dizer que vivia nos aeroportos ou na estrada,
cheguei mesmo a fazer uma canção chamada “Eu sou um vagabundo”.
V.L.
: - Que aliás teve muito sucesso !
V.J.
: - Teve sim. Continua a ser uma canção ouvida em Portugal. Mas penso
que o “vagabundo”, por mais voltas que dê acaba sempre por voltar
ao ponto de partida. O sol do nosso país foi sempre o meu objectivo. Eu
quando fui para França não fui para ficar, fui sim, para cantar.
Mas... há sempre um mas, acabei por ir ficando porque tinha sempre
trabalho e depois surgiu o amor na minha vida e a França começou a ter
outro encanto. Foram 18 anos com alegrias e tristezas mas a ideia de me
instalar definitivamente em Portugal, sempre foi uma ideia fixa. Assim
que surgiu a oportunidade não hesitei. Estou bem.
V.L.
: - Mas tu nasceste e foste criado em Lisboa, porquê o Algarve ?
V.J.
: - Primeiro porque necessito de ver o mar, (risos) creio que o meu pai
era marinheiro antes de conhecer a minha mãe. Ainda pensei na Costa da
Caparica, que foi sempre o meu local de “estacionamento” mas só de
pensar nos engarrafamentos da ponte e no stress das grandes cidades,
perdi logo a vontade. Além disso, durante muitos anos fui um
“chou-chou” aqui em Portimão, todos os anos era convidado para
participar nos eventos que aqui se faziam, senti muito carinho desta
gente criei amizades, por isso não estou em terra estranha e o mais
fantástico é que se quiser ir à praia vou a pé e não há
engarrafamentos.
V.L.
: - O Cantinho dos Artistas já festejou o seu 1° aniversário. Que
balanço fazes quando está prestes a festejar o 2° ?
V.J.
: - O balanço é positivo. O primeiro ano foi um pouco difícil. Era
preciso dar a conhecer a casa, adaptar-se à maneira de viver, estar e
ser das pessoas aqui etc. Mas quando festejamos o 1° aniversário já
as coisas tinham entrado nos eixos. Foi uma noite emocionante porque
senti que tinha ganho a batalha. A casa estava super lotada, toda a
gente quis festejar connosco. Oferecemos um bolo gigante e a festa foi
marcada com a presença do padrinho, o meu amigo e colega José Malhoa,
que aliás sempre que possível não deixa de marcar presença, a
madrinha é a Ana Malhoa mas não pode estar presente pois vinha de
nascer a pequena Índia Malhoa.
V.L.
: - O teu projecto era esse mesmo, um Cantinho de Artistas. Os teus
colegas têm aderido ao projecto ?
V.J.
: - Sim sem dúvida. Já se fizeram grandes noitadas naquele Cantinho.
Tem por ali passado grandes nomes da música portuguesa e não só,
curiosamente sempre que um artista estrangeiro compreende o nome da casa
vem sempre apresentar-se e já tive mesmo o privilégio de cantar em duo
com uma cantora inglesa, muito em voga no seu país, que é a Laureen.
Por ali têm passado cantores de música ligeira, fadistas, humoristas,
pintores, músicos, nomes conhecidos da radio e televisão etc. todos
com mais ou menos valor, mas o ARTISTA que têm estado sempre presente e
têm contribuído para o sucesso desta casa têm sido sem dúvida alguma
o público, todos os clientes que nos visitam e nos felicitam pelo bom
ambiente que temos.
V.L.
: - Falando de artistas, o teu último álbum data de 1997. Para quando
o próximo ?
V.J.
: - Boa pergunta ! É caso para dizer : como o tempo passa ! Bem,
acontece que tenho um álbum preparadíssimo a sair desde 97. Ainda não
tive disponibilidade, porque sair o álbum para o mercado é fácil,
ninguém precisa de mim. A editora trata do assunto, mas o meu contrato
implica também grande disponibilidade para promoção e aí é que está
o problema. Quando tenho um projecto entrego-me de alma e coração e o
Cantinho dos Artistas têm tragado o meu tempo por inteiro. Mas agora
que as coisas estão sobre rodas, muito em breve poderei dedicar-me a
esse álbum que já tem uma história para contar.
V.L.
: - Mas tempo para cantar encontras sempre, e tivemos mesmo o privilégio
de te ouvir cantar em inglês, espanhol, italiano etc.
V.J.
: - E isso dá-me um prazer enorme. Quando gravo os meus discos, tenho
que ter canções inéditas, não vou gravar sucessos internacionais que
toda a gente conhece, e nem sempre surge a oportunidade de cantar esses
sucessos nos espectáculos que faço porque as pessoas querem ouvir as
minhas canções e não aquelas que conhecem de cor. No meu bar é
diferente, até porque se cantasse as minhas canções todos os dias
apesar de ter uma grande colecção de álbuns gravados as pessoas
certamente fartar-se-iam, da minha voz, (modéstia à parte), não se
fartam, pois todos os dias me pedem para cantar.
V.L.
: - Notamos que o Fado também marca presença no Cantinho. Não é por
acaso pois não ?
V.J.
: - Claro ! O contrário seria como impedir um ex. futebolista de ver
futebol. O Fado foi o meu primeiro amor. Gravei o meu primeiro disco com
17 anos e sempre pensei acabar a minha carreira artística tal como
comecei, com um álbum de Fado.
O
facto de ter uma noite de fados no Cantinho, fazia parte do projecto e
espero poder levá-lo avante durante muito tempo. Todas as quartas
feiras fazemos um apontamento com viola e guitarra, temos sempre um
fadista convidado, mas os amadores também.
V.L.
: - Mas às quartas feiras apesar de haver Fado, também se pode dançar
?
V.J.
: - Sim, O Cantinho é um Bar Dancing com música ao vivo. A ideia
surgiu precisamente porque eu não sou grande adepto (agora) de
discotecas e gosto muito de dançar. Temos uma selecção musical
variada onde não faltam o tango, a valsa, o passo doble etc. Tentamos
sempre ter um músico diferente e se possível aqueles que os clientes
nos pedem. Às quartas feiras estão entregues, com grande orgulho meu,
ao meu filho Anthony Michael que está a seguir os meus passos na música.
V.L.
: - Vasco Jorge, saudades de França ?
V.J.
: - Muitas. Deixei em França grandes amigos, sempre dei muito valor à
amizade e graças a Deus foi coisa que nunca me faltou. Mas de vez em
quando tenho uma surpresa, aparece sempre um ou outro que vem de férias
e não deixa de vir ao Cantinho fazer uma visita. É sempre um prazer
quando vejo entrar pela aquela porta alguém que conheci em França ou
até noutro país. Já tem acontecido, simples anónimos que têm
seguido a minha carreira no estrangeiro, saberem que eu estou ali e
entrarem para dar uma palavrinha e pedir um autografo. Isso é para mim
um reconhecimento muito grande dos emigrantes para quem cantei tantos
anos.
V.L.
: - Vasco Jorge para terminar esta conversa queres deixar uma mensagem
para França ?
V.J.
: - Para os meus amigos um grande abração e espero vê-los em breve.
Ficam também aqui os meus votos sinceros para todos aqueles que desejam
regressar a Portugal o possam fazer e se possível nas melhores condições.
O
nosso país apesar de ser um país burocrático está em plena evolução
sócio económica. A nível da saúde existem já bons seguros que nos
permitem de ter uma assistência correcta. E a boa notícia : desde o
dia 1 de Maio 2000 foram aprovadas várias medidas sobre actos notariais
que facilitam espantosamente a nossa vida, sobretudo quem vem do
estrangeiro e têm montes de papeladas a tratar.
As
férias estão à porta, aqui fica a sugestão da Vida Lusa, passe pela
Praia da Rocha em Portimão e vá divertir-se no Cantinho dos Artistas.
Maio
00
Entrevista
a Casimiro Silva
Casimiro
Silva, é um dos fadistas e músicos mais conhecidos e reputados em França.
Só agora foi possível trocar impressões com ele sobre a sua vida de
fadista e sobre o fado em França.
V.L.
: - Casimiro, há quanto tempo estás em França ?
C.S.
: - Cheguei em Dezembro de 78, portanto há cerca de 22 anos.
V.L.
: - Como começaste a tua carreira ?
C.S.
: - Comecei em 67 no restaurante A Tipóia no Bairro Alto que ficava nas
traseiras do Solar da Hermínia por onde passei posteriormente.
V.L.
: - Mas não aterraste assim numa casa dessas por acaso ?
C.S.
: - Estudava no Passos Manuel, fazia um curso nocturno que se chamava na
altura Curso Geral de Comercio, as aulas terminavam cerca das 11, meia
noite, ou seja precisamente no momento em que começavam as noites de
fado. Eu habitava no bairro do Charquinho nas Portas de Benfica e um dia
fui convidado pelos pais de um amigo de escola, como andava sempre a
cantarolar lá em casa deles, convenceram-me a ir jantar com eles a uma
casa de fados que era “A Tipóia” no Bairro Alto. Foi assim a minha
primeira experiência numa casa típica de fado. Antes só tinha cantado
naquelas casas ou associações que davam fado vadio onde estava-mos à
espera da nossa vez com um papelinho na mão para mostrar-mos o que valíamos.
A Tipóia convidou-me em seguida a ficar como artista na casa, por
sugestão do celebre guitarrista Casimiro Ramos e do fadista Manuel de
Almeida. Portanto acabei logo com a escola pois não podia conciliar as
duas coisas e foi assim que enverdei no fado. Em seguida fui contratado
pelo marido da Hermínia Silva para cantar no Solar que me pagava nessa
altura mais oitenta escudos por noite.
V.L.
: - Mas tu és muito conhecido como violista. Já tocavas viola nessa
altura ou só cantavas ?
C.S.
: - Eu tinha 17 anos e era muito difícil nos tempos da ditadura, um
jovem menor ter carteira profissional o que era indispensável para
formular um contrato. Ora a minha primeira ambição era obter esse
famoso documento e a Hermínia Silva, o marido e o Manuel de Almeida
trataram dos trâmites necessários para o exame que era muito rigoroso.
Tratava-se de interpretar correctamente em termos de dicção, sentido
melódico, compasso musical sem falhas e, facilidade de colocação de
letras conhecidas noutras músicas. Assim que obtive a carteira de
interprete comecei a dedicar--me à viola nos tempos livres e os próprios
guitarristas das casas, sabendo da minha vontade de tocar viola,
deixavam-me praticar durante os intervalos e corrigiam-me ao mesmo
tempo. Foi assim que aprendi. Cinco anos mais tarde, obtive também a
carteira profissional de músico.
V.L.
: - O facto de trabalhares numa casa de uma das fadistas mais famosas de
Portugal, deve-te ter permitido de conviver com a fina flor do fado ?
Quem são ou quem foram os artistas portugueses que mais te marcaram ou
com os quais de identificas ?
C.S.
: - Indiscutivelmente, foi o Fernando Farinha, a Dona Maria Teresa de
Noronha, Fernando Maurício e Beatriz da Conceição, entre outros para
não alongar. Lamento todavia não ter tido a ocasião de cantar ou
acompanhar a nossa divina Amália Rodrigues.
V.L.
: - Porque vieste para França ?
C.S.
: - Nessa altura trabalhava numa casa do Porto com a Beatriz da Conceição
e o guitarrista Arménio de Melo, fui contratado para uma conhecida casa
de Versailles para acompanhar Carlos Macedo e Filipe Duarte, com um
contrato de 30 dias. A facilidade de tocar e cantar levou a que o patrão
da casa, o Agostinho, me convidasse a ficar. A morte dos meus pais
levou-me a esquecer um bocado o nosso país e por cá fiquei. Inaugurei
algumas casas de Paris, entre as quais o Petit Cardoso, o Expresso, o
Avril au Portugal etc…
V.L.
: - Sabemos que és um dos fadistas mais solicitados pelos empresários,
como vai o fado em França ?
C.S.
: - Conforme as pessoas o permitem ; faço minhas as palavras do meu
colega Joaquim Campos que a Vida Lusa entrevistou recentemente e cuja
analise coincide com a minha. Há uma mão cheia de praticantes, entre
guitarristas, violas e interpretes e também há quem procure aperfeiçoar-se
com mais ou menos vontade. Estes últimos têm facilidades que no meu
tempo não existiam assim como, a diversidade da discografia. Nós tínhamos
de recorrer ao contacto directo e não havia outra hipótese.
V.L.
: - Nas diversas categorias que compõem o fado em França : guitarras,
violas ou interpretes qual é a que melhor está representada em França
?
C.S.
: - Para mim são os violistas.
V.L.
: - São teus concorrentes, não ?
C.S.
: - Eu digo o que penso, também acho que nos outros sectores existe
qualidade, embora em quantidade mais reduzida. Acrescento umas palavras
de apreço para Manuel Corgas, guitarrista da autêntica escola de fado,
o nosso querido José Machado, viola, interprete e o homem que me
acompanha mais assiduamente, António de Almeida.
V.L.
: - Algum espectáculo recente que na tua opinião mereça relevo ?
C.S.
: - Sim, o da minha amiga Maria José em Bry-sur-Marne.
V.L.
: - Já que frequentas muito os restaurantes, como vai a cozinha
portuguesa em França ?
C.S.
: - Há muito boa qualidade, não gostaria de citar nomes mas gosto
muito de comer na Belle Epoque (da São) onde aliás trabalho e no Beirão
do Alfredo, a tal cozinha que faz a diferença. Há também restaurantes
que tentam implementar algumas das nossas tradições como por exemplo o
restaurante A Lareira em Montreuil que leva a efeito no domingo dia 21
de Maio, um convívio fadista. Trata-se de uma sardinhada com pimentos,
frango na brasa, vinho à descrição e claro o velho fado.
V.L.
: - Os teus detractores dizem que a tua excelente interpretação de
“Um copo mais um copo” é uma autobiografia.
C.S.
: - É verdade porque eu não bebo às escondidas mas já estou a
reduzir muito…
António
Cardoso
Abril
00
Entrevista
a Joaquim Campos
Informados
que Joaquim Campos estava a preparar um concurso de fado no Palácio das
Guitarras, marcámos encontro neste restaurante da simpática
Mariazinha, para entrevistar o conhecido fadista.
V.L.
: - Temos o hábito de o ver por terras de França desde há uns anos.
Ausenta-se por largos períodos mas volta sempre…
Joaquim
Campos : - Sim, vim com o Toni de Matos em 1985, nessa altura havia
alguns restaurantes onde havia fado em permanência tais como o Abril em
Portugal, o Petit Cardoso ou o Saudade em Versalhes para não falar em
mais. Existia um “mercado” satisfatório, chame-mos-lhe assim, cá
andei durante alguns anos e em seguida voltei para Portugal.
V.L.
: - Dizem que nessa altura o fado estava na moda em Paris e que era tudo
mais fácil…
J.C.
: - Não, o que havia era talvez mais seriedade no fado que se fazia, o
fado é sempre o mesmo. Desde que eu me conheço, o fado é sempre
igual, as pessoas é que vão alterando as situações do fado.
Costuma-se dizer, atrás virá, quem pior fará. Se calhar nas andanças
do fado, é assim que se está a passar.
V.L.
: - Que fez quando regressou a Portugal ?
J.C.
: - Abri um restaurante em Lisboa, correu realmente bem mas devo
dizer-lhe o seguinte : eu sou um emigrante de mala na mão, emigrei
pela primeira vez em 1961 e não deixo de emigrar porque se amanhã as
coisas virarem, eu tanto estou na França como no Estados Unidos como
noutro país qualquer. Onde me tratam bem é onde eu estou, tenho a veia
de emigrante, sempre de mala na mão para ir para fora. Portugal para
mim tem sido um bocado padrasto, digo bem padrasto, para uns as coisas são
fáceis e para outros muito difíceis. Talvez porque aqueles que têm na
ponta da língua a verdade e a sinceridade, as coisas se tornem mais difíceis
e é provavelmente o meu caso.
V.L.
: - Considera-se um forasteiro permanente que de tempos em tempos volta
a casa ?
J.C.
: - Considero-me um homem que vai a todas, como dizia o Chalana. Desde
que haja fado, eu estou lá ; aqui, na Grécia, na Turquia, seja a
onde for.
V.L.
: - Quais são as suas intenções e perspectivas ao voltar a França ?
J.C.
: - Voltar a França tem a ver com o facto de eu ter deixado aqui um
mercado satisfatório. Tenho a certeza absoluta que aqui o fado não é
mais nem é menos que noutro país qualquer. O que era preciso realmente
era dividir o “trigo do joio” e não meter as pessoas todas no mesmo
saco, saber distinguir aquelas que têm realmente valor. Não é aquela
que tem mais dinheiro que tem mais valor, o dinheiro para mim não é
inteligência. Penso por vezes que aqui, o mercado do fado está a ficar
saturado, com uma qualidade que talvez não seja a melhor, na medida em
que todos os restaurantes querem fazer fado, uns anunciam fado e não há
e outros quando a gente lá chega, falta-lhes a viola, ou falta a
guitarra ou ainda, o fadista é daqueles que de fado não têm muito mas
desenrasca a situação. O que interessa por vezes é pagar pouco e daí
a falta de qualidade.
V.L.
: - Lemos um artigo num jornal luso-americano sobre o sucesso da sua
recente digressão aos Estados Unidos com o Nuno de Aguiar. Temos o hábito
de ouvir em França inúmeras queixas dos protagonistas do fado :
os restaurantes lamentam a falta de artistas de qualidade e os fadistas
queixam-se da falta de profissionalismo dos empresários da restauração.
Como se passam estas coisas nos US ?
J.C.
: - Efectivamente fui encontrar nos Estados Unidos uma casa que dá fado
há 23 anos, fui encontrar um leque de artistas que cantam muitíssimo
bem, fui encontrar uma rádio, uma das rádios portuguesas que emite 24
horas sobre 24 e devo dizer-lhe que durante o tempo que lá estive, não
ouvi uma única vez uma música que não fosse portuguesa ou brasileira,
fui encontrar duas televisões a emitir em português. Sendo nós aqui
em França, o tal milhão de habitantes, não temos uma televisão, há
uma rádio só. O que me apraz dizer-lhe é o seguinte :
os
espectáculos que nós fizemos estavam repletos, as pessoas aderem,
tinham um ar feliz e durante o mês que lá estive vi pelo menos 7
espectáculos entre os quais o do Tony Carreira com grande êxito também
e os órgãos de comunicação fazem sistematicamente a promoção dos
artistas em digressão. Considero realmente os Estados Unidos da América
uma casa muito grande mas muito bem arrumada.
V.L.
: - Os comportamentos também têm a ver com as distâncias e em França
não há tanto saudosismo nem tanta expectativa em relação ao que
chega de Portugal…
J.C.
: - Estou de acordo com isso mas como sabe a televisão mata a saudade,
a televisão que chega aos Estados Unidos chega a Paris e eles estão tão
bem informados como se está aqui. O problema em França é que nada se
faz de novo, tudo se faz copiando outros que já fizeram qualquer coisa.
Mesmo em termos de discografia, se quiser fazer alguma coisa terá de ir
a Portugal, se quiser falar com poetas tem de ir a Portugal, falar com músicos
que fazem músicas para o fado, a mesma coisa, isso impede por vezes
aqueles que têm qualidade e há gente com qualidade, de se deslocar a
Portugal com a frequência que seria necessária para ouvir a voz, ouvir
os poemas, ter contactos com as pessoas. Tudo isto misturado faz a
dificuldade.
V.L.
: - Parece-nos que existe uma desproporção entre a oferta de fado
pelas casas e o que o público pede e que esta adequação não se
consegue estabelecer da melhor maneira. Qual é a sua opinião ?
J.C.
: - A primeira etapa é a seguinte : todos os empresários, chamo
empresários aos restauradores, que querem praticar o fado nas suas
casas, não façam só uma semana ou duas, porque têm que dar mais
tempo para se conseguir fazer fado a serio num restaurante. Por outro
lado, também é de bom tom, não pensar que o fado vai tapar todas as
mazelas que possa ter um restaurante. O fado é um complemento do prato
que é servido e que terá de ser servido com qualidade para que o
cliente esteja contente e alegre para que possa receber depois o fado de
bom tom e aplaudi-lo com o merecimento que ele tem. Agora se vamos
confundir as coisas e vamos por fado no prato, estamos a aniquilar o
fado e a aniquilar o restaurante. Eu não duvido da qualidade da
restauração em França, em alguns lados é extraordinária e em
maioria, os restaurantes portugueses estão cheios ao fim de semana,
penso é que no dia em que houver fado, seja fado a serio. É preciso é
que haja respeito por quem canta e que tenhamos a certeza que o dinheiro
que se paga pelo prato naquele dia no restaurante seja compensador e que
as pessoas, primeiro, estejam satisfeitas com aquilo que comem e depois
satisfeitas com o espectáculo que possa aparecer. E eu gostaria
realmente de ver espectáculos de qualidade e que tratassem o fado da
forma que ele merece. A minha máxima é esta : se o Fado fosse a
Country, se fosse americano, tenho a certeza que estaria no top.
V.L.
: - Não acha que o fado estagnou e não soube evoluir da mesma forma
que os portugueses em geral, não conseguindo nomeadamente adaptar-se às
novas gerações ?
J.C.
: - O fado tem uns quilómetros grandes de dimensão mas também não são
tão grandes como isso. O fado são quadras, quintilhas, sextilhas, décimas
e decassílabos, isto é o que nós podemos chamar fado. Mas o fado
musicado ou o fado canção não tem princípio nem fim, é eterno, é
comprido porque tudo o que se tocar com uma guitarra, logicamente cheira
a fado. Se um tango é tocado por uma guitarra portuguesa, deixa de ser
tango para ser fado. As pessoas evoluíram realmente, intelectualmente,
financeiramente mas a razão da vida é sempre a mesma porque vai haver
o desgosto, vai haver a saudade, a desgraça e tudo isto é fado. Quer
queiramos quer não, isso toca na sensibilidade daquele que nasceu
português. Agora, dentro daquele fado que falei, temos centenas de músicas,
dentro de uma quadra, há vários fados de quadras, dentro de uma
quintilha, há vários fados de quintilhas, ora isso multiplicado dá
umas boas centenas de fados. O que acontece é o seguinte, as pessoas são
pouco criadoras, então ouvem alguém cantar e vão cantar o mesmo fado
na mesma música e aí vai matar o fado. Até certo ponto estou de
acordo consigo, isto é assim : se eu aprender hoje um fado cantado
por outra pessoa, numa sextilha, numa música e se eu o cantar na
mesma música, não vou fugir muito ao que a pessoa fez mas se adaptar
essa poesia noutra música já será diferente. Dou-lhe como exemplo o
“Povo que lavas no rio” que toda a gente canta no Fado Vitória.
Porque é que não se poderá cantar numa outra música ? Portanto, foi
um recalcamento musical sistemático de abuso com as cantigas de outros
durante anos e anos que matou o fado. É preciso que as pessoas tenham
mais trabalho na escolha do repertório, nas músicas e que sejam
inovadoras, que não bebam da mesma fonte de onde os outros bebem. Todos
nós começamos pelo peito da mãe mas depois temos de ir à vida.
V.L.
: - Para terminar fale-nos dos seus projectos...
J.C.
: - Olhe desde que vim para o fado tentei sempre fazer algo diferente
para fugir àquela monotonia de que falou. Vou trazer aos palcos das
nossas associações de França, uma vez que nos restaurantes é
praticamente impossível, as culturas que alguns portugueses e mais
exactamente os “alfacinhas” (lisboetas), não conheceram : são
os Pregões de Lisboa. Como sabe, o grupo que eu trabalho é o “Tudo
isto é Fado” onde vou incluir os Pregões de Lisboa. Há pouco
disse-me que viu duas varinas em Alfama, baterem-se cada uma com seu
peixe espada na mão. É verdade porque a varina de Lisboa era uma
mulher magoada pela má sorte, por ter de ir à Ribeira carregar com 20,
30 kg e andando uns bons km em Lisboa para ganhar a vida, o que não era
nada fácil. Era uma mulher que tinha de dar luta de língua a tudo o
que lhe aparecia pela frente. Então ninguém se metia com a varina de
Lisboa porque ela tinha troco para dar e vender. Portanto trago a varina
de Lisboa a este espectáculo, trago também o Ardina, (vendedor
ambulante de jornais), trago o “ferro velho” que era uma figura típica,
um homem já idóneo com um chapéu meio amarrotado na cabeça com um
cestinho, comprando garrafas, trapos, vidro ossos e metais, trago o
cauteleiro que era uma figura típica de Lisboa de Segunda a
Sexta-feira, o amolador, que sendo oriundo da Galiza, veio para Portugal
muito cedo e tornou-se uma figura de Lisboa com a sua boina e a sua
gaita de beiços, calça de bombazina e bota de borracha para combater o
frio, trago o “petrolino” que eram os homens que vendiam o petróleo,
o carvão, a benzina, velas etc... Depois trago a “mulher da fava
rica” que era a mulher que se encontrava às 4 ou 5 da manhã com uma
panela de favas quentes que eram uma delícia e à tarde temos a mulher
dos “figos da capa rota” que era um figo de época que deve o nome
ao facto do seu invólucro por fora abrir greta e outros mais que Lisboa
tem ou tinha. Portanto é isto, “Tudo isto é fado” com Nuno de
Aguiar, Cinda Castelo e Joaquim Campos a cantar, Flaviano Ramos na viola
e Filipe de Sousa na guitarra que vamos apresentar às nossas associações
a partir do mês de Maio.
Março
00
Entrevista
a Mané Santos
Direitos
de Intérpretes... um Escândalo
Mané,
tive a agradável surpresa de escutar um disco chamado Planete Fado que
inclui vários artistas sobejamente conhecidos, tais como a Amália, o
Rodrigo o Carlos Zel etc. e constatei que incluía também dois fados
interpretados por ti, um deles, Terra Lavrada, é aliás o primeiro do
Álbum. Fiquei com a ideia que eram gravações muito antigas. Queres
contar-nos a história desta compilação ?
M.S.
: - Devo dizer-te que este
álbum é também uma surpresa para mim. De facto esta gravação, é
uma história simples. Alguém escreveu-me este lindíssimo poema, a
Terra Lavrada em 1969 ou 1970 e foi gravado entre 1971 e 73 numa casa
que se chamava o Arreda em Cascais, que foi posteriormente a casa do
Rodrigo, o fadista que toda a gente conhece. Portanto cantei ao vivo
essa cantiga que eu cantava frequentemente, até antes de me tornar
profissional e é com grande surpresa que descubro essa cantiga agora
neste álbum.
V.L.
: - Isto parece-me um assunto grave… Queres dizer que não assinaste
nenhum contrato com uma editora para a difusão deste trabalho ?
M.S.
: - Absolutamente nada, tínhamos consciência que se estava a gravar,
havia outros artistas nessa noite, no entanto, nunca ninguém me abordou
para me propor o que quer que seja. Nós éramos amadores, com excepção
do Rodrigo e do Carlos Zel, íamos lá tomar um copo e cantava-mos.
Soubemos que tinham saído várias edições em Portugal, o Rodrigo,
quanto tomou conta da casa, fez também uma nova capa sem qualquer
autorização dos interpretes, mas como era nosso colega, não quisemos
criar problemas. Agora ao fim de tantos anos, mesmo se é com agrado que
vejo dois títulos interpretados por mim neste disco distribuído na
Fnac ou na Virgin, não deixa de me admirar que tais coisas possam ser
feitas sem qualquer autorização. Penso que este género de coisas não
deveria acontecer.
V.L.
: - Isto é realmente estranho, contactaremos obviamente a SPA e a
SACEM, (sociedades dos autores compositores em Portugal e em França),
para obter esclarecimentos sobre este assunto, no entanto não nos
parece que seja necessário ser especialista de direito, para concluir
que uma editora não pode publicar e distribuir qualquer obra que seja
sem a autorização escrita dos autores.
M.S.
: - Podes verificar que as minhas interpretações foram gravadas ao
vivo, pois ouvem-se distintamente os aplausos, o que não é o caso da
maior parte dos outros títulos que fazem parte desta compilação. Tive
um só contrato com uma editora em Portugal que não tinha nada a ver
com este trabalho e que além disso não teve seguimento pois abriram
falência.
V.L.
: - Não queremos de maneira nenhuma duvidar das tuas afirmações mas
este assunto pode ter consequências importantes. Neste disco existem
mais gravações de outros artistas nessa famosa noite ?
M.S.
: - Não, sou a única. Não
vale a pena citar nomes dos presentes nessa noite mas se for necessário
também o farei. O que é verdade é que o disco tem aparentemente
sucesso pois até o põem em concurso em emissões da rádio Alfa e os
locutores citam com frequência a minha participação.
V.L.
: - Este disco é distribuído pela Sony Music, que não é propriamente
uma casa desconhecida e editado pela Globe Music que tem também
bastante notoriedade. Não acreditamos que estas empresas tenham aceite
de distribuir esta obra sem a autorização de quem pretende deter os
direitos, neste caso a autorização foi cedida pela Íris Musique. Se
as tuas afirmações são exactas, toda esta gente anda a ganhar
dinheiro à custa dos interpretes sem lhes dar qualquer satisfação ou
remuneração.
M.S.
: - A minha opinião é
que, com excepção dos artistas muito conhecidos como Amália
Rodrigues, o Carlos Zel, a Maria Armanda ou o Rodrigo, poucos devem ter
dado autorização de publicação deste trabalho. Que fique bem claro
que é só o meu parecer. É obvio que autorizamos a gravação ao vivo
mas nenhum dos presentes, que eu saiba, autorizou a edição do
trabalho.
V.L.
: - Fechamos aqui provisoriamente este capítulo, prometendo indagar e
obter as informações necessárias dos diversos intervenientes para
voltar a este assunto nas próximas edições.
Podemos
constatar através deste disco que começaste a tua carreira de fadista
muito jovem. Podemos saber mais ?
M.S.
: - Claro, nasci num dia qualquer de um mês qualquer de 1947, na altura
dessa gravação, era assistente de bordo da Tap e quando os voos me
permitiam, metia-me num taxi para ir cantar as minhas cantigas. Só me
tornei profissional em 1976.
V.L.
: - Já lá vão uns anitos. Habituámo-nos a ver-te e ouvir-te cantar
em algumas das melhores casas de Paris e de Lisboa, aparentemente agora
decidiste de ficar por cá.
M.S.
: - É exactamente isso, quando cá estive entre 1983 e 1988, uma das
boas casas onde trabalhei foi no “Petit Cardoso”, não é
publicidade porque essa casa já não existe, tive o privilégio de
estar cá esses anos, nessa altura vim para cá com apenas um contrato
de um mês e acabei por ficar. Havia realmente muito trabalho e fui
muito bem recebida. Fui embora em 88 e voltei há cerca de cinco anos
porque realmente gosto muito de França, gosto muito de Paris. Sei que
posso chocar algumas pessoas mas esta é a única razão, além disso,
como não tenho família nenhuma em Portugal, optei por viver em França.
Não esperando fazer uma grande carreira artística, quando isso não
acontece até uma determinada altura, é mais complicado, a não ser
algumas excepções como é o caso da Cesária Évora. Reconheço no
entanto que fiquei verdadeiramente decepcionada que o fado estivesse e
esteja tão mal em França. Lamento que, com tanta gente a cantar tão
bem o fado, com “cabeça tronco e membros”, não é só ter boa voz,
as pessoas sabem ao que me refiro, e que por razões que eu desconheço,
uns dizem que são razões económicas, outros, porque alguns
interpretes de fado que cá estiveram nestes últimos anos, estragaram o
ambiente, isto ande tão mal. Quero acreditar em uns e outros mas enfim
eu cá estou e penso ficar. Não tenho intenção nenhuma de ir para
Portugal, por isso vão ter que levar comigo.
V.L.
: - Vou fazer uma afirmação sobre a qual solicito o teu comentário :
- Estive há dias, no
restaurante Ribatejo, onde tive o prazer de escutar a tua bonita voz,
assim como a de outros fadistas que eu aprecio tais como, o Zéni
d’Ovar, o Augusto Graça, o Casimiro Silva ou o José Machado. Tive a
impressão de voltar quinze anos atrás, àquelas noites de outrora,
ainda para mais com a presença dos mesmos artistas e sobretudo dos
mesmos clientes.
M.S.
: - Efectivamente estavam ali reunidas algumas das pessoas que faziam
partes dos tempos áureos do fado em Paris. Os Corgos, é realmente um
dos melhores guitarristas que aqui estão, que está por dentro do que
é o fado mais antigo, o fado mais novo e que consegue acompanhar
qualquer artista aqui ou em Portugal, temos o José Machado que é
simultaneamente viola e interprete e sobre o qual não vale a pena
adjectivar pois é sobejamente conhecido e apreciado e eu própria que
pertenço também a essa época áurea que referi. Tentámos criar esta
nova dinâmica estas novas noites de fado e tenho pena que esta gerência
que tanto fez por aquela casa não renove o contrato. Isto não
significa que outros não façam tão bem ou melhor, quero simplesmente
dizer que esta gerência participou da melhor forma na elevação do nível
daquela casa que é a meu ver uma das mais lindas de Paris e que agora
por razões que não me dizem
respeito vá tudo por água abaixo. Nós temos todos muita pena disso e
fico satisfeita que tu tenhas tido esse sentimento em relação àquilo
que viste e ouviste.
V.L.
: - Há cerca de 400 restaurantes portugueses em França. Como sabes
conheço relativamente bem o meio da hotelaria e tenho consciência das
dificuldades dos proprietários dos restaurantes em propor e manter com
regularidade, noites de fado de qualidade. Qual é a visão da artista
Mané sobre este problema ?
M.S.
: - Desses 400, haverá provavelmente 50 ou 100 que pretendem dar espectáculos,
isto porque de certeza os espectáculos dão dinheiro, se não ninguém
daria espectáculos. A maioria dos donos de restaurantes não têm formação
musical, muitos, nunca tiveram também nenhuma formação relativamente
à profissão. Abrem um restaurante, porque pode ser um negócio
familiar, é uma das razões.
O
que é preciso é vontade ; é qualidade, independentemente das crises
económicas, o que funciona sempre é o que tem qualidade. No fado é
exactamente a mesma coisa, com todo o
respeito
que eu possa ter pelos meus colegas que cá estão, se em vez de
formarem grupos para de poderem impor ; grupos sem qualidade, com
cantores e músicos sem qualidade, tentem impor quantidade em vez de
qualidade. Compreendo que toda a gente necessita de ganhar a vida, mas
quando um cliente vai a um restaurante onde não tem um bom serviço e não
tem fado de qualidade, obviamente não volta.
Nota
da redacção :
Infelizmente as coisas não são assim tão simples. Mesmo nos
restaurantes que têm um excelente serviço e bons profissionais à
frente, a grande maioria dos clientes portugueses que regra geral, só
frequentam os restaurantes nos finais de semana, não estão prontos a
pagar a refeição mais cara, pelo facto de haver espectáculo. Os
encargos sociais para declarar os artistas são exorbitantes e estes não
aceitam por vezes as devidas deduções do salário. Por outro lado, as
facilidades do tempo onde grande parte das receitas dos restaurantes
eram em líquido, terminaram há vários anos com a vulgarização dos
cartões de crédito. Teríamos de entrar em pormenores extremamente
precisos e que não interessam os leitores, para explicar aos artistas e
a outros a complexidade da gestão de um restaurante.
Por
fim, enquanto os proprietários de restaurantes portugueses não
compreenderem que não podem “viver” só com a clientela portuguesa
e que terão forçosamente de se adaptar à clientela francesa, que
representa o maior potencial, nomeadamente na apresentação da cozinha,
nas regras de serviço, de higiene etc., continuaremos a ver os
restaurantes portugueses vazios toda a semana e cheios ao sábado. Se
ainda para mais têm de pagar artistas, lá se vai o benefício.
António
Cardoso
Février
00
Tony
Carreira
V.L.
: - Alors l’Olympia, çà
était un succès extraordinaire ! ! !
T.C.
: - L’Olympia a été un spectacle pour moi très émouvant. J’en
garde un souvenir extraordinaire.
V.L.
: - Cela voudrait dire qu’enfin les chanteurs portugais sortent de
l’anonymat ?
T.C.
: - Je pense qu’avec le temps un jour nous aurons une vedette
portugaise internationale. En tous cas je le souhaite. Nous avons déjà
Nuno Berttencourt, guitariste du groupe Extrême. Et Amália Rodrigues
fut et restera aussi fameuse que Edith Piaf.
V.L.
: - Te considère-tu un chanteur de l’immigration ?
T.C.
: - De cœur oui ! Et j’en suis fier.
V.L.
: - Est-ce que tu fais parti de ceux qu’on considère comme faisant de
la musique “Pimba” ?
T.C.
: - Je laisse le public en décider.
V.L.
: Est-ce que le type de musique que tu interprètes a le prestige
qu’il mériterait ?
T.C.
: - N’importe quel type de musique mérite le respect, à partir du
moment ou l’artiste est sincère dans ce qu’il fait. J’ai toujours
essayé de faire mon métier avec le cœur. Et pour cela on me respecte.
V.L.
: - Tu es jeune et pourtant
tu as déjà une longue carrière. Comment cela a commencé et quelles
sont tes perspectives d’avenir ?
T.C.
: - Cela a commencé comme guitariste chanteur dans le groupe Irmãos 5.
En 1988, début en solo avec le festival de l’Eurovision au
Portugal. Le premier succès en 1993 avec A Minha Guitarra.
En
95 Ai Destino a été le premier grand pas dans ma carrière et j’ai
pu cette même année imposer définitivement les musiciens dans mes
concerts.
Les
projets, je prépare actuellement le live de l’Olympia et la vidéo.
Et cette année deux grands spectacles, Coliseu de Lisbonne et Porto.
Mais avant, il y a la tournée Parisienne et celle d’été, au
Portugal.
V.L.
: - Tu voyages énormément, est-ce que ton public de France, du
Portugal, des Etats Unis, du Brésil et de l’Afrique du Sud apprécie
ta musique de la même manière, ou y’a t-il des différences
importantes ?
T.C.
: - Ce sont des émotions différentes a chaque concert.
V.L.
: - Tu habites simultanément au Portugal et en France ; probablement
cela te pose quelques problèmes pour concilier ta profession
avec ta vie de famille ?
T.C.
: - Si j’ai choisi de vivre entre ces deux pays, c’est parce que je
pense être plus heureux ainsi. La vie de famille n’est jamais simple
pour un artiste.
P.
Cardoso
Janeiro
00
Entrevista
a Tony Gama
“Quando
estou em Portugal sou o homem
mais
feliz do mundo”
V.L.
: - Tony, que tens feito ?
T.G.
: - Tenho feito tanta coisa. Podemos partir da última opereta que fiz
com a Micheline Dax, desde aí, fiz 4 revistas ou seja entre 80 e 100
espectáculos por ano. As tournées começam geralmente em Outubro e
acabam em Paris num grande teatro, como por exemplo, o Palais des
Glaces, no teatro Renaissance etc… onde fica-mos à volta de 15 dias
em média. Mas na província era quase todos os dias numa vila ou uma
cidade diferentes, passei por vezes semanas sem vir a casa ver os meus
filhos ou vinha passar um ou dois dias e arrancava novamente.
V.L.
: - Isto torna a vida de casa complicada.
T.G.
: - Sim, por vezes saturava. Mas arranjei sempre maneira de também
trabalhar com a Comunidade Portuguesa. Decidi também de investir-me um
pouco mais em Portugal. É verdade que em determinada altura comecei a
pensar que era demais, porque virei um pouco as costas a pessoas com
quem trabalhei durante muitos anos como é o caso do Pascal Sevran ou
dos produtores de operetas. As pessoas telefonavam-me para fazer espectáculos
mas estava sempre ocupado. Aconteceu-me vir a casa quando os meus filhos
já estavam à dormir, ia vê-los ao quarto e partia sem que eles
acordassem.
V.L.
: - Presumo que os contactos para os espectáculos começaram a diminuir
pelo facto de estares sempre ocupado ?
T.G.
: - Sim, é verdade que quando era só opereta, era Paris, algumas
representações na província, Bélgica, Luxemburgo, Suíça, enquanto
que as revistas era por
todo lado. Acabava uma tournée apareciam logo produtores a propor
outra. Além disso desde há 4 anos para cá, trabalhei muito no
estrangeiro, nos Estados Unidos, na Grécia, Turquia, Noruega, etc.
Portanto foi muito trabalho durante estes quatro anos. Agora decidi de
alternar um ano de tournées e um ano parado a gravar e a fazer espectáculos
na zona de Paris, em Portugal e algumas idas ao estrangeiro.
V.L.
: - Consideras que o teu público é mais francês ou mais português ?
T.G.
: - O facto que tenha trabalhado muito mais no meio francês, é por
oportunidade mas nunca descorei a comunidade portuguesa. Além disso
aproveitei por vezes as tournées para realizar espectáculos para os
portugueses, como foi o caso recentemente na região de Bordéus. O que
é verdade é, que quanto mais trabalhas, mais gente vem ter contigo e
quando estás em baixo as pessoas desviam-se.
V.L.
: - Já conheceste períodos
“em baixo” ?
T.G.
: - Sim, nomeadamente a seguir aos problemas da Rádio. Não me
arrependo absolutamente nada, mas há pessoas que tiveram receio de me
contactar. Passado algum tempo as coisas voltaram ao normal. Fiquei com
uma etiqueta devido à ignorância de muita gente e sobretudo por culpa
de alguns empresários oportunistas portugueses. Há alguns que fazem um
muito bom trabalho a nível empresarial, mas há outros que são
oportunistas e que só fazem trabalhar aqueles que lhes dão muito
dinheiro a ganhar e inventam histórias sobre os outros. Diziam por
exemplo que eu já só cantava opera e as pessoas assustavam-se. Ora
como se sabe a opereta não tem nada a ver com opera, a opereta é
variedade, é música variada, que tem uma componente teatral. Foram
essas pessoas a quem abri as portas no tempo das rádios, dando-lhes
possibilidade de ganhar a vida, que por detrás foram dizer mal de mim.
Como sabes tenho muitos amigos no meio associativo e que obviamente me
vieram dizer o que essas pessoas andavam a contar.
V.L.
: - Há nomes ?
T.G.
: - Não quero dizer nomes, além disso, muito honestamente, estou-me
“marimbando” porque a comunidade continua a seguir-me e não é
porque essas pessoas dizem mal, que as coisas mudam. Além disso, aos
meus espectáculos franceses vêm muitos portugueses. Ainda ontem numa
aldeia chamada Bayeux l’Eveque na zona de Chartres,, apareceram
portugueses que vieram porque tinham visto o meu nome nos cartazes. No
ano passado, no Palais des Glaces havia em média, entre 200 e 300
portugueses. Não é porque certas pessoas que têm lugares de relevo me
viraram as costas, que a Comunidade faz o mesmo.
V.L.
: Depreendemos que a tua participação nas rádios portuguesas,
prejudicou a tua carreira artística. É isso ?
T.G.
: - Não digo que isso me perturbou verdadeiramente a minha carreira artística.
Tive sim um pequeno corte de relações com certos dirigentes
associativos na região parisiense. Fora de Paris, não tive qualquer
problema. Quando me investi nesta aventura das rádios, foi para
defender a comunidade à qual eu me orgulho de pertencer. Em certa
altura, uma jovem veio perguntar-m,e se era verdade que eu tinha vendido
a Rádio Portugal FM à Rádio Alfa. Respondi-lhe que isso era impossível
porque o CSA (Conselho Superior do Audiovisual) não permitiria que uma
rádio fosse vendida a outra.
V.L.
: - Quando é que começaste a cantar ?
T.G.
: Comecei a cantar era pequenito mas iniciei uma carreira artística há
mais de vinte anos.
V.L.
: - Quais são as tuas perspectivas ?
T.G.
: - Vou continuar como até hoje, tenho-me investido muito em Portugal
onde sempre trabalhei muito bem. As aldeias de norte a sul abriram-me
sempre os braços, mas ultimamente tenho passado muito nas rádios e nas
televisões. Já percorri 36 países no mundo com a canção, como é lógico
quero continuar, e ir o mais longe possível, continuando a cantar para
os portugueses para os franceses e outros. Tenho orgulho em ter as
folhas de salários do Olympia onde já passei oito vezes. Uma coisa é
alugar o Olympia para fazer um espectáculo e outra é ter sido
convidado e ter folhas de salário com o nome do Olympia de Coquatrix. A
única sala de prestígio que me falta em Paris e neste país é Bercy,
em contrapartida o meu filho Marco já lá cantou e obteve o 2° prémio
da canção francesa diante 17 000 pessoas. Espero regressar ao Olympia
no próximo ano e será provavelmente umas das últimas coisas bonitas
que farei neste país, porque
em seguida penso regressar a Portugal. Quando estou em Portugal sou o
homem o mais feliz do mundo. Posso estar aborrecido vou dar uma voltinha
à praia perto de minha casa na zona de Salgueiros, passo umas horas
sentado a ver o mar e encho-me de energia.
Mas
também tenho uma serie de projectos, entre os quais é o espectáculo
que eu lancei e que funciona muito bem no meio francês e que queria
apresentar aos portugueses com a introdução de coisas portuguesas,
assim como o fado de Coimbra e de Lisboa e o folclore, com pessoas
trajadas à maneira do Minho, de Trás-os-Montes e do Sul. O resto será
opereta e variedade. Sempre tive a impressão que não sabemos
aproveitar e valorizar aquilo que é nosso. Ainda há tempos na Noruega
cantei o “Coimbra do Choupal”; comecei como costumo fazer em português
para acabar em francês e foi engraçado e comovente ser acompanhado por
toda a sala numa língua que eu desconhecia completamente. Sou muito
sensível e já não sabia se devia continuar a cantar ou ceder às lágrimas
que me vinham aos olhos.
É
pena que em Portugal, as rádios passem tanta música estrangeira.
A.C.
Décembre
99
Interview
à Bevinda
V.L.
: - Bevinda, pour ceux qui ne te connaissent pas suffisamment dis-nous
qui tu es.
B
: - Qui suis-je ? Et bien je pense que je suis une vraie, de plus en
plus mélangée.
Ma
musique se transforme de plus en plus en musique du monde. Dans mon
dernier album Chuva de Anjos, on retrouve un vrai métissage culturel,
d’autant plus qu’il y a des chansons en français, dont un duo avec
Daniel Lavoie, chanteur québécois. C’est une chanson qui parle des
anges et qui va bientôt sortir en single.
Je
suis née au Portugal il y a 38 ans, je suis une fille banale, très
simple. J’aime bien les choses simples, les repas en famille qui
s’étendent sur des heures.
C’est
amusant, j’aime beaucoup la famille sans jamais penser à en fonder
une par contre.
Je
respecte beaucoup les valeurs familiales, j’adore me retrouver en
présence de grandes scènes familiales, sans jamais l’avoir imaginé
pour moi.
Je
crois que c’est du fait que j’ai toujours eu un grand désir
d’indépendance, une recherche de liberté.
V.L.
: - C’est contradictoire !
B
: - Complètement. J’aime l’idée de la famille, j’aime ma
famille, mais je ne m’imagine pas moi-même en fonder une.
D’ailleurs à mon âge je n’ai toujours pas d’enfant, je n’ai
pas l’intention d’en avoir pour le moment, ni de me marier. C’est
paradoxal, mais qui n’a pas de paradoxes comme celui-ci !
V.L.
: - Tu aimes les réunions familiales. Mais est-ce toi qui réalises ces
réunions, est-ce toi qui décides, ou te laisses-tu guider par des gens
qui les organisent ?
B.
: - Je me laisse guider, je me laisse aller. L’an dernier, je suis
allée passer un mois au Portugal dans ma famille. C’était super
parce que je ne les voyais pas depuis longtemps. On a fait de vrais
repas de famille, avec les tantes, les cousines. J’avais emmené ma
mère, on était parti toutes les deux, c’était vraiment un plaisir,
que je ne pourrais pas retranscrire.
V.L.
: - On pourrait dire que c’est portugais, que c’est méditerranéen
?
B.
: - Je ne sais pas si c’est portugais. Mais c’est vrai que, mes
frères et sœurs, ma mère, mon père, qui n’est plus là
malheureusement, sont des gens très importants pour moi. J’ai besoin
de les avoir autour de moi, de les appeler plusieurs fois par semaine,
de parler avec eux. C’est mon sang.
V.L
: - Te considères-tu comme une immigrée ?
B.
: - Oui quand même. Je suis immigrée mais je suis très bien
intégrée, je pense que c’est parce que je suis là depuis longtemps,
mais je suis une immigrée dans les deux sens aussi.
V.L.
: - Pour toi, c’est quoi l’intégration ? Dans le précédent
numéro de Vida Lusa on parlait justement de l’intégration, du sens
que certaines personnes donnaient à ce mot.
B.
: - Je pense que l’intégration c’est vraiment réussir à faire un
savant dosage de choses de notre enfance ou de notre environnement
familial et culturel et de l’adapter au pays dans lequel on vit et de
se faire un potage mélangé avec différentes saveurs. Pour nous ce
seraient des saveurs portugaises avec des saveurs françaises.
C’est
vraiment réussir à ne pas se sentir divisé. J’ai eu un moment
conscience de cette division, et cette division c’est évanouie.
Maintenant je me sens vraiment moi-même, je ne me sens pas forcément
portugaise, pas forcément française, je me sens moi, avec ces deux
identités. L’intégration c’est çà, c’est réussir à se sentir
bien.
V.L.
: - Quand tu es au Portugal pour tes vacances ou pour tes concerts,
est-ce que tu te sens portugaise ?
B.
: - Pas complètement, non. Je me sens appartenant à cette terre,
appartenant à ce lieu, je me sens venant de là. Mais je ne me sens pas
appartenir au Portugal d’aujourd’hui. Je ne pense pas, parce que je
n’y vis pas, par contre je me sens portugaise.
V.L.
: - Cela veut-il dire que tu ne te sens pas intégrée au Portugal ?
B.
: - Non, je n’y vis pas, pour que je me sente intégrée, il faudrait
que j’y vive ou que j’y passe beaucoup de temps. J’y vais
régulièrement, mais je n’y passe jamais plus d’un mois. Je suis
très touriste quand je vais au Portugal. J’aime bien visiter mon
pays, apprendre des choses.
J’avais
deux ans quand je suis arrivée en France, donc ça fait un bout de
temps. C’est compréhensible.
V.L.
: - Parlons musique. Tu es arrivée en France mais en Province, en
Bourgogne plus précisément, ensuite tu es montée à Paris comme on
dit.
B.
: - Oui, je suis montée à Paris mais pas pour la musique, pour les
études, que j’ai rapidement abandonnées d’ailleurs et je suis
partie dans le sud de la France. C’est là-bas que j’ai commencé à
chanter, dans les bals populaires, bals de pompiers etc…
J’ai
décidée de partir toute seule, enfin avec mon amoureux, sans ma
famille. C’était mon choix, ma décision.
V.L.
: - Pourquoi ?
B.
: - Je vivais avec une personne qui travaillait toute la journée, et
moi je ne faisais pas grand chose. Je lui préparais des repas,
j’attendais qu’il rentre. Un jour, il m’a dit qu’il connaissait
un ami qui avait un groupe et qui faisait passer des auditions pour une
chanteuse. J’y suis allée, je n’avais jamais chanté et c’est
comme ça que cela a commencé. Ils m’ont accepté pour l’audition,
j’y suis restée un an, je chantais les tubes de l’été, pour les
bals du 31 décembre, 14 juillet et autres avec les ambiances
d’orchestre.
V.L.
: - Un jour tu décides de revenir à Paris et d’essayer d’en faire
ton métier.
B.
: - Oui, essayer de faire des chansons à moi, parce que chanter des
chansons d’autres chanteurs ne me satisfaisait pas complètement, la
scène me plaisait par contre. Je voulais faire mes chansons.
Je
suis arrivée à Paris, j’ai été pendant deux ans à l’école
“le studio des variétés” où j’ai eu des cours de chant, de
scène, de danse, de piano et de solfège.
J’ai
ensuite commencé à chanter dans des bars, les restaurants, les petits
cabarets de Paris avec un accordéoniste et un guitariste et puis tout
doucement, j’ai commencé à avoir un répertoire assez cohérent de
chansons françaises ensuite j’ai commencé à inclure un titre en
portugais, un deuxième… Et finalement j’ai eu envie de chanter de
plus en plus dans cette langue. Pendant plusieurs mois je suis allée
vivre au Portugal pour essayer d’avoir l’ambiance un peu plus de
là-bas. De m’intégrer en fait.
De
retour en France, j’ai eu des cours à la Sorbonne.
Par
la suite, j’ai rencontrée des personnes qui vivaient dans le monde de
la lusophonie. J’ai fait mon premier disque en 1994 en portugais, ça
a été un déclenchement puisque il y en a eu d’autres.
Aujourd’hui
pour la première fois, je suis revenue à la langue française, comme
si c’était une boucle, une recherche qui se terminait, pour passer à
autre chose.
V.L.
: - En fait, tu as démarré ta carrière comme n’importe quelle
française qui voudrait se lancer dans la chanson, sauf qu’à un
moment déterminé, tu as eu la nécessité de revenir aux sources au
travers la chanson.
Est-ce
que l’on peut dire que dans les chansons françaises que tu
interprètes dans ce dernier album, il y a une influence de la musique
portugaise ?
B.
: - Et bien non. C’est cela qui est étonnant, ce sont des petites
chansons légères, des chansons de variétés très douces, très
simples. Ce sont vraiment des chansons que l’on chantonne et non une
recherche de réalisme que l’on peut trouver dans certaines chansons
portugaises. C’est tout à fait autre chose. Je sais par contre, que
pour le prochain album, j’ai envie de prendre une reprise d’Edith
Piaf qui s’appelle “emporte-moi” et de la faire en fado, mais en
français. Je vais demander également à un ami, de m’écrire un fado
en français.
V.L.
: - On peut reparler de revirement de carrière ?
B.
: - Non, ce sont des expériences, je suis toujours en train de
chercher. Tu sais quand j’ai fait l’hommage à Pessoa, c’était
une envie. Je fonctionne beaucoup comme ça, par envie ou par rencontre.
Pour
cet album Chuva de Anjos j’ai retrouvée un ami qui s’appelle Pierre
Gros qui écrit de très belles chansons notamment pour Michel Jonas
dont “les vacances au bord de la mer”, ou pour Diane Dufrène. Nous
sommes partis ensemble au Népal, il a eu envie d’écrire des chansons
pour moi, on a donc co-écrit deux des chansons en français, il y a
aussi une reprise de Charles Trenet dans cet album que j’aime beaucoup
qui est “que reste-t-il de nos amours”.
C’est
juste une petite esquisse, des vacances supplémentaires.
V.L.
: - Ton album s’appelle Chuva de Anjos, pourquoi ?
B.
: - Parce qu’il y a une chanson qui s’appelle Anjo dedans, les anges
sont là, à plusieurs reprises, la chanson avec Daniel Lavoie parle
également des anges.
Dans
cet album, il y a 14 titres, dont 4 en français, on reste donc dans une
tonalité complètement lusophone, avec une instrumentation très
cordes.
V.L.
: - Tu voyages beaucoup. Tu me parlais tout à l’heure d’une
expérience tout à fait intéressante au Népal.
B.
: - Oui, tu dois parler du moment où je suis allée au monastère de
Bigugompa. C’etait quand j’écrivais pour mon album Chuva de Anjos.
J’aime bien aller dans des endroits un peu perdus, pour me retrouver
seule. Pour Terra e Ar j’etais allée à Goa où j’avais écrit la
plupart des chansons, pour Pessoa em Pessoas j’avais fait la
composition avec un ami capverdien, j’étais donc partie au Cap Vert.
Pour Chuva de Anjos la plupart des chansons ont été écrites dans ce
monastère. J’étais toute seule, j’avais emmené quelques livres et
c’etait amusant car du matin jusqu’au soir, je suivais le soleil
dehors. Je me levais vers 6h00 du matin, je prenais mon petit déjeuner,
toujours sur la même pierre, je lisais tel livre au même endroit, bref
je suivais le soleil toute la journée.
Je
prenais tout l’espace du monastère en suivant le soleil. Je suis
restée comme ça 8 jours, à écrire, à rigoler avec les nonnes qui
sont très bonnes vivantes.
V.L.
: - C’est quoi cette envie de voyager et d’aller dans des endroits
pareils ?
B.
: - Je suis très attirée par l’Asie. C’est vrai que j’aime
l’Asie, l’Inde etc…
J’aime
me retrouver dans ces ambiances, parce qu’il y a une espèce de
liberté dans ces pays que je n’ai pas forcément ici par rapport aux
autres. Il y a une simplicité des rapports qui me fait beaucoup de
bien, une simplicité dans le regard, dans l’approche de l’autre,
dans la communication. Il n’y a pas de bla, bla, bla, c’est très
direct.
C’est
de l’énergie, j’ai besoin
de me ressourcer. Je rentre du Népal, j’y suis restée trois semaines
et je me sens beaucoup plus vivante que lorsque je suis partie.
V.L.
: - Dans ces pays, il n’y a pas des moments où tu es critique par
rapport à leur civilisation ? Etablissant par exemple des comparaisons
avec l’Europe ?
B.
: - Si, bien sûr. Mais tu sais à chaque fois que je vais à la
montagne je me dis - tient, il faut vraiment que je m’achète une
maison à la montagne. J’ai l’impression que ma vie n’est vraiment
pas dans une grande ville. J’aime bien y être mais j’aime bien
disparaître et me retrouver dans un coin tranquille toute seule sans
personne sans le bruit.
Mais
je ne vis pas en ermite, je suis cosmopolite, je parle beaucoup de
langues, j’aime bien le contact. Mon rêve en fait, serait d’avoir
deux points d’attache, un point d’attache ici, et un autre dans un
coin de montagne où je peux aller de temps en temps et vraiment ne plus
entendre parler de rien, ni de personne.
Quand
on écrit des chansons, on a tout de même besoin d’espace intérieur
pour que cela vienne ! Si tu es toujours pris du matin jusqu’au soir,
tu n’as pas d’espace à l’intérieur. Cet espace, moi je l’ai
dans le voyage. Quand je pars, il y a un trou qui se fait, je deviens
plus réceptive à ce qui m’entoure, à mon intérieur. Donc les
choses viennent plus facilement. Les mots viennent tout seuls.
J’écris rarement ici.
V.L.
: - Te considères-tu comme une artiste ?
B.
: - Une artiste... Je pense avoir une âme artistique de par le fait que
j’ai une certaine idée de la liberté et de la vie, qui n’est pas
forcément une idée du 9h00 / 18h00. Pourtant, j’ai fait des boulots
qui me plaisaient dans des bureaux, des choses comme ça. Mais c’est
vrai que je n’étais pas dans une satisfaction totale, alors que là,
j’ai une espèce de joie intérieure et extérieure que je n’aurais
pas forcément trouvé dans un autre travail. Parce que c’est un
travail aussi. Ça ne se fait pas tout seul, il faut ramer.
V.L.
: - Quand tu vas dans un pays lointain pendant une semaine, deux
semaines, pour écrire, tu as quand même cette pression, qui est de
faire des chansons ?
B.
: - Oui, mais comme je suis seule j’ai des moments de vide où il ne
se passe rien et tout arrive. Je suis là et d’un seul coup des mots
vont venir, une ouverture se fait. Ça vient plus vite. Si j’écris à
Paris, je peux rester deux jours sur une feuille.
V.L.
: - Est-ce que tu gagnes beaucoup d’argent ?
B.
: - Beaucoup non, pas encore malheureusement mais suffisamment pour bien
vivre.
V.L.
: - Est-ce que tu aimes te produire devant le public ?
B.
: - Oui, j’aime me produire, j’ai un peu de trac avant mais de plus
en plus j’aime chanter en plein air. Cette année, j’ai fait
plusieurs festivals en Italie, en Suisse. En plein air, il y a vraiment
une sensation de nature très forte.
C’est
l’union de l’homme avec la nature contrairement à une salle
obscure, tu as des lumières et j’ai l’impression que comme si on
t’apportait un rêve supplémentaire. Ça me fait vibrer d’être
dans un espace où l’homme, c’est à dire le public, les musiciens
sont unis dans un espace imaginaire ouvert, magique. Le plein air
accentue ça, tu as les éléments en plus. Dans une salle tu vas
reproduire la nature, en plein air, tu es vraiment dans la nature.
J’ai
chantée dans un jardin, quand on sent le vent dans le micro, qui
caresse les cheveux, on sent que les gens sont aussi dans cet état. La
cohésion qui existe dans les salles obscures est retrouvée dans le
plein air.
V.L.
: - Quelles sont tes perspectives pour la suite de ta carrière ?
B.
: - Pour ma carrière, je pense que j’ai des ambitions, mais pas
toutes. C’est à dire que je ne suis pas prête à sacrifier une
partie de ma vie pour ne faire que de la musique sous prétexte de faire
400 000 albums. De m’acoquiner avec une grande maison de production ou
une multinationale ne me tente pas.
Je
suis chez un label indépendant et j’y suis bien car j’ai une totale
liberté artistique et ça, tu ne peux pas l’avoir dans une
multinationale où évidemment on va te faire vendre plus de disques, on
va mettre plus d’argent dans la promotion etc… Par exemple chez Sony
ou Virgin peu importe, si je me retrouve chez eux ils vont me donner un
chiffre à atteindre, ils vont me pousser en promo. Imaginons que
j’atteignais ce chiffre pour le 1er disque que je fais avec eux et que
le second ne fonctionne pas, la rupture de contrat est le plus souvent
l’issue de cette relation. Il n’y a pas vraiment de travail sur la
durée.
Avec
un label indépendant nous n’avons pas les mêmes aspects, notamment
promotionnels, mais il y a une autre façon de travailler. Il n’y a
pas autant de pression.
António
Cardoso
Novembro
99
À
minha amiga Amália
Entrevista
a Zeni D’Ovar
V.L.
: - Zeni D’Ovar estávamos habituados a vê-lo sempre em companhia da
Amália de quem era amigo íntimo. Tentando pôr de lado a artista,
gostaríamos que nos falasse da mulher.
Z.O.
: - Contrariamente ao que se poderia pensar, não está tudo dito sobre
a artista, nomeadamente em Portugal, lembro-me particularmente quando
ela fez um regresso triunfal a Madrid onde cantou num auditório. Na
imprensa espanhola referia-se que as pessoas aplaudiram de pé durante,
creio dez minutos e nos jornais portugueses traduziram para metade.
Talvez porque julgassem que era demais para uma artista portuguesa.
Ainda tenho os jornais espanhóis e portugueses dessa altura.
Eu
acho, que o que fez que Amália fosse aquela grande vedeta, não foi só
aquela voz única, que nunca tivemos nada assim em Portugal, nem vamos
ter tão cedo. Para lá da voz, havia a personalidade, havia uma
generosidade imensa e ilimitada.
V.L.
: - Era sobretudo esse aspecto da personalidade de Amália que gostaríamos
de desenvolver consigo porque a conheceu e a acompanhou mais de 40 anos.
Z.O.
: - Sim em contas redondas 40 anos. Fiz um filme com ela “As Ilhas
Encantadas”, uma coprodução Franco-Portuguesa onde ela era a vedeta,
mas não cantava, tinha um papel dramático. Numa mesa redonda na
televisão com Frederic Mitterrand onde ela era a convidada, tive a
oportunidade de falar disso.
Tinham
prevenido o realizador do filme que a Amália era uma pessoa muito difícil,
caprichosa, que se um dia não lhe apetecesse aparecer no platô, não
vinha, mandava dizer que estava cansada etc.… O realizador estava
muito preocupado, porque num filme prepara-se um plano de trabalho, que
não pode exceder determinado tempo e cada dia que passa para além do
previsto, custa muito dinheiro à produção. Disse-lhe que essa fama não
tinha nada a ver com a realidade. Passado um mês, o realizador
chamou-me e disse-me que não tinha esquecido o que lhe tinha dito sobre
a Amália. De facto ela era de um profissionalismo raro. Era a primeira
a chegar ao local de filmagem, aliás sempre comigo porque a
acompanhava sempre, e realmente a Amália era um exemplo para
todos os outros.
V.L.
: - Mas contava-se que, quando ia gravar, se não estava bem disposta,
parava tudo e ia-se embora.
Z.O.
: - Isto faz parte do profissionalismo e da lucidez que ela possuía. Se
ela entendia que não estava com boa voz, deixava para outra altura.
Porquê gravar quando se pensa que não vai ficar bem ? Além disso ela
podia permitir-se isso, tanto mais que era amiga íntima do editor,
o Valentim de Carvalho. As gravações em Portugal passavam-se
assim. Se uma noite ela estava bem disposta, chamavam-se os técnicos
todos, telefonava-se a toda a gente, reuniam-se nos estúdios e a Amália
cantava até às 2 ou 3 da manhã. É o que temos como herança, os
melhores discos dela foram gravados assim. Numa altura, em 1952 ela
gravou em Londres. Chegou ao estúdio, estava tudo a espera para gravar.
Começou e de repente parou dizendo que não estava capaz de cantar.
Estavam previstos vários dias para gravar e varias sessões. As pessoas
ficaram aterradas por pensarem que era mais uma vedeta caprichosa. Na
segunda sessão, ela chegou e gravou tudo numa vez e já não foi
preciso fazer mais sessões. Ela tinha a noção que gravar era uma
responsabilidade muito grande, portanto acho que ela tinha razão de o
fazer quando se sentia bem. Não fez isso muitas vezes, mas como sabe
fica a fama.
V.L.
: - Qual era o tipo de ralação que o Zeni D’Ovar tinha com ela ?
Z.O.
: - Era a melhor. A minha relação com a Amália, é das boas coisas
que me aconteceram na vida. Conhecer uma mulher como a Amália, é uma
coisa que não se esquece mais.
Costumo
dizer sempre que sou um privilegiado. Naquele círculo de amigos que
rodeava a Amália, alguns até tinham ciúmes porque ela dizia que, eu
era como se fosse o irmão mais novo e não gostavam disso. Portanto
tentaram duas vezes criar enredos para perturbar a nossa relação. Na
primeira vez, ela chamou-me e resolveu-se imediatamente. Mais
recentemente, exactamente em 1992, no último Olympia, algumas pessoas
por inveja, criaram-me uma situação complicada. Afastei-me na altura
porque não aceitei o que se passou. É uma longa história que não
interessa os seus leitores. Mas tratei de arranjar todas as provas e
testemunhas e foi tudo esclarecido. Quando estive com ela a seguir, ela
disse-me que não queria falar dessas coisas. Eu retorqui-lhe que tinha
de falar porque estava ferido. Ela não teve culpa nenhuma porque
encheram-lhe os ouvidos mas nunca deixou de ser minha amiga. A prova é
que, há dois anos telefonou-me quando eu estava a passar férias de verão
e disse-me - “Então você está em Portugal e não vem me ver ?
Ela ia para o Alentejo passar o mês e convidou-me a passar
alguns dias com ela. Como não podia, estive em casa dela em Setembro.
Estivemos a falar até às 5 da manhã, entretanto chegou a Celeste (irmã
da Amália) que estava a cantar numa casa qualquer, estava a Lili, a
secretaria, que sempre foi uma pessoa muito boa para ela, muito devota e
vários outras amigos. E ali na frente de toda a gente, ficou tudo em
pratos limpos.
V.L.
: - A imprensa nunca falou muito dos amores de Amália, mas existiram
sempre muitos rumores…
Z.O.
: - Claro, e muitos sem qualquer fundamento. Quando se tem o nome que a
Amália adquiriu, dizem-se sempre coisas muito bonitas e paralelamente
coisas menos agradáveis, por vezes sem fundamento.
Ainda
hoje, há pessoas que dizem que ela cantava muito bem, mas ainda cantava
melhor quando já tinha uns copos. Eu sempre a vi beber chá antes, no
intervalo e depois. De vez enquanto
bebia uma taça de champanhe, não ia para lá da segunda, e que eu
saiba, duas taças de champanhe nunca fizeram mal a ninguém. Este rumor
começou há alguns anos, tímida como era, o champanhe criava-lhe uma
certa boa disposição, então antes de cantar, para enfrentar o público
com mais coragem bebia uma taça de champanhe. Daí veio o boato dos
copos. Mas houve outros muito mais graves, como na altura do 25 de
Abril, onde inventaram que ela pertencia a PIDE. Até inventaram um túnel
subterrâneo que iria da casa dela até ao Parlamento para as
entrevistas secretas.
V.L.
: - Os rumores também diziam que ela era infeliz com os amores.
Z.O.
: - No tempo do primeiro marido eu não a conhecia. Foi aliás um
casamento de curta duração. O filme “O Fado” inspirou-se um bocado
disso, só que, para o agrado do público, ela volta, mas na vida real,
ele foi para a África e ela continuou a sua carreira. Sou do tempo do
segundo casamento com o César Seábra que era de Anadia. Tinha feito o
curso em Coimbra mas estava radicado no Brasil onde conheceu Amália.
Casaram e foi um casamento que durou até ele morrer, dois anos antes
dela. Portanto eu acho que um casamento que dura esse tempo todo perde
naturalmente aquela chama do início, mas fica depois outra coisa mais
importante, que é aquela amizade que torna uma união mais sólida. A
tal ponto que só a morte os separou. Haverá provavelmente outros
amores que aconteceram mas na minha opinião, grande parte são boatos.
V.L.
: - Fale-nos da sua paixão pelo fado e por Amália.
Z.O.
: - Na minha casa não se ouvia fado, era completamente banido.
Ouviam-se cantores líricos, muita música clássica, e opera, que eu
continuo a ouvir e a gostar e nunca pus de parte. Quando ia para a praia
ouvia os fadistas nos alto-falantes, mas o que eu mais gostava era dos
guitarristas. Por vezes parava a ouvir outros fadistas celebres antes da
Amália assim como ; a Hermínia, o Alfredo Marceneiro, a Maria
Albertina, a Berta Cardoso etc.… Não me tocava muito. Quando escutei
a Amália pela primeira vez em casa de amigos, nunca tinha ouvido nada
igual. Perguntei quem era, disseram-me que se chamava Amália Rodrigues
e que regressava do Brasil com muito êxito. Como sabe as primeiras
gravações foram no Brasil. Aquilo entrou-me nas veias. Penso também
que todos os que conheceram a Amália de perto como eu, apaixonaram-se
por ela. Toda a gente. Eu percorri o mundo inteiro com ela e constatei
isso por todo o lado.
V.L.
: - Se tivesse de lhe apontar alguns defeitos, qual seriam os principais
?
Z.O.
: - Eu acho que toda a gente tem defeitos. A Amália também tinha com
certeza, não era a Nossa Senhora de Fátima, só que eu não lhos
conheci. Nunca lhe conheci defeitos, para mim só tinha qualidades.
V.L.
: - Fale-nos então de algumas qualidades da mulher, mais que da
artista.
Z.O.
: - Eu tenho de começar pela voz : Única, sem possibilidade de haver
outra que chegue lá. A inteligência, a lucidez, a generosidade. Sem
essas qualidades, mesmo com a voz que tinha, não teria sido o
que foi. Se temos gente que canta bem em Portugal e que vêm cá para
fora, são todos devedores da Amália. Foi ela que abriu as portas aos
outros. Acho injusto que alguns não se lembrem de dizer isso, quando
actuam em países onde não se fala a nossa língua.
Gostaríamos
de poder transmitir aos leitores a emoção dificilmente contida de Zeni
d’Ovar quando fala de Amália e
de prolongar esta entrevista. Estamos todavia condicionados pelo espaço.
São algumas das desvantagens da imprensa escrita em relação aos meios
audiovisuais. Conservamos no entanto a enorme vantagem de guardar e
tornar acessível a todos, aquilo que se escreve. Com Zeni d’Ovar,
poderíamos continuar a falar da importância de Alain Ulman na carreira
de Amália, de Camões que já falava de fado nos seus poemas, de José
Régio, de Pedro Homem de Melo, que terá dito que os seus poemas tinham
chegado ao povo através da voz de Amália. Não faltarão ocasiões
para prosseguir-mos esta extraordinária conversa.
Outubro
99
Joaquim
Botelho lança novo disco
Joaquim
Botelho canta fado há 40 anos. É um desses fadistas que têm
felizmente mantido bem vivo o fado em França. Acaba de lançar
um novo disco e não podíamos por isso falhar a oportunidade de o
entrevistar.
V.L.
: - Joaquim Botelho, fala-nos deste teu novo disco...
J.B.
: - É um disco de fado, é um trabalho que considero muito bom e julgo
que vai ter êxito porque foi feito com muito amor e ardor. Com a minha
idade já não espero grande coisa mas penso contribuir com a minha
vontade à divulgação da música portuguesa. O fado é a primeira
cultura musical portuguesa, é o meu slogan e aqui está uma das razões
de eu ter feito este disco.
V.L.
: - Já gravaste muitas cassetes, mas é o primeiro CD, não é verdade
?
J.B.
: - Sabes que um fadista que aqui vive e trabalha nos restaurantes
portugueses em França, tem grandes dificuldades para arranjar um
editor, portanto é complicado porque são necessários investimentos
importantes. Tive agora a oportunidade de poder eu próprio investir por
isso fiz um CD com verdadeiros músicos, mas cassetes tenho feito
muitas. O facto de ter músicos daqui de França é também muito
importante, porque em Portugal ainda há quem pense que os músicos de cá
não tocam como deve ser, que têm este ou aquele defeito, que não estão
habituados etc. Não se pode pensar assim, aqui também temos músicos
com muito talento, é como em Portugal, há bons e maus.
V.L.
: - O Armindo Campos por exemplo, é um músico bastante conhecido e
apreciado em Portugal....
J.B.
: - Sim o Armindo Campos fez os arranjos, a mixagem e o necessário para
o disco ficar bem gravado, que é o caso, mas como músicos tenho o José
Machado e o Manuel Corgas, que em Portugal têm lugar em qualquer espectáculo
de qualidade.
V.L.
: - Como poderíamos resumir em poucas palavras a tua carreira artística
?
J.B.
: - Vim para França em 66, regressei a Portugal e voltei em 68 cantar
para o restaurante Ribatejo onde estive um ano e depois comecei a cantar
noutros restaurantes mas havia dificuldades para arranjar guitarristas.
Muitos devem lembrar-se que lancei muitos guitarristas e violas aqui em
França e até cantores. Por isso quando ouço na rádio algumas pessoas
dizerem que foram eles que trouxeram o fado para França, dá-me vontade
de rir. Tenho um documento que demonstra que o Hilário esteve a cantar
em França há mais de um século. Tivemos uma senhora que tu conheces
que teve o primeiro restaurante de fado em França, vê se adivinhas
quem...
V.L.
: - Referes-te à Clara e ao Zeni D'Ovar ?
J.B.
: - Sim claro. Então porque é que as pessoas dizem que foram eles a
trazer o fado ?
V.L.
: - Têm vindo muitos fadistas de Portugal com intenção de aqui
permanecer. No entanto acabam por regressar porque dizem não ter
trabalho suficiente para viverem correctamente. Qual é o problema ?
J.B.
: - Eu poderia responder de uma maneira mais directa mas vou tentar
ponderar. Há pessoas que têm muita vontade de cantar
e de tocar fado mas não têm capacidade pois nunca aprenderam o
que é realmente o fado. Temos por exemplo o Manuel Miranda que tem
feito imenso pelo fado, é um guitarrista que eu aprecio muito, como
amigo e como homem que tem lutado pelo fado. Mas há outras pessoas que
se consideram muito grandes e que não têm feito nada pela cultura e
pelo fado. Estou à vontade para falar porque eu já canto fado há 40
anos.
V.L.
: - Para que o fado tenha sucesso em França não seria necessário que
fosse mais comercial de maneira a agradar a um maior número de pessoas,
franceses e portugueses ?
J.B.
: - Exactamente, mas também não temos sido ajudados e agora falo por
todos os meus colegas. Desculpa tu estás na imprensa e vocês não nos
têm ajudado, nem a imprensa escrita nem as rádios. Temos aqui gente de
valor e precisávamos de apoio, estou a falar dos artistas de fado
porque os pimbas, esses têm sempre êxito. Não é que eu tenha alguma
coisa contra o Pimba porque eu também danço o pimba-pimba.
V.L.
: - Pensas que há público suficiente para o número de fadistas que há
em França ?
J.B.
: - Eu tive o prazer de estar em vários restaurantes a cantar
o fado como é o caso deste onde estamos, (Europa), onde o público
foi formidável. Não se ouvia uma mosca. E porquê ? Porque os artistas
que cá estavam, não por eu também estar, mas a verdade anda sempre em
cima da água, eram de boa qualidade. Agora por vezes vais a
restaurantes que anunciam fado e quando chegas, não ouves fado nem
ouves nada. Nem é fado nem é canção. As pessoas pensando que aquilo
é que é o fado, não voltam.
V.L.
: - Qual é a melhor maneira de transmitir aos estrangeiros, que não
podem falar enquanto se canta o fado, tendo em conta ainda por cima não
percebem a letra ?
J.B.
: - Eu posso-te dizer que tenho cantado em vários sítios, onde são os
portugueses que fazem barulho e não os franceses. Isto é a realidade,
já me aconteceu dezenas de vezes e eles é que me vêm agradecer, que
compram os meus trabalhos.
V.L.
: - Na realidade, sabe-se que grande parte dos nossos compatriotas aqui
residentes, sendo maioritariamente oriundos do norte ou do centro
preferem música para dançar. Quem é que se deve adaptar ? É o público
ao fado, ou o fado ao público ?
J.B.
: - Eu já passei por tantas que estou adaptado a tudo. Se quiserem dançar
que dancem. Se me quiserem deixar cantar em silêncio, agradeço, porque
o fado é como uma oração e na igreja não se dança.
T.C.
Setembro
99
Jornadas
Parlamentares do Partido Socialista Português em Pantin
Entrevista
com : Francisco Assis
Presidente
do grupo Parlamentar do Partido Socialista
V.L.
: - Começamos pelas jornadas do PS que decorreram em França. Ficamos
com uma impressão desordem e que os militantes do PS presentes não
conheciam a ordem do dia nem os objectivos. Qual é a sua opinião ?
F.A.
: - Creio que a maior parte deles conhecia a ordem do dia.
V.L.
: - Uma sala de biblioteca de uma Câmara dos arredores de Paris era um
local apropriado para uma reunião com este nome ?
F.A.
: - Foi o local escolhido pelos organizadores da reunião, a Federação
do PS de Paris, e não temos nada a opor. É um local público com toda
a dignidade, é uma biblioteca nos arredores de Paris. Sabemos que a
maioria dos nossos emigrantes estão essencialmente sediados nas zonas
periféricas.
V.L.
: - Isto leva-nos a pergunta seguinte : como vão as relações entre o
PS francês e o PS português ?
F.A.
: - Penso que as relações são as melhores possíveis. Embora a minha
responsabilidade seja estritamente a condução do Grupo Parlamentar
nessa perspectiva devo dizer que as relações são boas segundo o nosso
deputado parlamentar sobre a emigração o Dr. Carlos Luís e do ponto
de vista do funcionamento partidário também são excelentes. Não há
nenhuma razão para que assim não seja.
V.L.
: - Há grande diferença com o período Miterrand Mário Soares ?
F.A.
: - Não posso responder em primeiro lugar porque não vivi esse período
e em segundo lugar porque não conheço em pormenor a natureza das relações
que neste momento são mantidas entre
os dois partidos. Não tive oportunidade de ter nenhum contacto
com os socialistas franceses porque estavam a decorrer as férias
parlamentares. Limitei-me a contactar os socialistas portugueses aí
residentes. Não estou em condições de fazer uma avaliação objectiva
séria sobre a natureza das relações entre o PS francês e o PS
português mas presumo que no âmbito das relações internacionais,
fazemos parte da Internacional socialista, do Partido Socialista
Europeu, mantemos as melhores relações.
V.L.
: - Falemos das comunidades portuguesas que residem no estrangeiro.
Sabemos que votam muito pouco. Afinal que importância têm para os políticos
em Portugal ?
F.A.
: - A importância é enorme, nós temos consciência que os emigrantes
têm um capital de conhecimento muito vasto que obtiveram ao longo de
uma vida passada em países mais desenvolvidos que o nosso na maior
parte dos casos, sobretudo quando se trata de países europeus. Portanto
esse capital deve ser colocado ao serviço do país e foi nessa
perspectiva também que eu quis valorizar
este encontro que nós desenvolvemos. Do ponto de vista da
participação eleitoral, é natural que ela seja menor do que no próprio
território, uma vez que apesar de tudo, há uma distancia física que
condiciona o comportamento eleitoral.
V.L.
: - Grande parte dos países ditos industrializados e não só, temos o
caso da Argélia, organizam a votação dos seus expatriados nos
consulados. Porque não Portugal ?
F.A.
: - Não sou a pessoa mais indicada para responder a essa questão, uma
vez que não tenho responsabilidade nessa área, agora penso que devem
ser feitos todos os esforços para que se garanta a votação nos locais
onde esta possa decorrer em melhores condições. Se verificar-mos no
futuro que é nos consulados, presumo que não haverá nenhuma objecção.
V.L.
: - Finalmente os portugueses residentes no estrangeiro vão poder votar
para as presidenciais. Qual é a razão da oposição do PS durante
estes anos todos e porquê tanta restrição ?
F.A.
: - O PS apenas exigiu que se clarificassem algumas condições, o que
de resto vai acontecer na alteração
da legislação eleitoral, no sentido de garantir que as pessoas
que venham a votar tenham um mínimo de vinculação com o país. Não
podemos permitir que se atribua a mesma capacidade eleitoral a quem
tenha uma ligação permanente com Portugal apesar de estar no exterior,
que aqueles que já não têm nenhuma ligação com o nosso país.
Portanto é essa distinção que é preciso estabelecer com nitidez e é
isso que nós nos empenharemos em fazer. Feita essa distinção, nós
somos claramente a favor da participação daqueles que mantêm um vínculo
claro com o país.
V.L.
: - Em relação à dupla cidadania, guardar a nacionalidade portuguesa
não é suficiente para justificar esse vínculo ?
F.A.
: - Em absoluto não se pode responder a isso, porque se pode optar
pela cidadania portuguesa por variadissimas razões e algumas não
têm que ver propriamente com a preocupação de manter a ligação a
Portugal mas com razões de oportunidade como sabe. De forma que é
preciso estabelecer precisamente essa distinção e estabelecer critérios
claros e é isso que nós estamos empenhados em encontrar.
V.L.
: - Tem-se falado num rendimento mínimo garantido para emigrantes. Como
é que isso está ?
F.A.
: - É uma questão a explorar tendo em vista a avaliação do que se
fez já a nível do território nacional e a avaliação dos resultados
obtidos através do recurso a esse instrumento. Haverá agora que o
alargar se porventura se vier a revelar adequado e é isso que nós
estamos a estudar neste momento.
V.L.
: - A nossa revista tem um “site” internet, onde publicaremos
evidentemente também esta entrevista. Temos “links” ou mais
exactamente ligações directas aos princípais partidos políticos
portugueses assim como a diversas instituições, Presidência, 1°
ministro, ministérios e órgãos de comunicação social. Podemos por
este meio ver e ouvir a sua última intervenção na Assembleia da República.
Pensamos
que o Governo deveria investir neste sector para aproximar mais de
Portugal os 4 500 000 de portugueses que residem no estrangeiro, já sem
falar dos outros países lusofonos. Qual é o seu sentimento ?
F.A.
: - Sou claramente favorável a isso, penso que é umas das vias hoje,
que têm que se utilizar para assegurar uma maior ligação entre as várias
Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo. É recorrer justamente às
novas possibilidades de comunicação que a informática nos
proporciona.
V.L.
: - Umas das críticas que se têm ouvido, é que a RTPI não teria uma
programação adequada para estas comunidades. O que pensa ?
F.A.
: - Não costumo ver a RTPI, portanto não estou em condições de fazer
uma avaliação.
V.L.
: - Uma última palavra para a nossa comunidade ?
F.A.
: - Uma palavra de confiança e de esperança, de apelo a que participem
activamente na construção do futuro de Portugal. A sua participação
é essencial foi aliás aquilo de mais importante, creio eu, que tivemos
oportunidade de dizer quando estivemos aí em Paris.
Entrevista
conduzida por António Cardoso
Julho
99
Entrevista
ao Dr. José Moreira de Castro
V.L.
: - Porquê ter escritório de advogado em Lisboa, Paris e Bordéus ?
J.M.C.
: - Porque há uns anos atrás, por mera coincidência, confluíram no
meu escritório de Lisboa, vários clientes portugueses, residentes em
França e aí emigrantes, usando a terminologia da época.
Acontece
que um advogado, quando se ocupa de um caso, judicial ou não, é-lhe
exigido um quase permanente contacto com o seu cliente, para informação
e esclarecimentos absolutamente indispensáveis, que se só se
processarem pelo correio ou por conversa telefónica, necessariamente
breve, tornarão a sua intervenção num suplício obrigando os clientes
a despesas e grandes incómodos.
Foi
então que lembrando-me da velha sentença que “Quando Maomé não vai
à montanha...” concluí dever ser eu a deslocar-me...
E,
assim, comecei por ter um gabinete em Paris, com advogados franceses e
um segundo em Bordéus, nas mesmas circunstâncias, aonde me desloco várias
vezes no ano, para se proporcionar o contacto directo com os clientes,
daí resultando manifesta vantagem recíproca.
V.L.
: - Como consegue conciliar a sua vida profissional e familiar com esses
três escritórios ?
J.M.C.
: - No aspecto profissional sem problemas, pois tenho uma filosofia de
aproveitamento do tempo que colhi da experiência e que consiste em
verificar que as pessoas muito ocupadas são sempre capazes de enfiar no
seu dia-a-dia, mais uma tarefa, sem sequer darem por isso, enquanto se
pedir, por exemplo a um reformado, a mais ínfima colaboração, a
recusa invariavelmente, com o pretexto de não dispor de tempo...
Quanto
o aspecto familiar, há necessariamente alguns custos, mais suportáveis,
se tiver uma família muito complacente, como é o meu caso.
V.L.
: - Sabemos que correu o mundo. Razões profissionais ou gosto de viajar
?
J.M.C.
: - Permita-se-me rectificar o exagero ; não sou nenhum globe-trotter,
embora conheça em boa verdade umas dezenas de países...
As
razões são maioritariamente profissionais e também institucionais,
mas confesso ter um entranhado e confessado gosto de viajar, uma espécie
de motor de arranque que me embala irresistivelmente.
V.L.
: - Paris é para si uma cidade especial ?
J.M.C.
: - Não é “uma” cidade é “a” cidade especial !
Se
me permitir uma comparação de luxo, inspirar-me-ia na célebre declaração
de Jonh Fitzerald Kennedy, quando em Berlim disse, em alemão “eu sou
um berlinense” para, por minha vez, afirmar “je suis um parisien”.
V.L.
: - Presumimos que tem muitas queixas de pessoas que foram burladas em
questões de imobiliário ?
J.M.C.
: - As questões que refere, serão essencialmente de duas espécies :
as consequentes de casos de arrendamentos e o timesharing.
Os
problemas da primeira, rarissimamente envolvem ilícitos criminais e
relacionam-se essencialmente com rendas não pagas, trespasses, denúncia
de contratos, etc...
Ao
invés, o “direito real de habitação periódica” (nome que a nossa
legislação dá ao timesharing) embora hoje já esteja muito trabalhado
e domesticado, quando se introduziu em Portugal, em finais de 1981, foi
fonte permanente e angustiante dos maiores problemas, esses sim a roçar
de perto formas de burla e que causaram a alguns meus clientes gravíssimos
problemas com a destruição maciça de muitos sonhos de boa aplicação
de poupanças.
V.L.
: - Quem tem pouco dinheiro, hesita em recorrer aos advogados por
pensarem que levam muito caro. Qual a sua opinião ?
J.M.C.
: - Esta é a primeira (e espero que última) pergunta que se me afigura
embaraçosa.
O
meu justificável espírito corporativo, empurrar-me-ia a registar que
tal entendimento das pessoas é falacioso.
Penso
todavia que se impõe considerar que esse pensamento não pode ser
generalizado, reconhecendo embora que aqui e ali há por vezes certos
exageros de honorários...
Lembro
que em todas as profissões, como em todos os rebanhos, há ovelhas
brancas e pretas, pelo que essa má fama abrangendo toda uma classe é
de uma tremenda injustiça.
V.L.
: - Foi um dos fundadores da Prevenção Rodoviária Portuguesa e da
Academia do Bacalhau. Qual é a sua motivação ?
J.M.C.
: - Há presentemente muitas Academias de Bacalhau, sendo certo que me
integrei na Academia do Bacalhau de Lisboa, desde a sua fundação em
1981, mas anteriormente já pertencia a Academia do Bacalhau de
Joanesburgo.
A
minha paixão de “compadre” (nome em que se assumem os sócios
destas academias) tem como pressuposto, os objectivos que as animam e
que se traduzem num sentido ecuménico da nossa portugalidade e na
divinização do gesto simples de ajudar o próximo.
Estas
academias são olarias onde se moldam amizades e se procura dar auxílio
aos carentes na vida, na sua forma mais sublime que é a intencional
discrição.
No
referente à Prevenção Rodoviária Portuguesa, que ajudei a fundar, há
mais de trinta anos, servindo-a deste então quase sem interrupção, a
motivação determinante é muito singelamente, a da minha dádiva possível
a uma instituição que promove uma sublime forma de amor pelo próximo.
Que
se traduz em lutar para que nas estradas se não morra, procurando-se
que em toda a humanidade, haja em cada dia, uma lágrima a menos e um
sorriso a mais.
António
Cardoso
Maio
99
Entrevista
a Tino Costa
O
nosso trabalho em órgãos de Comunicação Social, leva-nos a
frequentar com alguma assiduidade os sítios que estão na moda, a
participar em reuniões, conferências, debates, palestras, visitar
exposições e a aceitar o máximo possível de convites para recepções
e festas de toda a natureza. Somos uma equipa e obviamente dividimos as
tarefas. Tenho reparado desde há alguns anos que encontro praticamente
sempre Justino Costa. Sei que tem múltiplas ocupações particularmente
em estruturas ligadas á Comunidade Portuguesa. Tino Costa teria sido
indigitado últimamente para fazer parte da lista UDF para o Parlamento
Europeu, na sequência de um acordo entre o PSD e este partido político
Francês. A demissão de Marcelo Rebelo de Sousa teria atrasado a
assinatura deste acordo. Por tudo isto e admirados com tanto dinamismo e
determinação, quisemos falar com Justino Costa.
V.L.
: - Justino Costa, nós conhecemo-nos numa altura em que havia o
movimento das rádios, sabemos da sua implicação e dinamismo para que
as "coisas" das comunidades melhorem substancialmente ?
J.C.
: - Sim eu já muito antes das rádios combatia pelos direitos humanos,
para uma vida melhor para os residentes deste nosso planeta. É verdade
que quando vieram as rádios portuguesas, foi uma porta aberta, que
nunca tinha sido de tão grande impacto, para o desenvolvimento em todos
os domínios socio-culturais e políticos da comunidade portuguesa.
V.L.
: - .Presumo que não vive disso, qual é a sua actividade principal ?
J.C.
: - Eu nunca vivi das actividades sócio-culturais, associativas e
sindicais mas também vivo para isso, é um marco muito importante para
mim. Cada qual tem o seu apostolado e o meu seria esse. O meu destino
era ser padre ou dedicar-me inteiramente ao próximo, talvez faça rir
muitas pessoas, mais é sincero. É verdade que eu preciso de viver como
todas as pessoas e tenho exercido vários ofícios. Vim de Portugal onde
só fiz a quarta classe, por razões económicas e para fugir da guerra
colonial em 1965. Em França como autodidacta tirei um curso na Alliance
Française e obtive o diploma nacional de professor de francês. Mas não
fiz carreira de docente por várias razões, as familiares, entre outras
. Desde há 10 anos, é provavelmente o mais importante para os leitores
da Vida Lusa, sou director da Prest'Atlantique Service,é uma sociedade
de apoio para as pequenas e médias empresas no domínio da gestão, da
criação e desenvolvimento. Procuramos fazer o melhor, temos bons
resultados, para nós mas sobretudo para os nossos clientes.
V.L.
: - É uma empresa mais virada para a comunidade portuguesa, ou não só
?
J.C.
: - Inicialmente sim, estamos mais vocacionados para a comunidade
portuguesa porque escrevemos facilmente nas duas línguas, temos o
pessoal competente para gestão, temos como sócio um perito em
contabilidade, (ROC) temos a assistência de advogados portugueses e
franceses. Temos um serviço de apoio completo ás empresas. Os nossos
clientes podem dar-nos qualquer documento escrito em português e nós
traduzimos num francês correcto, para não dizer correctíssimo.
V.L.
: - Essa ajuda em gestão deve ser muito importante, até ao fim dos
anos 80 apareciam muitas empresas portuguesas que desapareciam
rapidamente devido a erros de gestão. As pessoas não tinham uma formação
adequada ás características da legislação francesa que é no mínimo
complexa ?
J.C.
: - Até aos anos 90/91, havia duas características empresariais :
aqueles que tinham realmente a vocação e o desejo de ser empresários,
e havia os que se tornavam empresários por obrigação para obter os
documentos. E isso é muito importante, agradeço-lhe essa pergunta
porque na altura houve muitas empresas de serviços que se aproveitavam
dessas pessoas que necessitavam ter documentos franceses, então
inscreviam-nos como artesãos, ou como uma pequena empresa comercial de
limpeza e outras profissões, quando as pessoas não estavam minimamente
capacitados, nem financeiramente, nem com conhecimentos do mercado que
é o mais importante. Nós nesse campo fizemos sempre uma escolha;
procurámos sempre elucidar os clientes que nos vinham procurar. Em função
da capacidade que os clientes demonstravam, e se nunca tivessem exercido
a profissão para qual eles nos consultavam, aconselhávamo-los a não
se meterem nisso e que procurassem outros meios, porque havia outras
possibilidades. Nunca levámos nada a ninguém por algum conselho, era
grátis, e mesmo se nos ocupávamos do dossier, só nos pagavam as
nossas diligências. Tínhamos muito cuidado porque assumíamos a
responsabilidade do que essas pessoas iriam fazer. Portanto, era
muito importante fazer uma selecção por consciência moral, mas
havia empresas que não tinham essa preocupação. Mas hoje, é um
prazer termos clientes que começaram com a nossa empresa e que
continuam connosco desde 1989, já têm filhos e boas casas e estão
bem, seguiram sempre os nossos conselhos. O nosso lema é "agir
para conseguir", haverá certamente muita gente e muitos dos nosso
clientes que ao ler esta entrevista, se reconhecerão no que digo e que
estão felizes, por trabalharem connosco.
V.L.
: - Tem conhecimento que houve empresas, nomeadamente empresas
portuguesas importantes, que aproveitaram este fenómeno de subcontratação
para enganar artesãos, por exemplo, para fazer moradias sabendo eles á
partida que essas pessoas que construiriam essas moradias não teriam
qualquer hipótese de responder ás regras contratuais dos contratos e
eram por isso obrigadas a trabalhar noite e dia para acabarem o trabalho
no prazo estipulado para não pagarem multas e juros de demora importantíssimos.
Para se instalarem em França estes artesãos utilizavam o primeiro
dinheiro que recebiam para alugar casa, comprar carro e em seguida não
conseguiam pagar os encargos sociais, impostos e ficavam portanto
falidos e em muitos casos na miséria. Tem conhecimento disso ?
J.C.
: - Infelizmente, todos nós temos conhecimento dos casos que me
descreve, é lamentável, mas há sempre aqueles que se aproveitam da
fraqueza do próximo para o explorar, não é somente em Franca, porque
ainda continua hoje mesmo a nível de empresas francesas, deixam as
pessoas iniciar uma obra, sem pedir os comprovativos de seguro, de
responsabilidade civil e decenal e no momento de pagar pedem esses
atestados que garantem o pagamento das caixas de previdência, seguros
etc. A nível das caixas mesmo se estão em atraso, até podem fazer
frente pagando aos poucos, mas a nível dos seguros profissionais assim
como, a responsabilidade civil e decenal, não tenho conhecimento de
nenhuma empresa que tenha a possibilidade de fazer um seguro retroactivo
e então o assunto fica paralisado. A empresa não recusa pagar, mas
como exige previamente esses documentos os subcontratados abrem falência.
Na Alemanha ainda é muito pior, há um escândalo terrível em relação
sobretudo á nossa comunidade e às comunidades turca, e kurda, portanto
está a ver que esses fenómenos, já vêm desde há muitos anos e
talvez até nem será neste século que deixarão de existir.
V.L.
: - Como explica o desaparecimento e a falência de algumas grandes
empresas dirigidas por portugueses que pareciam ir de vento em popa ?
J.C.
: - Eu penso que o fenómeno empresarial é assim feito, as empresas
aparecem e desaparecem. Quando vemos as estatísticas aqui em Franca por
exemplo, todos os anos cerca de 60 000 empresas são criadas e
desaparece mais ou menos o equivalente. É como na vida, desaparecem uns
para dar o lugar a outros. Depois,
há aqueles casos aos quais faz alusão, empresas de alto nível com
pessoas muito bem situadas na sociedade, que faziam a admiração de
muita gente e que subitamente deixaram de ter o sucesso que até ali
tinham tido...
V.L.
: - Alguns até que foram condecorados pelo Governo Português...
J.C.
: - Foram condecorados, alguns, deles até pelo Governo Francês. Na
altura talvez fosse meritório, não vou julgar aqui ninguém, até
porque sou amigo de alguns deles e não me ocupava da gestão dessas
empresas e mesmo que me ocupasse não o diria porque se trata de segredo
profissional. Penso que certas pessoas quando chegam a um certo ponto de
sucesso não têm limites. Isso acontece com artistas, com cantores e
com aquelas pessoas que nós gostamos e que de repente fracassam. No
mundo empresarial é preciso ter muito equilíbrio, trabalhar muito,
sofrer as consequências daqueles que nos deixam de pagar. Muitos são
obrigados a fechar empresas porque outros cessaram subitamente de lhes
pagar. É um problema que não sei como vai ser resolvido muito embora,
nos Tribunais de Comércio já haja possibilidade para que a curto prazo
ainda se possa fazer frente a estes problemas. Mas, para mim, difícil
é o facto de um empresário ter de assumir em 15 dias a decisão de
fechar uma empresa, para não ser condenado.
V.L.
: - Constatámos a falta de estruturas empresariais nas comunidades
portuguesas espalhadas pelo mundo e particularmente aqui em França,
para acompanhar esses problemas e facilitar a vida destes novos empresários,
nasceu por exemplo, no meio dos anos 80 um clube de empresários, que em
seguida aderiu a uma Confederação Internacional, em Portugal. Onde o
Justino Costa teve também funções de direcção.
J.C.
: - Tive e tenho.
V.L.
: - O que é feito desse Clube de Empresários e qual a resposta que têm
dado essas organizações a este género de problemas, ou não têm esse
tipo de funções ?
J.C.
: - O Clube dos Empresários surgiu nos anos 87/88 com a Império e com
o Dr. Santos Teixeira, eu entrei logo a seguir como secretário geral
adjunto e agora desde há 4 ou 5 anos sou secretario geral. O clube dos
empresários também teve uma função muita importante e que deve ser
sublinhada porque foi de grande relevo para a comunidade portuguesa.
Através desta instituição, conseguimos dar uma imagem, sobretudo para
os franceses, daquilo que nós somos e daquilo que valemos, nomeadamente
no mundo empresarial. Hoje em dia, temos um peso económico terrível em
França, as pessoas estão longe de imaginar o que valemos do ponto de
vista económico, social e cultural. Os franceses não nos reconheciam
este mérito. Pensavam sempre que éramos pedreiros, mulheres de
limpeza, gentis, trabalhadores, etc.. Através do Clube dos Empresários
tivemos reuniões a alto nível, debates, não se esqueça que nós, no
ano precedente à eleição do Presidente da República Francesa,
Jacques Chirac, convidamo-lo a uma reunião do Clube, no hotel Georges
V. Fomos sempre muitos criticados por fazer as nossas reuniões nos
grandes hotéis, mas é verdade, digo-lhe sinceramente que nem sempre me
agradava despender 500 francos para participar mas, como se justificava
por ser do interesse geral da comunidade portuguesa para a valorizar,
pois era com muito gosto que eu o fazia. Hoje é mais simples, mesmo
quando vem cá o Sr Carlos Carvalhas do Partido Comunista Português,
também já faz as suas reuniões partidárias num hotel 4 estrelas,
aqui ao lado na Place de l'Etoile, no Hotel Napoléon. Está a ver, que
hoje já tudo é normal, na altura não era bem assim, as coisas vão
evoluindo. Por conseguinte, o Clube dos Empresários teve a sua hora de
glória, agora está um bocadinho em baixo de forma mas vamos ver se
conseguimos dar um novo sopro, uma nova vida, talvez com novos empresários,
não fazer uma escolha selectiva só dos grandes empresários, porque os
grandes também já foram pequenos e eu lutei sempre para que nos ocupássemos
mais dos pequenos artesãos e incentivássemos os pequenos empresários
para que evoluíssem, mostrando-lhes que é preciso ter consciência das
responsabilidades que se assumem ao ser gerente ou PDG duma empresa.
V.L.
: - No fundo o que me está a dizer é que a função principal do Clube
dos Empresários era de mostrar aos franceses que estávamos cá, que
existíamos, que os empresários portugueses existiam e não se
limitavam só a ser pequenos artesãos e
profissões menores. Em termos de acções concretas o que é que
saiu finalmente destes anos de actividade ?
J.C.
: - Saíram várias acções concretas, conseguimos reunir os empresários
e pô-los a falar entre eles e até os próprios bancos, como eram
concorrenciais, não se reuniam. Trocaram-se experiências, objectivos,
consultaram-se vários projectos e nós sabemos que muitos empresários
fizeram negócios entre eles por intermédio do Clube dos Empresários.
Nós não tínhamos nenhuma percentagem sobre isso, mas o nosso
objectivo era de os por a conversar e de se conhecerem melhor. Isso foi
muito positivo. Tanto a nível português, como a nível francês. Acho
que se fizeram coisas muitas interessantes e que se podem continuar a
fazer. É uma questão de boa vontade.
V.L.
: - Porque é que há já 2 ou 3 anos que não se fala deste Clube ?
J.C.
: - É verdade que as actividades do clube diminuíram bastante, desde
que nasceu a Confederação dos Empresários Portugueses no Mundo. Nós
somos co-fundadores desse organismo, muito apoiado pelo ex-governo de
Cavaco Silva e que visava sobretudo grandes empresários. Pessoalmente,
fui convidado para dar a volta ao mundo mas isso era fora dos meus meios
e até para dizer sinceramente dos meus interesses. O meu interesse é a
comunidade portuguesa em França e os portugueses em Portugal, que
queiram trabalhar de uma
maneira bilateral e que precisem de informações.
V.L.
: - O Justino Costa foi eleito para o Conselho das Comunidades
Portuguesas, é membro do Conselho Permanente e representante pela
Europa no Conselho Consultivo da R.T.P.I.. Explique-nos para que serve
este Conselho e qual tem sido a sua acção ?
J.C.
: - A sua pergunta é pertinente mas muito interessante para os
leitores, gostaria de começar por lhe dizer que todas as recomendações
que os Conselheiros apresentam são prioritárias para as nossas
comunidades. Todavia, permita-me relembrar nós somos apenas um Órgão
Consultivo e por conseguinte sem poder de decisão final. No entanto
posso confirmar-lhe que perante a centena de recomendações elaboradas
e depositadas durante o Plenário do C. C. P. assim como outras
depositadas durante as reuniões do Conselho Permanente reunido na
Assembleia da Republica, para além das que já eram de prática
seguidas preza-nos constatar que já foram concretamente implementadas
cerca de 22 recomendações entre as quais 8 são propostas inovadoras,
de conteúdo importante e
com efeito positivo e
imediato para os emigrantes. Sem entrar aqui em pormenores, posso
citar-lhe , por exemplo, o Novo Regulamento Consular que define o novo funcionamento
interno dos serviços consulares cujo antigo regimento era completamente
arcaico visto que já
datava dos anos 1920 ; o novo Estatuto dos professores e dos cursos periódicos
de formação e reciclagem para professores, com frequência obrigatória
; a contratação local dos professores ; o estatuto dos funcionários
consulares ; a dinamização do Instituto de Camões ; no que se refere
à comunicação social foi estabelecido um Canal informativo dirigido
aos órgãos da comunicação social das comunidades - do qual a
Vida-Lusa também pode beneficiar - ; para os profissionais da comunicação
social das comunidades foi-lhes consagrado o Estatuto de Jornalista que
também não existia... Foi criado, também, o Cartão de identificação
do Conselheiro e divulgação dos nomes e endereços de todos os
conselheiros através dos consulados, etc. Tal como se pode apreciar
este Conselho procura trabalhar concretamente em prol de melhorar a vida
sócio-cultural, cívica e educacional, dos emigrantes em geral e no seu
dia a dia procurando coordenar as recomendações mais exequíveis a
curto prazo para ganharmos tempo e obter resultados concretos.
V.L.
: - Que está previsto nos próximos tempos ?
JC:
- Estamos convictos que cerca de trinta outras recomendações de grande
interesse geral para a emigração possam vir ainda a ser viabilizadas
até ao fim do ano em curso. Claro que também não podemos deixar de
frisar a nossa luta pelo aumento do orçamento do C.C.P. com a ajuda dos
Grupos Parlamentares dos partidos políticos que já citei.
VL:
- Então está contente?
JC:
- Fico muito triste e decepcionado quando se houve dizer que os
Conselheiros só falam em orçamentos e em dinheiros. Isso para além de
não ser verdade só significa ingratidão e mal agradecimento pelos
nossos esforços… Lamento dizer mas os que assim pensam são sempre
aqueles chamados da política do "deita abaixo". Inútil seria
acrescentar que sem dinheiro para fazer funcionar qualquer estrutura
sendo ela mesmo uma pequena Asso, considero que isto também é uma
realidade e como tal também não deve ficar aqui omissa...
V.L.
: - Que peso pode ter junto a Assembleia Nacional um Conselho das
Comunidades eleito por uma percentagem ridícula das comunidades
portuguesas espalhadas pelo mundo ?
J.C.
: - O peso do Conselho é sempre o mesmo. Depende do trabalho que fazem
os 100 conselheiros eleitos pelo mundo. Apresentam as reivindicações,
o trabalho do dia a dia. Nós só somos um conselho consultivo, não
executivo. Não podemos tomar decisões. Se pudessemos tomar decisões
muitas coisas já teriam mudado. As pessoas por vezes interrogam-se pelo
facto de termos sido eleitos há dois anos e pouca coisa ter mudado. Há
coisas que mudaram e outras que mudarão devido á nossa insistência e
á nossa perseverança junto das Secretarias de Estado, dos Ministérios
etc. As nossas Instituições não nos consultam regularmente, tomam as
decisões e só depois nos perguntam a nossa opinião. Isto é
tipicamente português.
V.L.
Não pensa que isso se deve á fraca participação eleitoral dos
principais interessados ?
J.C.
: - Eu penso que não. Houve esse factor que na altura chocou muitos,
salvo os Governantes porque eles sabiam á partida que a informação não
tinha circulado normalmente e devidamente e que haveria um número
restrito de votantes. A prova é que eles tinham organizado as eleições
de maneira a que tal como vocês jornalistas denunciaram. Se o número
de eleitores fosse elevado os Consulados teriam de ter porta aberta
durante várias semanas só para o escrutínio. Creio que houve um
jornalista, não sei se foi o António Cardoso, que calculou o número
de votantes por minuto, (fui sim Senhor) e que dava um valor total
impossível de absorver pelos serviços consulares dentro do prazo
estipulado para a votação. Foi positivo porque isso permitiu ao menos
actualizar os ficheiros dos Consulados.
V.L.
: - Então, quando votaram essa lei, já sabiam que o sucesso ia ser
limitado, era afinal uma forma de nos "mandar areia para os
olhos" ?
J.C.
: - Era legitimo pelo facto de se tratar de um sufrágio universal. Há
um começo para tudo, vamos perdoar-lhes esse pequeno pecado de princípio
por ser a primeira vez. Agora o problema que se põe, é saber porque não
funciona bem. Algumas pessoas que foram eleitas, têm o titulo e
limitam-se a criticar, dar umas bocas nos jornais e nas rádios mas
concretamente no terreno não fazem nada. Portanto desses não rezará a
história, porque daqui a dois anos quando houverem novas eleições, os
nossos compatriotas, julgarão quem é quem para os representar a partir
desse momento
V.L.
: - Que devem fazer os conselheiros exactamente ?
J.C.
: - Acho que houve de início um pequeno choque psicológico, porque
julgava-se, talvez, que pelo facto de uma maioria de Conselheiros ser de
tendência pro-Governo, que as coisas se iriam passar da melhor maneira
no melhor dos mundos. Eu falo pela França, vamos esquecer por agora o
resto do mundo. Há Conselheiros e falo por mim, que não fizeram nem
fazem o "jogo" de ninguém, neste ou noutro Governo. Eu fui
eleito pela Comunidade Portuguesa e é a essa Comunidade que eu tenho de
prestar contas e não vou compartizar com quem quer que seja desde que
os interesses da Comunidade estejam em jogo, também é o caso de
Conselheiros como José Machado, João Machado, Manuel Jorge, Jorge
Silva, que mesmo sendo alguns deles membros de um partido, fazem o seu
trabalho apolíticamente. Nem sempre é fácil, mas o dever dos
Conselheiros, é não ver a política em todos os cantos e defender os
interesses gerais da Comunidade Portuguesa mesmo que isso vá contra os
interesses dos seus Partidos políticos.
V.L.
: - Como se traduz a função e os poderes do Conselho das Comunidades ?
J.C.
: - Temos o poder de informar, de solicitar, de reivindicar e exigir mas
nossas funções limitam-se a isso. Somos mal vistos, quando estamos
contra uma ideia do governo ou das instituições e dizemos a verdade
por inteiro. Podemos falar livremente porque não somos pagos por ninguém.
Eu falo por mim. As nossas funções mais importantes são em Portugal
na Assembleia Nacional quando podemos debater com o Secretário de
Estado e Parlamentares, discutindo sobre as lacunas que vem surgindo a nível
mundial.
V.L.
: - Tem bastantes actividades, política, associativa, câmaras de comércio
profissionais como consegue conciliá-las com a sua vida privada ?
J.C.
: - Tenho uma vida associativa muito intensa, a família é que sofre as
consequências, mas acho que nasci para isto e não me vejo viver de
outra maneira, felizmente a minha esposa aceita porque ela já sabia que
eu era assim. Faço o que posso. No entanto os anos passam, para além
de ter sido militante CGT, nos anos 76-77, de ter combatido o antigo
regime e vou dizê-lo pela primeira vez, fui preso pela Pide, nunca o
divulguei publicamente porque não tem interesse nenhum, faz parte de um
passado obscuro, perdi seis meses da minha vida, era na altura em que eu
estudava aqui, para além do meu trabalho, portanto perdi um ano de
estudos mas consegui recuperá-lo no ano seguinte trabalhando de dia e
estudando à noite. Tenho efectivamente uma vida bastante activa e conheço-a
por dentro, por isso sou sensível aos que me pedem ajuda.
As
câmaras profissionais são sindicados profissionais, nacionais ligados
os teleservicos que é uma profissão nova, e outro ligado aos centros
de negócios. Em França são profissões novas, nos Estados Unidos está
bastante desenvolvida. Na Europa está em plena expansão desde há 10
anos, e faltava uma convenção colectiva. Tive muita honra em iniciar
as negociações com o Ministério do Trabalho Francês. Talvez por isso
os colegas me solicitaram para eu fazer parte do Conselho de Administração,
inicialmente nos serviços e agora também nos centros de negócios
sendo ainda responsável pela secção de Ile de France, o que me leva a
passar em média uma hora por dia a informar todos aqueles que solicitam
diversas informações, não só os clientes mas também os colegas
profissionais. Há centros de negócios em França que manipulam milhões
de francos. É uma grande responsabilidade, mas que me dá alguma
riqueza, nomeadamente informação, estou a par de toda a legislação,
o que me é útil tanto para mim como para a minha empresa, a
Prest'Atantique Services. Portanto aqui é mais o lado profissional mas
sempre com a ideia de poder fazer beneficiar os outros da minha experiência.
V.L.
: - Temos a impressão que há um princípio de desaparecimento da
clientela portuguesa dos comércios portugueses, nomeadamente dos
restaurantes, que também não têm uma frequentação suficientemente
por parte dos franceses. Que pensa disto ?
J.C.
: - Isto é tipicamente português. O Português é um aventureiro,
somos uma nação e um povo formidável. Há 10 anos atrás surgiram
entre outros comércios e a área da restauração foi muito abrangida
pela comunidade portuguesa. Todavia, como sabe, as pessoas não tinham
nenhuma formação de cozinha e do serviço. Íamos a determinadas casas
onde estava tudo muito bonito mas o essencial não estava adequado ao
que se procurava, ou seja a gastronomia. As pessoas tinham algum
dinheiro e conhecimentos, julgando por isso que se podiam lançar em
qualquer negócio sem a preparação e a formação necessária. Não é
forçoso que o dirigente tenha conhecimentos suficientes mas deve no mínimo
ter gente com requisitos e capacidade profissional para desenvolverem
essas actividades. Mais isto não é só na restauração, é em todas
actividades. Para mais o que se passa é que os portugueses instalam-se
na maior parte dos casos em lugares onde já há muita concorrência.
V.L.
: - Mas a implantação de vários comércios numa mesma zona atrai
geralmente muito mais consumidores ?
J.C.
: - O problema que se põe é que a restauração é muito especial. O
desaparecimento de alguns restaurantes foi muito saudável porque os que
permanecem ficam com a noção que devem dar a qualidade que o cliente
está em direito de esperar. Em relação ao
desaparecimento de muitos outros comércios, é uma questão de
aventura, querem fazer como o vizinho, têm projectos mas não fazem
estudos de mercado, não têm pessoas competentes para os ajudar, não
fazem cálculos, começam por comprar muita coisa. Por vezes não é um
problema de competência mas de formação.
V.L.
: - Isto também justifica em sua opinião, que os franceses frequentem
tão pouco os restaurantes portugueses ?
J.C.
: - É pena que os franceses não venham aos restaurantes portugueses, nós
vamos sempre aos restaurantes portugueses, somente vamos comer
praticamente sempre a mesma coisa. Conhecemos o menu que os restaurantes
nos propõem, não há diversidade, não inovam. É preciso inovar,
procurar, satisfazer o pedido da clientela.
V.L.
: - Na sua qualidade de Conselheiro, co-fundador de rádios e de
residente, qual é a sua visão sobre a situação da Comunicação
Social para os portugueses em França ?
J.C.
: - Para utilizar uma expressão popular, não estamos descalços mas
estamos quase nas lonas. Nos anos 1980 quando criámos as rádios, era
uma coisa interessante, chamávamos a atenção da comunidade, hoje já
não se vê nada, parece que estamos a andar para trás. Há programas
que têm um sentido destruidor, considero que é inadmissível quando se
trata de uma comunidade, fazerem anúncios ou emissões sobre bruxaria.
Por vezes reflicto se temos realmente as rádios ou os jornais que
merecemos ? Ou simplesmente não sabemos reivindicar aquilo que gostaríamos
de ter. À força de bater na tecla, as coisas mudam, mas as pessoas
criticam, não sou mensageiro do diabo mas dizem que a rádio não vale
nada e os programas são nulos. Também não é assim, a rádio vale o
que vale, tem os programas que tem e tem também o auditório que tem.
V.L.
: - Tem o mérito de existir...
J.C.
: - Exacto, o que eu receio mais é que as pessoas deixem de ouvir a
nossa própria rádio e aí é que será realmente grave. Uma programação
pode ser alterada, eu fui Director de programação durante muitos anos
e sempre fui muito sensível às críticas do auditório e nas nossas
reuniões procuramos sempre adaptar a programação aos anseios da
comunidade. Espero que as pessoas responsáveis e dignas desse nome,
nesta rádio da região parisiense que é a única e por isso tem uma
responsabilidade máxima perante o seu auditório, tenham em atenção
as sugestões e as críticas. Também não está tudo assim tão mal,
muito embora tenha notado ultimamente a ausência de animadores, não
sei se por razões pessoais ou porque foram excluídos. É pena pois
trata-se de pessoas de bom nível cultural, que traziam qualquer coisa
para a comunidade. Mas o que está realmente a deteriorar a nossa imagem
são as horas concedidas aos marabus. Nós não podemos vender uma
comunidade por dinheiro nenhum ao diabo. Essas pessoas só vivem em
detrimento da fraqueza dos nossos compatriotas, pois os que recorrem a
esses videntes ficam por vezes ruinados e penso que os responsáveis
pela rádio terão que ter em conta esse fenómeno. Sei que é difícil
pagar os encargos e todas as despesas, mas é preciso reagir e procurar
sensibilizar as empresas e instituições para que publicitem e talvez
permitir o acesso a empresas mais pequenas com preços mais razoáveis.
V.L.
: - Mais a Comunicação Social não se limita à rádio, temos televisão,
jornais...
J.C.
: - Isso é outro problema, os jornais, a nível da França temos o
“Encontro” que existe há muitos anos e que faz o que pode, por
vezes dá a impressão que vai evoluir e alguns meses depois dá uma
reviravolta não sei porquê e parece estar sempre na “cepa torta”.
Penso que talvez não tenha apoio suficiente do Governo Português.
Depois há a “Vida Lusa” que nasceu há ano e meio, e que parece
estar no bom caminho pois vai aumentando o número de páginas. A nível
do Conselho das Comunidades temos pedido ao Governo para apoiar a
Imprensa regional e a Imprensa da emigração. Depois temos os jornais
que vêm de Portugal que têm o impacto que têm, alguns são muito
politizados, outros menos. A RTPI, foi uma das armas sócio-educacionais
mais importantes que o Estado Português criou. É fenomenal como órgão
de comunicação social, mas nunca foi aproveitado e continua
desprezado, assim como os telespectadores. Estou bem situado para falar
disso, visto que fui eleito pelos meus pares para representar a Europa
junto do Conselho Consultivo da RTPI e até agora ainda estamos à
espera de ser convocados para dar a nossa opinião sobre as emissões.
Agora apresenta
-se
a SIC, com um noticiário muito interessante em directo de Portugal,
assim como na RTPI. O resto, não há evolução, continuam a difundir
programas antiquados, repetidos, “vira o disco e toca o mesmo”.
Investe-se muito mais na RTP África para as ex-colónias, compreendo
isso para que eles continuem a manter viva a língua de Camões, mas não
se podem pôr de parte os cinco milhões de portugueses espalhados pelo
mundo, que estão a ficar desamparados e cujos filhos vão deixar de
falar português.
António Cardoso
Abril
99
Maria
Galhardo...
Depois
do sofrimento, chegou o sucesso
V.L.
: Conte-me a sua vida...
M.G.
: A minha vida, tenho muita coisa para contar... Tinha 13 anos quando
vim para a França com o meu irmão e cunhada, de assalto como a maioria
dos portugueses.
A
viagem até a França durou 4 dias. Cheguei em 1968 no momento das
greves, havia muita fome, não havia trabalho. Acabei por arranjar
trabalho e cá fiquei estes anos todos.
V.L.
: Como se passou essa primeira viagem para França. Tinha pontos de
apoio ?
M.G.
: Tínhamos apoios nos diversos sítios de passagem organizados pelos
passadores. Quando chegamos a Paris, tínhamos também familiares dos
passadores à nossa espera, alias um deles era da minha família.
V.L.
: Como começou a sua vida aqui com 13 anos, foi para a escola ?
M.G.
: Não, só fiz a quarta classe em Portugal. Tinha cá uma irmã e
comecei a trabalhar com ela “ao negro”. Depois aos 18 anos tive os
“meus papeis” e comecei a trabalhar como todas as portuguesas. Fiz
um pouco de tudo, trabalhei em fábricas, fiz limpeza, etc.
V.L.
: Qual foi a sua primeira impressão quando chegou a França ?
M.G.
: Cheguei a um país que para mim era uma coisa fora de série. O que me
impressionou mais, foi ver tanta luz numa
cidade
porque eu não sabia o que era ter luz. Sair da candeia e do escuro para
uma cidade destas !...
Mas
passei muita fome, vivíamos
dezenas de pessoas nas barracas de St Denis em espaços de 15-20 m2 e em
condições de higiene deploráveis.
V.L.
: Qual é a sua pior lembrança dessa altura ?
M.G.
: Foi ter sido enganada, ficar grávida, e sendo tão jovem, ter de me
ocupar do meu filho sozinha.
V.L.
: E a melhor ?
M.G.
: Quando acabou a greve, juntamo-nos várias pessoas e fomos roubar umas
ovelhas de um rebanho. Fizemos um mechoui e enchemos a barriga.
V.L.
: Como foi a evolução desta situação ?
M.G.
: Fui trabalhar para uma casa onde fiquei 9 anos. Em seguida encontrei
outro trabalho, mas não aceitavam o meu filho, portanto comecei nos
restaurantes onde por vezes servia e cantava ao mesmo tempo.
V.L.
: Começou a cantar por gosto ou para agradar ?
M.G.
: Gosto de cantar, canto na casa de banho, na cozinha, na rua, mas também
gosto de agradar.
V.L.
: O facto de ter agora dois restaurantes deve-se à sua vontade de ser
empresária da industria hoteleira ou de possuir um restaurante onde
possa cantar ?
M.G.
: O meu objectivo era de ter um restaurante onde pudesse eu própria
decidir o que oferecer à clientela. Foi sempre o meu sonho e realmente
consegui concretizar.
V.L.
: E o próximo objectivo ?
M.G.
: Trabalhar mais 3 ou 4 anos e depois descansar. Ainda sou nova mas já
trabalhei muito. Em contrapartida, no fado, queria cantar até aos 80
anos (risos...). Gostaria de dar o último espectáculo com 80 anos.
V.L.
: Qual são as suas perspectivas para este novo restaurante “O Palácio
das Guitarras” ?
M.G.
: As perspectivas é ter muitos clientes, portugueses e franceses. A
inauguração foi o mês passado, agora vamos tentar fazer o melhor possível
para que os clientes se sintam bem.
V.L.
: Quantos lugares tem e que vai propor à clientela ?
M.G.
: Temos 80 lugares à vontade no rés-do-chão e 120 na sala de baixo
onde vamos ter guitarras aos finais da semana e cozinha
franco-portuguesa.
E
assim foi a nossa conversa com a simpática e sempre jovem Maria
Galhardo. Cheia de garra e do saber que a dura vida lhe trouxe, não
temos dúvidas que o seu novo restaurante vai alcançar a mesma ou ainda
maior dimensão que o Pátio das Cantigas. Desejamos-lhe o maior
sucesso.
Fevereiro
99
Augusto
Graça
«O
Fado é a expressão da alma portuguesa. A palavra Fado deriva do latim
(fatum) que quer dizer, fatalidade, destino. Mas no fundo, o Fado canta
a Vida, acentuando o amor, vicissitudes e contrariedades. Entretanto,
para nosso orgulho e congratulação, é a única Canção Urbana, que
continua viva na Europa, nos dias de hoje. Portanto, quando se fala de
Fado, falamos implicitamente da alma de todo um povo que se chama
Portugal».
Este
é o texto de apresentação do CD que Augusto Graça lança este mês,
em Paris. Tivemo-lo connosco e, de uma forma ligeira, quisemos saber
mais acerca de si e do seu trabalho.
V.L.-
Como é que entrou neste universo ?
A.G.-
Nasci no Barreiro e, ainda muito cedo, estávamos na década de
sessenta, comecei a cantar e a tocar bateria, em algumas bandas.
Lembro-me, por exemplo, de ter actuado com o Valentim Félix. Mas
entretanto fui chamado a cumprir o serviço militar .
V.L.-
Deixou a música ?
A.G.-
Não. Tive a sorte de durante a tropa estar sempre ligado à música.
Cruzei-me nessa altura com o Zé Nabo que também começava os primeiros
passos musicais. Durante a especialização fui convidado para
representar o meu Regimento, no Palácio de Cristal no Porto. Claro que
fiquei vaidoso e cantei o Fado ao lado do Armindo Fernandes Foi um
sucesso !
A
seguir entrei para o programa militar, na rádio, «Alerta Está», onde
participavam também o Paulo de Carvalho, o Fernando Tordo, o António
Sala, o Carlos Zel…
V.L.-
Quer dizer, quando acabou a «tropa» ficou em Lisboa ?
A.G.-
Sim. Comecei a tocar e cantar em orquestras e a actuar em várias «boites»
de Lisboa. Foi a minha altura da música ligeira e do fado canção, porém
nunca me afastei do fado vadio que foi sempre a minha paixão. Fui também
baterista do António Calvário.
V.L.-
De repente, Paris. Porquê ?
A.G.-
Na altura para além da minha vida artística, era funcionário dos
Correios, quis criar uma empresa e apesar de ser um projecto viável,
faltaram-me os apoios, fiquei revoltado e deixei tudo, vim para Paris.
Estávamos nos anos 80. Comecei a cantar o Fado em vários restaurantes
e surgiu um convite para integrar a Orquestra Portuguesa, do Globo, onde
estive 2 anos. Formei também uma banda, mas teve vida curta. No
entanto, nunca deixei de privilegiar o fado. Participei nos Festivais
organizados pelo José Fernandes e a Publi Portugal. No 1° ano fui à
final ao Olímpia e no 2° fui à final na Mutualité.
Depois
por volta de 1990 comprei um café em Drancy, que explorei até 1997.
Mais uma vez os reveses de vida fizeram-me alterar o meu rumo e cá
estou eu, neste momento dedicado de alma e coração ao Fado.
V.L.-
Este C.D. é então o comemorar de uma nova etapa ?
A.G.-
Sim. Cantei, há tempos, para amigos, num restaurante de Paris. Tinha o
meu neto comigo, que me aplaudiu de tal forma que de emocionado prometi
fazer cada vez melhor. Surge assim a ideia da gravação. A partir daí
tem sido um rodopio de acção. Estou convicto da qualidade deste C.D.
V.L.-
Qual o título ? Quem escreveu e compôs a letra e música ?
A.G.-
Chama-se Cântico Lusitano. São temas de música antigos e as letras são
escritas por mim, pelo Paco Gonzalez. Contei com o apoio da D.C.A.
Production.
V.L..-
Final de século, um C.D. na forja, como é que se sente ?
A.G.-
Triste e desiludido com os homens… Mas com garra para prosseguir !
V.L..-
Escutando os temas «Voz do Sono» e «Que Sonhos Meu Deus que Sonhos»,
acredito que o que expressa ao cantar estes fados é realmente o que me
acaba de transmitir mas também consigo perceber que existe por trás
dessa aparente mágoa uma grande essência de vida !
Sucesso
é o que desejamos ao Augusto.
A.L.
de Castro
Junho
98
TAP
AIR Portugal mais
próxima da comunidade portuguesa
Entrevista
com Francisco Silva, Director em França
O
Senhor Francisco Silva veio de Escandinávia. Há uma diferença muito
grande de mentalidade e de hábitos entre os países nórdicos e os
latinos. Foi fácil adaptar-se aqui a França?
Sim,
são países completamente diferentes. A maneira de trabalhar também é
diferente. Costumo parafrasear um autor de um livro americano que viveu
na Europa muitos anos e que escrevia que poderíamos dividir a Europa em
duas partes totalmente distintas , traçando uma linha em Bruxelas.
Acima dessa linha as pessoas são terrivelmente organizadas, muito
profissionais na sua maneira de actuar e de fazer a sua vida, mas pouco
imaginativos. Abaixo dessa linha, são menos organizados, mais
preocupados com a sua vida privada que propriamente a profissional, mas
agindo sempre de uma maneira muito imaginativa. A adaptação foi
positiva porque apesar de ter vinte anos de Suécia e uma formação
nesse país, sou Português, sou latino e considero que tenho a grande
vantagem de poder aproveitar as coisas positivas de cada lado da tal
linha. Vim encontrar aqui em França gente muito profissional e também
algumas pessoas menos motivadas, mas no fundo é muito positivo.
Como
a Tap muda de escritórios e o endereço do balcão de vendas, a sua
missão em Paris tinha como objectivo reestruturar a delegação ?
Sim,
uma das minhas qualidades a nível de gestão, era de ser um excelente
formador de equipas. Está no meu currículo, já fiz várias equipas
durante a minha vida de gestor. Portanto a ideia de vir cá para França
era de reestruturar de uma certa maneira, de criar uma nova equipa que
se adaptasse às novas exigências que a aviação comercial está neste
momento a enfrentar. Estamos já a criar uma equipa, ainda não está
completa, mas as pessoas já estão a compreender o que é trabalhar em
conjunto para a Tap e essencialmente para os nossos clientes que é a
nossa principal preocupação nomeadamente em relação à comunidade
portuguesa que representa a maioria.
Não
será depreciativo para a Tap ter vindo de Paris 14 para o Boulevard de
la Madeleine e agora voltar para um bairro menos prestigiado ?
O
que é essencial, é o serviço que se presta ao cliente. O importante
para os nosso clientes é na altura em que eles aparecem no aeroporto
para viajar. É prestigiante a Tap voar 4 vezes por dia entre Lisboa e
Paris e 3 entre o Porto e Paris. Temos uma média de 12 voos por dia
entre a França e Portugal, isso é que é prestigiante. Agora o facto
de estarmos na Rue Férrus ou na Opera não vai alterar o serviço que
prestamos aos clientes, bem pelo contrário pois ao diminuir custos
vamos poder melhorar o
atendimento e o serviço aos nossos clientes.
Lembra-me
de um alto responsável da delegação da Tap em Paris me dizer que não
valia a pena gastar dinheiro na comunicação para a comunidade
portuguesa pois esta era uma clientela adquirida e que era mais
proveitoso passar anúncios no meio francês. Está de acordo com esta
afirmação ?
Lamento
uma afirmação dessas, porque em qualquer actividade tem sempre que se
motivar a nossa clientela. Portanto nunca poderemos dizer a nível de
vendas ou de marketing que
temos uma clientela adquirida, a não ser que entrasse-mos talvez numa
situação monopolista o que não é o caso da Tap que tem concorrência
com outras companhias. Portanto eu considero e foi uma das coisas que
antes de chegar aqui já me apercebia tanto pelos jornais como através
de amigos aqui de França que a comunidade era importantíssima e a única
razão que motiva a Tap a ter doze operações diárias neste momento
com a França é a comunidade portuguesa. Sem essa comunidade talvez se
justificasse só um ou dois aviões por dia.
No
último número deste magazine havia um título de capa, Viajar para
Portugal um negócio étnico. E o mercado normal entre dois países ?
Naturalmente
que em França existe algum potencial a nível de turismo. Temos aqui
estudos de mercado que revelam que só 7% dos franceses viajam para o
estrangeiro e desses 7%, 55% viajam para países francófonos. Portanto
o número de francese que viajam para o estrangeiro é reduzido e estão
sujeitos ao marketing dos outros
países assim como a Espanha, Itália etc. Não descoramos isso, estamos
a trabalhar com operadores turísticos com os quais temos acordos, mas a
comunidade é e continuará a ser, julgo eu por muitos anos o factor
mais importante da nossa inserção aqui em França. A própria
comunidade também se está a desenvolver sob vários aspectos e daqui a
uns anos vai ser um factor importante de desenvolvimento do mercado turístico
para Portugal. A Tap tem uma função muito importante nisso e está
muito orgulhosa por isso. Esta nova atitude da Tap não é só aqui do
Senhor Francisco Silva, isto vem da Administração que ao fazer uma análise
do estudo de mercado constatou que, do Presidente ao empregado mais
simples da Companhia, servir a comunidade nos países onde ela está
inserida, é fundamental.
Em
determinada altura foi criado um serviço de apoio nos aeroportos com
pessoal português maioritariamente jovem, designadamente em Orly. Esse
serviço foi extinto pelo seu antecessor. Temos conhecimento que muitos
passageiros ficaram descontentes por isso. Qual é a sua opinião.
Nós
continuamos a ter serviço próprio. Neste momento, quando os nossos
passageiros vão para Orly, têm sempre um representante da Tap no
Chek-in e no nosso balcão. A nova situação em Orly oeste dá-nos essa
facilidade de estar próximos das operações e está sempre alguém da
Tap para qualquer ajuda que os passageiros necessitem. Gostaríamos de
ter todo o pessoal da Tap mas isso implicaria custos suplementares que
teriam repercussão nos bilhetes. Os custos do transporte aéreo em França
são caríssimos nomeadamente os de aterragem são exorbitantes e
portanto temos que pensar na rentabilidade e por isso limitamos o
pessoal, mas a França até está bem servida. No balcão toda a gente
fala português e no embarque temos pessoal próprio.
Neste
momento temos a última exposição mundial do século, a Expo 98 em
Portugal. Temos constatado que exceptuando algumas revistas importantes
que decidiram por conta própria consagrar algumas páginas a Portugal,
a promoção da Expo foi ridícula se compararmos com a de 92 em
Sevilha. Posso também afirmar que ainda há portugueses que não estão
informados. Está de acordo ?
Creio
que o governo português decidiu que os mercados prioritários eram
Portugal e a Espanha. Eu próprio contactei a Expo e pedi ajuda para uma
campanha de marketing conjunta em relação a França e a resposta foi
esta. Julgo que as razões fortes prendem-se com a limitação de espaço,
hotéis etc. Em Lisboa não há neste momento um quarto de hotel disponível. Temos clientes que vão ter de ir para o Porto para visitar a
Expo. Talvez por isso Portugal limitou a promoção ao mercado mais próximo
ao contrário do que fez Sevilha que teve promoção a nível mundial
mas foi confrontada a problemas logísticos enormes. Podemos criticar
pois é uma oportunidade única de Portugal se afirmar a nível mundial
e especialmente num mercado importante como o de França. Nós aqui na
Tap queríamos aproveitar esse acontecimento para através dos nossos
aviões melhorar a nossa rentabilidade e a nossa presença neste
mercado. Reforçamos a capacidade dos aviões, fizemos preços especiais
e temos os aviões completos.
Mas
em Sevilha existiam vários hotéis flutuantes com centenas de quartos e
alguns foram fretados na Rússia. Só estarão aparentemente dois no
Tejo. Ora o espaço disponível no Tejo é certamente muito mais vasto
que o do Guadalquivir...
Claro
que a situação geográfica de Lisboa é muito melhor que de Sevilha
devido nomeadamente à proximidade do aeroporto e provavelmente a Expo
poderia ter aumentado a sua capacidade logística. É de lamentar talvez
, que Portugal não aproveite esta ocasião única mas nós portugueses
somos um pedacinho modestos nestas situações e talvez seja esta a razão.
Está
de acordo que viajam à volta de 5000 pessoas em média por dia para
Portugal ?
Anda
à volta disso temos um movimento extraordinário para Portugal.
Gostaria de realçar algo em relação ao mercado francês e temos aqui
para comprovar um programa de informática que nos permite verificar. O
destino prioritário dos franceses para o exterior é Nova York e logo a
seguir é Portugal. Isto no total de reservas feitas pelos agentes de
viagens.
Porque
é que a Air France não põe mais aviões, nomeadamente nestas alturas
de grande tráfego ?
A
Air France considera Portugal um mercado importante e constata-se pelo
facto de ser o segundo destino dos franceses depois de Nova York, agora,
se eles não põem mais aviões é porque há uma ligação entre nós.
Quando acrescentamos aviões eles acompanham. Em tudo são à volta de
22 aviões por dia neste momento entre os nossos e os da Air France.
Agora vamos ver depois da Expo. Para saber se isto vai continuar se vai
estabilizar. Entretanto a comunidade já vai entrando nas novas gerações
e as razões de ir a Portugal vão-se diluindo e isso é uma coisa que não
podemos prever de uma maneira concreta.
Neste
momento os aviões estão cheios e isso cria problemas enormes para
todos aqueles que viajam com frequência para Portugal como é o meu
caso. Temos a impressão de voltar alguns anos atrás quando a oferta
era muito mais reduzida...
Houve
um crescimento espectacular e também um acréscimo devido à Expo, mas
temos o crescimento natural. A Tap e a Air France estão a estudar neste
momento o aumento de frequências. Nós queríamos aumentar os voos de 4
para 5 para Lisboa e de 3 para 4 para o Porto durante o ano inteiro mas
temos limitações a nível de Orly já que o aeroporto fecha às 23
horas. Estamos a estudar a hipótese de pôr um voo à noite em Charles
de Gaulle. Já temos um ao fim de semana que está a funcionar
razoavelmente. Se pudesse-mos nós decidir sem limitações ao nível
operacional, garanto-lhe que punha um avião a sair de hora a hora
devido à capacidade deste mercado.
Já
confirmou a sua vontade de acarinhar a comunidade portuguesa.
Concretamente como é que isso se traduz ?
Tenho
tido contactos diariamente com conterrâneos nossos a todos os níveis,
neste momento as contratações são efectuadas junto dos
lusodescendentes. A nossa política é de acompanhar e de ser de certa
maneira um suporte da comunidade e estou agradavelmente surpreendido com
a variedade e a qualidade da oferta de algumas empresas dirigidas por
portugueses. Neste momento estamos a dotar os nossos serviços de informática
das novas tecnologias entre as quais a internet e intranet e é uma
empresa portuguesa que está a tratar disso.
Tem
havido alguns atrasos importantes nos voos estes últimos tempos e
ultimamente um avião fretado pela Tap ficou bloqueado em Lyon, segundo
sei por decisão sua, porque
tinha ainda as cores de uma Companhia da Indonésia.
Agradeço-lhe
a oportunidade que me dá de explicar o que aconteceu. Efectivamente a
Tap tem operado nos últimos com certas irregularidades devido a
problemas operacionais essencialmente por falta de tripulação. Pedimos
desculpas aos nossos clientes e aos nossos conterrâneos que esperam da
Tap performances de alto nível. Estamos a tentar por todos os meios e
até o recurso de contratação de charters para limitar ao máximo
estas inconveniências. Esperamos que dentro de um mês as coisas
estejam a funcionar com normalidade. Quanto ao avião que mencionou,
aconteceu o seguinte:
A
Tap em Lisboa contratou um avião francês à Corsair ora o avião ainda
tinha as cores da Garuda, uma Companhia da Indonésia. O avião devia
fazer Paris, Lyon e Lisboa, fui prevenido e o avião já estava no ar. Tínhamos
de tomar uma decisão imediata e julgo que os passageiros compreenderam
e tomavam a mesma decisão se estivessem no meu lugar. Não podíamos
aceitar que um avião da Indonésia aterrasse em Portugal, portanto
exigi que esse avião fosse substituído pela Corasair. Tivemos 5 horas
de atraso. Isto foi uma falta de informação da Corsair e um não
cumprimento de um contrato que propriamente um erro da Tap. Agora já
enviamos uma circular para todas as Companhias para terem os cuidados
necessários e isso será verificado pelos chefes de escala para evitar
que estas situações aconteçam.
António
Cardoso
Maio
98
Viajar
para Portugal
Um
negócio étnico ?
Entrevista
com Carlos Do Vale das agências C. O. Voyages.
Carlos
é um profissional do turismo ?
A
minha carreira profissional iniciou-se na Tap Air Portugal nos anos 90
tendo passado por vários serviços tais como reservas, grupos, serviços
administrativos. Começar nesta profissão por uma Companhia Aérea foi
importante pois ganhei bastante experiência dos diversos aspectos do
transporte aéreo.
Agora
é o outro lado da barreira enquanto agência pois está confrontado em
permanência às negociações com as companhias.
Sim
de fornecedor passei a consumidor, ou melhor sou intermediário dos
passageiros.
Qual
é o melhor ?
Ambos
são agradáveis. Na Tap também trabalhava com clientes directos. Hoje
estando a trabalhar por conta própria tenho simultaneamente negociações
com os fornecedores e com os clientes.
Como
este magazine se dirige especificamente aos lusófonos, vamos falar do
mercado português em particular. Não acha que viajar para Portugal se
tornou de novo muito caro ?
Depende
como é analisado e desde quando. Quando entrei na Tap, o bilhete mais
barato para Portugal eram as ditas tarifas imigrantes ou emigrantes que
hoje deixaram de existir. Um bilhete custava 3 900 francos e as pessoas
viajavam menos porque havia menos oferta.
Apareceram depois vários charters a oferecerem transporte aéreo
para Portugal e os preços baixaram. Por
sua vez a Tap e a Air France, para combater esses concorrentes,
colocaram mais oferta no mercado, mais voos para Lisboa, Porto, Faro ou
Funchal. Automaticamente havendo mais oferta, tiveram que rever os preços.
Pelo facto de Portugal ter entrado na Comunidade Europeia desapareceram
as tarifas imigrante e apareceram os primeiros pex que eram vendidos a 2
220 francos. Portanto hoje não é mais caro que nessa altura. Claro que
com a chegada dos charters houve nesse momento bilhetes mais baratos.
Actualmente o mercado está estabilizado. Não me parece que os bilhetes
estejam caros, possivelmente a evolução do custo de vida não terá
seguido da mesma maneira.
Não
pensa que é desagradável para o cliente saber que é vítima dos monopólios
das Companhias de transporte aéreo e que estas só baixam os preços
quando aparece concorrência no mercado que exploram ?
Hoje
não podemos falar em monopólio com respeito a Portugal, excepto nas
linhas regulares onde a Tap e a Air France reinam, mas existem voos
pontuais que são aviões fretados por tour operadores ou agentes de
viagens que continuam a operar para o nosso país mas não como voos
regulares e assim encontram-se por vezes preços mais baratos mas não
é exactamente o mesmo produto que a linha regular.
Por
vezes as relações e os negócios entre as Companhias e as agências ou
os operadores de turismo parecem complicadas. Depois de guerras terríveis,
surgem acordos fantásticos e vice-versa. Lembra-me por exemplo o caso
da Nouvelles Frontières e da Tap.
Não
estou a par das relações que a Tap tem com as redes de distribuição.
A Nouvelles Frontières tem aparentemente bons acordos com a Tap. Em
momentos pontuais tem provavelmente melhores tarifas que outros. Não
conheço o sistema que utilizam, por isso não posso responder.
As
pequenas agências que vendem menos viagens, não são penalizadas nas
negociações com as Companhias em relação aos grupos importantes género
Wasteels ou Nouvelles Frontières ?
Creio
que não. Os preços pela Tap ou pela Air France que estão no mercado
por intermédio das agências ditas étnicas é o mesmo. Não posso no
entanto garantir que as margens sejam idênticas.
Parece-nos
que as Companhias optaram por ter menos clientes e preços mais caros
que o contrario e que a banalização do transporte aéreo para Portugal
através de preços mais atractivos seria mais benéfico a prazo, devido
ao enorme potencial do mercado étnico.
Em
França, existe efectivamente um enorme potencial de clientela. Em
determinadas datas há falta de oferta e quando alguém se quer deslocar
a Portugal nos períodos da Páscoa, Natal ou nas férias não encontra
bilhetes. Para haver mais oferta, as Companhias teriam de pôr mais aviões.
Mas terá que fazer esta pergunta às Companhias.
Algumas
Companhias que apostaram no mercado do transporte aéreo para Portugal,
desapareceram ou abandonaram as linhas. Dizem os entendidos que terão
sido vítimas da Tap e da Air France.
Estou
a lembrar-me por exemplo da Air Sul, Portugália, Atlantis, Viva Air,
Euralair, Air Litoral, Air Liberté, E.A.S. etc. Qual é a sua opinião
?
Para
citar uma ao acaso, a Viva Air começou com muita força e muita
publicidade a voar para Portugal com preços muito acessíveis. Ainda me
recordo de uma frase publicitária, «Só não viaja para Portugal com a
Viva Air quem é patinho». É evidente que a Tap tinha de reagir para não
perder fatias de mercado de uma das suas linhas mais rentáveis
A Viva Air pertencia à Ibéria, ora a Tap obteve direitos de tráfego
de Paris para Madrid e Barcelona. Se em seguida houve acordos para que a
Viva Air abandonasse Portugal e a Tap a Espanha, é mais uma pergunta
que terá de colocar a quem de direito. A Air Liberté, pelo facto de
ter sido adquirida pela British Airways tinha mais interesse em utilizar
os direitos de tráfego em Orly para destinos de longo curso e abandonar
Portugal que é essencialmente um mercado étnico e por isso tem
características específicas.
Qual
é a razão de a oferta charter ser tão reduzida em relação a outros
países ?
Como
disse, continuam a existir voos pontuais para Portugal em momentos de
grande fluxo, Fátima, Páscoa, Natal etc.. Nestas datas que se fretam
aviões a oferta das companhias é reduzida. Neste momento assiste-se
por exemplo ao desaparecimento da Air Charters e é a Air France que vai
recuperar os seus aviões. Portanto as companhias não tem aviões
disponíveis para fretar. O potencial existe mas não são pedidos
regulares como é o caso para o Magrébe a Turquia ou outros países. Há
também deficiências de comercialização em Portugal e sobretudo as
pessoas deslocam-se quase sempre nas mesmas datas. Um charter para
Portugal que sai à terça e regressa na terça-feira seguinte não é
rentável contrariamente a um destino como a Tunísia ou a Turquia que
beneficiam de promoção turística. A Air Liberté fez um bom trabalho
pois ao reduzir os preços foi buscar clientela ao comboio, ao autocarro
e às estradas.
A
C.O. Voyages abriu inicialmente em Le Perreux e agora uma nova agência
em Paris 16. Os negócios estão de vento em popa ? Foi fácil passar de
empregado da Tap para a vida empresarial ?
Quando
cheguei a França tinha 30 anos e já tinha sido empresário em
Portugal, industria hoteleira, moda. Portanto a agência de viagens não
é a minha primeira aventura empresarial. Abrir a C.O Voyages é uma
continuação, aliás quando entrei na Tap, não pensava minimamente
encontrar-me na área do turismo. Estava na informática e foi uma
casualidade, porque não tinha férias ao mesmo tempo que a minha esposa
que também trabalhava na Tap fui para fazer um biscato de um mês e
acabei por ficar. A Tap é uma grande escola e aprendi o suficiente para
abrir uma agência de viagens e me lançar num mercado que compreende 5
000 agências e com todos os tubarões que existem.
Abrir
uma segunda agência em Paris é prova de sucesso?
Depois
de quatro anos de existência em Le Perreux e de ter consolidado a agência
abrimos em Paris para dar um
melhor serviço aos nossos clientes e desenvolver a nossa actividade.
É
o início de uma rede ?
Para
já estamos abertos em Paris 16 desde há dois meses, precisámos de
quatro anos no Perreux para realizar este objectivo. Veremos dentro de
quatro anos.
Qual
é a razão que leva um cliente a escolher a C. O. Voyages em vez de
outra agência ?
Diferenciamo-nos
pela qualidade dos serviços que oferecemos : entregas dos bilhetes em
casa das pessoas sem suplemento de preço, transferências dos e para os
aéroportos através de taxis e enfim um excelente relacionamento com a
indústria hoteleira e empresas de aluguer de automóveis o que nos
permite oferecer serviços de qualidade.
Abril
98
A
Primavera de Linda
Com
o desabrochar da Primavera de 1998 Linda de Suza ressurge com um novo
trabalho discográfico e com 2 concertos agendados para a prestigiada
sala do Olympia, a 17 e 18 de Abril (1). Um acontecimento que se saúda
não só pela ausência prolongada da cantora luso-francesa como pela
qualidade do trabalho agora apresentado e pela forma como o regresso da
ex-menina bonita dos portugueses de França é preparado, com
profissionalismo e dedicação.
Vida
Lusa acompanhou de perto o retorno da artista aos camarins do «Show Bis»
internacional que mereceu também uma prosa atenta do nosso crítico sócio-musical.
Foi
diva, foi dama, seguida de séquito denso e obsequioso, cortesãos que
às primeiras nuvens negras do que consideravam o opróbrio, logo
abriram guardas-chuva ignominiosos de molde a guardarem intactos os
contactos mantidos à sua sombra.
Ao
encanto do seu canto opuseram outros cantos, de sereias de mares negros,
insondáveis.
Quando
as luzes da ribalta feneceram como papoilas em trigais contaminados, os
amigos contaram-se pelos dedos de uma mão, singela e simples, mão de
trabalho que trabalho também ela conheceu nos tempos em que vedeta era
apenas sonho perseguido, miragem inatingível.
Qual
madrinha de gata borralheira, teve artes de transformar a «valise en
carton» em mala de couro tanado em casas especializadas. As escadas e
corredores que outrora varrera percorreu-os depois como senhora digna de
salamaleques.
Devorou
o mundo e pisou palcos atapetados de tecidos tecidos à mão, paredes
emolduradas em cortinados de veludos carmins, janelas de vidros duplos,
triplos, que filtravam os ruídos da rua e conferiam à azáfama
quotidiana os timbres duma melopeia envolvente.
Curvaram
a espinha à sua passagem e muitos houve que nunca lhe perdoaram o
ter-se alcandorado aos píncaros da glória, efémera, porque terrestre.
Verdade
se diga que em momentos de abandono alimentou a corte e cedeu terreno
aos que lhe vilipendiavam os hábitos e os usos.
Trouxe
à ribalta dos «shows» televisivos a lavagem de peças íntimas do
vestuário familiar e estendeu-as em cordames improvisados, deitadas à
gula sequiosa dos que com dejectos se alimentavam e alimentam as crónicas
de aquém e além sucesso.
Ignorando
a textura vidrada dos telhados que a protegiam, protegeu quem projectou
calhaus aos telhados vizinhos. Ela própria nem sempre soube deviar-se
desses projécteis, nem da tentação de também os arremessar a esmo,
sem se dar conta que, atirados ao ar, nunca se sabe onde cairão, quiçá
voltam ao remetente.
Soube
contudo afastar-se quando compreendeu que o sapateiro tinha ultrapassado
a chinela e a sementeira de ventos pressagiava colheitas tempestuosas. Fê-lo
com mágoa, por certo, pois o contacto com o público, com o seu público,
está-lhe nas veias, alimenta-a, alimenta-lhe o ego como a todo o
artista que se preza, que se entrega.
Abandonou
prebendas e homenagens e atravessou desertos de intolerância, inveja e
indiferença, fustigada por tempestades de aleivosias e ódios
recalcados, cobiças mais ou menos disfarçadas.
No
exílio que se impôs logrou manter um núcleo esforçado que nunca a
abandonou, que jamais atraiçoou os princípios que perseguiam em
conjunto. Os braços nunca os deixou cair ao longo do corpo em atitude
de abandono ou renúncia. Sempre os manteve ao alto, erguidos em direcção
ao zénite como em prece invocadora de inspiração para novos voos,
para mais altos desígnios. Apresenta-nos agora novo trabalho, duplo por
sinal, nas duas línguas que domina e pratica.
Velhos
êxitos e novas experiências. Trabalho de investigação aturada,
pesquisa de sons e tonalidades com profissionais de créditos firmados,
com o desejo de se resgatar perante uma comunidade que a protegeu,
endeusou e depois rejeitou como se de excrescência se tratasse.
Uma
nova equipa, uma forma diferente de estar, de propôr novidades a quem
faz e desfaz os mitos. Nesta maneira de encarar a sociedade que a
espreita, Linda de Suza movimenta-se com relutância, a medo.
Não
o medo que nos assalta perante o perigo que espreita, que se vislumbra
ou lobriga no horizonte ou por entre paredes esconsas e estreitas.
Fale-se antes do medo do desconhecido, do medo de não agradar a quem se
ama. Do medo de ofender mais quem nos acarinha e acalenta os sonhos.
E
Linda de Suza sabe como ninguém como é o seu público, como falar aos
seus compatriotas, como lhes dizer que os ama e lhes pedir que a aceitem
tal como é; com defeitos e virtudes que são apanágio de qualquer ser
humano que se preze.
Confrontada
com a necessidade de explicar a sua perseverança diz que «quem corre
por gosto não cansa» e assume o trabalho como força libertadora de
maus pensamentos que a atirem para as profundezas da angústia.
Mostra-se
admiradora do escritor Paulo Coelho e defende «a procura de nós mesmos
para ver do que somos feitos» e é talvez por isso que inclui no seu
mais recente trabalho canções onde se interroga e assume debaixo de
novos ângulos.
«Dignidade»
e «Mulher ó mulher», por exemplo, constituem viagens ao âmago duma
maneira diferente de encarar a arte de cantar.
Outros
títulos novos como «Menina bonita» e «Shimilimilá» constituirão
por certo sucessos comerciais e serão interpretados por milhares de
vozes nos próximos dias 17 e 18 de Abril na renovada sala do Olympia.
Até
lá o retiro é de rigor pois Linda de Suza prepara com seriedade o seu
regresso ao contacto de portugueses e franceses que não a esqueceram e
pretenderão aquilatar das mudanças que por aqui se narram e doutras
que não serão tão evidentes à vista desarmada, porque mais
profundas.
Nos
contactos recentes Linda assume a proximidade crescente com Deus e a
necessidade que sente de se interrogar sobre o futuro e a maneira como o
encaramos e preparamos. Talvez a procura de que nos fala mais não seja
que o reflexo duma introspecção profunda que realiza e que denota na
forma calma como se expressa.
A
exemplo do filho pródigo que dilapidou teres e haveres antes do
regresso ao remanso e à quietude do lar paterno, também Linda de Suza
gastou talento e usou de si própria antes do retorno ao aconchego do
colo dum público que não a esquece e que estará disposto a segui-la
na senda duma carreira que não recomeça, apenas, porque nunca se
interrompeu, afinal só se atardou em período de hibernação
retemperadora.
Por
António Santos
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