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HISTORIA

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- O dez de Junho e o seu significado Junho 02
- A comunidade portuguesa em França: um percurso ? Uma história Julho 98

 

Junho 02
O dez de Junho e o seu significado

No dia 10 de Junho de 1580 morreu o poeta Luís Vaz de Camões.

Actualmente este dia é consagrado ao Camões, a Portugal e às Comunidades Portuguesas. Esta data comemorativa da presente trilogia foi-se forjando ao longo de várias gerações de Portugueses, sob o sígno da Língua, da Poesia e da Emigração que têm, como berço de origem o nosso País.

O dez de Junho, como Dia de Camões e Dia de Portugal começou a ser comemorado, apenas 300 anos depois da morte do autor de Os Lusíadas, em 10 de Junho de 1880.

A obra de Camões, sobretudo Os Lusíadas não fora esquecida pelos Portugueses, ao longo daqueles três séculos após a sua morte, servindo de “testamento”, nos momentos mais críticos da nossa história, depois que foram publicados em 1572.

Porém, foram raros aqueles que se foram lembrando do seu autor. Mas desde o 1° quartel do século XIX, começou a ser recordado com admiração e entusiasmo, por muitos Portugueses. A partir de então, tornou-se tema para um quadro do Pintor Domingos Sequeira ; nele se inspirou o compositor musical Domingos Bontempo ; e alguns liberais como Almeida Garret se viram nele, uns desterrados quando se refugiaram em Inglaterra e em França, perseguidos pelos Miguelistas depois do golpe de estado de 9-6-1828 (A Vila-Francada).

Quanto a Almeida Garret foi na cidade do Havre e depois em Paris que se inspirou no Luís de Camões para escrever o grande poema que intitulou “Camões” e que publicou em 1825, inaugurando com esta publicação o Romantismo em Portugal.

Depois desta homenagem a Camões, nas Artes e nas Letras, foram outros Portugueses que naquele século XIX, o desenterraram das cinzas do esquecimento da memória portuguesa.

Os seus últimos anos de vida passou-os em negra miséria, numa casa da Calçada de Santa Ana em Lisboa, onde sobre os seus escombros, foi construída mais tarde, a que hoje ali existe com o número 139 e onde se vê uma placa colocada em 1867, por iniciativa do seu proprietário de então, Manuel José Correia e que resumidamente diz que ali vivera Camões segundo a “tradição documental”.

76 dias antes da perda da independência de Portugal em 1580, Luís de Camões prevera este triste desastre, no seu leito de agonia e segundo a lenda que nascera duma carta do próprio poeta, Almeida Garret tentou reproduzí-la no Poema Camões da seguinte maneira : “Pátria, ao menos juntos morremos… Expirou coa Pátria” (Canto X - Est. XXIII).

E depois fora enterrado numa humilde e rasa sepultura, na igreja do Convento de Santana, na mesma rua da sua residência. Depois que o terramoto de 1755 destruiu o tecto daquela igreja, mais ninguém se lembrara de sepultura de Camões até que, as suas supostas ossadas foram transladadas para o Mosteiro dos Jerónimos, onde repousam num belo túmulo que terminou de ser construído, em 1894.

Também em 9-10-1867 foi inaugurada uma estátua de bronze dedicada ao nosso grande poeta épico, na Praça Cimeira do Chiado em Lisboa, hoje com o nome de Luís Vaz de Camões.

Nesta série de recordações do Poeta foi aprovado também no Parlamento, em 10 de Abril de 1880 o projecto de lei do Deputado Simões Dias, propondo que fosse comemorado no 10 de Junho próximo, o 3° Centenário da morte de Camões e que este dia fosse feriado nacional.

Assim nasceu o Dia de Camões e o Dia de Portugal.

Pelas festas do 4° Centenário do seu nascimento em 1924, deu-se o “início da primeira Festa da Raça” que doravante deveria celebrar-se anualmente, durante a semana que precedesse o Dia de Portugal.
Durante o Estado Novo a “Festa da Raça” passou a celebrar-se no próprio 10 de Junho, passando o Dia de Portugal a designar-se também “o Dia da Raça”.

Depois da Revolução dos Cravos, O Dia de Portugal foi no ano de 1977 celebrado no 25 de Abril, na mesma data das comemorações da Revolução que trouxe a Liberdade e a Democracia a Portugal. Neste mesmo ano de 1977, o Dia de Camões passou a designar-se também o Dia das Comunidades Portuguesas.

No ano seguinte, 1978 por vontade do Presidente da República, General Ramalho Eanes e do Governo Português, a festa de Portugal passou a celebrar-se de novo no dia de Camões.

Assim este dia tomou a designação : Dia de Camões, Dia de Portugal e Dia das Comunidades Portuguesas.

Esta festa passou a basear-se numa outra ideia de Pátria que assenta mais no conceito do Homem Português indepentemente do lugar onde ele se encontre, segundo palavras do antigo Presidente da República e fundamentado também no Camões Emigrante. 

António Cravo

 

Julho 98

A comunidade portuguesa em França

Um percurso ? Uma história

 

Por António Cravo

 

A primeira geração : os que ficaram

Aqueles que ficaram são os que mais interesse têm para o nosso trabalho. São eles o primeiro grande grupo de trabalhadores portugueses, em França, durante o século XX. É a primeira geração no contexto desta obra. Isso correspondeu às necessidades demográficas de França, depois do vazio criado pela mobilização e pelos mortos. A França ainda durante a guerra abriu as portas a 1.150.000 trabalhadores estrangeiros. (1)

«Sabe-se que alguns militares depois de desmobilizados constituiram família em França e lá ficaram a trabalhar, mas não possuímos quaisquer dados numéricos nem outros sobre eles».(2)

Infelizmente não nos é possível revelar números exactos dos combatentes que se fizeram emigrantes. Sabemos, contudo que dos 56.493 elementos de todo o Contingente Português, morreram 2.091 ; que desembarcaram em Lisboa depois do Armistício, 49.758, oficiais e praças, exceptuando os que já se encontravam em Portugal no gozo de licença.

Retirando ao número do Contigente os que morreram em França os que desembarcaram em Lisboa, vemos uma diferença de 4.644.

 

Isto leva-nos a concluir que os soldados-emigrantes deveriam andar pela ordem daquele número:

Contingente: 56.493

Mortos: 2.091

Regressados: 49.758

Emigrantes: 4.644

Por outro lado, muitos dos que desembarcaram em Lisboa, regressaram de novo a França já como emigrantes, influenciando outros vizinhos também a partir.

Assim, no período de 10 anos de 1911 a 1921 verifica-se um grande aumento de emigrantes em França.

 

Ano     Emigrantes

1911    1.300

1918    4.644

1921    10.800

 

O primeiro salto transpirenaico verifaca-se porém, após o termo da guerra 1914-1918. (3)

 

A segunda geração

Por volta dos anos 30 - A crise Económica de 1929 em França.

No final da década 20, nasceu nos Estados Unidos da América a primeira crise económica deste século, designada pela crise de 1929. Os seus efeitos fizeram-se sentir também na Europa e consequentemente em França.

Nos anos vinte, este país estava em plena reconstrução dos efeitos da I Grande Guerra. Conheceu por conseguinte uma grande expansão económica. Isso fez  atrair a mão-de-obra estrangeira, como havíamos visto, numa linha progressiva até 1931, que podemos confirmar com o seguinte quadro :

 

Anos   Estrangeiros

1921    1.532.000

1926    2.409.000

1931    2.715.000

1936        2.198.000

 

Fonte : Annuaire statistique de France

Foi em 1931 que o choque da crise económica de 1929, se fez sentir em França, onde havia já uma percentagem de população estrangeira de 7% da população total. (4)

Aquele reflexo fez diminuir a população activa cerca de 250.000 ou seja de 5,5% do total entre 1931 e 1936.

Quanto à emigração portuguesa devemos notar que desde a desmobilização dos soldados portugueses e por influência destes, ela não cessou de aumentar até 1931. Mas os emigrantes que apareceram em grande escala no princípio da década trinta, pertenciam já a outra geração mais jovem que a dos soldados emigrantes. E observamos que foi naquela década que os portugueses atingiram o seu maior número em França, encontrando-se uma diferença a menos de 20.700 desde 1931 a 1936.

Por isso chamamos a estes emigrantes a 2a. Geração.

 

Anos               Portugueses

1921 :              10.800

1926 :              28.900

1931 :              49.000

1936 :              28.300

 

Fonte : Joël Serrão Ob.Cit.

 

1) In La scolarisation cit

2) Ofício cit

3) Joël Serrão in A Emigração Portuguesa, colecção Horizonte 12 - 2a. ed. 1974

4) Albano Cordeiro in Pourquoi l'immagration en France - Créteil 1981

 

Geração : pelos anos 60

A partir de 1936, a população imigrante foi diminuindo em França como vimos anteriormente e assim continuou até 1946.

Depois da II Guerra Mundial, de novo se acelararam as economias dos países industrializados. Não cessaram de crescer até à nova crise económica de 1973.

A França encontrava-se no contexto daquele progresso, com a ajuda dos investimentos massivos dos Norte-Americanos. Por isso, « em 1946 criou o Comissário do Plano de Modernização e de Equipamento, a fim de controlar e desenvolver a ajuda de Capitais e de Tecnologia que os Estados Unidos da América lhe ofereceram ao terminar a Guerra « (Jesus C. Sanz Benito in Introducción A La Emigración Espanhola, Francia).

No periodo após-Guerra, a economia francesa conheceu taxas de crescimento na ordem de 6% em média (Albano Cordeiro ob.Cit.). Este crescimento levou a França abrir as fronteiras à mão-de-obra mais barata do que aquela que podia recrutar, no seu território.

Por essa razão viu-se um aumento da população estrangeira na ordem de 22.000 indivíduos de 1946 a 1954 (Annuaire Statistique de France) e continuou a aumentar até 1974.

Estas são as causas gerais francesas que aliciaram também tantos Portugueses a Emigrar par este País.

Do lado português houve diversas causas que os levaram a emigrar para França :

1/ As demográficas, pois em 1960 tínhamos atingido o maior número de habitantes em Portugal 8.889.392, uma densidade demográfica de 100h/Km2. Em 1930 era apenas de 76h/Km2. (Mário Bacalhau...).

2/ As económicas : no limiar dos anos sessenta Portugal vivia ainda essencialmente da agricultura, sujeita aos caprichos do clima e de técnicas artesanais e tradicionais que o abrigava o homem do campo a trabalhar um ano inteiro e não «passava da cepa torta» como diziam ; isto é, não ganhava o suficiente para sobreviver. Acrescentavam-se a estas causas, ainda as causas políticas, as da Guerra colonial ; e outras segundárias.

Assim, se desencadeou uma emigração espontânea e quase toda clandestina dos portugueses para França e para outros países da Europa, que lhe chamamos dentro do nosso esquema a 3a. Geração ou emigração que segundo as estatísticas « du Ministère de l’Intérieur « atingiu o seu maior número de indivíduos no ano de 1976, com 882.541 portugueses em França, onde estão incluídos os que vieram pelo princípio do reagrupamento familiar que nos vai permitir salientar outro tipo de emigrantes a 4a. Geração ou Emigração Indirecta.

 

Geração ou a emigração indirecta

Depois da II Guerra Mundial as fronteiras portuguesas estavam fechadas quase para todos os portugueses, especialmente para os de fracos rendimentos de subsistência ; Por isso, os diminuídos economicamente não podiam sair do País, excepto, os casos da emigração para a América e para África de que já falámos. Nos outros casos, para transporem as fronteiras tinham dificuldades em obter o passaporte. Perante tais dificuldades os portugueses, especialmente das zonas rurais num primeiro tempo (1960-1968) vieram com o « passaporte de coelho « isto é, clandestinamente como dissemos.

Quando Marcelo Caetano passou a ser Presidente do Conselho de Ministros em 1968, por incapacidade de saúde de Salazar, pouco tempo depois começou a abrir as fronteiras e a regularizar melhor a emigração e evoluindo também para o chamado Regrupamento Familiar, em acordo com a política francesa. Este reagrupamento familiar (destinado aos cônjuges, filhos, ascendentes e colatrais do emigrante) começou por ser também clandestino cujos números foram aumentando durante a década sessenta atingindo em 1969 o valor máximo do que se conhece, que era de 8.568 familiares dos imigrantes portugueses (segundo o quadro 34 dos Serviços de Programação e Apoio às Comunidades).

Quando ao número de familiares autorizados a juntarem-se ao imigrante, o seu maior número deu-se em 1970 com 47.033 indivíduos (segundo o quadro n°32 da Secretaria de Estado da Emigração Portuguesa). Depois esse reagrupamento foi diminuindo até 1980 onde se contaram, nos primeiros 10 meses, apenas 3.979 familiares. Assim e segundo o « Ministère Intérieur « no recenseamento de 1975, as crianças portuguesas com menos de 16 anos atingiam um n° de 260.200.

Chamamos aos portugueses e portuguesas que por relações familiares, vieram para França, clandestina ou oficialmente, a Emigração Indirecta ou uma quarta geração, que vulgarmente era conhecida por  2a. Geração.

Hoje as circunstâncias e a moda fizeram com que se chamassem Lusodescendentes, aos Filhos dos Primo-migrantes portugueses.

Aqui temos as diversas emigrações dos Portugueses em França neste século até 1986.

Depois de termos visto estes rumos dos Portugueses para França, vamos evocar também resumidamente a sua estabelização através do Movimento Associativo.

 

O movimento Associativo das duas últimas gerações

Não vamos falar donde vieram estas Gerações. Não vamos dizer onde se fixaram ; Nem tão pouco falar do Terceiro Homem, como o engajador, o « arranja-papéis « ; nem o modo de acolhimento por parte da Sociedade Francesa ; nem da Exploração, nem do Trabalho Clandestino ou Temporário ; nem tão-pouco das Consequências Psicoconfrontacionais ; etc.

Vamos sobretudo falar da evolução do Movimento Associativo ; e da Transformação da Vida Associativa, porque nos pareceu terem-se desenhado duas épocas essenciais nesta estabelização dos Portugueses em França : A Época Associativa até 1986 ; e depois desta data a Época da Europeização.

 

A época associativa (1960 - 1986)

Chamamos época associativa, a um período de tempo, perto de 30 anos, em que o fio condutor e o de maior ligação entre os Portugueses foi o da institucionalização das suas associações, o da estruturação das mesmas e a vida associativa que praticaram nelas, uns com os outros, duma maneira quase homogénea e monolítica.

Durante a Época Associativa, houve algumas diferenças durante uma certa mutação evolutiva e regressiva, especialmente na forma da estruturação e na base da institucionalização cujas características nos permitem subdividir aquela época associativa em tempos e fases.

 

Fase (1980 - 1986)

Neste momento a  «emigração portuguesa entra numa fase de maior estabilidade, voltando-se para uma maior inserção» segundo Manuel Vaz Dias.

Nós chamar-lhe-emos uma fase realista do Movimento Associativo.

O mito do regresso vai-se desvanecendo à medida que os primo-migrantes envelhecem.

Até esta data, dos milhares e milhares que vieram para França, apenas 300 mil voltaram às suas terras de origem durante os 10 últimos anos. Por isso, se diz que 70% dos imigrantes se mantiveram neste País durante aquele período.

Na fase precedente o imigrante redescobriu a sua cultura e transplantou-a para a Emigração. Na fase presente, voltou-se para a Sociedade de Acolhimento e dá-se a conhecer ao mesmo tempo que vai descobrindo os valores culturais desta Sociedade.

Depois de 1980, quase não se constituíram associações de carácter aldeão. A reorganização da aldeia chegou ao seu termo. O entusiasmo que as associações tiveram na fase anterior, para a implantação do Ensino do Português em França foi-se amortecendo. Os Pais quase todos perderam a coragem da sua anterior mobilização, perante as dificuldades que começaram a surgir na abertura de cursos e na escolha do Português, como Língua Viva I.

O Movimento Associativo começou a estruturar-se noutros moldes. Nasceu o inter-

-associativismo regionalista. Nesta altura o Movimento Associativo pôs de lado a ideia e a prática das Federações, a nível nacional francês e voltou-se para o agrupamento da mesma área departamental regional ou consular que foram tomando as designações de Inter-associativas, Comissões de Áreas-Consulares ou Federações departamentais, etc. Esta nova estrutura começou no Departamento de Loiret, pela Comissão Inter-Associativa. Seguiram-se depois outras como por exemplo a Associação Cordenadora das Associações Portuguesas do Departamento 77, (a ACAP/77), etc. Esta estruturação passou a ser representada, democráticamente num órgão central e interlocutor directo do Governo Português, a nível nacional e internacional pelo Conselho das Comunidades, como órgão de consulta. Era composto de membros natos, de membros eleitos e de membros nomeados pelo presidente. Eram membros eleitos do Conselho, os representantes das diversas Comunidades de Portugueses espalhados pelo Mundo. O Presidente do Conselho das Comunidades era por direito próprio, o então Secretário de Estado da Emigração. (Decreto-Lei n°316/80, de 20 de Agosto).

Entrou-se numa fase em que a Emigração em França tomou mais consciência da sua realidade social e da cultura da Sociedade de Acolhimento e das outras etnias imigrantes.

Para esta tomada de consciência concorreram vários factores tais como : uma evolução no associativismo francês para com o português ; uma real visão dos problemas do associativismo português por parte dos primo-migrantes mais jovens e de movimentos sindicais portugueses em França (como o dos Professores e o dos Trabalhadores consulares) ; uma promoção social e económica da mulher emigrante ; uma diferente forma, dos Filhos dos emigrantes sentirem a Emigração ; e também uma visível evolução da Igreja Portuguesa e das suas Comunidades Imigrantes.

Até aos anos setenta, as associações francesas, descobriram os imigrantes numa atitudehumanista e paternalista, por exemplo a FASTI (Federação das Associações de Solidariedade com os Trabalhadores Imigrados) criada em 1966. Nasceu uma certa amizade mútua e a seguir veio o interesse pela parte dos Franceses de descobrir a cultura dos imigrantes, conhecê-la e evocá-la, criando-se algumas associações com esse objectivo. Temos o exemplo da Inter-Service-Migrants criada em 1970.

A partir de 1975, as associações francesas começaram a trabalhar numa colaboração em comum, cedendo algumas responsabilidades do seu movimento e poder aos trabalhadores imigrantes ; apoiando-nos nas suas reivindicações sociais ; e solidarizando-se com eles, na defesa dos seus direitos e na sua recreatividade.

Outro aspecto importante na evolução do Associativismo Francês, foi ter tomado a iniciativa de formar militantes das associações estrangeiras. Neste caso temos o exemplo da ARAME (Association de Reflexion et de Rencontres avec les Migrants Etrangers) criada em Janeiro de 1979.

Assim esta aproximação com as associações francesas, o contacto com as das outras etnias e a influência da Revolução de Portugal, vão modificar os comportamentos associativos, embora lenta e progressivamente.

Adquiriu-se também uma tomada de consciência determinante de que as minorias também têm algo a dar às maiorias e neste caso concreto, à Sociedade Acolhedora. É nesta reciprocidade que o Movimento Associativo Português entende a aculturação. Com este espírito de reciprocidade e de abertura do nosso Associativismo, começou a criar-se um novo tipo de Associações, chamadas Franco-Portuguesas ou Luso-Francesas.

Embora tivesse havido algumas tentativas antes de 1980, mas foi somente a partir desta data que o Movimento Associativo desenvolveu mais a criação destas Associações, como por exemplo a «Amitié Franco-Portugaise de Montgeron», a «Association France-Portugal de Romagnat», etc. Em 1981 já se contavam 32 associações deste tipo, em 1982 já existiam 54 associações Franco-Portuguesas, espalhadas por mais de 16 departamentos.

O contexto político francês, depois de 11 de Maio de 1981, vai também favorecer esta segunda fase do Movimento Associativo. Permitiu-lhe uma maior liberdade com à alargamento legal de uso dos direitos associativos dos estrangeiros em França, através da lei votada em 29 de Setembro de 1981, que veio a ter o número 81-909 de 9/10/1981. Esta lei revogou o título IV da lei de 1 de Julho de 1901, relativamente às associações estrangeiras e acabou com um regime de excepção imposto, pelo decreto-lei de 12/04/1939.

Antigamente, ainda que a documentação estivesse conforme à lei, a oficialização não era absolutamente segura. A partir de 1981, desde que o processo fosse formalmente bem organizado, a associação era sempre oficializada e dentro do tempo máximo de um mês.

Esta flexibilidade da lei francesa, permitiu uma multiplicação enorme das associações portuguesas. Assim em 1981, haviam 624 em plena actividade ; três anos depois já se registavam 929, embora 83 se encontrassem inactivas.

Em 27 de Março de 1984 só se encontravam cinco departamentos sem associações portuguesas como por exemplo Vendée (085), embora neles houvesse portugueses. Ao longo desta Época Associativa, nas suas diversas fases e tempos, viram-se implicados muitos portugueses, directa ou indirectamente e algumas instituições como a própria Igreja.

A partir de 1981, também as Rádios locais passaram a ser livres, tornando-se muitas delas oficiais que permitiram criar elos de ligação, entre as diversas etnias estrangeiras e a Sociedade Francesa e particularmente, entre os imigrantes da mesma Comunidade como por exemplo a Portuguesa.

As Rádios Livres Portuguesas como Portugal no Mundo, a Eglantine ou o Rádio Clube Português, foram também uma extensão das actividades das associações, dentro do seu espírito realista e da abertura que caracterizavam as desta segunda fase do Movimento Associativo.

 

A partir da década 80, começa a observar-se na Vida do Associativismo Português uma transformação.

 

A transformação da Vida Associativa

Na fase principiante do Movimento Associativo existia, apenas, um núcleo gerador. Mas à medida que se desenvolvia numa dinâmica crescente, foram-se distinguindo três componentes fundamentais : a institucionalização, a estruturação e a vida associativa propriamente dito.

Por Vida Associativa compreendemos todo o conjunto de actividades comuns que se foram realizando, na maior parte das associações portuguesas, incluindo a personalidade dos associados e dos dirigentes ; os espaços recreativos ; o tipo de animação ; o financiamento das mesmas e das entradas para os espectáculos ; a mobilização, e a natureza das actividades.

A natureza das actividades já temos vindo anunciá-las, mas podemos ainda classificá-las em dois grandes grupos : as do grupo recreativo ; e as do grupo cultural. No grupo recreativo podemos incluir o futebol, o folclore, as festas populares etc. ; no grupo cultural incluímos as excursões, as exposições de Arte pictórica e escultórica, o teatro, o cinema, a informação, o ensino de português os trabalhos literários, as bibliotecas, etc.

Todavia destas actividades, as que tiveram maior importância na vida associativa foi a do folclore, do desporto, do Teatro, do Ensino e de alguma maneira a Arte. Contudo, no meio da década oitenta, esta vida associativa começa a dar sinais duma transformação.

No princípio do movimento, a vida associativa começou numa pequena extensão, mas com forte e viva expressão. A extensão foi crescendo, ampliando-se e criando espaços mais largos. A expressão acompanhou-a na mesma dinâmica de crescimento, preenchendo plenamente os espaços do desejo da recreação e culturação que sempre exigiu. Os dois princípios criaram um corpo solidificado, numa propensão convergente na reivindicação do Ensino do Português. As ideologias paralelas da estrutura do seu primeiro tempo da primeira fase do Movimento Associativo, encontraram-se depois de 1974, pelo menos, no cruzamento das necessidades comuns do ensino da sua língua, para os filhos dos primo-migrantes, respirando irmamente a liberdade do 25 de Abril.

Por isso, no último tempo da primeira fase associativista, as ideias religiosas e políticas ; as sensibilidades folcloristas e culturais reuniram-se no mesmo objectivo linguístico, constituindo o único ponto onde todos os Emigrantes Portugueses se encontravam, no meio da efervescência revolucionária depois daquela data.

A luta pela implantação do Português nas Escolas Francesas ou nas Associações, consideramo-la uma acção associativista, ao nível duma consciência de Comunidade, do fragmento dum Povo fora das suas fronteiras, transformado em pequena Nação, no sentido Central do termo que rebuscou, nas suas recordações o ela da sobrevivência, enquanto gente, encadeadas pela sua Língua como factor centralizador das expressões regionalistas, donde os Emigrantes eram originários.

O tempo foi correndo, provocando evoluções e transformações. Assim, houve evolução legal na institucionalização, começando pela lei francesa de 1901 até à lei 1981 e chegando ao institucionalismo nacional português e internacional das Comunidades Portuguesas no Mundo através do Decreto-Lei n°316/80 de 20/8. Houve evolução na estrutura do Movimento Associativo até ao Inter-associativismo passando depois às associações franco-portuguesas, numa abertura de intercâmbios, com a Sociedade Acolhedora e com outras Comunidades estrangeiras.

E houve também evolução na vida associativa que passou, dum colorido folclorista sensível e instintivo, à transparência racionalista e cultural.

Contudo na marcha do M. A. começou a notar-se na década oitenta, uma tendência à transformação da Vida Ass., tal como era sentida, pela maior parte dos Portugueses, desde o seu início, devido a alguns factores um pouco diversos.

Os agentes desta componente encontraram-se divididos pela idade e pelos gostos. Uns optaram mais pelas actividades recreativas : as que haviam transplantado. Os outros pelas actividades culturais, as que tinham criado. Factores urbanos e cosmopolitas quebraram a homogeneidade da Comunidade do tempo áureo de expressão associativista. As pressões transparentes etnocentristas realizaram progressivamente os seus efeitos, quebrando a unidade de luta pela preservância linguística que era o factor essencial, da maior mobilização que houve em quase todo o Movimento.

As estradas continuaram abertas ; os carros continuaram em marcha ; mas os condutores tiveram outra exigência, outra capacidade e outra preparação, outra idade para a condução.

Nesta transformação, o M. A. especialmente através da componente Vida Associativa, tem vindo a caminho das dimensões de outros valores culturais e artísticos e mesmo linguísticos na direcção dum polo magnetizador e transformador que se chama integração.

Nestas etapas de nascimento, crescimento e transformação do Associativa, parece-nos que a sua permanência e duração residirão no património cultural que a Vida Associativa transplantou recriou e criou, ao longo das suas metamorfoses naturais, enquanto se souber e quiser assumir.

Nesta transformação, o que se tornou mais evidente foi a passagem duma Comunidade homogénea para uma Comunidade heterogénea e que, por outras razões, nos pareceu esboçar-se uma nova época no Movimento Associativo que chegámos já a classificá-lo, de Época da Europeização.

 

 

A Época da Europeização

Os Portugueses no Zénith em Paris (11/5/1986)

Voltando a lembrar o princípio da socialização dos Portugueses, tivemos ocasião de observar que o Emigrante se encontrou decantado no fundo duma garrafa social e que foi deste ponto morto, ou ponto zero que partiu para a dinâmica do seu Associativismo.

Assim, a maior parte dos Portugueses que vieram nas décadas sessenta e setenta começou a gravitar à volta dum embrião social que pouco a pouco foi empurrado para uma classe social como já vimos caracterizada pela precariedade do alojamento ; pela natureza comum do traba-lho e pela falta prévia duma formação profissional ou de qualificação laboral. Foram os tempos do miserabilísmo como têm afirmado os preconceitos. Todavia, eram os tempos da homogeneidade recreativa, social e económica, como dizem os do Bom Senso.

Entretanto, outros Portugueses foram chegando a França por razões diferentes daqueles primeiros : como as razões diferentes daqueles primeiros : como as razões oficiosas ou oficiais e razões económicas e financeiras de acompanhamento, e outras.

Nesta gestação social portuguesa em França, dois caminhos paralelos se foram abrindo : um o da cultura popular, agitando-se e reagitando-se à volta de estruturas associativas criadas pelos Emigrantes Portugueses, neste país, «que é também a expressão daquilo que nós somos, como Povo. Aquilo que afinal é cada um de nós».

O outro caminho é o da outra componente que tem passado ao lado paralelamente, olhando furtivamente para o grosso daquela coluna de emigrantes, dentro dum preconceito de «subproduto cultural», duma classe social julgada inferiormente diferente. Alguém nos dizia há pouco tempo que «quando cheguei, não quis entrar no ghetto».

Depois que regressaram a Portugal após a Revolução dos Cravos, muitos dos refugiados políticos e desertores da guerra Colonial que vieram num tempo heróico e ocuparam diversas posições políticas e administrativas da nova época histórica no nosso País, os que ficaram, todos ficaram menos heróicos, nalguns conceitos, mas maiores agentes ainda da cultura popular com os que a trouxeram nas «malas de cartão».

Isto acentuava ainda mais, o paralelismo daqueles dois caminhos.

Contudo, nas comemorações do 15° aniversário da implantação em França da Companhia de Seguros Império, em 11 de Maio de 1986, deu-se um acontecimento, para além desta comemoração, que julgamos também muito importante. Quando mais de 6.000 Portugueses com estatutos sociais que durante cinco horas esteve presente no Zénith, alegrou-se-nos a alma porque podemos ver, pela primeira vez, na Comunidade Portuguesa em França uma multidão de gente num dos mais prestigiosos espaços culturais de Paris, a união do económico e do cultural tão espectacularmente, numa diversidade de opiniões e formas, de se estar em França dos Portugueses. Este fenómeno deveu-se ainda à força das Rádios Livres ou Locais dos Portugueses, uma nova expressão do nosso Associativismo e personalizado pelos nossos jovens mais conscientes, como os que trabalhavam na Rádio Eglantine, Portugal no Mundo, G.Voz Portuguesa de Bondy, C.M.S. de Creil e Clube Português, todas da Região Parisiense.

É que entretanto, tinha nascido também outro factor, muito importante que foi a entrada de Portugal na CEE, no princípio deste mesmo ano de 1986.

Aquele fenómeno do Zénith, pôs também em evidência, novos tempos, os tempos em que começava a nascer a heterogeneidade da Comunidade Portuguesa, tornando-se mais visível à transformação de que falamos anteriormente.

Porém, para melhor compreendermos ainda esta transformação da Vida Associativa em especial e da comunidade em geral, não resisto em evocar outro novo acontecimento que se deu no Outono, ainda do ano de 1986 que se chama «La Valise en Carton».

«La Valise en Carton» (Outubro 1986)

Foi um espectáculo que esteve nesta temporada, no Casino de Paris, com aquele título. Este acontecimento acentuou-se mais pelos efeitos negativos que teve e demonstrou, por isso, a realidade dos novos tempos que passámos a intitular em diversos artigos, por Época da Europeização e que no seu primeiro tempo, chegamos a designá-lo :  O Tempo da Rejeição.

No limiar desta Época da Europeização generalizou-se um sentimento de rejeição contra os emigrantes em Portugal, principalmente contra os da Europa, inclusivamente, até começaram a rejeitar as suas divisas no momento em que já entravam os dinheiros da CEE. Em França, dentro da própria Comunidade desenvolveu-se também um estado de espírito pelo que muitos portugueses rejeitavam o passado, em que dominou a cultura «du village». Foi uma rejeição gradual inversante às categorias de idade ou progressivamente aos «clubes económicos» que começaram a nascer também no ano de 1986.

Por isso, o espectáculo «La valise en Carton» foi também rejeitado. O espectáculo foi um fracasso na opinião de muita gente. A protagonista principal era a Linda de Suza, como se sabe que de êxito em êxito ali pôde chegar como o escreveu Françoise Dorin : «Il était une fois une Cendrillon portugaise qui ... passe de longues années à manier sucessivement les serpillères et les torchons dans son pays, puis les plumeaux et les balais dans le nôtre... un jour, elle sortit de la valise en carton ...des chansons de son Portugal natal...».

A intérprete do espectáculo foi uma imigrante de transição. Trouxe ainda dentro da sua mala o espírito português da aventura ; a clandestinidade do «salto» ; as peripécias das fronteiras ; e também a coragem e vontade de vencer. Mas trouxe ainda a juventude e a elegância da mu-lher portuguesa e a beleza duma voz natural da Canção. Com o seu talento mais natural que formativo, cedo se tornou alvo de empresas da canção, com máquinas comerciais bem montadas que a conseguiram lançar na Comunidade Francesa, retiranto-a da carreira associativa portuguesa, onde dera os seus primeiros passos ; onde o seu primeiro disco calou fundo nas almas portuguesas que o ouviram e o seu sucesso perante a Comunidade, subiu de disco em disco e culminou no Olympia de Paris, em Janeiro de 1983. Nesta época, com a nossa compatriota naquela sala de tão grandes tradições artísticas e variedades era toda uma geração de emigrantes portugueses que triunfava e que ali, em peso, a aplaudiram de alma e coração. Ela era a continuidade do contexto de outras obras publicadas por emigrantes come as «Histórias Dramáticas da Emigração» de Waldemar Monteiro, por exemplo.

Mas a máquina comercial de que falávamos, fez duma emigrante portuguesa, sem muita experiência, uma vedeta da canção em pouco tempo que quís fazer dela também vedeta do cinema e agora com «La Valise en Carton», vedeta do teatro ou do Espectáculo de Variedades.

Já nos parecia o Fidalgo Aprendiz de Francisco Manuel de Melo do século XVII, pelas diversas escolas francesas que lhe puseram à disposição. A mesma máquina queria fazer de «un être humain» em meia dúzia de meses o que se faz numa meia-vida ou numa vida inteira. Mas esqueceu-se que entre o Olympia de 1983 até ao Casino de 1986, muitas cisas mudaram e os espíritos portugueses também evoluíram sobretudo os da Emigração de Tradição e a nova concepção sobre a emigração duma 2a Geração, agora mais urbana que a dos seus pais.

Então aquela rejeição de «La Valise en Carton» pelos Portugueses, deu-se devido a três sensibilidades distintas.

A primeira sensibilidade, foi a dum público que mais se identificava com o tema e com a protagonista, mas tinha ficado desiludido e bastante chocado, com a forma publicada dos seus conflitos familiares quer no seu livro homónimo quer no programa da TF1 que deu em cima do espectáculo, com Patrick Sabatier.

Tanto o animador como ela, não se aperceberam que o tema que desenvolveram não era comum às duas Culturas, Francesa e Portuguesa. Por isso, esta sensibilidade portuguesa que esteve bem ancorada no Olympia  83, rejeitou por aquela razão, o Casino / 86.

Por outro lado, a sensibilidade dos emigrantes de transição e que são os de maior promoção económica entre os Portugueses em França, embora se identificassem com a sua língua materna, rejeitavam contudo, todas as expressões que pudessem avivar um passado realista, mas conotado de miserabilista. São cartões que não querem mais ver, nem deles ouvir falar.

Finalmente, a sensibilidade dos mais jovens portugueses em França, mais urbanista que rural, rejeitaram, por seu turno, embora duma maneira gradual etariamente, o tema, a música e a sua intérprete consoante a forma natural ou radical da sua inserção na Sociedade Francesa.

Estas três sensibilidades conjugavam-se com os novos tempos que mostravam também uma descoberta, de alguns valores portugueses que não só o trabalho, já noutro contexto, para além das associações Franco-Portuguesas.

 

A  Associação “Cap-Magellan”

A “Cap Magellan” é também uma associação com base na lei francesa de 1901 e as outras leis subsequentes de que já falámos. Foi criada em 24 de Novembro de 1991, a partir de um grupo de 20 rapazes e raparigas estudantes universitários de conotação económica ou seus afins. Inicialmente, pretendiam que fosse um clube fechado a uma elite de jovens, mas os que de perto acompanharam a vida associativa por eles próprios ou por intermédio dos seus pais, acabaram por tornar a associação aberta, a membros de todas as origens sociais confundidas.

O seu objectivo principal “era preciso mudar a imagem dos Emigrantes em França e em Portugal”.

Através daquela vontade de mudança, diríamos de transformação, as suas actividades têm surpreendido a Comunidade e obrigado os observadores sociólogos a deterem sobre estes jovens, uma fina atenção. Alguns artigos já foram escritos, incluindo um dos nossos e o jovem Jorge de la Barre acaba de publicar o livro “Jeunes d’Origine Portugaise en Association - On est européen sans le savoir”, no ano de 1997 e pelas Edições de l’Harmattan - Paris, cujo tema central é a acção e a composição desta Associação de Lusodescendentes.

A internacionalização da economia portuguesa, a política de integração francesa e a teoria da cidadania europeia são realidades sociais e económicas e vontades políticas que determinaram a queda do monolitismo associativo e que desde a 2a. fase, deste Movimento começou a dar os primeiros sinais da sua transformação.

Em 1982, em plena 2a. fase do Movimento Associativo, tinha já sido criada, por uma vintena de militantes dos mais novos - primo-migrantes, uma associação muito especial, designada “Colectivo de Estudos e Dinamização da Emigração Portuguesa” que incluíra no seu programa “criar meios de inserção social com a aceitação completa das origens culturais da Comunidade portuguesa na Sociedade Francesa”.

Entretanto, já se havia desenhado também no espírito da Comunidade, uma perspectiva europeia dos Portugueses em França, na primeira reunião do primeiro Conselho das Comunidades, em Abril de 1981, incluindo nos seus debates o tema “integração Europeia”. A ideia de inserção social passou para o termo da integração que resultou duma vontade política francesa também desde 1986 e que foi ganhando terreno, na gente nova da nossa Comunidade. Esta data coincidiu com a entrada de Portugal na CEE e a tal “Integração Europeia” efectivava os seus primeiros passos. Mesmo na designação dos Portugueses em França, também passaram a chamar-lhe “Portugueses Residentes no Estrangeiro” ou “Cidadãos da Europa”.

Porém, a ideia tem continuado a evoluir e veremos que, nos Estados Gerais dos Portugueses na “Grande Arche de la Défense” em 1993, um dos temas do debate foi “Portugueses de França Cidadãos Europeus”. à integração social, à cidadania europeia e à promoção económica dos portugueses, acrescentou-se ainda a nova designação dos jovens que passaram a chamar-lhes os lusodescendentes.

Esta nova designação dos Filhos e agora já netos dos primo-migrantes tem a ver também, com a dupla nacionalidade, oficializada pelo Estado Português.

Por isso, esta lusodescendência tem sido alvo de atenções pela parte do Governo português, dentro da sua perspectiva política da internacionalização económica do nosso País, em ligação com a organização dos núcleos empresariais da cada região, como por exemplo o NERA no Algarve ou NERBA de Bragança e associações de outras zonas de Portugal, coordenada pela Confederação das Associações Empresariais Regionais, a CAER, criada em 16/01/1991, que incluiu também como membro da ANJE (Associação Nacional de Jovens Empresários). Também na Comunidade Portuguesa em França, à semelhança de outras espalhadas pelo mundo, concebidas como Regiões, a partir de Lisboa, nasceram associações empresariais, como tivemos ocasião de falar. Parecem-se com os NER’S que se criaram em Portugal durante a década 80.

Tal como a CAER, em relação à Associações Empresariais do nosso país também à confederação mundial dos Empresários das Comunidades Portuguesas, com sede em Lisboa, criada um ano depois, tem por objectivo, coordenar os clubes e as associações dos empresários portugueses criadas nos diversos países, para onde emigraram, incluindo a França, como já foi abordada esta questão.

Nesta perspectiva, o Ministério dos Negócios Estrangeiros configurava-se como uma verdadeira “Multinacional”, através das suas “delegações” ou a rede Diplomática e Consular existente, segundo informações do Secretário do Estado das Comunidades Portuguesas, de então, na sua primeira mensagem aos empresários das Comunidades (1a. Newletter da C.M.E.C.P.).

Para além da Associação Nacional de Jovens empresários, a ANJE que promoveu o 1°. Congresso dos Jovens Empresários Lusófonos no Estoril, em Março de 1995, já havia sido criado em Portugal o programa JEEP (Jovens Empresários de Elevado Potencial) que tem tido como objectivo, descobrir jovens vocacionados para o exercício da função de empresários. Já tinham sido realizadas 8 edições em Portugal, quando em 19/09/1994, se realizou a primeira na Comunidade Portuguesa em França.

Nesta edição, dentro das diversas intervenções que se realizaram, afirmou o deputado do PSD, Carlos Oliveira que “este é o momento histórico para se concentrar na Juventude a Política do Estado Português, em relação às Comunidades Portuguesas”.

Assim, se observa que também estes Lusodescendentes se encontram no ponto de mira, da dita internacionalização da economia portuguesa, como futuros especialistas e técnicos desta matéria.

Foi neste sentido que vimos a Associação “Cap-Magellan” fazer parte dos 143 membros do “Clube dos Empresários Portugueses em França” (CEPEF) ; e o presidente desta associação de Lusodescendentes participar no Seminário de 7 a 9 de Novembro de 1994, em Lisboa, da confederação Mundial dos Empresários das Comunidades Portuguesas, com o tema : A  Acção das Comunidades Portuguesas na Economia Global. Esteve também presente, nos dias 9 a 11 de Março de 1995 no Hotel-Estoril em Lisboa, durante o 1°. Congresso dos Jovens Empresários Lusófonos (ANGE).

Segundo informações daquele mesmo deputado do PSD, o Orçamento da Secretaria de Estado da Juventude consagrou para o ano de 1995, uma verba de 20 mil contos reservada ao apoio do associativismo jovem nas próprias Comunidades. Afirmou-se na mesma notícia que a prestigiada associação de jovens “Cap-Magellan” sediada em Paris, irá beneficiar de um Centro inforjovem apoiado pelo Governo.

Por isso, achamos legítimo termos afirmado em 07/04/1995 o seguinte :

Dentro deste espírito e vontade e numa teia estrutural, os jovens da “Cap-Magellan estarão a ser recuperados ou impulsionados pelas forças centríptas económicas e políticas portuguesas ? E pelas circunstâncias que acabamos de expor, podemos concluir que a  Associação destes Jovens Lusófonos se enquadra na actualidade das ideias europeias ; transformação da nossa Comunidade em França, e na política da internacionalização da economia portuguesa, defendida pelo Governo anterior. No aspecto cultural conseguiram mostrar espectacularmente a transformação da Vida Associativa nesta época da Europeização.

Estes Jovens apesar de estarem perfeitamente bem integrados em França, não querem esquecer a cultura portuguesa, mas pelo contrário conhecê-la melhor segundo eles dizem, enraizando-a num melhor conhecimento da língua portuguesa.

Foi graças a esta Associação que a Comunidade começou a conhecer a música de Portugal, dos novos tempos, convidando Grupos modernos como o Grupo Novo Rock (GNR) ou o Grupo Madredeus. Para o melhor conhecimento da língua portuguesa têm organizado vários debates à sua volta como o da Primavera/93 ou o do 4°. Fórum intitulado Conhecer o Português, uma Vantagem na Procura dum Emprego.

Neste desejo de conhecer melhor a sua língua materna a “Cap-Magellan” liga-se também ao cordão umbilical do Associativismo Português em França, neste tempo da transformação, da nova época da Europeização.

Sabem assumir-se e não têm vergonha da suas origens, como também os lusodescendentes que acabaram de criar a Associação Agora à Argenteuil. Nesta descoberta das origens dos lusodescendentes, à semelhança da “Cap-Magellan” é com agrado que vemos também nesta década 90, aparecem Mémoires e teses nas Universidades Francesas dos Jovens Portugueses e até publicações de livros.

Assim, já na década 80 tinha aparecido o livro da Jovem de então, Maria do Céu Cunha Portugais de France CIEMI-l’Harmattan, Paris 1988. Na década noventa, tivemos conhecido do Mémoire de Maîtrise d’Histoire (1994-95) Les portugais dans les bidonvilles du Nord Est de la Banlieue Parisienne (1961-1973) do Jovem António Saraiva da Universidade de Paris VIII. Também o Mémoire de um DEA, Le Bidonville des Portugais - à Massy (1964-1977) da Jovem Brigitte da Graça, apresentado em 1996, no Institut d’Etudes Politiques de Paris ; o Mémoire de maîtrise d’Histoire, L’immigration portugaise vue à travers un journal de l’Eglise Catholique de France de outro jovem, Alfredo da Cruz, apresentado na Universidade Paris I - Panthéon  Sorbonne. E outros que estão em vias de apresentação e de publicação como o que foi publicado já em livro, no final de 1997 de Jorge de la Barre que atrás anunciei e que o dedicou à la mémoire de mon grand père Jorge, sagesse généreuse.

Por isso nos prova, como temos vindo a defender, que os indivíduos sentir-se-ão tanto mais feliz, quanto mais souberem assumir o que são e conhecerem melhor os seus ascendentes. Só assim saberão construir com mais consciência a nova etapa da Comunidade Portuguesa em França e que também se revelou nas Assises Portugaises em Abril de 1993.

 

Les assises portugaises  (Abril 1993)

Este acontecimento teve lugar em Paris e na província, durante os dias 3 e 4 de Abril de 1993 e foi designado por “Assises de la Communauté Portugaise de France” sob o slogan : “Portugueses de França Cidadãos da Europa”. Para além de outros aspectos que nos pareceram muito positivos, também observámos, e pela segunda vez, a convergência dos dois caminhos paralelos dos Portugueses em França de que temos falado. Por outro lado, o facto de terem ocupado os espaços da “Grande Arche de la Défense” demonstrou que os Portugueses saíam dos espaços exíguos e secundários, onde muitas vezes se reuniam e realizavam as suas recreações, para espaços daquela primeira categoria.

Esta manifestação portuguesa teve o alto patrocínio do Presidente da República Portuguesa, Dr. Mário Soares ; e da República Francesa, Mr. François Mitterrand.

Os Estados Gerais da Comunidade Portuguesa em França, como os jornais intitularam as “Assises Portugaises” numa dimensão à escala deste País Acolhedor, foram da iniciativa de Coordenações de Associações da região parisiense e de outras instaladas na província, em colaboração com as associações empresariais, com a pastoral emigrante e com as

associações da Juventude Portuguesa incluindo a “Cap-Magellan”.

Naquela manifestação observámos também a participação de personalidades e especialistas, daquilo que eu chamo Comunidade oficiosa e oficial, bem como a participação de personalidades francesas, embora em número mais reduzido do que se esperava.

O objectivo principal destes Estados Gerais Portugueses, foi em primeiro lugar, de nos reconhecermos e de descobrirmos a posição que naquele momento, ocupávamos em França ; e em segundo lugar, quebrarmos a tal invisibilidade de que tanto se tem vindo a falar, sobre os portugueses.

Pelas participações que observámos, aquela iniciativa ilustrou de forma eloquente, a vitalidade global da Comunidade e aqueles Estados Gerais representaram também a primeira oportunidade, na convergência dos dois caminhos, de podermos discutir temas tão importantes como : Aspectos Económicos e Sociais, Aspectos Culturais ; Acerca da Cidadania ; e ainda o aspecto científico, onde participaram quase duzentas pessoas dos diversos sectores portugueses, neste país.

Só por esta oportunidade, pensamos que já valeu a pena a realização das “Assises Portugaises” e por terem provado a nós mesmos, a nossa maturidade e a nossa capacidade de transformação à conquista de Outra Imagem.

 

Ao encontro do espírito português em França:

A outra imagem

Lembramos o acontecimento da Presença Portuguesa no Zénith, em Maio de 1986 e dos Estados Gerais da nossa Comunidade na “Grande Arche de la Défense” em Abril de 1993, como fio condutor que nos conduzirá ao Encontro do Espírito Português em França, no último trimestre de 1996.

Também neste último trimestre de 1996, podemos observar uma estreita colaboração, entre as

instituições associativas e as instituições oficiais e oficiosas portuguesas, onde pela terceira vez, vimos convergir aquele caminho paralelo das diversas componentes da nossa Comunidade de que temos vindo a falar e que de novo se encontraram no Espírito Português em França, isto é, naquele espírito criador dos portugueses, nas suas diversas formas de recreio e de cultura que foram apresentadas, durante aquele fim de ano, tanto aos Portugueses em França, como aos Franceses que apreciam a nossa maneira de ser.

Assim fomos espectadores do V Festival do Teatro Português em França, por iniciativa

da CCPF (Coordenação das Colectividades Portuguesas em França) que contou mais de 50 representações espalhadas por cerca de 20 cidades, na área metropolitana de Paris e em cidades da província, actuando ainda na Bélgica, na Suíça e em Luxemburgo. Todos os espectáculos tiveram uma média de 100 espectadores, em cada sessão, havendo algumas sessões com mais de 300 pessoas, como foi o caso da última representação, no Teatro Menilmontant de Paris.

A “Cap-Magellan” no seu 5° Fórum, conseguiu também a presença de mais de 50 stands de instituições oficiais, de empresas e de organizações associativas. Apresentou dez colóquios com diversos temas da actualidade ; 12 animações culturais com realidades do Portugal de hoje e da lusofonia de diversos continentes ; e ainda o habitual concerto, desta vez com os “Despe e Siga” no Divan du Monde, em Paris. Lembramos que caucionaram este Fórum, a presença do Prémio Nobel da Paz, José Ramos Horta e o Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio. Também a Igreja Portuguesa junto da comunidade, uma das primeiras instituições do nosso país que estiveram ao lado da Emigração, desde da primeira hora, comemorou em 8 de Dezembro de 1996, os 350 anos do juramento e da vassalagem de D. João IV à Nossa Senhora da Conceição, tornando-a por Padroeira do Reino de Portugal, onde estiveram presentes muitas individualidades civis e religiosas tanto portuguesas como francesas. A Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, neste final de 1996, contabilizamos-lhe uma dúzia de acontecimentos culturais, como é do seu hábito, para um público naturalmente seleccionado, pelo tema de cada iniciativa cultural, mas que neste trimestre, permitiu ainda, nos seus espaços outras manifestações de ordem associativa, como as que se relacionaram com o programa do V Festival da CCPF e as do programa da Associação Presença, em diversos temas de ordem cultural e apresentados, exclusivamente em Português.

Neste desenrolar de actividades culturais da Comunidade Portuguesa em França, podemos ainda falar dalgumas promovidas pelo Instituto Camões próximas de V Festival da CCPF e da grande solidariedade da Casa de Portugal da Cidade Universitária, com o Movimento Associativo, especialmente naquele trimestre que temos vindo a analisar.

Neste movimento trimestrial, também o empresariado português do 1° tipo como a Caixa Geral de Depósitos, o Banco Pinto e Sotto Mayor e a Império, voltou a apoiar alguns artistas portugueses. Nesse apoio oferecerem espaços para exporem as suas obras como as da Paula Liberato, na Caixa Geral de Depósitos ou as do Orlando Pompeu na Império ; ou então

subvencionaram-nas como a exposição da Isabel Saraiva, na Cidade Universitária ; ou a da Helena, na galeria rue Treger em Paris VI.

Algumas destas exposições tiveram tambÉm o apoio da Embaixada Portuguesa em Paris

Devemos também salientar, neste fim de ano de 1996, a cooperação Franco-Portuguesas que havia nascido na 2a fase do Movimento Associativo, como vimos. Contudo, desta vez, essa cooperação foi mais alargada da que tem sido habitual no Associativismo Português. Vimos então acções culturais e comuns como as da Interaction France-Portugal ; as do Consulado Português de Nogent sur Marne com a “Mairie” desta cidade, à volta das comemorações dos 25 anos daquele Consulado ; e como as do Festival Ibérico em Rueil-Malmaison, à volta das duas culturas Ibéricas ; e ainda a homenagem ao grande escritor português, Eça de Queirós, por ocasião do 150e aniversário do seu nascimento, em Neuilly e na UNESCO, em Paris.

Com todas estas manifestações culturais, houve uma maior aproximação Luso-Portuguesa e Franco-Portuguesa que nos conduziram à revelação da Outra Imagem.

Nesta transformação da Comunidade Portuguesa em França, também a investigação científica francesa começou a interessar-se, em estudar a nossa realidade na Sociedade Acolhedora. Assim, nestes últimos anos, sobretudo a partir de 1993, várias teses Universitárias e publicações de alguns livros, revelam o interesse que suscita ultimamente, aos estudiosos franceses, como por exemplo a publicação em 31 de Março de 1995 “La Communauté Portugaise en France : Espace et Devenir” de Nathalie Kotolok-Piot ou o “Mémoire” de um DEA em preparação do jovem francês Bernard Perret na “École des Hautes Études en Sciences Sociales” de Paris, intitulado “L’intégration des Portugais en France”.

 

Conclusão

Para concluirmos, gostaria de salientar  os seguintes pontos essenciais deste nosso testemunho

• A evolução histórica da nossa presença em França neste século, fez-se através de três gerações distintas e uma geração indirecta depois dos anos sessenta e setenta.

• O percurso do Movimento Associativo desde aquelas décadas, permitiu-nos acompanhar a evolução e a transformação da realidade portuguesa, no seio da Sociedade Francesa, salientando-se as actividades desportivas, recreativas, culturais e linguísticas, bem como a nossa personalidade na passagem do trabalho por conta de outrem, para o trabalho por conta própria, conquistando uma promoção económica na Comunidade, com o mérito dum reconhecimento das autoridades portuguesas.

• Os três encontros, pelo menos, de dois caminhos paralelos da nossa Presença em França mostraram o que há mais de comum, em todos os Portugueses, seja qual for a razão porque estão cá ou o estatuto social a que pertencem. Encontramo--nos na mesma consciência dum povo que somos.

• A Lusodescendência a mais consciente, tem sabido também afirmar-se à volta das suas raízes, por meio do associativismo e do veículo linguístico e científico com base na nova realidade binacional e bicultural que lhes é própria e que o Estado Português lhes reconhece, através da dupla nacionalidade.

• Também foi possível salientarmos a existência duma amizade e cooperação luso-francesa, tanto no Associativismo, como no institucionalismo e do despertar duma atenção científica, por parte de alguns investigadores das Ciências Humanas, deste País.

Pela análise de todas estas etapas, concluímos que está em marcha a construção de uma outra imagem, da Presença Portuguesa em França, embora haja, ainda muito que fazer nesse sentido, por todos aqueles que se sentem ainda Portugueses e por aqueles Lusodescendentes que não esqueceram as suas origens, neste novo espaço que se abriu da Cidadania Europeia.

Citando o último período da "Memória das Gerações de Portugueses Exilados em França" de 1997 : "Agora que a Cidadania Europeia nos é comum, façamos dela a razão de ser da nossa dignidade, na igualdade de direitos, sem ostracismos nem exílios".