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HUMORES

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- O síndroma da cidade Julho/Agosto 05

- As estaladiças Junho 04

- Flores e Mulheres Abril 04

- Irresponsabilidade Março 04
- Sexo... sem imposto! Fevereiro 04
- Memórias Janeiro 04
- Para o esgoto Dezembro 03
- Malmequer Outubro 03
- Jokas** Julho/ Agosto 03
- Dos aspiradores à música nacional Junho 03
- A bem da Nação! Maio 03 
- Os loucos de Lisboa
Março 03

- Em cada esquina um amigo Abril 03

 

Julho/Agosto 05

O síndroma da cidade

 

É uma prova de resistência viver e/ou trabalhar neste pontinho de terra que se chama Lisboa!

Uma desordenação desconcertante e uma flagrante falta de urbanidade dos seus citadinos. A lei do mais forte aplica-se como um pudim instantâneo.

 

Sobrevive aquele que chega ao emprego no zénite da manhã, estaciona o seu privado meio de locomoção no único lugar onde, por um lapso miraculoso, ainda não se paga e arruma-se a si mesmo durante oito ou mais horas num cubículo com janela para caixotes de ar compresso.

Nesta cidade as imagens que ofuscam e que nos entretêm nos minutos vermelhos do semáforo e nas filas dos serviços públicos são as dos outdoors, as dos reclames nas paragens dos autocarros, ou as dos posters anunciantes de espectáculos culturais afixados nos tapumes das obras. Também são os memorandos amorosos ou desordeiros escritos com caracteres desequilibrados nas fachadas dos prédios. E ainda os anúncios, colados em caixas de electricidade, de cursos rápidos de meditação e relaxamento transcendente à nossa primata capacidade cognitiva.

 

Um dia normal nesta cidade começa assim…

 

Assim que entro no elevador ainda a dormir, acordo de imediato perante um dejecto salivar humano, ainda vivo, no espelho. Tento desviar a atenção e o meu dedo encolhe antes de carregar no botão do rés-do-chão, onde morre uma pastilha engessada. Como me esqueci de comprar lenços de papel, saio daquele espaço de terror e desço seis lances de escadas. Reparo que alguém me presenteou com um furo num pneu e me obriga a correr para o combóio, apavorada com a ideia de chegar atrasada para uma reunião importantíssima. Aproveito a corrida para queimar energias lançando no ar todos os impropérios que aprendi e todas as pragas contra os invisíveis autores e co-autores daquele crime hediondo. O primeiro contacto com a vida humana não foi muito social e faz prever outras “glórias” parecidas.

O combóio já está na estação e uma louca, com duas malas a tiracolo e atafulhada de toneladas de livros e papéis, berra “esperem por mim”. Nesta confusão esqueço-me de comprar o bilhete e um senhor com cara de quem está com prisão de ventre mostra-se insensível às minhas explicações e passa-me uma multa. Dentro do combóio alguém grita “apanha que é ladrão”, uns quantos encontrões, pessoas no chão e o suspeito que consegue fugir; logo depois as expressões indignadas de quem não oferece o lugar que é reservado por direito a uma grávida com um ventre para lá dos 9 meses de gestação.

Chego ao centro de Lisboa, com o nariz entupido pela incomodidade dos suores matutinos embrulhados em after-shave duvidoso e perfume de drogaria, e apercebo-me de que fui eu a vítima do assalto.

Mando para o galheiro o cumprimento moroso das devidas diligências processuais da PSP e entro no metro, onde sou abalroada contra a parede por dois miúdos que não estão familiarizados com a formalidade do pedido de desculpa. Uma pequena arranhadela no cotovelo e uma dor de cabeça, nada de grave. Estou em dieta hipocondríaca.

Desço na Av. de Roma e um excelentíssimo BMW espreguiça-se provocadoramente nas passadeiras; à guisa de me desviar numa desajeitada coreografia de principiante, piso dejectos de pombos e de cães. “Jogue no euro milhões!”, graceja alguém.

Atoscalhada com este princípio de manhã perigoso sento-me no banco do jardim, esconso de velhos e mendigos, e o meu ar triste atrai um, com um par de olhos que já tiveram cor, que comigo entabula uma conversa surreal. Avisa-me que as maçãs irão dominar o planeta. Perco o prumo das horas e o fio do meu profissionalismo. O telemóvel toca ininterruptamente: perdi a tal reunião importantíssima.

Mas gostei de viajar numa nave espacial pela galáxia com as maçãs. Na hora do almoço cometo um atrevimento. Decido vagabundear pela Av. da República, sendo abordada pelas premonições inoportunas de uma cartomante cigana, que me garante, de mão estendida, que vivo um beco sem saída. Agnóstica quanto a estas coisas, arrisco olhar em volta. Estou numa passagem obrigatória para peões encostada ao tapume de uma obra, junto à estação de Entrecampos. Para trás deixei o pandemónio da Avenida, a circulação caótica do Marquês de Pombal, a direcção ascendente e descendente da assustadora Duarte Pacheco; enfim, um terrorismo de fossos e fossas que protagonizam a paisagem urbana. Não é difícil ceder ao suicídio mental que o matraquear das betoneiras e das britadeiras provoca. Este chão, tantas vezes esquartejado, esventrado e durante largos meses com as tripas de fora, começa a ceder ao cansaço das incontáveis cirurgias.

Mais tarde, no regresso a casa, passo pelo supermercado e estanco hirta na fila, com dois pacotes de lenços de papel na mão, e assisto a mais dois episódios da sobrevivência da espécie humana. Uma senhora, porque é idosa, tenta “passar à frente” dos restantes, sem um pedido de licença; e uma situação de conflitualidade entre o preço marcado na embalagem do produto e o preço registado pela “menina da caixa”.

Largo os pacotes de lenços e chego a casa com a ligeira sensação de ter passado pelas brasas do inferno. Mais uma vez.

 

Susana T. Vieira

 

 

Junho 04

As estaladiças

 

Sou, desde há vários anos, utilizador do serviço da Carris, usando os autocarros da empresa quase diariamente, enquanto meio preferencial para me deslocar no interior da cidade de Lisboa.

Que a rede não é perfeita, há muito que o sabia, que os horários são, em geral, uma desgraça, ninguém tem particulares dúvidas, que os autocarros são velhos e destoam do topo de gama particular em que o Sr. Presidente do Conselho de Administração se desloca, também não posso colocar em causa, mas autocarros com baratas?

A história tem tanto de insólita, como de nojenta e deprimente.

No passado dia 18 de Maio entrei, em Santa Apolónia, no autocarro número 46. Eram cerca das 23 horas e 10 minutos e o mesmo estava praticamente vazio. Além de velho, o autocarro estava particularmente sujo, mas nada a que não esteja, desde há muito, habituado. Como os lugares disponíveis eram bastantes, escolhi um do fundo e sentei-me à janela. Olhava eu para a bonita cidade que temos quando de repente sou confrontado com um ser de aspecto estaladiço: a bela da barata!

Dei por mim a pensar que estava a ver mal. Afastei-me um pouco da janela e não “fiz nenhum escândalo”, em respeito pelo pobre insecto, que não tinha culpa de o terem deixado passear no autocarro.

A viagem continua, então.

Eis senão quando, alguns minutos depois, não muitos, reparo : Outra barata! Comecei a achar demais. Como tinha pressa em chegar ao meu destino, limitei-me, na altura, a mudar de lugar, para um ponto afastado da janela em que, à data, se passeavam as “baratitas”, agora já no número de três.

Ora, ter que suportar autocarros velhos, eu ainda suporto, mas com baratas como prémio? Não me parece nada adequado.

Adquiro, mensalmente, o meu passe combinado e dou por ele mais de 60 euros. Tenho o direito a viajar num autocarro sem “bicharada” multipatas.

Não acredito que a Carris não conhe-ça empresas de desinfestação, em todo o caso, se para tal for solicitado, posso procurar nas listas telefónicas alguns contactos.

Escrevi ao Provedor do Cliente da empresa uma simpática carta “anti-barata”. Darei posteriormente conta da eventual resposta.

Já agora, lanço ao presidente da Carris um desafio público : tal como um padeiro só sabe se o pão que faz é bom, se o comer, também um gestor duma empresa de transportes públicos só sabe se a rede que gere funciona, com ou sem baratas, com lixo ou sem lixo, com motoristas rudes, mal criados e mal cheirosos ou com autocarros que deviam estar a servir de vasos para eucaliptos, se despir o fato e a gravata e experimentar viajar, de forma continua-da e em plena hora de ponta nos autocarros da sua Carris.

O meio disto tudo só tenho pena das baratas, que podiam ter escolhido um sítio mais asseado para habitar, agora, minhas amigas (dirigindo-me às ‘estaladiças’), um autocarro?  

 

Nuno Ferreira

Abril 04

Flores e Mulheres

 

Não vou escrever sobre terrorismo.

Março foi o mês do dia Internacional da Mulher. Peguei na carteira e ofereci flores a todas as colegas da redacção da rádio que me dá emprego. Contei e são quatro (cinco, mas uma eu não vejo). Fui o único a oferecer flores.

 

Reacções : Uma perguntou quem é que as tinha oferecido e duvidou quando disse que tinha sido eu ; outra riu-se e pegou no telefone, sem tão pouco dizer “obrigado” ; a terceira saiu-se com um “Ah... obrigado” ; a quarta, mais nova nas andanças radiofónicas, sempre se mostrou mais encantada com a oferta, mas, desgraça das desgraças, nem se deu ao trabalho de levar a flor para casa ; valeu a porteira do edifício onde funciona a rádio, que veio da Ucrânia e que fez um sorriso tão lindo que me fez acreditar que os 7 euros valeram a pena. Mas fiquei tão frustrado com a indiferença das minhas colegas que entendi dedicar a todas as “indiferentes” as linhas que se seguem, de teor puramente machista!

 

Meus amigos : Sou um dos tais! Eu sou um dos tais que lê revistas para homens, que trazem mu-lheres semi despidas na capa e que dedicam pelos menos 5 páginas por edição ao sexo.

 

E mais digo : Não raras vezes fantasio loucuras e devaneios com as “piquenas” que povoam as páginas coloridas das ditas publicações. É o meu grande consolo mensal. No início de cada trinta dias, vou ao quiosque e compro a revista. Levo sempre a minha pasta, para poder disfarçar e evitar que alguém repare que levo comigo uma revista com mulheres de formas avantajadas e roupa reduzida. Ai Deus!

 

Meto (reparem nas múltiplas interpretações do conceito “meto”), pois então, a dita revista na discreta pasta e caminho triunfante pela rua. Olho os demais da mesma espécie e tento adivinhar quem tem uma como a minha. Não é difícil. Afinal, em comum, todos temos o andar vencedor. Passo a passo, acelerado, caminho, antes que seja tarde demais para ler a revista. Chego então a casa. Sento-me no sofá da sala e deixo a imaginação voar, voar, voar.

Claro, pois... já antes desfolhei a revista no comboio, ou no autocarro (se consegui lugar sentado). Já me ri disfarçadamente das piadas e dos dotes das “belas”. Mas é em casa, naquele momento que antecede o jantar e que é só meu, que sinto a revista, que rio compulsivamente e que chamo nomes feios às vedetas do mês.

Ai a revista, a revista. O melhor dia de todo o meu mês.

Mais ou menos a meio paro. Pego no telemóvel. Acedo à lista telefónica. Vejo nome a nome. “Gaita”, penso, “não há ninguém de jeito”. “Esta diz-me que não”, “Oh... e esta nem me responde”.

Reparo depois, naquele momento em que já li tudo o que havia para ler, que afinal não é tanto como isso, não fosse esta uma revista para homens, que  estou sozinho. Que a “tipa” da primeira página não teve a amabilidade de sair do papel. Inadmissível! Esta vai ser, uma vez mais, uma noite passada na solidão da TV Cabo.

Logo recupero e um, dois dias depois, passada a depressão, já só penso nas “boas” do mês que vem.      

Enquanto isso devaneio, devaneio, devaneiooooooo e juro a mim mesmo que nunca mais ofereço flores a vivas.

 

Nuno Ferreira

 

 

Março 04
Irresponsabilidade

Somos uns chatos! Ou melhor : os sindicalistas são uns chatos. Cabe lá na cabeça de alguém que os sindicatos da administração pública estejam numa de dar cabo da cabeça à Ministra das Finanças exigindo aumentos salariais para a função pública. Já não bastava o problema do défice e agora a doce Ferreira Leite tem ainda que se preocupar com os aumentos salariais.
Não obstante as dúvidas que me povoam a mente, há uma certeza da qual não abdico : aumentar o subsídio de refeição em 12 cêntimos por dia é uma medida que, de tão descabida, devia ser revogada. Enganam-se, no entanto, aqueles que pensam que considero o aumento demasiado insignificante. Antes pelo contrário sou apologista da inexistência de um aumento, de todo.
Porquê? Perguntarão alguns. Acompanhem o meu complexo raciocínio :
Doze cêntimos por dia, implica, ao fim de uma semana sem dias feriados nem pontes, 60 cêntimos de aumento por semana. Ora, com 60 cêntimos já se bebe um café. Se tivermos em conta que, só chegando à sexta-feira um funcionário público sabe se a sua semana ocorreu sem nenhum sobressalto, apenas ao fim de cinco dias de intenso trabalho sabe se ganhou o tal extra para o café.

Continuemos...
Tendo tudo corrido como era esperado, o funcionário público dirige-se ao café mais perto da sua repartição e pede “uma bica”. Como nestas coisas da administração pública há um profundo espírito comunitário, o funcionário faz-se acompanhar por colegas que, tendo laborado toda a semana, têm 60 cêntimos a mais para investir / gastar.
Suponhamos, porque estamos só no campo das suposições, que se juntam, em torno de uma mesa,
5 funcionários da repartição. Vejam bem o tempo que um funcionário público vai perder no final de tarde de sexta-feira, quando, ao invés, deveria estar deleitado em jogos familiares:

O acto de sentar cinco 5 pessoas : 1 minuto ; o acto de pedir os cafés : 2 minutos ; o esperar pelos cafés : 5 minutos (atendendo que o estabelecimento está cheio de funcionários públicos e que todos querem o mesmo, sendo que a máquina só tira 3 cafés de cada vez) ; o acto de beber o café : 10 minutos (entre conversas e baboseiras típicas de quem está de partida para o fim-de-semana) ; o acto de pagar o café : 5 minutos (atendendo que o estabelecimento está cheio de funcionários públicos e que todos querem o mesmo, sendo que a máquina só tira 3 cafés de cada vez e que a funcionária que tira os ditos é a mesma que recebe o dinheiro e dá o troco) ; o acto de despedir dos colegas : 5 minutos. Total : 28 minutos!
Meus amigos, em 28 minutos faz-se um ou dois filhos (gémeos ou não) ; em 28 minutos prepara-se uma lasanha pré-congelada ; em 28 minutos derruba-se um regime ; em 28 minutos grita-se com o cônjuge, leva-se o cão à rua, muda-se a areia da caixa do gato e ainda se vertem águas. Vinte e oito minutos meus amigos, 28 minutos.
Manuela Ferreira Leite teve uma atitude irresponsável, inviabilizando a construção de um ambiente familiar sólido e o aumento da natalidade, mesmo o futuro do nosso país. Quem somos nós sem o nosso povo? Só me resta uma solução : Sra. Ministra, demita-se!

Nuno Ferreira

Fevereiro 04
Sexo... sem imposto!

As linhas que se seguem foram escritas há mais de um ano. Nunca foram publicadas nesta revista... até hoje!
Para este mês proponho o estudo do sexo! Falar de sexo é falar, numa óptica positiva, em prazer e principalmente em prazer à borla (excepto nos casos que por certo passam, nesta altura, pela cabeça do leitor). Se repararmos com atenção, que outros grandes prazeres da vida podem ser gozados sem pagar? Muito poucos.
Então e desperdiçamos a actividade sexual, quando, ao que parece, os portugueses até são sexualmente muito activos? É uma pena que assim seja.
É presunção minha, mas se a Ministra Ferreira Leite ler esta crónica talvez se lembre de começar a taxar as relações sexuais dos portugueses. Afinal, é das poucas coisas que ainda não estão sujeitas a nenhum imposto.
Quando a medida avançar, então teremos os chamados I.G.C.C.S. - Inspectores Governamentais de Controlo das Cópulas Semanais, que operarão de acordo com um regulamento próprio, a seu tempo aprovado no parlamento e que, com poderes muito bem definidos, podem invadir a nossa propriedade privada e inspeccionar se há algum tipo de actividade sexual ilícita. Nessa altura, os portugueses serão forçados a manter as suas relações em locais próprios, designados por C.R.C. - Centros Regionais de Cópulas, com a respectiva vertente concelhia. Após o “acto”, os funcionários, contratados para o efeito e em regime de contrato a termo certo, ficam responsáveis por cobrar o valor estipulado pelo decreto-lei do Executivo. Como é natural teremos também os habituais “eu não pago, pagas tu”, que vão ultrapassar a média das “três” por semana, chegando às “vinte” ou “trinta” (bem...), mas só vão pagar “duas”.
Não quero desanimar o prezado leitor, nem tão pouco faço aqui um convite à abstinência, mas há que fazer um sacrifício... a bem da Nação, que está em crise!
“Em crise? Eu disse em crise?” Sim, em crise! Uma daquelas crises sazonais, em que não há dinheiro para nada e em que é preciso ir buscá-lo a qualquer lado, de preferência ao bolso dos que têm rendimentos mensais inferiores a 1000e. E convenhamos que taxar o “sexo caseiro” é uma óptima maneira de se facturar.
Afinal, é muito mais fácil taxar o que o povo “faz”, do que cortar em viagens ao estrangeiro dos Srs.de S. Bento. É mais fácil aumentar as portagens, os transportes, a água, a electricidade e bla, bla, bla.
Torna-se mais prático subir o IVA, do que cancelar a assinatura do telemóvel do amigo do primo do amigo do Sr. Ministro.
Em tempo de crise, o melhor mesmo é fazer como eu : arranje um mealheiro e cole uma etiqueta que diga : ESTADO. Quanto ao outro assunto... aproveite, que ainda não paga imposto! 

Nuno Ferreira

 

Janeiro 04
Memórias

Como esta crónica foi escrita antes do final de 2003, vai assim : Este ano não quero estar sóbrio quando o ano acabar. Quero ter a certeza de que desmaio em 2003 e só acordo em 2004.
“Guerra no Iraque”, “Adesão de novos países à União Europeia”, “Constituição Europeia”, “Captura de Saddam”, “Défice que não desce”. Não é difícil de imaginar estes títulos entre os factos do ano, pois não? Sabem o que digo a tudo isto? Que se lixe.
Eu quero lá saber da guerra no Iraque, do Saddam, dos filhos do homem e dos enteados do primo, quero lá saber do défice da ministra e dos países que aderiram. Fica aqui, por isso mesmo, o meu balanço, aquele que não interessa a mais ninguém, só a mim. No meu mundo, repito, no MEU MUNDO, este foi o meu ano... o meu ano :
A minha avó adoeceu, a minha avó morreu ; o H desapareceu ; a Áustria é linda ; a rádio uma paixão ; os livros uma perdição ; o ensino superior uma desgraça.
De 2003 ficam as lágrimas, muitas, os sorrisos, alguns. Ficam os cheiros : de Viena, de Salzburgo, de Amsterdão, da lixeira que construíram ao pé da minha casa. Ficam os projectos por realizar : A carta de condução por tirar... há quantos anos? 5? Sei lá eu... ; os quilos que não perdi ; os quilos que ganhei. Ficam os sonhos realizados : (...) Estes são só meus.
Ah, 2003.
2004? As expectativas :
Os quilos que vou perder ; os quilos que não vou ganhar ; a carta de condução que vou tirar ; a viagem que vou fazer ; os livros que vou ler ; os sorrisos que vou conseguir esboçar ; as lágrimas que certamente me vão rolar pela cara.
Mas há coisas das quais não me vou conseguir desligar (não quero desligar) : o vício de escrever ; o vício de falar mal dos outros, sem magoar ninguém ; o prazer de ler até adormecer, o prazer de não fazer o que tem de ser feito e pensar : “boa!”.
Em 2004 não vou deixar de descer no 15 na Praça do Comércio, subir a Rua da Prata, comer um croissant quente com amêndoa, dar a volta à Praça da Figueira, atravessar o Rossio, subir a Rua do Carmo, subir a rua Garrett, tomar café na Brasileira, descer a rua Garrett e sentir-me um Carlos da Maia, dum romance de Queiroz.
No novo ano, prometo ser eu, prometo não adormecer tantas vezes, prometo beber leite todos os dias de manhã, prometo dar sangue quatro vezes, prometo não implicar tanto com o meu gato e prometo ainda não demorar tanto tempo a entregar os textos para serem publicados.

Até depois. Bom ano. 

Nuno Ferreira

 

Dezembro 03
Para o esgoto

Se há coisa que me comove cá no burgo são os protestos, as manifestações, os “Durão é cag**”. Toca-me, provoca-me arrepios. Sei lá, “tá a ver?”.
É curioso de se notar como em Portugal uma manifestação raramente junta mais que uns escassos milhares de saloios a gritar muitas vezes não se sabe porquê. “Para a rua, aldrabões, vigaristas”. Mais nada! É a loucura, a emoção, o patético e o ridículo. Mas nada supera os efeitos avassaladores que vulgarmente as manifestações têm : nenhum!
Ora, ora, não estarão certamente à espera que disserte sobre as razões que estão na base da falta de participação dos tugas nas manifestações sempre pomposamente anunciadas pelas centrais sindicais (?). A pouca massa cinzenta que disfarça o vazio enorme que é o meu cérebro não me permite as grandes incursões de índole intelectual. Agora, que é lindo, ai lá isso não se pode dizer que não!
Conta quem viveu, que no pós 25 de Abril as coisas eram diferentes. Acredito. Então mas para onde foi a virilidade? Deixo a resposta para os pensadores da casa, mas sempre vou opinando: para o esgoto. As esperanças que se tinham há 30 anos são agora vãs e por maior que seja a causa, dia de greve não é mais que dia de descanso.
Mas que raio de greves são aquelas em que os patrões saem beneficiados? Sim. Vejamos : Quando escrevo esta crónica (?), a cidade de Lisboa está a poucas horas de mergulhar no caos completo, com mais uma greve dos motoristas da Carris. Também é catita de se ver. Agora imaginem o administrador da transportadora sentado no gabinete, com as pernas em cima da secretária a comer amendoins e a deitar as cascas para o chão. Ao seu lado, o contabilista da empresa faz contas aos lucros. Sim, porque com uma greve das “caminetes” apenas se gasta nos magros transportes alternativos, poupando-se no gasóleo, nos ordenados e demais bónus. Afinal de contas o dinheiro dos passes já lá canta. Enfim...
Quase tão mau como “as dos choferes” são mesmo as greves dos estudantes. É justo, sim senhor, as propinas são caras, exageradamente caras, estupidamente caras, mas caramba, refilam, mas pagam. Filhos meus... assim não vale a pena! Alguém acha mesmo que o governo vai voltar atrás? A haver revogação de medidas elas serão a nível interno, em cada uma das faculdades, mas o espírito vai continuar o mesmo.
Está-se bem de ver, sim senhor, que a participação está de boa saúde. Não chateia ninguém, é fugaz e nem chega ao estatuto de sarnenta. Grito, então, bem alto : VIVA PORTUGAL! 

Nuno Ferreira

 

Outubro 03
Malmequer

Mal me quer, bem me quer, mal me que, bem me quer... muito, pouco, nada!
Quantas vezes, ao longo da nossa existência, levantámos semelhante dúvida? Muitas. O governo da nossa mui nobre nação é o espelho mais visível destas dúvidas que tanto nos inquietam. A sério...
Tomo como exemplo aquele que parece ser o caso mais anedótico dos últimos tempos : O aeroporto da Ota. Então as comadres afinal sempre vão construir o aeroporto? Pois parece que sim. A obra, sonho antigo, esteve arquivada, porque era “preciso acabar com as listas de espera nos hospitais”, entretanto as listas não acabaram, e a pressão das sondagens levou a uma decisão épica : “vamos construir o aeroporto”. Rejubilei nessa altura e pensei para comigo mesmo : “tanto poder de decisão só pode vir de um grande líder! Ai Durão, meu primeiro e meu irmão!”. Afinal, também desta vez, o Durão amoleceu e acabou por cancelar a construção do aeroporto. Chorei, levado pela emoção, mas mais não podia fazer do que, de forma resignada, aceitar a decisão do meu primeiro.
Continuei a viver a minha vida, dividido entre as tarefas diárias e as lides domésticas, até que como que por magia ouço o Carmona, sua Exa o Ministro das Obras Públicas, até há pouco vice do Santana, dizer que afinal lá para 2008 deve ter início a cons-trução do novo aeroporto.
O que me entristece mais não é o facto de eu saber, como vocês sabem, que não vai ser bem assim, mas antes o facto de ter sequer que imaginar Durão e os seus camaradas (!) no poder em 2008. Não que isso possa ser nefasto para o nosso país, mas coitado do nosso primeiro, de tanto dizer e contradizer ainda acaba internado nalguma casa de saúde, não vá alguém pensar que o pobre não está no pleno exercício das suas faculdades mentais.
Oh! meus senhores, decidam-se! Temos aeroporto ou não temos aeroporto? A Portela chega ou não chega? Queremos os aviões a aterrar no Parque Eduardo VII, ou não? Agora, tamanha indecisão é que não! Não tenho saúde para perder noites de sono, envolto em suor, a pensar no que o futuro me reserva. E agora, como será? Aonde é que vou apanhar o avião na minha próxima viagem?
A ideia que me dá é que o governo navega ao sabor das marés. Se está no Terreiro do Paço diz : Não vamos ter aeroporto. Se, por outro lado, viaja até à Ota, enfrentando os agentes locais, sente-se intimi-dado com tanta plebe e logo responde : Claro que vamos ter aeroporto, lá para 2088, desculpem, 2008.
A firmeza das respostas é uma das características de um bom líder político e isso falta aos que nos deixaram por cá... azar o nosso! Há males piores, pois há, pior do que não ter um aeroporto novo é imaginar que em 2008 ainda serão os mesmos a governar o país.
Sim, claro que a qualidade nunca muda, mas ao menos mudava o cheiro, que este é nauseabundo.

Nuno Ferreira

 

 Julho/ Agosto 03
Jokas**

Tou completamente obcecado p/meu tlm. Ñ consigo passar s/ele. Caramba, ele é mm giro. Azul c/teclas cinzentas, tem escrita inteligente, msg de imagem e tira fotos bem porreiras! Já tive alguns tlm. O meu ordenado é kuase todo p/o telm. Kuase k n como só p/pagar a conta do tlm e p/adkirir acessórios novos todas as semanas e pk m gosto de manter actualizado troco o meu bixinho p/menos 2 vezes p/ano.

Anda por aí uma febre com os telemóveis à qual eu tive que sucumbir. Não consigo mesmo viver sem um telemóvel e para evitar correr risco de vida, comprei dois! O meu filho ainda não fez dois meses, mas eu não resisti e já lhe comprei o último modelo da multinacional finlandesa. Imaginem só (tenho mesmo que compartilhar esta alegria convosco) que até consigo gravar vídeos de até 3 minutos e assim guardar para a posteridade os momentos mais marcantes da vida do meu menino. Em casa, bem, em casa tenho 6 telemóveis, um em cada parte da casa, a saber, no meu quarto, na sala, na cozi-nha, no WC, no quarto do miúdo e na dispensa, afinal nunca se sabe quando é que alguém precisa de nós.

Este ano ia passar férias ao Algarve, mas devo ficar por casa. O puto ainda é muito pequeno e nos parques de campismo não tenho 10 tomadas disponíveis para o equivalente número de telemóveis (os meus dois, os seis lá de casa e os dois da minha esposa, já que o do Tomás pode ficar em casa).

Deixei de fazer amor com a minha mulher, por medo de me distrair e não ouvir um dos telemóveis a vibrar, já que ela me obriga a tirar o som! Ainda assim ando excitadissimo, abriu uma nova loja de telemóveis on-line e eu já subscrevi a newsletter semanal que assim se junta às outras 10 que recebo todas as segundas-feiras por volta do meio dia.

Alguém me diz as horas? Já!? A conversa está de facto muito interessante mas não me posso demorar mais, tenho que ir trabalhar (arranjei um trabalho temporário para ajudar nas despesas, não sei onde cortar) e quero ver se ainda passo na loja da operadora para pedir o roaming para os meus telemóveis, afinal nunca se sabe se um dia não preciso de ir ao estrangeiro com urgência.

Pi pi pi pi. Uma mensagem! Este som, este som, este som... não consigo reconhecer o som, mas parece-me o da sala. Só um momento, sim?
(pequeno momento de espera)
(ainda o mesmo momento)

Voltei? Não, não era o da sala, mas antes o da cozinha. (“Amor, n t eskeças d tirar a sopa da arca. Chego tarde. Amo-te**”). Tenho que ver se o troco, está demasiado velho, tem uns riscos no visor e já o comprei faz agora seis meses... está velho! Por falar em velho, tenho que ver se troco este rato, gosto mais dos que não têm a bolinha, este vai para a gaveta, ainda está bom, tem menos de um mês, mas não gosto muito do formato, além de que têm três teclas e nunca uso a do meio. [] **

PS : Eu não tenho filhos (ah... também não tenho dez telemóveis!).

Nuno Ferreira

 

Junho 03
Dos aspiradores à música nacional

Quer perder um pouco de tempo com uma coisa perfeitamente inútil ?

Se chegou ao segundo parágrafo, vou partir do pressuposto de que aceitou o desafio que lhe lancei. Pois ele é o seguinte: Imagine-me um vendedor de aspiradores. Imagine agora que me estou a dirigir a passo acelerado à porta da sua casa. Aproximo-me, bato à porta. Identifico-me e proponho-lhe uma demonstração gratuita do produto. O prezado leitor aceita.
Eis senão quando as coisas começam a correr profundamente mal. O aspirador não funciona à primeira (“um mau contacto, por certo” – justifico), durante o teste que decidimos fazer ao colchão da cama do seu filho, a “máquina” liberta um fluído estranho, que mancha irreparavelmente a cobertura do mesmo.
Ora, o que podemos concluir deste role de situações menos agradáveis ? Tirei algumas ilações :
1 - Vou ser despedido ;
2 - O produto que nos querem fazer crer como bom, na realidade não passa de um “erro técnico”.

Pois bem, transporte esta converseta toda para a realidade do panorama musical português e para a discussão que tem existido em torno do suposto facto das rádios nacionais não passarem música portuguesa.
Em primeiro lugar e voltando aos aspiradores, eu, como consumidor, não posso, nunca, ser forçado a comprar um produto com o qual não me identifico. É uma questão de liberdade de expressão  de base, que tem que ser garantida desde logo, sob pena de se cair numa tendência de censura “fascizóide”. Se eu acho, que acho, que a generalidade da música nacional não tem qualidade, porque raio é que tenho que levar com ela no rádio do meu carro ?
Mais, como profissional de rádio que sou, não consigo entender com que legitimidade é que se-nhores, portugueses, que cantam em inglês, me podem forçar a passar música portuguesa.
A realidade é que as acusações são tão mais graves, porque são mentirosas. O problema dos “senhores da música” em Portugal não é o facto das rádios não passarem música nacional, mas antes a evidência de que algumas rádios, não têm nas suas playlists uma tão vasta selecção de música cantada em português de Portugal, como eles desejariam.
Com a posição tomada, os músicos em Portugal, mais não querem do que obter uma promoção gratuita, directa, eficaz e fácil dos seus trabalhos discográficos, para aumentarem as vendas e encherem a carteira.
Então e as rádios locais que têm selecções musicais compostas em 50, 60, 70, 80, 90, 100 % por música portuguesa, em que lugar ficam ?
Os artistas em Portugal têm que perceber que as rádios, se assim o entenderem, boicotam a música nacional, porque ninguém tem o direito de interferir na programação de orgãos de comunicação social livres, porque a música portuguesa, na sua maioria e repito, não presta, porque os músicos abusam das rádios, porque a sua conversa entristece locutores, jornalistas, técnicos e directores. O que eles precisam é da coragem de uns quantos para que em Portugal se comece a mostrar a qualidade da música que se vai fazendo, por exemplo, na Etiópia. 

Nuno Ferreira

 

Maio 03
A bem da Nação!

No outro dia, tomado por pensamentos, talvez pecaminosos, imaginei-me na pele de um chefe de governo português, a discursar de forma eloquente para uma multidão eufórica, após ter sido sujeito a uma lavagem cerebral, levada a cabo por uma qualquer seita apocalíptica. O resultado desses pensamentos é aqui transcrito na integra.
Nota prévia : Não esquecer que o público foi sujeito a uma terapia de reconversão mental.
(Ouve-se uma voz off anunciar na moderna instalação sonora : “Convosco o dedicado primeiro-ministro de Portugal”, ao que o público reage euforicamente).

“Portugueses [nova reacção eufórica] ! É com uma enorme satisfação que hoje me dirijo a todos vocês, com a certeza de que as minhas palavras serão interpretadas de forma deturpada, pelas vossas mentes fracas e manipuladas. Acredito, assim como todo o Executivo, que após este meu discurso, não restarão quaisquer dúvidas sobre a política económica e financeira do governo ao qual presido [nova reacção eufórica].
O nosso país atravessa uma das mais profundas crises orçamentais que alguma vez tivemos que enfrentar [nova reacção eufórica], o desemprego aumenta, ascendendo a valores há muito não alcançados [nova reacção eufórica] e não há esperança de que a situação possa melhorar de forma significativa num curto / médio / longo prazo [nova reacção eufórica]. No outro lado da barricada temos os preços a galopar, os impostos que terão que subir e todas aquelas coisas esquisitas que vocês não entendem a assumirem percentagens pouco recomendáveis para uma economia que se quer saudável [nova reacção eufórica].
Mas meus caros portugueses : Não há motivo para preocupação! Enquanto a crise durar, o vosso Governo não deixara de estar do vosso lado, sempre que for preciso, para lembrar às mentes mais descuidadas que o cinto tem que ser apertado. Não têm mais buracos ? Pois então que os façam [nova reacção eufórica]. O vosso Governo promete  e cumprirá, que hoje, como sempre, não permitirá que tenham uma vida desafogada. O Governo da Nação não tolerará qualquer tipo de actualização salarial, pois entendemos que os portugueses ganham mais, em média, do que qualquer outro irmão, unido pela língua, nos continentes onde marcamos presença. Se defendemos a lusofonia, temos que preconizar, também, a igualdade salarial entre os países da CPLP e já que os países irmãos não podem subir os ordenados dos seus trabalhadores, nós também não subiremos, estudando mesmo a hipótese de os descermos, em prol da equidade [nova reacção eufórica].
Portugueses ! Acreditamos no vosso potencial, pelo que dizemos : trabalhem a cada dia, mais e melhor, sem olhar a questões materiais !
Nação ! O Governo desta mui nobre terra, em defesa dos vosso interesses e para servir os cidadãos, mais e melhor, decidiu, por unanimidade [nova reacção eufórica], aumentar as regalias de todos os membros do executivo, de todos os que ocupam “tachos” na Administração Pública e seus derivados [nova reacção eufórica].
VIVA PORTUGAL [nova reacção eufórica] ! VIVAM OS PORTUGUESES [nova reacção eufórica] !

A bem da nação !” 

Nuno Ferreira

 

Março 03
Os loucos de Lisboa

Lisboa será, porventura, a capital europeia com o maior número de loucos por metro quadrado. Ok, estou a exagerar, mas uma coisa é certa: Lisboa é uma cidade loucamente vibrante.
Na realidade os episódios que vivemos a bordo duma composição do Metropolitano de Lisboa são momentos que valerá a pena guardar na memória para a posteridade, de tão épicos que se tornam, qual Lusíadas.

Há algum tempo atrás, quando, a uma hora avançada, aguardava pelo metro que haveria de me levar ao meu destino, eis que me deparo com um sujeito, dos seus 60 anos, num discurso louco e empolgado, aproveitando a vasta audiência espontânea para dar azo às suas frustrações de “mártir social”. Fazendo uso de uma linguagem excessivamente fami-liar, a tocar no grotesco, o “cabeça de cartaz” daquela noite de Fevereiro insultou em alguns segundos, primeiro fora e depois dentro da sala de espectáculos (o metro propriamente dito), o 25 de Abril, insurgindo-se contra os que “destruíram famílias de gerações”, o Governo de coligação PSD/ CDS-PP e o Marquês de Pombal. Se ainda consigo compreender os insultos ao executivo “laranja azulado” e mesmo ao 25 de Abril, custa-me um bocado a digerir os insultos ao Marquês de Pombal.
Na cabeceira da minha cama até nem tenho uma foto do nosso Marquês e a verdade é que o homem não era grande peça, mas daí até recuperar tão efusivamente a sua memória ?

Com isto gostava de apelar para um problema mais geral e que deveria merecer a atenção dada às grandes causas nacionais: Estamos todos a ficar doidos ! O volume das nossas preocupações começa a passar o limite do razoável e do aceitável.
A culpa de quem é ? Quem tem a responsabilidade de andarmos numa de insultar o Marquês de Pombal, que de homem já se transformou em erva ? Questões para reflexão. Na minha ingénua cabeça de “rapaz novo” acredito que a culpa é sua, é minha, é nossa. Afinal, porque raio é que temos que meter tanta preocupação na cabeça ? É que não nos preocupamos apenas com a nossa vida, mas também com a do vizinho, do colega e até do apresentador de televisão famoso que foi detido.
Não querendo dar uma de terapeuta, que não sou, opino que talvez seja a altura de voltarmos a ser mais egoístas, embora haja quem diga que o somos mais agora do que nunca. Não podemos viver tão intensamente os problemas. A máxima a adoptar é um pouco aquela ideia de Ricardo Reis... Carpe Diem, “aproveita o dia”!
Assim, só assim, poderemos viver na certeza de que nos valorizamos, mesmo que por alguns segundos diários, e deixamos de parte os que apenas nos “querem mal”. Neste campo, os brasileiros são estupendos. Em terras de Vera Cruz à resposta a uma questão do tipo: “Então, tudo bem?”, inclina-se mais para um “Epá, tudo numa boa”, do que para o tradicional “Não pá, isto está tudo muito mal, uma pessoa não tem dinheiro, são só preocupações”.
Somos um povo fustigado, esquecido e desprezado, mas o maior obstáculo à nossa afirmação e ao nosso alívio mental está nas nossas próprias cabeças.

Coitado do Marquês... 

Nuno Ferreira

 

Abril 03

Em cada esquina um amigo

 

 

No passado Domingo 16 de Março, mais uma vez tive a prova de que nesta vida tudo é um eterno retorno.

Não há dúvidas  que o tempo passa e que os homens continuam a estragar rapidamente o que leva anos a construir.

Pelo menos é o que vou constatando ao analisar as acções de quem governa o nosso país. Não tento aqui alargar a observação a tudo quanto se passa em Portugal, falta-me tempo e espaço, além disso, também não quero acabar completamente deprimido, nem contagiar aqueles que me lerão, tantos são os factores negativos que nos são impostos desde que o actual Governo entrou em acção.

Estou a pensar principalmente na triste actualidade que foi a caução avassaladora para todos nós, que “Portugal” deu à política imperialista de Bush, que lança o Mundo numa guerra sem nexo, com cheiro a sangue e a petróleo, de cujas consequências todos vamos sofrer.

Só queria aqui falar no que se passou no Domingo 16 de Março em Paris.

No 16° bairro da rua de Noisiel ficou intransitável uma boa parte da tarde : Operação “Embaixada fechada” !

Mas porquê ? Porque meia dúzia (eram 150) de portugueses de França vieram manifestar contra a restruturação dos Consulados, que conduz ao encerramento de quatro deles, e pedir audiência ao Senhor Embaixador !

Resultado : seis carrinhas da polícia na rua Noisiel, todas as ruas adjacentes cortadas à circulação e ao acesso dos não residentes, em cada esquina dezenas de agentes em uniforme de intervenção, num dealbar de forças que provocaram gargalhada geral na massa dos agressivos manifestantes, que são os nossos patrícios, como ninguém ignora !

Passado este momento de riso - onde alguém perguntou se eram os portugueses ou os polícias que manifestavam - e todas as proporções guardadas, veio-nos à memória, a lembrança escura, do Portugal triste, do tempo do fascismo.

Uma delegação foi recebida, a resposta que nos foi transmitida era lacónica : “está decidido, não se volta atrás, vamos encontrar algumas alternativas para os Consulados que fecharão…” e boas vendas !

Mas é mesmo assim meus amigos. Só quando na Nossa Terra, os Nossos compatriotas perceberem que somos aqui 10% da população do País, que representamos a sua maior fonte de receita, e que indubitavelmente somos a única verdadeira ponte cultural entre Portugal e a França, com capacidade de acção e orgulho de ser portugueses, só nessa altura, é que se farão estudos antes de fazer restruturações, se farão contas antes de aumentar emolumentos, se prestará atenção aos cidadãos antes de chamar a polícia. 

 

Aurélio Pinto