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Julho/Agosto
05
Hei-de
ser Político, sim...
Quando
eu crescer...
quando
eu crescer, quero, afinal, ser Político. Não há vida melhor.
Sobretudo se tivermos umas quantas cenouras à mão para ir oferecendo a
torto e a direito. Sobretudo se nos tivermos preparado. Sobretudo... se
a concorrência não for tão desenfreada assim. Quero ser Político,
pronto!
Comecei,
desde já, a vas- culhar os meus “émulos”. E mesmo não encontrando
muitos, encosto-me à bananeira dos que se afiguram paradigmas de um
certo “savoir faire” que nos deixem tranquilos pelo menos enquanto
durar o tacho... perdão, o lugar.
E
ao fazer isto naturalmente que terei de encontrar quem me ruborize a
face para o que der e vier, me pespegue com um olhar meio bondoso, me dê
a mão leve para cumprimentar tudo e todos, quando não for possível
dar o beijo da praxe numa senhora ou criancinha, das muitas que hei-de
ter sempre à mão de semear. Também para o que der e vier.
Como
nome sou capaz de inventar um que lembre aos que o ouvirem. Filósofo ou
cientista, que para o caso tanto faz. Se possível, hei-de escolher um
partido dito de esquerda (embora não o seja), já que o povo passados
30 anos da grande “desilusão” que terminou quase em “tragédia”,
não pode com a direita. Para falar, e quando falar, depois de ter as
necessárias lições de dicção, hei-de... dizer que não falo, que
falo depois, que só depois das três centenas de inquéritos que hei-de
mandar fazer.
Hei-de
arranjar uma secretária que saiba de tudo sem saber de nada, mas que
saiba encarar o interlocutor a quem passar a ideia de que... é preciso
descansar no chefe (em mim, claro) as dificuldades, porque é para isso
que ele lá está.
Depois,
quando a lição estiver mais ou menos metida na cabeça... hei-de
atirar aos céus – mas sem o dizer muito – a má herança orçamental,
e não só... – recebida dos malandros que me antecederam. Hei-de
decorar, sobretudo neste aspecto, a terrível situação das contas do
Estado. A despeito de saber que não vale a pena apostar no drama das
coisas – o que pode dar a ideia de não ter confiança nas mi-nhas
capacidades – hei-de insistir nesse ponto. É drama, sim senhores.
E
quando o Governador do Banco Central vier a terreiro dizer que a situação
está pior do que pensava (isto é, do que ele próprio tinha dito),
hei-de fechar-me em copas e esperar que a onda passe. O défice é quase
o dobro do que ele dizia não há muito? Guardo isso para mim... e
hei-de afirmar que irei à luta logo, logo mais, quando tudo estiver
esclarecido (o que quer dizer nunca).
Quanto
a objectivos... hei-de tentar demorar o mais que puder antes de os
alardear. Sobretudo para que a onda passe e para que o povo se esqueça.
Hei-de fazer os possíveis para dizer aos meus apaniguados... que não
falem. Que se resguardem. Falar... falar, talvez só aquele “primo
carnal” que não porei no Governo, mas que, tendo ficado no Partido,
tem ordens para zurzir tudo e todos. O máximo que é permitido é dizer
que a situação é má. Muito má. O silêncio é de ouro.
E
como quero ser um político de peso... tentarei dizer o que todos sabem.
Que o Estado gasta mais do que pode. E gasta mal. Se fosse numa família,
já há muito que mulher e marido estavam de candeias às avessas. Como
todos sabem o que eu sei... o melhor é ganhar tempo. Jogar com as
palavras. Não apontar caminhos correctos, porque eles não parecem
existir. Atirar culpas para a pouca produtividade. Não esquecer que a
realidade de hoje não será a realidade de amanhã. E quatro anos
passam depressa...
E
mesmo que os meus filhos que cursaram Universidades caras me digam que
é indispensável definir uma estratégia coerente, eu hei-de resistir
até onde puder. Se o povo me deu a maioria – esqueci-me de dizer, mas
eu só vou à luta, no Partido ou na governação se sentir que me “dão”
o que eu quero... – acredita piamente que eu sou o melhor. E como
melhor que sou... ainda sou capaz de ganhar novas eleições que venham.
Quanto a devolver as esperanças ao povo, que é disso que se trata...
ora adeus, quem é que acredita? Muito faço eu que ainda vou pensando
nisso. Quando crescer... quero ser político. Mas, atenção, não me peçam
milagres... porque esses só Deus é que os faz. E às vezes pode
acontecer que haja quem acredite que Deus é Português...
Fernando
Cruz Gomes
Julho/Agosto
05
Uma
geração de “choque”!
Com um ligeiro sentimento de
estarmos um pouco perdidos, no meio de acontecimentos que nos escapam,
mas dos quais sofremos as consequências, a minha geração continua na
esperança do direito a uma velhice descansada.
Fomos
educados num regime de grandes restrições. Não podíamos falar mal do
governo, do patrão, ...nem mesmo do vizinho.
Crescemos
a pensar que havia uns que podiam ter tudo e outros que teriam de
conformar-se com a miséria ou, na melhor das hipóteses, serem
“remediados”. Os três grandes “efes”: Fado, Família e Futebol
eram os valores da época (Fado para cantar a tristeza, Família para
elevar o sentido de responsabilidade e Futebol para dar escape aos
nervos).
Atirados,
em plena juventude, para milhares de quilómetros de distância e de
armas na mão, obrigaram-nos a fazer uma guerra contra seres que
desconhecíamos e por razões que ignorávamos.
Longe
dos problemas no Médio Oriente, sofremos no entanto as suas consequências
com os “choques petrolíferos”, no início dos anos 70 e nos anos 80
(e mais recentemente o do “barril a 60 dólares”, por causas outras). Tudo isto com
o inevitável agravamento do nível de vida, com menos “cobres” na
algibeira, mas a vida é feita de luta e já estávamos habituados.
Não
havia salário mínimo, cartões de crédito, juros bonificados, carros
a preços acessíveis, roupas de marca ao alcance de todas as bolsas
e... viagens, só a Badajoz, para comprar caramelos.
Da
Europa e do resto do mundo, só os ritmos dos Beatles e dos Rolling
Stones, para balançar as calças à boca de sino e as camisas às
florinhas (compradas nos “Porfírios”), uns livritos e uns jornais
atrasados, lidos à sucapa e enterrados em sacos de plástico e uns
cigarros de contrabando, para fumar em ocasiões especiais.
Com
o 25 de Abril de 74, a minha geração deu largas à imaginação e
berrou o incontido no estômago, no coração e na cabeça.
Era
preciso repensar os princípios, a moral, a família, a sociedade, o
Estado, os sexos, a economia, o País e... até o mundo!
Esta
geração de “dadores” queria dar tudo o que não tinha tido, sem
perceber que não podia dar o que não tinha!
Hoje,
face às dificuldades de um presente não imaginado, mas nem por isso
mais difícil do que um passado experimentado, a minha geração de
sentimentais recorda, com um sorriso reflectido, que: alguns dos princípios
devem permanecer imutáveis, porque actuais; que algumas condutas morais
estão acima dos tempos, porque são essenciais; que uma sociedade justa
é aquela que resulta do equilíbrio de oportunidades; que a seriedade
do Estado, enquanto emanação de uma consciência cívica livremente
superior, não se compadece com o laxismo; que uma igualdade de
tratamento entre sexos, raças ou etnias, não é uma utopia; que uma
economia que conduza ao bem estar efectivo dos seus cidadãos, não se
compadece com o consumo das aparências e que um País solidário e um
mundo mais humano só é possível com o nosso contínuo envolvimento.
Afinal,
quando contemplamos hoje Portugal e o mundo e comparamos a realidade com
muita da nossa ficção geracional, parece-nos que muita coisa recuou e
outras coisas evoluíram, para além do que se poderia ter pensado.
Só
algo (cada vez mais evidente na expressão da minha geração) parece não
ter mudado e, curiosamente, é o que de mais antigo foi refinado pela prática
da vida. Trata-se do espírito e tenacidade para encarar as adversidades
e a vontade de lutar por dias melhores.
Mas
será que educámos os nossos descendentes com estas mesmas convicções?
Se
calhar não os preparáramos para tal, na esperança de que já não
fosse necessário e, agora, com o mundo a girar em sentidos tão
diversos e a vida a exigir sacrifícios maiores, corremos o risco de nos
sentir culpados e, mais uma vez, chamados a participar na resolução
dos problemas que nos afectam.
E
nós a pensarmos numa pacífica reforma!...
Luís Barreira
Junho
05
Saber
governar é bonito...
Saber
governar é, de facto, uma ciência.
Que
tanto pode alegrar o povo a quem se destina como atirar de pantanas o
seu optimismo no dia-a-dia. Ora, José Sócrates o actual
primeiro-ministro de Portugal tem estado a tactear, à procura de fazer
coisas.
Se
não avançar com os programas que lhe deram a vitória, não se pode
desculpar com a falta de apoio dos portugueses. É que estes deram ao
actual governo uma maioria confortável. E nem sequer estão a fazer
grande pressão social. Ao contrário, dois meses depois de ter tomado
posse, Sócrates não enxerga, certamente, grandes anti-corpos
populares.
O
estado de graça continua alto. A dar a entender que o povo é bem capaz
de estar disposto a fazer sacrifícios. Daqueles que até poderão ser
duros se permitirem, no entanto, ver a luz ao fundo do túnel.
Dizia
Samuel Johnson, um escritor britânico que viveu em 1700, que “estamos
sempre dispostos a acreditar naqueles que não conhecemos, pela simples
razão de que esses ainda não tiveram oportunidade de nos enganar”.
O
povo não conhecia Sócrates. Por isso lhe deu o mandato de governar.
Agora é preciso que a desilusão não se apodere do povo.
E,
no entanto, uma ou outra voz começa a fazer-se ouvir. Como a de Marcelo
Rebelo de Sousa que chega a comparar o estilo de Sócrates ao “pior do
santanismo”, sobretudo numa certa des- coordenação entre os
ministros, corporizada no desentendimento entre o ministro da Saúde,
Correia de Campos, e o próprio primeiro-ministro quanto à construção
dos novos hospitais, como o do Algarve.
Esquece-se
o professor que os políticos que temos reflectem o povo que ainda
somos. Sócrates não prometeu quase nada. E parece estar entretanto sem
condições para cumprir o pouco que prometeu. E mesmo no tal “estado
de graça” que ainda tem – o povo o que quer é que lhe resolvam os
problemas... – há mais que muitas questões que os analistas já vão
atirando ao ar.
Falam
no desemprego que não tem solução à vista, no endividamento
colectivo, na (fraca) qua- lidade do ensino e na Saúde que não anda
nem desanda...
Falou
em 150 mil empregos... mas onde estão eles? Falou na construção de
hospitais, sobretudo aquele do Algarve, e logo que teve oportunidade
mandou às malvas as “decisões” que o seu ministro da Saúde ia
tomando.
E
por muito que se queira “esconder a realidade”, para não se criarem
desânimos, há dados a mais para dois meses de governação. A solução
para o aborto vai ficar para as calendas gregas, porque o tal referendo
não pode andar por não parecer agradar ao todo poderoso Presidente da
República.
Saber
governar é, de facto, uma ciência. E os políticos que ainda vamos
tendo – do Governo à Oposição – parece terem de voltar à Escola.
Para aprender mais umas coisas e sentirem na pele o que o povo pensa das
“velocidades” que não temos quando se trata de governar. Dizia alguém,
não há muito, que na nossa Política não temos “As” nem “Bês”.
Temos, ao invés, meia dúzia de “Cês” e um batalhão de “Dês”.
O que é dramático. Sobretudo porque o Povo que nós somos queria, de
facto, acreditar no Partido a que deu a maioria absoluta.
Fernando
Cruz Gomes
Junho
05
A
União para a paz
A
evocação do 60° Aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial,
associada ao dia da Europa, que foi um dos grandes palcos da guerra,
opondo os aliados às potências do Eixo (Alemanha, Japão e Itália),
merece alguma reflexão.
Não
gostaria de falar sobre os “resquícios” daquele enorme conflito,
que ainda hoje alguns teimam em utilizar como arma de arremesso político,
quando lhes convém, ou como justificativo de outras barbaridades,
sempre que cometem actos mundialmente condenáveis. Não gostaria de
aqui recordar, mas é conveniente não esquecer!
Na
minha opinião, o importante a recordar nos dias de hoje e se tivermos
em consideração a Europa que estamos a construir é, por um lado, o
sofrimento e a morte causados a milhões de seres humanos, tivessem sido
eles judeus, minorias étnicas, russos, americanos ou alemães. Nesse
aspecto e à luz da nossa sensibilidade actual, tal catástrofe humana
deve ser evitada a todo o custo e banida dos propósitos de qualquer líder
sanguinário.
Por
outro lado, a evocação do Dia da Europa, num contexto particularmente
pacífico em que se encontra este velho continente há cerca de 60 anos,
após séculos de hostilidades, guerras sangrentas e disputas
permanentes, é algo que, enquanto for viva a memória da Segunda Grande
Guerra, nos faz meditar no quanto de positivo para os nossos povos teve
a construção do Mercado Comum e, agora, o da União Europeia.
E
porque nos é tão cara, do ponto de vista económico e social, esta
construção continental europeia, com todas as suas variantes políticas
nacionais e comunitárias, devemos reflectir sobre o futuro desta
arquitectura, olhando os problemas do presente à luz das velhas aspirações
do seu passado, que tiveram em Robert Schuman um dos seus grandes
mentores.
De
facto, se a Europa começou por ser o grande mercado de circulação de
pessoas e bens, procurando que os benefícios dessa circulação fossem
redistribuídos pelos povos que nela participavam, a Europa de que hoje
falamos, com um sem número de instituições autónomas e aspirando a
uma Constituição comum, já não é só a Europa das mercadorias, é
igualmente dos seus povos, de cada um dos seus seres humanos, que se
sentem europeus por direito e por pertença a um projecto comum de vida.
E
a ser assim e porque habitamos a mesma “casa europeia”, gostaríamos
todos de saber o que tem sido feito para conhecermos todos os
inquilinos?! Que esforços têm sido realizados para dar às novas gerações
(para já não falar das pessoas de meia idade), um conhecimento mínimo
da diversidade cultural, histórica, económica, linguística, etc,
destes milhões de habitantes que se agrupam sobre o mesmo “chapéu”
da União Europeia? Que trabalho tem sido realizado pelas instituições
europeias para encurtar a ignorância mútua entre lituanos e
portugueses, entre eslovacos e irlandeses, ou entre gregos e
finlandeses, para só falar destes?
Cada
um dos países que actualmente compõem a União Europeia teve uma história
marcada por séculos de atribulados acontecimentos, que marcaram os
povos desta grande região do planeta e que ainda hoje são responsáveis
por muitas das suas atitudes, incompreensíveis aos nossos olhos. A única
forma de evitar conflitos, como foi o da Segunda Guerra Mundial, é
proporcionar um conhecimento mútuo entre os povos e estabelecer uma
escala de valores comuns a que todos se sentem ligados.
Sermos
apenas produtores de bens e consumidores dos mesmos produtos não é
condição segura para a paz. Isso já o éramos, embora em menor
escala, antes e durante os conflitos, que aconteciam em grande parte em
consequência da disputa de mercados ou de matérias primas.
A
paz e a prosperidade que a União Europeia deverá proporcionar tem que
assentar em bases mais sólidas do que as que resultam da simples
transacção de mercadorias.
Estamos
a falar de gente, de pessoas que podem amar-se, detestar-se ou
ignorar-se! E não consta que esta última atitude seja sinónimo da
tranquilidade essencial a uma paz duradoura.
Luís
Barreira
Maio
05
Os
“fundamentalistas” católicos!
Um
destes dias, num programa radiofónico da Rádio Latina no Luxemburgo,
onde se pedia a opinião dos ouvintes sobre a personalidade e obra de João
Paulo II, a opinião de um ouvinte deixou-me perplexo.
Interrogado
sobre os aspectos mais conservadores e mais evolutivos, do período em
que este Papa esteve à frente dos destinos da Igreja Católica, o
ouvinte em questão, reafirmando o total apoio ao Papa agora
desaparecido, fez questão em sublinhar o seu total repúdio pelos
“ps....” (que deseducadamente não soube ou não quis designar como
homossexuais), transmitindo a opinião que o Papa faz muito bem em não
aceitar a sua existência e que todos os homossexuais deveriam ser
mortos... liquidados!
Com
toda a franqueza, já pouco me importa os palavrões utilizados pelo
ouvinte, para apelidar os homossexuais. Também, e a avaliar pela ignorância
e maldade que grassa no mundo, pouco me importa a opinião deste senhor
sobre o referido assunto. O que para mim é importante é que,
eventualmente, outras pessoas possam pensar o mesmo, após terem ouvido
tais disparates. O que mais me afectou é pensar que, de algum modo, as
mensagens de João Paulo II, possam ter causado tão pernicioso efeito
nas consciências de alguns crentes. E isso sim, é preciso
desmistificar!
É
verdade que o falecido Karol Józef Wojtyla, numa eventual contradição
entre as suas atitudes verdadeiramente inovadoras: em favor da paz no
mundo, da aproximação entre as várias religiões monoteístas, do
perdão pelos pecados cometidos em nome da Igreja e da grande aproximação
humanista para com todos os seres humanos, independentemente da sua
natureza ou fé confessional, assumiu uma postura conservadora em relação
a muitos dos aspectos da vida da igreja e da moral social. Mas, sem que
queira justificar as eventuais dissonâncias do legado de João Paulo
II, a minha opinião é a de que, estas possíveis discrepâncias, entre
um papado da actualidade, coexistindo com uma moral preconceituosa,
tinham um fio condutor no pensamento do falecido Papa, ou seja, a defesa
da vida humana, na óptica da Igreja.
Nunca
o Papa desejou ver liquidados os homossexuais! Afirmar isto é uma
aberração levada à extremidade da condição humana.
Os
homossexuais, homens ou mulheres, não são produto de uma degenerescência
social, de um vírus maligno ou portadores de alguma doença epidémica
e mesmo que o fossem, deveriam ser tratados como seres iguais a todos os
outros, com a compreensão e o respeito que todos os homens e mulheres
devem merecer.
Ser
homossexual só significa ter uma atitude, em relação ao sexo,
diferente daquela que é mais vulgar, mas dessa diferença não advém
nenhum mal à sociedade em geral.
Um
ou uma homossexual, ama, sonha, trabalha, chora e ri, como qualquer
outra pessoa e deseja estar integrado na sociedade, como qualquer outro
ser humano.
Todos
nós, homens ou mulheres, na nossa constituição genética, contemos
elementos do sexo oposto, em menor ou maior quantidade e isso não é
obra do diabo. Somos assim cientificamente concebidos e não querer
entendê-lo só pode ser consequência da ignorância, de uma deseducação
assente em preconceitos estúpidos, ou por pura maldade.
Para
o ouvinte que emitiu a opinião citada e para todos os católicos que,
no Luxemburgo ou em qualquer parte do mundo, querem posicionar-se em
torno dos valores defendidos pela sua Igreja, aconselho a leitura das
teses do Jubileu do ano 2000.
No
caso concreto da Arquidiocese do Luxemburgo, num documento de 7 de Março
de 2000, no seu artigo 4, na página 5, dizem nomeadamente sobre este
assunto: “No domínio da moral sexual, o comportamento da Igreja e dos
seus representantes, face às pessoas homossexuais, merece ser
considerado à parte: a Igreja e os cristãos têm hoje um sentimento
profundo, olhando a homossexualidade de maneira muito diferente. Nessa
apreciação, é preciso partir do facto de que os homossexuais não
escolheram o seu destino (...) e que uma alteração da sua tendência
é julgada impossível, por uma grande parte da comunidade científica.”
Face
a isto, defender a aniquilação dos homossexuais não é ser “mais
papista do que o Papa”, é, pura e simplesmente, ser contra o Papa!
Luís
Barreira
Maio
05
A
RTPi da nossa angústia
É
uma alegria.
Quem
tem um Jornal das Comunidades assim… tem de facto tudo para achar que
vale a pena esquecer a RTPi da nossa angústia.
A
verdade é que é assim a modos que uma mexerufada de coisas ditas e
reditas, um lençol de frases feitas, uma salada russa quase sem nexo,
uma “rebaldaria” em que vale tudo para encher aquele tempo de
pasmaceira. É um ver se te avias…
No
último, começámos por ouvir a “menina-pivot” – sabemos que não
é assim que se chama, claro – a debitar umas quantas coisas a
respeito da menina que perdeu a vida no terrível incêndio. Mas fê-lo
como se estivesse a dar uma notícia, esquecendo-se que há uma forma de
fazer notícias para o imediato, para a linha das agências e para o
segmento do telejornal (diário) e outra, totalmente diferente, para os
programas semanais ou de referência. Esqueceu-se, pronto.
A
seguir veio o Sindicato dos Trabalhadores Consulares, pela voz e mão do
Sr. Veludo… que aveludadamente foi dizendo da sua (in)justiça a
respeito de uma questiúncula que há lá pelas bandas de Londres. Tempo
a mais para uma coisa que, trabalhada como o foi, tem pouco a ver com as
comunidades.
Claro
que, até ali, era só a Europa a funcionar. A exemplo do que é
habitual naquela que se chama eufemisticamente “RTPinternacional”,
mas de internacional vastas vezes tem apenas a componente europeia. E
mais Europa ficou quando deu voz e... vez a uns “meninos prodígios”
que andam pela França na Comunicação Social francesa a fazer coisas
de truz. E trouxeram à liça uma Karine Lima e um Paul Moreira. Uma e
outro a dizerem das suas. E a cantar loas à sua forma de actuar. Daí não
viria mal ao mundo... se nos lembrássemos de ter visto idêntico critério
– naquele inefável Jornal das Comunidades – em relação aos muitos
“prodígios” que há pelos Estados Unidos e pelo Canadá, pela
Venezuela e pelo Brasil. Mas isso não, que fica muito longe! A distância
é capaz de não ser coisa de somenos, mas, de facto, por lá, mesmo em
Paris... quem estas linhas escreve poderá dar ideias acerca de vários
outros colegas – e de peso no mundo da Informação – a trabalharem
em órgãos de Informação “nossos”. E que poderiam dar ao tal
Jornal... o verdadeiro prisma das comunidades. Por falar em
comunidades... falou-se outra vez – com lágrimas à mistura – nos
bairros da lata dos anos 60 e 70, em... Paris (onde é que poderia
ser?!) E abordou-se a problemática de uma família pobre... que veio
pobre... que viveu pobre... e é agora rica (pelo menos em matéria de
dinheiro).
Um
Jornal das Comunidades assim... não dá para ver! Desligámos o aparelhómetro
e fomos deixar que um café bem quente nos acordasse para a realidade.
Uma realidade das coisas que fazem que andam... sem andarem. Como é o
caso dos muitos “Contacto” que a RTP vai tendo. E que seria para forçar
à triangulação da Informação. Só que serve apenas para nos
sensibilizarmos uns aos outros. Paris vai sabendo o que se passa na África
do Sul, no Canadá nos Estados Unidos, Macau saberá o que se passa
sabemos lá onde. Mas... Lisboa continua a olhar para o seu próprio
umbigo. Sem enxergar o tal “Contacto”. E a pensar, paulatinamente,
que Portugueses são apenas... os 10 milhões que vivem dentro das
fronteiras portuguesas. Não contabiliza os quase 5 milhões de
Portugueses e luso-descendentes que vivem no mundo. Não contabiliza
porque vale a pena sonhar... que emigrantes são só os de i... já que
os outros é até bom que desamparem a loja.
O
outro Governo dizia que Portugal era cada vez menos só o rectângulo
dos 10 milhões... para ser também os 5 milhões de fora. Só o dizia?
É evidente que sim. Este Governo ainda não disse nada a esse respeito.
Pelo menos a avaliar pelos discursos que já ouvimos das excelências
todas que tomaram posse...
A
RTPi da nossa angústia... vai de mal a pior!
Fernando
Cruz Gomes
Abril
05
Terrorismo!
A “moral” do desespero
Realizou-se
muito recentemente, em Madrid, uma Cimeira entre especialistas mundiais
do combate ao terrorismo.
A
sua conclusão foi simples, como a verdade de La Palisse: consideram
irrealista colocar como objectivo eliminar o terrorismo, propondo antes
combater as suas causas e desenvolver acções concretas, no plano
social e na cooperação entre nações, quanto aos meios de combate.
Quer
dizer que, enquanto houver injustiças de tal forma gritantes que, em
sinal de desespero, façam com que homens e mulheres atem quilos de
dinamite à cintura e se façam explodir, não importa onde, todo o
combate ao terrorismo apenas pode minimizar os seus efeitos, mas nunca
resolverá as suas causas objectivas, ou seja, a enorme miséria que
grassa em algumas partes do mundo.
Desenganem-se
todos os “cow-boys e robocops” do mundo, que pensam anular este
flagelo, através das suas técnicas e poderes militares.
Desiludam-se
todos aqueles que pensam poder fazer apelos à razão, para alterar as
mentalidades destes suicidas, quando os mesmos têm, como contrapartida,
um prato vazio na mesa familiar.
E
a religião destes homens/mulheres-bomba não é a causa e muito menos o
objectivo destes kamikazes dos tempos modernos. A evocação religiosa
serve apenas como passaporte para um futuro no paraíso. Todos têm medo
de morrer, mas a morte pode ser melhor que muitas das vidas que se têm
e se se é crente numa qualquer filosofia metafísica que lhes é
impregnada, justificando os seus actos para atingir fins altruístas,
atribuindo-lhes a “categoria” de mártires, ou seja, a felicidade
eterna no “além”, todos os fins passam a justificar os meios.
Mártires
pela honra, pela pátria, pela seita, pela religião, pelos governantes
auto-denominados deuses e por tantas razões objectivas e subjectivas, a
história dos homens está repleta de exemplos. Só que hoje, em pleno séc.
XXI, quando a vida do Homem atingiu teoricamente, nas sociedades
desenvolvidas, o conceito de maior preocupação, custa-nos compreender
que tipo de valores podem conduzir estes bárbaros assassinos a cometer
os crimes mais hediondos.
Só
há uma explicação: o valor da vida humana não é idêntico no
conjunto da sociedade que habita o planeta e, em relação directa, o
desespero, a fome, a miséria e a fraqueza psíquica e cultural,
atingiram tais proporções em certas regiões do mundo, que o seu
desnivelamento, facilmente comparado através da comunicação global,
atira para o terrorismo homens e mulheres dispostos ao sacrifício
suicida, como resposta a tantos problemas sem solução aparente.
Só
compreendendo as causas do terrorismo podemos combater, eficazmente,
este flagelo que nos afecta a todos.
Nenhuma
razão o justifica e nenhuma vida deveria ser sacrificada em nome de uma
razão. Este deveria ser o lema para terminar com todas as guerras mas,
na impossibilidade actual de uma sociedade perfeita, poupemos, ou menos,
os inocentes.
Se
é um facto que devemos tudo fazer para inculcar valores morais
semelhantes em todas as sociedades humanas, não é menos verdade que
temos muito a fazer para proporcionar a todos os seres humanos a
dignidade da vida. E é por aí que devemos começar!
De
nada vale criarmos leis universais e sanções colectivas, se não
formos capazes de dar, ao conjunto das sociedades, condições
essenciais para que compreendam e aceitem os valores que lhes propomos.
Se
nada fizermos nesta direcção, só nos resta desenvolver modelos de
sociedades policiadas, em que os próprios cidadãos acabarão por
perder os valores em que agora acreditam e tanto querem preservar.
Luís
Barreira
Abril
05
Terroristas
e... terrorismos
Quando,
em 15 de Março de 1961 - há que tempos isso lá vai! - deparámos com
toda a tragédia do norte de Angola, aprendemos, então, uma palavra
nova: terroristas.
Eram
terroristas os que faziam tudo aquilo. Os que matavam
indiscriminadamente. Os que violavam. Os que abriam meninas desde as
partes baixas até à boca. Nós vimos tudo isso. Ninguém nos contou. Não
lemos em livros. Vimos.
Os
poderes instituídos de então chamavam àqueles homens que iniciavam a
tal “luta” terroristas. O terrorismo começava, então, para nós, a
ser algo hediondo. Avassaladoramente hediondo. Os poderes instituídos
de então responderam ao terrorismo... com uma luta sem tréguas nem
barreiras. A que se chamou, também, terrorismo.
Aos
poucos, porém, vimos outras formas de terrorismo. Aprendemos à força...
a entender outros terrorismos. E a isso nem escapou uma “reciclagem”
que fizemos à imagem que tínhamos acerca da primeira bomba atómica -
a arma-“mãe” de todas as armas de destruição maciça - que
fizeram deflagrar por sobre Hiroshima e Nagasaky.
O
terrorismo continuou a ser algo de hediondo. Avassaladoramente hediondo.
Mas... ganhou contornos diferentes. E teve “faces” também
diferentes. Até porque os terroristas de então - 15 de Março de 1961
e outras datas que se lhe seguiram - são hoje os “senhores todo
poderosos” daquele País que (ainda) amamos. Sentam-se em cadeiras de
deputados. Sobraçam pastas ministeriais. Atiraram-se para as escadas do
Poder máximo. A “reciclagem” que fizemos ao conceito de terrorismo
continuou. E mesmo hoje, que há outros ismos cada vez mais poderosos...
ainda nos interrogamos sobre o que é ser terrorista. Há dias, a
Imprensa atirou-nos para a mente uma frase que não deixa de nos
matraquear o pensamento. O senador norte-americano Robert Byrd escreveu:
“Hoje choro pelo meu país. Depois da guerra temos de reconstruir mais
do que o Iraque. Temos de reconstruir a imagem da América um pouco por
todo o mundo”.
Reconstruir
a imagem da América? - O que temos, de facto, é de reconstruir a
palavra e o conceito de terrorista. Se o fizermos a tempo... ainda somos
capazes de evitar que um pensador espanhol de que nos não lembramos o
nome tenha razão quando diz não saber ao certo como iria ser a
terceira guerra mundial. Sabia, isso sim, como seria a quarta guerra
mundial. E essa, na sua óptica, seria... a paus e pedras, porque a
terceira acabaria com tudo.
O
conceito de terrorista. O conceito de pundonor. O conceito de “ser”
homem justo. Talvez evitasse até - e nós sabemos que é capaz de não
ter nada a ver com o que deixamos escrito... - que, há tempos, logo após
a cimeira das Lajes, na página oficial da Casa Branca, Aznar, que era o
chefe do governo de então, aparecesse como presidente da Espanha, que
é (ainda) uma Monarquia. E que Durão Barroso aparecesse como... Durão
Burroso! Está lá escrito!
Fernando
Cruz Gomes
Março
05
Vale
a pena acreditar!
P
ronto, já está! O Presidente da República Portuguesa decidiu
dissolver a Assembleia da República, considerando que a coligação
PSD/PP já não tinha condições para governar. O povo português
votou,... e deu-lhe razão!
Esse
mesmo povo modificou radicalmente o seu sentido de voto, atribuindo ao
Partido Socialista uma larga maioria
e aos restantes partidos da oposição, uma situação mais
confortável na Assembleia da República. O povo responsabilizou-os e
vai ser exigente com eles!
Mas,
pese embora a maioria absoluta do Partido Socialista, que lhe vai
permitir governar sem sobressaltos e sem o quebra-cabeças do “queijo
Limiano”, a responsabilidade deste partido é de tal ordem que, a não
ser que se modifiquem muitos dos procedimentos governativos habituais,
deste histórico partido, a sua acção vai ser constantemente posta em
causa, pela oposição e por largos sectores do eleitorado que, desta
vez, lhe deram a preferência do seu voto.
Ficou
provado, mais uma vez que, em Portugal, nenhum partido se pode arrogar
de ter um eleitorado substancial e estável.
Todos
os partidos políticos que, a 20 de Fevereiro de 2005, ganharam votos, vão
ter, mais tarde ou mais cedo, que prestar contas a quem os elegeu.
O
Partido Socialista deve a sua vitória aos sectores da população mais
inclinados à social-democracia moderna, descontente com o seu partido
natural.
O
Partido Comunista, contra todas as expectativas, atingiu a estabilidade
perdida, pela postura humanizante do seu novo Secretário-Geral.
O
Bloco de Esquerda triunfou, eleitoralmente, porque soube dar voz
inteligente às minorias produzidas pelas nossas modernas sociedades.
Mas,...todos
os que obtiveram ganhos eleitorais, conseguiram-nos, não tanto pela força
das suas ideias, mas mais pelo descontentamento que a anterior governação
lhes provocou.
Por
isso se espera, dos partidos vencedores, uma nova forma de fazer política.
Por
isso se aguarda que, os partidos perdedores, saibam recolher os
ensinamentos necessários do que se passou e assumam, nesta legislatura,
uma oposição responsável, séria e construtiva.
O
País não se pode permitir de outra atitude!
Como
gerir, da melhor maneira, o social e o económico, é o grande desafio
que se coloca ao Partido Socialista. Por isso, este partido tem agora
uma enorme responsabilidade : se a Administração Pública é pesada e
obstrutiva; se o nosso sistema de saúde está doente; se o ensino está
mal estruturado ; se a justiça enferma de vícios processuais ; se o
nosso aparelho produtivo está desadequado; se a nossa Defesa Nacional
está aquém, da eficácia necessária e muito para além das
nossas possibilidades; se a nossa fiscalidade se assemelha a uma “rede
de pesca de carapaus e deixa passar tubarões” ; se o endividamento
das famílias portuguesas atingiu níveis insuportáveis ; se a miséria
grassa, de forma exposta e encoberta ; se as auto-estradas para o
interior são uma ponte, entre uma prosperidade aparente e a terra de
ninguém; se a população envelhece desprotegida e os novos evitam ter
filhos, com medo da vida; se os valores sociais de referência,
continuam a ser os carros de alta cilindrada e os telemóveis de nova
geração. Mudar tudo isto, para melhor, sem perder de vista as grandes
preocupações sociais, como: o emprego, o nível de vida, a saúde e a
justiça social, é um trabalho gigantesco, no tempo e no espaço de uma
legislatura.
Por
isso a maioria absoluta não chega!
Se
os partidos, que agora ficam na oposição, se afirmarem pela positiva e
não pela obstrução sistemática, mais tarde ou mais cedo serão
recompensados eleitoralmente, pelo seu empenho nacional e, o País,
ganhará.
Se
o partido que agora assume o poder, independentemente da sua não dependência
governativa formal, souber escutar, analisar e decidir, em conformidade
com as críticas justas e mobilizar um povo que, fora e dentro do seu País,
está disposto a colaborar para o progresso da sua terra e das suas
gentes, então podemos dar passos de gigante, em direcção a um futuro
melhor.
São
talvez demasiados “ses”, mas vale a pena continuar a acreditar!
Luís
Barreira
Fevereiro
05
O
“Cabo das Tormentas”
Dentro
em breve os portugueses, no interior e exterior do País, vão ser
chamados a escolher os seus deputados. Vão ser chamados a designar os
homens e mulheres que, independentemente das suas convicções e dependências
politico-partidárias, virão a ser os legítimos representantes do povo
português e os responsáveis pelos destinos de Portugal, durante os próximos
quatro anos.
Quatro
anos que, por razões internas e externas (com impacto interno), não se
afiguram como um simples passeio no “jardim à beira-mar plantado”,
mas mais como o enorme desafio (já vivido no passado) de dobrar o
“cabo das tormentas”.
Penso
que já se falou suficientemente sobre as dificuldades internas do nosso
pequeno Portugal : uma economia fraca e em recessão ; um déficit público
elevado ; uma competitividade empresarial abaixo das necessidades ; um
desemprego elevado, com consequências graves, ao nível das estruturas
de apoio social ; um descrédito na eficácia das instituições ; um
pessimismo elevado das populações e dos agentes económicos ; etc,
etc.
Penso,
igualmente, que muito já se disse sobre os desafios externos de pertença
a uma comunidade de 25 países, que dá pelo nome de União Europeia :
critérios financeiros dolorosos, para continuar na zona euro ; diminuição
dos subsídios ao desenvolvimento ; rigor na aplicação das suas
directivas ; política externa condicionada e política interna estável
; contas públicas transparentes ; pressão sobre a nossa capacidade de
inovação ; etc, etc.
Os
portugueses também já sabem que vão ter uma legislatura (ou mais),
plena de sacrifícios, para ultrapassarem as actuais dificuldades,
alguns anos de paciência e boa vontade, para poderem instituir um País
moderno e próspero.
Não
sabem ainda, mas vão saber, quais são as propostas político-partidárias
para sair da actual situação e encontrar um rumo certo para a Nação.
O
que de pouco se tem falado, vejo e oiço, é sobre a correspondente prática
social, a um projecto de sociedade a precisar de grandes transformações,
ou seja, a necessária mudança de atitude da nossa classe política,
para com o eleitorado e para com as responsabilidades da governação.
Críticos
oiço muitos. Até parece que virou moda ser-se meramente crítico e
critica-se cada vez mais sem substância, confundindo os fait-divers,
com os assuntos de importância decisiva.
Apartidários,
envergonhados das suas verdadeiras convicções ou sem elas, a gente
partidária, com objectivos inconfessáveis ou por mero despeito, os
“velhos do Restelo” têm vindo a assumir um papel preponderante na
paisagem mediática, sem que a sociedade, embriagada por muitos dos
programas televisivos de cha-cha (sem h), se contraponha de forma séria
e responsável.
Até
parece que é preciso bater com a cabeça no muro para saber que os média
(e nomeadamente os canais televisivos) não são o primeiro poder do
Estado, não são eleitos por ninguém, não têm que ter nenhuma
responsabilidade sobre as decisões governativas. São, exclusivamente,
veículos de expressões várias, algumas interessantes e a ter em
conta, outras, autêntico “lixo”.
Por
isso se justifica cada vez mais uma clareza e frontalidade da nossa
classe política. Os partidos e os seus partidários devem, cada vez
mais, apresentarem-se pela positiva, pelas suas próprias ideias e
projectos e muito menos por oposição a uns e a outros. Os responsáveis
partidários, que aspiram submeter-se ao eleitorado e ganhar a sua
confiança e solidariedade, não podem (devem) afinar os seus discursos
pelo diz que disse, pelos títulos bombásticos da imprensa, pelas suas
ambições pessoais ou de grupo. O País precisa de dirigentes nacionais
que saibam conduzir um povo, sem olhar ao seu emblema da lapela.
E
não me venham dizer que é preciso esperar por uma nova geração de
políticos, para que as coisas melhorem. Daqui até lá morremos de fome
e,....a fome, nunca foi boa conselheira.
Luís
Barreira
Fevereiro
05
Perguntas
(ou adivinhas) muito incómodas
“Os
factos não deixam de existir só porque são ignorados”. A frase é
do escritor britânico Aldous Huxley. Nunca como hoje, no Portugal
moderno, teve tanto sentido. Com as eleições à porta... ignoram-se
factos. Atropelam-se corações. Viram-se latas de ódio. Destila-se
veneno. E quando se ignoram os factos, há quem pense que eles não
existem.
Talvez
por isso - e lá voltamos nós a citar um escritor, desta feita escocês
- “as verdades mais cruas são, muitas vezes, ditas em silêncio”.
Robert Louis Stevenson sabia o que dizia. E tentava, nos seus romances e
poemas, dizer aos homens seus irmãos... que talvez o silêncio faça
muito barulho.
São
mais que as mães... os que falam agora na viagem de Morais Sarmento a São
Tomé e Príncipe. No preço da viagem. Nas “férias” que o Ministro
teria feito durante 24 horas. No pouco resultado que se vê e se há-de
ver. E a Comunicação Social -a nossa querida Comunicação Social -
bate na mesma tecla. Que é imoral. Que não deveria ser feita a viagem
quando o Governo está em gestão. Que...
A
verdade é que, por esta mesma altura, ninguém fala na luzidia comitiva
que o inefável Presidente da República levou à China. Foram mais de
100 pessoas. Até dizem que foi a maior comitiva que algum dia
acompanhou o Chefe de Estado a uma visita oficial. A Imprensa, neste
caso, enche páginas e preenche telejornais. Canta loas à iniciativa
que pode ser - será mesmo? - do maior interesse para Portugal e para os
Portugueses.
Nos
casos em apreço... todos sabem - saberão mesmo?! - quanto custou a
viagem de Morais Sarmento a São Tomé. Os rios de dinheiro que ele
gastou... Não sabem - e, pelos vistos, nem querem saber - quanto custou
a viagem de Jorge Sampaio e dos seus apaniguados a terras chinesas.
E
se nos interrogarmos sobre tudo isto, não poderemos deixar de nos
interrogar também sobre muitos outros casos. Sabemos quais são os
gastos do Governo. Quantos “amigalhaços” eles metem nas secretarias
dos Ministérios.
Ninguém
se interrogou, ainda, quantos funcionários - alguns a funcionar muito
pouco... - estão na Presidência da República. Quanto gastam por ano.
Como é que foram feitas as respectivas nomeações e a que critérios
obedeceram.
Naturalmente
que são perguntas incómodas. Daquelas a que ninguém quer responder. O
que interessa a uns quantos é dar relevo e ênfase às asneiras - ou
pseudo-asneiras - de... uns quantos. O que interessa, na mesma direcção,
é esquecer as asneiras de outros.
Ainda
ninguém reparou, por exemplo, que o PS prometeu resolver o intrincado
problema do défice numa legislatura (4 anos). Ninguém pergunta aos
seus dirigentes porque é que o mesmo Partido sempre exigiu que os
outros fizessem esse “milagre” em dois anos ou mesmo num. Ninguém
se interrogou sobre isso. Ninguém pensou que a clubite da esquerda...
tem sempre razão, enquanto que o que parece direita é sempre... execrável.
E
se entrar em Lisboa... e já que estamos com a mão na massa, pergunte
porque é que será tão importante culpar uns por terem iniciado uma
obra que foi interrompida durante 8 meses (o tal túnel do Marquês), e
ninguém dar importância ao facto do Supremo Tribunal afinal ter dado
razão a quem iniciou a obra?
Perguntas
incómodas, nós sabemos. Perguntas a que ninguém quer responder.
Sobretudo nas Redacções dos Jornais, das Rádios ou das Televisões.
Chega
a parecer que estas perguntas incómodas não são feitas porque o
“lobby” da Comunicação Social, em Portugal, num crescendo que
todos fingem não ver, está a tentar manipular a opinião dos
Portugueses. Condicionando assim os resultados destas e das próximas
eleições.
Fernando
Cruz Gomes
Dezembro
04
Nem
tudo o que luz é oiro!...
Um
recente estudo do Eurostat, a pro- pósito dos salários mínimos
praticados em diversos países e, nomeadamente, nos países da União
Europeia, dá-nos conta de uma realidade estatística que nós, os que
vivemos no Luxemburgo, há já algum tempo, temos vindo a sentir no
“bolso”.
De
cada vez que comparamos o nível de salários praticados no Luxemburgo,
com aqueles que se aplicam nos restantes países, ficamos estupefactos
com o desnível existente.
Só
para vos dar um exemplo, no Luxemburgo, o salário mínimo nacional,
cerca de 1 403 euros, é o maior de toda a União Europeia e o dobro do
praticado nos Estados Unidos. O nível mais baixo dos salários, entre
os países da União, é o da Letónia, apenas com 121 euros mensais e
em Portugal, o salário mínimo é cerca de 1/3 do praticado no
Luxemburgo.
Quem
quer que seja que viva noutro país, olhando os montantes dos salários
praticados no Luxemburgo, deve considerar que todos nós somos ricos,
vivendo como uns nababos e com um mealheiro capaz de fazer inveja ao
“tio Patinhas”.
De
facto, no Luxemburgo e de uma forma geral, não se vive mal, em termos
económicos. Os salários, os esquemas de protecção social, os níveis
suportáveis de desemprego e a qualidade de vida, de que os residentes
desfrutam, corresponde a um padrão elevado, em comparação com a maior
parte dos povos de outros países.
No
entanto e correspondendo à percepção de muitos de nós, a estatística
da União Europeia, também nos revela que, enquanto no Luxemburgo, o
salário mínimo é praticado em cerca de 15% dos assalariados, na
Holanda, o país que pratica os salários mínimos mais próximos do
Luxemburgo, esta percentagem desce para cerca de 2,3%, o que deixa
antever que, uma parte muito superior da população holandesa, ganha
acima do salário mínimo.
Por
outro lado, outro factor, aparentemente contraditório, vem à luz do
dia com esta recente estatística. Entre 1999 e 2004, o salário mínimo
no Luxemburgo, aumentou 24%, o que, à primeira vista, parece uma evolução
muito positiva, em relação a um país vizinho como a França, onde os
salários só aumentaram, no mesmo período, cerca de 13%.
Mas,
se formos mais longe e quisermos saber o que os assalariados
beneficiaram realmente, com esse aumento dos salários, verificamos que
esses 24% de aumento, entre 99 e 2004, só resultaram em 4% de aumento
efectivo no poder de compra. Olhando para os vizinhos franceses
constatamos que, o aumento de 13% nos salários mínimos, no mesmo período,
se traduziu em mais 19% no seu poder de compra. O que quer dizer que, no
período referido, o custo de vida, ou seja, o que pagamos : pela
alimentação, transportes, vestuário, saúde e tantas outras coisas
indispensáveis ao nosso quotidiano, aumentou muito mais no Luxemburgo,
do que em França.
Se
de facto a situação média de quem vive no Luxemburgo, em condições
regulares de emprego e habitação, não pode ser considerada má e,
antes pelo contrário, ela está bem acima da média europeia e muito
mais da média mundial, só olhar para um lado dos números, como é o
caso do nível dos salários mínimos praticados, não chega para ter
uma ideia real da evolução do País em que vivemos. Além disso,
cria-se a ilusão noutros países de que “o Luxemburgo é que está a
dar”, o que é cada vez menos verdade!....
Razões
de sobra para avaliar que, tal como diz o povo, ,.... “nem tudo o que
luz é oiro”!
Luís
Barreira
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