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OPINIÃO

Textos publicados     Textes publiés

- Hei-de ser Político, sim... Julho/Agosto 05

- Uma geração de “choque”! Julho/Agosto 05

- Saber governar é bonito... Junho 05

- A União para a paz Junho 05

- Os “fundamentalistas” católicos! Maio 05

- A RTPi da nossa angústia Maio 05

- Terrorismo! A “moral” do desespero Abril 05

- Terroristas e... terrorismos Abril 05

- Vale a pena acreditar! Março 05

- O “Cabo das Tormentas” Fevereiro 05

- Perguntas (ou adivinhas) muito incómodas Fevereiro 05

- Nem tudo o que luz é oiro!... Dezembro 04

- O “egoismo colectivo” e malsão Dezembro 04

- Ainda a Casa Pia! Novembro 04

- A SIDA continua a matar! Outubro 04

- O Conselho que (ainda) não temos Outubro 04

- Portugueses, um povo “desenrascado”! Setembro 04

- Coitado do Zé Maria Setembro 04

- A “Torre de Babel”! Julho 04

- Cantar Portugal Julho 04

- A “Carta de Macau” Junho 04

- A guerra do Iraque já é comparada à do Vietname Maio 04

- Cowboys Maio 04

- Uma guerra “fresquinha” que ninguém quer Maio 04

- Terrorismo vs. Democracia Abril 04

- Um aniversário ainda sombrio Abril 04

- Pois... Março 04

- Vamos ao trabalho que se faz tarde!... Fevereiro 04
- Ano Novo... Ano Bom (mas pouco...) Fevereiro 04
- Tout à fait inacceptable! Fevereiro 04
- "Vamos ler o livro ao contrário" Fevereiro 04
- Surdo? Eu?... Janeiro 04
- Sem "excelências" desmedidas Janeiro 04
- A emancipação da mulher: uma luta sem sexo! Dezembro 03
- Crise no Luxemburgo: uma factura a pagar por todos...
Novembro 03

- Mário Tomás: a generosidade em pessoa: A informação já se esqueceu... Novembro 03

- À margem do encontro de professores... nos Açores Quase... genocídio linguístico
Outubro 03
- Vamos ajudar a pôr fim às aldrabices? Julho /Agosto 03
- Um par de óculos para o Sr. Ministro
Junho 03

- A Europa dos excluídos
Junho 03

- A cena seguinte... Conselhos para um... Conselho
Maio 03

- Portugal e os Portugueses: é preciso viver o futuro, se o presente é desagradável Maio 03

- O que todos nós deviamos saber sobre o Iraque: A origem da nossa civilização
Maio 03

- Em cada esquina um amigo
Abril 03

- Terroristas... e terrorismos
Abril 03

- "Guerra" ao automóvel
Abril 03
- A RTPi não aproveitou a maré de... remodelação
Março 03

- A emigração transoceânica perdida na distância
Março 03
- Em Portugal agora, tudo é permitido ou quase Outubro 02 

 

 

Julho/Agosto 05

Hei-de ser Político, sim...

 

Quando eu crescer...

quando eu crescer, quero, afinal, ser Político. Não há vida melhor. Sobretudo se tivermos umas quantas cenouras à mão para ir oferecendo a torto e a direito. Sobretudo se nos tivermos preparado. Sobretudo... se a concorrência não for tão desenfreada assim. Quero ser Político, pronto!

Comecei, desde já, a vas- culhar os meus “émulos”. E mesmo não encontrando muitos, encosto-me à bananeira dos que se afiguram paradigmas de um certo “savoir faire” que nos deixem tranquilos pelo menos enquanto durar o tacho... perdão, o lugar. 

E ao fazer isto naturalmente que terei de encontrar quem me ruborize a face para o que der e vier, me pespegue com um olhar meio bondoso, me dê a mão leve para cumprimentar tudo e todos, quando não for possível dar o beijo da praxe numa senhora ou criancinha, das muitas que hei-de ter sempre à mão de semear. Também para o que der e vier.

Como nome sou capaz de inventar um que lembre aos que o ouvirem. Filósofo ou cientista, que para o caso tanto faz. Se possível, hei-de escolher um partido dito de esquerda (embora não o seja), já que o povo passados 30 anos da grande “desilusão” que terminou quase em “tragédia”, não pode com a direita. Para falar, e quando falar, depois de ter as necessárias lições de dicção, hei-de... dizer que não falo, que falo depois, que só depois das três centenas de inquéritos que hei-de mandar fazer.

Hei-de arranjar uma secretária que saiba de tudo sem saber de nada, mas que saiba encarar o interlocutor a quem passar a ideia de que... é preciso descansar no chefe (em mim, claro) as dificuldades, porque é para isso que ele lá está.

Depois, quando a lição estiver mais ou menos metida na cabeça... hei-de atirar aos céus – mas sem o dizer muito – a má herança orçamental, e não só... – recebida dos malandros que me antecederam. Hei-de decorar, sobretudo neste aspecto, a terrível situação das contas do Estado. A despeito de saber que não vale a pena apostar no drama das coisas – o que pode dar a ideia de não ter confiança nas mi-nhas capacidades – hei-de insistir nesse ponto. É drama, sim senhores.

E quando o Governador do Banco Central vier a terreiro dizer que a situação está pior do que pensava (isto é, do que ele próprio tinha dito), hei-de fechar-me em copas e esperar que a onda passe. O défice é quase o dobro do que ele dizia não há muito? Guardo isso para mim... e hei-de afirmar que irei à luta logo, logo mais, quando tudo estiver esclarecido (o que quer dizer nunca).

Quanto a objectivos... hei-de tentar demorar o mais que puder antes de os alardear. Sobretudo para que a onda passe e para que o povo se esqueça. Hei-de fazer os possíveis para dizer aos meus apaniguados... que não falem. Que se resguardem. Falar... falar, talvez só aquele “primo carnal” que não porei no Governo, mas que, tendo ficado no Partido, tem ordens para zurzir tudo e todos. O máximo que é permitido é dizer que a situação é má. Muito má. O silêncio é de ouro.

E como quero ser um político de peso... tentarei dizer o que todos sabem. Que o Estado gasta mais do que pode. E gasta mal. Se fosse numa família, já há muito que mulher e marido estavam de candeias às avessas. Como todos sabem o que eu sei... o melhor é ganhar tempo. Jogar com as palavras. Não apontar caminhos correctos, porque eles não parecem existir. Atirar culpas para a pouca produtividade. Não esquecer que a realidade de hoje não será a realidade de amanhã. E quatro anos passam depressa...

E mesmo que os meus filhos que cursaram Universidades caras me digam que é indispensável definir uma estratégia coerente, eu hei-de resistir até onde puder. Se o povo me deu a maioria – esqueci-me de dizer, mas eu só vou à luta, no Partido ou na governação se sentir que me “dão” o que eu quero... – acredita piamente que eu sou o melhor. E como melhor que sou... ainda sou capaz de ganhar novas eleições que venham. Quanto a devolver as esperanças ao povo, que é disso que se trata... ora adeus, quem é que acredita? Muito faço eu que ainda vou pensando nisso. Quando crescer... quero ser político. Mas, atenção, não me peçam milagres... porque esses só Deus é que os faz. E às vezes pode acontecer que haja quem acredite que Deus é Português...

 

Fernando Cruz Gomes  

 

 

 

 

Julho/Agosto 05

Uma geração de “choque”!

 

Com um ligeiro sentimento de estarmos um pouco perdidos, no meio de acontecimentos que nos escapam, mas dos quais sofremos as consequências, a minha geração continua na esperança do direito a uma velhice descansada.

 

Fomos educados num regime de grandes restrições. Não podíamos falar mal do governo, do patrão, ...nem mesmo do vizinho.

Crescemos a pensar que havia uns que podiam ter tudo e outros que teriam de conformar-se com a miséria ou, na melhor das hipóteses, serem “remediados”. Os três grandes “efes”: Fado, Família e Futebol eram os valores da época (Fado para cantar a tristeza, Família para elevar o sentido de responsabilidade e Futebol para dar escape aos nervos).

Atirados, em plena juventude, para milhares de quilómetros de distância e de armas na mão, obrigaram-nos a fazer uma guerra contra seres que desconhecíamos e por razões que ignorávamos.

Longe dos problemas no Médio Oriente, sofremos no entanto as suas consequências com os “choques petrolíferos”, no início dos anos 70 e nos anos 80 (e mais recentemente o do  “barril a 60 dólares”, por causas outras). Tudo isto com o inevitável agravamento do nível de vida, com menos “cobres” na algibeira, mas a vida é feita de luta e já estávamos habituados.

Não havia salário mínimo, cartões de crédito, juros bonificados, carros a preços acessíveis, roupas de marca ao alcance de todas as bolsas e... viagens, só a Badajoz, para comprar caramelos.

Da Europa e do resto do mundo, só os ritmos dos Beatles e dos Rolling Stones, para balançar as calças à boca de sino e as camisas às florinhas (compradas nos “Porfírios”), uns livritos e uns jornais atrasados, lidos à sucapa e enterrados em sacos de plástico e uns cigarros de contrabando, para fumar em ocasiões especiais.

Com o 25 de Abril de 74, a minha geração deu largas à imaginação e berrou o incontido no estômago, no coração e na cabeça.

Era preciso repensar os princípios, a moral, a família, a sociedade, o Estado, os sexos, a economia, o País e... até o mundo!

Esta geração de “dadores” queria dar tudo o que não tinha tido, sem perceber que não podia dar o que não tinha!

Hoje, face às dificuldades de um presente não imaginado, mas nem por isso mais difícil do que um passado experimentado, a minha geração de sentimentais recorda, com um sorriso reflectido, que: alguns dos princípios devem permanecer imutáveis, porque actuais; que algumas condutas morais estão acima dos tempos, porque são essenciais; que uma sociedade justa é aquela que resulta do equilíbrio de oportunidades; que a seriedade do Estado, enquanto emanação de uma consciência cívica livremente superior, não se compadece com o laxismo; que uma igualdade de tratamento entre sexos, raças ou etnias, não é uma utopia; que uma economia que conduza ao bem estar efectivo dos seus cidadãos, não se compadece com o consumo das aparências e que um País solidário e um mundo mais humano só é possível com o nosso contínuo envolvimento.

Afinal, quando contemplamos hoje Portugal e o mundo e comparamos a realidade com muita da nossa ficção geracional, parece-nos que muita coisa recuou e outras coisas evoluíram, para além do que se poderia ter pensado.

Só algo (cada vez mais evidente na expressão da minha geração) parece não ter mudado e, curiosamente, é o que de mais antigo foi refinado pela prática da vida. Trata-se do espírito e tenacidade para encarar as adversidades e a vontade de lutar por dias melhores.

Mas será que educámos os nossos descendentes com estas mesmas convicções?

Se calhar não os preparáramos para tal, na esperança de que já não fosse necessário e, agora, com o mundo a girar em sentidos tão diversos e a vida a exigir sacrifícios maiores, corremos o risco de nos sentir culpados e, mais uma vez, chamados a participar na resolução dos problemas que nos afectam.

E nós a pensarmos numa pacífica  reforma!...

 

Luís Barreira

 

Junho 05

Saber governar é bonito...

 

Saber governar é, de facto, uma ciência.

Que tanto pode alegrar o povo a quem se destina como atirar de pantanas o seu optimismo no dia-a-dia. Ora, José Sócrates o actual primeiro-ministro de Portugal tem estado a tactear, à procura de fazer coisas.

Se não avançar com os programas que lhe deram a vitória, não se pode desculpar com a falta de apoio dos portugueses. É que estes deram ao actual governo uma maioria confortável. E nem sequer estão a fazer grande pressão social. Ao contrário, dois meses depois de ter tomado posse, Sócrates não enxerga, certamente, grandes anti-corpos populares.

O estado de graça continua alto. A dar a entender que o povo é bem capaz de estar disposto a fazer sacrifícios. Daqueles que até poderão ser duros se permitirem, no entanto, ver a luz ao fundo do túnel.

Dizia Samuel Johnson, um escritor britânico que viveu em 1700, que “estamos sempre dispostos a acreditar naqueles que não conhecemos, pela simples razão de que esses ainda não tiveram oportunidade de nos enganar”.

O povo não conhecia Sócrates. Por isso lhe deu o mandato de governar. Agora é preciso que a desilusão não se apodere do povo.

E, no entanto, uma ou outra voz começa a fazer-se ouvir. Como a de Marcelo Rebelo de Sousa que chega a comparar o estilo de Sócrates ao “pior do santanismo”, sobretudo numa certa des- coordenação entre os ministros, corporizada no desentendimento entre o ministro da Saúde, Correia de Campos, e o próprio primeiro-ministro quanto à construção dos novos hospitais, como o do Algarve.

Esquece-se o professor que os políticos que temos reflectem o povo que ainda somos. Sócrates não prometeu quase nada. E parece estar entretanto sem condições para cumprir o pouco que prometeu. E mesmo no tal “estado de graça” que ainda tem – o povo o que quer é que lhe resolvam os problemas... – há mais que muitas questões que os analistas já vão atirando ao ar.  

Falam no desemprego que não tem solução à vista, no endividamento colectivo, na (fraca) qua- lidade do ensino e na Saúde que não anda nem desanda...

Falou em 150 mil empregos... mas onde estão eles? Falou na construção de hospitais, sobretudo aquele do Algarve, e logo que teve oportunidade mandou às malvas as “decisões” que o seu ministro da Saúde ia tomando.

E por muito que se queira “esconder a realidade”, para não se criarem desânimos, há dados a mais para dois meses de governação. A solução para o aborto vai ficar para as calendas gregas, porque o tal referendo não pode andar por não parecer agradar ao todo poderoso Presidente da República.

Saber governar é, de facto, uma ciência. E os políticos que ainda vamos tendo – do Governo à Oposição – parece terem de voltar à Escola. Para aprender mais umas coisas e sentirem na pele o que o povo pensa das “velocidades” que não temos quando se trata de governar. Dizia alguém, não há muito, que na nossa Política não temos “As” nem “Bês”. Temos, ao invés, meia dúzia de “Cês” e um batalhão de “Dês”. O que é dramático. Sobretudo porque o Povo que nós somos queria, de facto, acreditar no Partido a que deu a maioria absoluta.

 

Fernando Cruz Gomes  

 

 

 

 

Junho 05

A União para a paz 

 

A evocação do 60° Aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, associada ao dia da Europa, que foi um dos grandes palcos da guerra, opondo os aliados às potências do Eixo (Alemanha, Japão e Itália), merece alguma reflexão.

 

Não gostaria de falar sobre os “resquícios” daquele enorme conflito, que ainda hoje alguns teimam em utilizar como arma de arremesso político, quando lhes convém, ou como justificativo de outras barbaridades, sempre que cometem actos mundialmente condenáveis. Não gostaria de aqui recordar, mas é conveniente não esquecer!

Na minha opinião, o importante a recordar nos dias de hoje e se tivermos em consideração a Europa que estamos a construir é, por um lado, o sofrimento e a morte causados a milhões de seres humanos, tivessem sido eles judeus, minorias étnicas, russos, americanos ou alemães. Nesse aspecto e à luz da nossa sensibilidade actual, tal catástrofe humana deve ser evitada a todo o custo e banida dos propósitos de qualquer líder sanguinário.

Por outro lado, a evocação do Dia da Europa, num contexto particularmente pacífico em que se encontra este velho continente há cerca de 60 anos, após séculos de hostilidades, guerras sangrentas e disputas permanentes, é algo que, enquanto for viva a memória da Segunda Grande Guerra, nos faz meditar no quanto de positivo para os nossos povos teve a construção do Mercado Comum e, agora, o da União Europeia.

E porque nos é tão cara, do ponto de vista económico e social, esta construção continental europeia, com todas as suas variantes políticas nacionais e comunitárias, devemos reflectir sobre o futuro desta arquitectura, olhando os problemas do presente à luz das velhas aspirações do seu passado, que tiveram em Robert Schuman um dos seus grandes mentores.

De facto, se a Europa começou por ser o grande mercado de circulação de pessoas e bens, procurando que os benefícios dessa circulação fossem redistribuídos pelos povos que nela participavam, a Europa de que hoje falamos, com um sem número de instituições autónomas e aspirando a uma Constituição comum, já não é só a Europa das mercadorias, é igualmente dos seus povos, de cada um dos seus seres humanos, que se sentem europeus por direito e por pertença a um projecto comum de vida.

E a ser assim e porque habitamos a mesma “casa europeia”, gostaríamos todos de saber o que tem sido feito para conhecermos todos os inquilinos?! Que esforços têm sido realizados para dar às novas gerações (para já não falar das pessoas de meia idade), um conhecimento mínimo da diversidade cultural, histórica, económica, linguística, etc, destes milhões de habitantes que se agrupam sobre o mesmo “chapéu” da União Europeia? Que trabalho tem sido realizado pelas instituições europeias para encurtar a ignorância mútua entre lituanos e portugueses, entre eslovacos e irlandeses, ou entre gregos e finlandeses, para só falar destes?

Cada um dos países que actualmente compõem a União Europeia teve uma história marcada por séculos de atribulados acontecimentos, que marcaram os povos desta grande região do planeta e que ainda hoje são responsáveis por muitas das suas atitudes, incompreensíveis aos nossos olhos. A única forma de evitar conflitos, como foi o da Segunda Guerra Mundial, é proporcionar um conhecimento mútuo entre os povos e estabelecer uma escala de valores comuns a que todos se sentem ligados.

Sermos apenas produtores de bens e consumidores dos mesmos produtos não é condição segura para a paz. Isso já o éramos, embora em menor escala, antes e durante os conflitos, que aconteciam em grande parte em consequência da disputa de mercados ou de matérias primas.

A paz e a prosperidade que a União Europeia deverá proporcionar tem que assentar em bases mais sólidas do que as que resultam da simples transacção de mercadorias.

Estamos a falar de gente, de pessoas que podem amar-se, detestar-se ou ignorar-se! E não consta que esta última atitude seja sinónimo da tranquilidade essencial a uma paz duradoura.

 

Luís Barreira

 

 

 

Maio 05

Os “fundamentalistas” católicos!

 

Um destes dias, num programa radiofónico da Rádio Latina no Luxemburgo, onde se pedia a opinião dos ouvintes sobre a personalidade e obra de João Paulo II, a opinião de um ouvinte deixou-me perplexo.

Interrogado sobre os aspectos mais conservadores e mais evolutivos, do período em que este Papa esteve à frente dos destinos da Igreja Católica, o ouvinte em questão, reafirmando o total apoio ao Papa agora desaparecido, fez questão em sublinhar o seu total repúdio pelos “ps....” (que deseducadamente não soube ou não quis designar como homossexuais), transmitindo a opinião que o Papa faz muito bem em não aceitar a sua existência e que todos os homossexuais deveriam ser mortos... liquidados!

Com toda a franqueza, já pouco me importa os palavrões utilizados pelo ouvinte, para apelidar os homossexuais. Também, e a avaliar pela ignorância e maldade que grassa no mundo, pouco me importa a opinião deste senhor sobre o referido assunto. O que para mim é importante é que, eventualmente, outras pessoas possam pensar o mesmo, após terem ouvido tais disparates. O que mais me afectou é pensar que, de algum modo, as mensagens de João Paulo II, possam ter causado tão pernicioso efeito nas consciências de alguns crentes. E isso sim, é preciso desmistificar!

É verdade que o falecido Karol Józef Wojtyla, numa eventual contradição entre as suas atitudes verdadeiramente inovadoras: em favor da paz no mundo, da aproximação entre as várias religiões monoteístas, do perdão pelos pecados cometidos em nome da Igreja e da grande aproximação humanista para com todos os seres humanos, independentemente da sua natureza ou fé confessional, assumiu uma postura conservadora em relação a muitos dos aspectos da vida da igreja e da moral social. Mas, sem que queira justificar as eventuais dissonâncias do legado de João Paulo II, a minha opinião é a de que, estas possíveis discrepâncias, entre um papado da actualidade, coexistindo com uma moral preconceituosa, tinham um fio condutor no pensamento do falecido Papa, ou seja, a defesa da vida humana, na óptica da Igreja.

Nunca o Papa desejou ver liquidados os homossexuais! Afirmar isto é uma aberração levada à extremidade da condição humana.

Os homossexuais, homens ou mulheres, não são produto de uma degenerescência social, de um vírus maligno ou portadores de alguma doença epidémica e mesmo que o fossem, deveriam ser tratados como seres iguais a todos os outros, com a compreensão e o respeito que todos os homens e mulheres devem merecer.

Ser homossexual só significa ter uma atitude, em relação ao sexo, diferente daquela que é mais vulgar, mas dessa diferença não advém nenhum mal à sociedade em geral.

Um ou uma homossexual, ama, sonha, trabalha, chora e ri, como qualquer outra pessoa e deseja estar integrado na sociedade, como qualquer outro ser humano.

Todos nós, homens ou mulheres, na nossa constituição genética, contemos elementos do sexo oposto, em menor ou maior quantidade e isso não é obra do diabo. Somos assim cientificamente concebidos e não querer entendê-lo só pode ser consequência da ignorância, de uma deseducação assente em preconceitos estúpidos, ou por pura maldade.

Para o ouvinte que emitiu a opinião citada e para todos os católicos que, no Luxemburgo ou em qualquer parte do mundo, querem posicionar-se em torno dos valores defendidos pela sua Igreja, aconselho a leitura das teses do Jubileu do ano 2000.

No caso concreto da Arquidiocese do Luxemburgo, num documento de 7 de Março de 2000, no seu artigo 4, na página 5, dizem nomeadamente sobre este assunto: “No domínio da moral sexual, o comportamento da Igreja e dos seus representantes, face às pessoas homossexuais, merece ser considerado à parte: a Igreja e os cristãos têm hoje um sentimento profundo, olhando a homossexualidade de maneira muito diferente. Nessa apreciação, é preciso partir do facto de que os homossexuais não escolheram o seu destino (...) e que uma alteração da sua tendência é julgada impossível, por uma grande parte da comunidade científica.”

Face a isto, defender a aniquilação dos homossexuais não é ser “mais papista do que o Papa”, é, pura e simplesmente, ser contra o Papa!

 

Luís Barreira

 

 

 

 

Maio 05

A RTPi da nossa angústia

 

É uma alegria.

Quem tem um Jornal das Comunidades assim… tem de facto tudo para achar que vale a pena esquecer a RTPi da nossa angústia.

A verdade é que é assim a modos que uma mexerufada de coisas ditas e reditas, um lençol de frases feitas, uma salada russa quase sem nexo, uma “rebaldaria” em que vale tudo para encher aquele tempo de pasmaceira. É um ver se te avias…

No último, começámos por ouvir a “menina-pivot” – sabemos que não é assim que se chama, claro – a debitar umas quantas coisas a respeito da menina que perdeu a vida no terrível incêndio. Mas fê-lo como se estivesse a dar uma notícia, esquecendo-se que há uma forma de fazer notícias para o imediato, para a linha das agências e para o segmento do telejornal (diário) e outra, totalmente diferente, para os programas semanais ou de referência. Esqueceu-se, pronto.

A seguir veio o Sindicato dos Trabalhadores Consulares, pela voz e mão do Sr. Veludo… que aveludadamente foi dizendo da sua (in)justiça a respeito de uma questiúncula que há lá pelas bandas de Londres. Tempo a mais para uma coisa que, trabalhada como o foi, tem pouco a ver com as comunidades.

Claro que, até ali, era só a Europa a funcionar. A exemplo do que é habitual naquela que se chama eufemisticamente “RTPinternacional”, mas de internacional vastas vezes tem apenas a componente europeia. E mais Europa ficou quando deu voz e... vez a uns “meninos prodígios” que andam pela França na Comunicação Social francesa a fazer coisas de truz. E trouxeram à liça uma Karine Lima e um Paul Moreira. Uma e outro a dizerem das suas. E a cantar loas à sua forma de actuar. Daí não viria mal ao mundo... se nos lembrássemos de ter visto idêntico critério – naquele inefável Jornal das Comunidades – em relação aos muitos “prodígios” que há pelos Estados Unidos e pelo Canadá, pela Venezuela e pelo Brasil. Mas isso não, que fica muito longe! A distância é capaz de não ser coisa de somenos, mas, de facto, por lá, mesmo em Paris... quem estas linhas escreve poderá dar ideias acerca de vários outros colegas – e de peso no mundo da Informação – a trabalharem em órgãos de Informação “nossos”. E que poderiam dar ao tal Jornal... o verdadeiro prisma das comunidades. Por falar em comunidades... falou-se outra vez – com lágrimas à mistura – nos bairros da lata dos anos 60 e 70, em... Paris (onde é que poderia ser?!) E abordou-se a problemática de uma família pobre... que veio pobre... que viveu pobre... e é agora rica (pelo menos em matéria de dinheiro).

Um Jornal das Comunidades assim... não dá para ver! Desligámos o aparelhómetro e fomos deixar que um café bem quente nos acordasse para a realidade. Uma realidade das coisas que fazem que andam... sem andarem. Como é o caso dos muitos “Contacto” que a RTP vai tendo. E que seria para forçar à triangulação da Informação. Só que serve apenas para nos sensibilizarmos uns aos outros. Paris vai sabendo o que se passa na África do Sul, no Canadá nos Estados Unidos, Macau saberá o que se passa sabemos lá onde. Mas... Lisboa continua a olhar para o seu próprio umbigo. Sem enxergar o tal “Contacto”. E a pensar, paulatinamente, que Portugueses são apenas... os 10 milhões que vivem dentro das fronteiras portuguesas. Não contabiliza os quase 5 milhões de Portugueses e luso-descendentes que vivem no mundo. Não contabiliza porque vale a pena sonhar... que emigrantes são só os de i... já que os outros é até bom que desamparem a loja.

O outro Governo dizia que Portugal era cada vez menos só o rectângulo dos 10 milhões... para ser também os 5 milhões de fora. Só o dizia? É evidente que sim. Este Governo ainda não disse nada a esse respeito. Pelo menos a avaliar pelos discursos que já ouvimos das excelências todas que tomaram posse...

A RTPi da nossa angústia... vai de mal a pior!

Fernando Cruz Gomes  

 

 

 

Abril 05

Terrorismo! A “moral” do desespero

 

Realizou-se muito recentemente, em Madrid, uma Cimeira entre especialistas mundiais do combate ao terrorismo.

A sua conclusão foi simples, como a verdade de La Palisse: consideram irrealista colocar como objectivo eliminar o terrorismo, propondo antes combater as suas causas e desenvolver acções concretas, no plano social e na cooperação entre nações, quanto aos meios de combate.

Quer dizer que, enquanto houver injustiças de tal forma gritantes que, em sinal de desespero, façam com que homens e mulheres atem quilos de dinamite à cintura e se façam explodir, não importa onde, todo o combate ao terrorismo apenas pode minimizar os seus efeitos, mas nunca resolverá as suas causas objectivas, ou seja, a enorme miséria que grassa em algumas partes do mundo.

Desenganem-se todos os “cow-boys e robocops” do mundo, que pensam anular este flagelo, através das suas técnicas e poderes militares.

Desiludam-se todos aqueles que pensam poder fazer apelos à razão, para alterar as mentalidades destes suicidas, quando os mesmos têm, como contrapartida, um prato vazio na mesa familiar.

E a religião destes homens/mulheres-bomba não é a causa e muito menos o objectivo destes kamikazes dos tempos modernos. A evocação religiosa serve apenas como passaporte para um futuro no paraíso. Todos têm medo de morrer, mas a morte pode ser melhor que muitas das vidas que se têm e se se é crente numa qualquer filosofia metafísica que lhes é impregnada, justificando os seus actos para atingir fins altruístas, atribuindo-lhes a “categoria” de mártires, ou seja, a felicidade eterna no “além”, todos os fins passam a justificar os meios.

Mártires pela honra, pela pátria, pela seita, pela religião, pelos governantes auto-denominados deuses e por tantas razões objectivas e subjectivas, a história dos homens está repleta de exemplos. Só que hoje, em pleno séc. XXI, quando a vida do Homem atingiu teoricamente, nas sociedades desenvolvidas, o conceito de maior preocupação, custa-nos compreender que tipo de valores podem conduzir estes bárbaros assassinos a cometer os crimes mais hediondos.

Só há uma explicação: o valor da vida humana não é idêntico no conjunto da sociedade que habita o planeta e, em relação directa, o desespero, a fome, a miséria e a fraqueza psíquica e cultural, atingiram tais proporções em certas regiões do mundo, que o seu desnivelamento, facilmente comparado através da comunicação global, atira para o terrorismo homens e mulheres dispostos ao sacrifício suicida, como resposta a tantos problemas sem solução aparente.

Só compreendendo as causas do terrorismo podemos combater, eficazmente, este flagelo que nos afecta a todos.

Nenhuma razão o justifica e nenhuma vida deveria ser sacrificada em nome de uma razão. Este deveria ser o lema para terminar com todas as guerras mas, na impossibilidade actual de uma sociedade perfeita, poupemos, ou menos, os inocentes.

Se é um facto que devemos tudo fazer para inculcar valores morais semelhantes em todas as sociedades humanas, não é menos verdade que temos muito a fazer para proporcionar a todos os seres humanos a dignidade da vida. E é por aí que devemos começar!

De nada vale criarmos leis universais e sanções colectivas, se não formos capazes de dar, ao conjunto das sociedades, condições essenciais para que compreendam e aceitem os valores que lhes propomos.

Se nada fizermos nesta direcção, só nos resta desenvolver modelos de sociedades policiadas, em que os próprios cidadãos acabarão por perder os valores em que agora acreditam e tanto querem preservar.

Luís Barreira 

 

 

 

Abril 05

Terroristas e... terrorismos

 

Quando, em 15 de Março de 1961 - há que tempos isso lá vai! - deparámos com toda a tragédia do norte de Angola, aprendemos, então, uma palavra nova: terroristas.      

Eram terroristas os que faziam tudo aquilo. Os que matavam indiscriminadamente. Os que violavam. Os que abriam meninas desde as partes baixas até à boca. Nós vimos tudo isso. Ninguém nos contou. Não lemos em livros. Vimos.

Os poderes instituídos de então chamavam àqueles homens que iniciavam a tal “luta” terroristas. O terrorismo começava, então, para nós, a ser algo hediondo. Avassaladoramente hediondo. Os poderes instituídos de então responderam ao terrorismo... com uma luta sem tréguas nem barreiras. A que se chamou, também, terrorismo.

Aos poucos, porém, vimos outras formas de terrorismo. Aprendemos à força... a entender outros terrorismos. E a isso nem escapou uma “reciclagem” que fizemos à imagem que tínhamos acerca da primeira bomba atómica - a arma-“mãe” de todas as armas de destruição maciça - que fizeram deflagrar por sobre Hiroshima e Nagasaky.

O terrorismo continuou a ser algo de hediondo. Avassaladoramente hediondo. Mas... ganhou contornos diferentes. E teve “faces” também diferentes. Até porque os terroristas de então - 15 de Março de 1961 e outras datas que se lhe seguiram - são hoje os “senhores todo poderosos” daquele País que (ainda) amamos. Sentam-se em cadeiras de deputados. Sobraçam pastas ministeriais. Atiraram-se para as escadas do Poder máximo. A “reciclagem” que fizemos ao conceito de terrorismo continuou. E mesmo hoje, que há outros ismos cada vez mais poderosos... ainda nos interrogamos sobre o que é ser terrorista. Há dias, a Imprensa atirou-nos para a mente uma frase que não deixa de nos matraquear o pensamento. O senador norte-americano Robert Byrd escreveu: “Hoje choro pelo meu país. Depois da guerra temos de reconstruir mais do que o Iraque. Temos de reconstruir a imagem da América um pouco por todo o mundo”.

Reconstruir a imagem da América? - O que temos, de facto, é de reconstruir a palavra e o conceito de terrorista. Se o fizermos a tempo... ainda somos capazes de evitar que um pensador espanhol de que nos não lembramos o nome tenha razão quando diz não saber ao certo como iria ser a terceira guerra mundial. Sabia, isso sim, como seria a quarta guerra mundial. E essa, na sua óptica, seria... a paus e pedras, porque a terceira acabaria com tudo.

O conceito de terrorista. O conceito de pundonor. O conceito de “ser” homem justo. Talvez evitasse até - e nós sabemos que é capaz de não ter nada a ver com o que deixamos escrito... - que, há tempos, logo após a cimeira das Lajes, na página oficial da Casa Branca, Aznar, que era o chefe do governo de então, aparecesse como presidente da Espanha, que é (ainda) uma Monarquia. E que Durão Barroso aparecesse como... Durão Burroso! Está lá escrito!

Fernando Cruz Gomes

 

 

Março 05

Vale a pena acreditar!

 

P ronto, já está! O Presidente da República Portuguesa decidiu dissolver a Assembleia da República, considerando que a coligação PSD/PP já não tinha condições para governar. O povo português votou,... e deu-lhe razão!

Esse mesmo povo modificou radicalmente o seu sentido de voto, atribuindo ao Partido Socialista uma larga maioria  e aos restantes partidos da oposição, uma situação mais confortável na Assembleia da República. O povo responsabilizou-os e vai ser exigente com eles!

Mas, pese embora a maioria absoluta do Partido Socialista, que lhe vai permitir governar sem sobressaltos e sem o quebra-cabeças do “queijo Limiano”, a responsabilidade deste partido é de tal ordem que, a não ser que se modifiquem muitos dos procedimentos governativos habituais, deste histórico partido, a sua acção vai ser constantemente posta em causa, pela oposição e por largos sectores do eleitorado que, desta vez, lhe deram a preferência do seu voto.

Ficou provado, mais uma vez que, em Portugal, nenhum partido se pode arrogar de ter um eleitorado substancial e estável.

Todos os partidos políticos que, a 20 de Fevereiro de 2005, ganharam votos, vão ter, mais tarde ou mais cedo, que prestar contas a quem os elegeu.

O Partido Socialista deve a sua vitória aos sectores da população mais inclinados à social-democracia moderna, descontente com o seu partido natural.

O Partido Comunista, contra todas as expectativas, atingiu a estabilidade perdida, pela postura humanizante do seu novo Secretário-Geral.

O Bloco de Esquerda triunfou, eleitoralmente, porque soube dar voz inteligente às minorias produzidas pelas nossas modernas sociedades.

Mas,...todos os que obtiveram ganhos eleitorais, conseguiram-nos, não tanto pela força das suas ideias, mas mais pelo descontentamento que a anterior governação lhes provocou.

Por isso se espera, dos partidos vencedores, uma nova forma de fazer política.

Por isso se aguarda que, os partidos perdedores, saibam recolher os ensinamentos necessários do que se passou e assumam, nesta legislatura, uma oposição responsável, séria e construtiva.

O País não se pode permitir de outra atitude!

Como gerir, da melhor maneira, o social e o económico, é o grande desafio que se coloca ao Partido Socialista. Por isso, este partido tem agora uma enorme responsabilidade : se a Administração Pública é pesada e obstrutiva; se o nosso sistema de saúde está doente; se o ensino está mal estruturado ; se a justiça enferma de vícios processuais ; se o nosso aparelho produtivo está desadequado; se a nossa Defesa Nacional  está aquém, da eficácia necessária e muito para além das nossas possibilidades; se a nossa fiscalidade se assemelha a uma “rede de pesca de carapaus e deixa passar tubarões” ; se o endividamento das famílias portuguesas atingiu níveis insuportáveis ; se a miséria grassa, de forma exposta e encoberta ; se as auto-estradas para o interior são uma ponte, entre uma prosperidade aparente e a terra de ninguém; se a população envelhece desprotegida e os novos evitam ter filhos, com medo da vida; se os valores sociais de referência, continuam a ser os carros de alta cilindrada e os telemóveis de nova geração. Mudar tudo isto, para melhor, sem perder de vista as grandes preocupações sociais, como: o emprego, o nível de vida, a saúde e a justiça social, é um trabalho gigantesco, no tempo e no espaço de uma legislatura.

Por isso a maioria absoluta não chega!

Se os partidos, que agora ficam na oposição, se afirmarem pela positiva e não pela obstrução sistemática, mais tarde ou mais cedo serão recompensados eleitoralmente, pelo seu empenho nacional e, o País, ganhará.

Se o partido que agora assume o poder, independentemente da sua não dependência governativa formal, souber escutar, analisar e decidir, em conformidade com as críticas justas e mobilizar um povo que, fora e dentro do seu País, está disposto a colaborar para o progresso da sua terra e das suas gentes, então podemos dar passos de gigante, em direcção a um futuro melhor.

São talvez demasiados “ses”, mas vale a pena continuar a acreditar!

Luís Barreira

 

 

 Fevereiro 05

O “Cabo das Tormentas”

 

Dentro em breve os portugueses, no interior e exterior do País, vão ser chamados a escolher os seus deputados. Vão ser chamados a designar os homens e mulheres que, independentemente das suas convicções e dependências politico-partidárias, virão a ser os legítimos representantes do povo português e os responsáveis pelos destinos de Portugal, durante os próximos quatro anos.

Quatro anos que, por razões internas e externas (com impacto interno), não se afiguram como um simples passeio no “jardim à beira-mar plantado”, mas mais como o enorme desafio (já vivido no passado) de dobrar o “cabo das tormentas”.

Penso que já se falou suficientemente sobre as dificuldades internas do nosso pequeno Portugal : uma economia fraca e em recessão ; um déficit público elevado ; uma competitividade empresarial abaixo das necessidades ; um desemprego elevado, com consequências graves, ao nível das estruturas de apoio social ; um descrédito na eficácia das instituições ; um pessimismo elevado das populações e dos agentes económicos ; etc, etc.

Penso, igualmente, que muito já se disse sobre os desafios externos de pertença a uma comunidade de 25 países, que dá pelo nome de União Europeia : critérios financeiros dolorosos, para continuar na zona euro ; diminuição dos subsídios ao desenvolvimento ; rigor na aplicação das suas directivas ; política externa condicionada e política interna estável ; contas públicas transparentes ; pressão sobre a nossa capacidade de inovação ; etc, etc.

Os portugueses também já sabem que vão ter uma legislatura (ou mais), plena de sacrifícios, para ultrapassarem as actuais dificuldades, alguns anos de paciência e boa vontade, para poderem instituir um País moderno e próspero.

Não sabem ainda, mas vão saber, quais são as propostas político-partidárias para sair da actual situação e encontrar um rumo certo para a Nação.

O que de pouco se tem falado, vejo e oiço, é sobre a correspondente prática social, a um projecto de sociedade a precisar de grandes transformações, ou seja, a necessária mudança de atitude da nossa classe política, para com o eleitorado e para com as responsabilidades da governação.

Críticos oiço muitos. Até parece que virou moda ser-se meramente crítico e critica-se cada vez mais sem substância, confundindo os fait-divers, com os assuntos de importância decisiva.

Apartidários, envergonhados das suas verdadeiras convicções ou sem elas, a gente partidária, com objectivos inconfessáveis ou por mero despeito, os “velhos do Restelo” têm vindo a assumir um papel preponderante na paisagem mediática, sem que a sociedade, embriagada por muitos dos programas televisivos de cha-cha (sem h), se contraponha de forma séria e responsável.

Até parece que é preciso bater com a cabeça no muro para saber que os média (e nomeadamente os canais televisivos) não são o primeiro poder do Estado, não são eleitos por ninguém, não têm que ter nenhuma responsabilidade sobre as decisões governativas. São, exclusivamente, veículos de expressões várias, algumas interessantes e a ter em conta, outras, autêntico “lixo”.

Por isso se justifica cada vez mais uma clareza e frontalidade da nossa classe política. Os partidos e os seus partidários devem, cada vez mais, apresentarem-se pela positiva, pelas suas próprias ideias e projectos e muito menos por oposição a uns e a outros. Os responsáveis partidários, que aspiram submeter-se ao eleitorado e ganhar a sua confiança e solidariedade, não podem (devem) afinar os seus discursos pelo diz que disse, pelos títulos bombásticos da imprensa, pelas suas ambições pessoais ou de grupo. O País precisa de dirigentes nacionais que saibam conduzir um povo, sem olhar ao seu emblema da lapela.

E não me venham dizer que é preciso esperar por uma nova geração de políticos, para que as coisas melhorem. Daqui até lá morremos de fome e,....a fome, nunca foi boa conselheira.

 

Luís Barreira

 

 

 

Fevereiro 05

Perguntas (ou adivinhas) muito incómodas

 

“Os factos não deixam de existir só porque são ignorados”. A frase é do escritor britânico Aldous Huxley. Nunca como hoje, no Portugal moderno, teve tanto sentido. Com as eleições à porta... ignoram-se factos. Atropelam-se corações. Viram-se latas de ódio. Destila-se veneno. E quando se ignoram os factos, há quem pense que eles não existem.

Talvez por isso - e lá voltamos nós a citar um escritor, desta feita escocês - “as verdades mais cruas são, muitas vezes, ditas em silêncio”. Robert Louis Stevenson sabia o que dizia. E tentava, nos seus romances e poemas, dizer aos homens seus irmãos... que talvez o silêncio faça muito barulho.

São mais que as mães... os que falam agora na viagem de Morais Sarmento a São Tomé e Príncipe. No preço da viagem. Nas “férias” que o Ministro teria feito durante 24 horas. No pouco resultado que se vê e se há-de ver. E a Comunicação Social -a nossa querida Comunicação Social - bate na mesma tecla. Que é imoral. Que não deveria ser feita a viagem quando o Governo está em gestão. Que...

A verdade é que, por esta mesma altura, ninguém fala na luzidia comitiva que o inefável Presidente da República levou à China. Foram mais de 100 pessoas. Até dizem que foi a maior comitiva que algum dia acompanhou o Chefe de Estado a uma visita oficial. A Imprensa, neste caso, enche páginas e preenche telejornais. Canta loas à iniciativa que pode ser - será mesmo? - do maior interesse para Portugal e para os Portugueses.

Nos casos em apreço... todos sabem - saberão mesmo?! - quanto custou a viagem de Morais Sarmento a São Tomé. Os rios de dinheiro que ele gastou... Não sabem - e, pelos vistos, nem querem saber - quanto custou a viagem de Jorge Sampaio e dos seus apaniguados a terras chinesas.

E se nos interrogarmos sobre tudo isto, não poderemos deixar de nos interrogar também sobre muitos outros casos. Sabemos quais são os gastos do Governo. Quantos “amigalhaços” eles metem nas secretarias dos Ministérios.

Ninguém se interrogou, ainda, quantos funcionários - alguns a funcionar muito pouco... - estão na Presidência da República. Quanto gastam por ano. Como é que foram feitas as respectivas nomeações e a que critérios obedeceram.

Naturalmente que são perguntas incómodas. Daquelas a que ninguém quer responder. O que interessa a uns quantos é dar relevo e ênfase às asneiras - ou pseudo-asneiras - de... uns quantos. O que interessa, na mesma direcção, é esquecer as asneiras de outros.

Ainda ninguém reparou, por exemplo, que o PS prometeu resolver o intrincado problema do défice numa legislatura (4 anos). Ninguém pergunta aos seus dirigentes porque é que o mesmo Partido sempre exigiu que os outros fizessem esse “milagre” em dois anos ou mesmo num. Ninguém se interrogou sobre isso. Ninguém pensou que a clubite da esquerda... tem sempre razão, enquanto que o que parece direita é sempre... execrável.

 E se entrar em Lisboa... e já que estamos com a mão na massa, pergunte porque é que será tão importante culpar uns por terem iniciado uma obra que foi interrompida durante 8 meses (o tal túnel do Marquês), e ninguém dar importância ao facto do Supremo Tribunal afinal ter dado razão a quem iniciou a obra?

Perguntas incómodas, nós sabemos. Perguntas a que ninguém quer responder. Sobretudo nas Redacções dos Jornais, das Rádios ou das Televisões.

Chega a parecer que estas perguntas incómodas não são feitas porque o “lobby” da Comunicação Social, em Portugal, num crescendo que todos fingem não ver, está a tentar manipular a opinião dos Portugueses. Condicionando assim os resultados destas e das próximas eleições.

 

Fernando Cruz Gomes  

 

 

Dezembro  04

Nem tudo o que luz é oiro!...

 

Um recente estudo do Eurostat, a pro- pósito dos salários mínimos praticados em diversos países e, nomeadamente, nos países da União Europeia, dá-nos conta de uma realidade estatística que nós, os que vivemos no Luxemburgo, há já algum tempo, temos vindo a sentir no “bolso”.

De cada vez que comparamos o nível de salários praticados no Luxemburgo, com aqueles que se aplicam nos restantes países, ficamos estupefactos com o desnível existente.

Só para vos dar um exemplo, no Luxemburgo, o salário mínimo nacional, cerca de 1 403 euros, é o maior de toda a União Europeia e o dobro do praticado nos Estados Unidos. O nível mais baixo dos salários, entre os países da União, é o da Letónia, apenas com 121 euros mensais e em Portugal, o salário mínimo é cerca de 1/3 do praticado no Luxemburgo.

Quem quer que seja que viva noutro país, olhando os montantes dos salários praticados no Luxemburgo, deve considerar que todos nós somos ricos, vivendo como uns nababos e com um mealheiro capaz de fazer inveja ao “tio Patinhas”.

De facto, no Luxemburgo e de uma forma geral, não se vive mal, em termos económicos. Os salários, os esquemas de protecção social, os níveis suportáveis de desemprego e a qualidade de vida, de que os residentes desfrutam, corresponde a um padrão elevado, em comparação com a maior parte dos povos de outros países.

No entanto e correspondendo à percepção de muitos de nós, a estatística da União Europeia, também nos revela que, enquanto no Luxemburgo, o salário mínimo é praticado em cerca de 15% dos assalariados, na Holanda, o país que pratica os salários mínimos mais próximos do Luxemburgo, esta percentagem desce para cerca de 2,3%, o que deixa antever que, uma parte muito superior da população holandesa, ganha acima do salário mínimo.

Por outro lado, outro factor, aparentemente contraditório, vem à luz do dia com esta recente estatística. Entre 1999 e 2004, o salário mínimo no Luxemburgo, aumentou 24%, o que, à primeira vista, parece uma evolução muito positiva, em relação a um país vizinho como a França, onde os salários só aumentaram, no mesmo período, cerca de 13%.

Mas, se formos mais longe e quisermos saber o que os assalariados beneficiaram realmente, com esse aumento dos salários, verificamos que esses 24% de aumento, entre 99 e 2004, só resultaram em 4% de aumento efectivo no poder de compra. Olhando para os vizinhos franceses constatamos que, o aumento de 13% nos salários mínimos, no mesmo período, se traduziu em mais 19% no seu poder de compra. O que quer dizer que, no período referido, o custo de vida, ou seja, o que pagamos : pela alimentação, transportes, vestuário, saúde e tantas outras coisas indispensáveis ao nosso quotidiano, aumentou muito mais no Luxemburgo, do que em França.

Se de facto a situação média de quem vive no Luxemburgo, em condições regulares de emprego e habitação, não pode ser considerada má e, antes pelo contrário, ela está bem acima da média europeia e muito mais da média mundial, só olhar para um lado dos números, como é o caso do nível dos salários mínimos praticados, não chega para ter uma ideia real da evolução do País em que vivemos. Além disso, cria-se a ilusão noutros países de que “o Luxemburgo é que está a dar”, o que é cada vez menos verdade!....

Razões de sobra para avaliar que, tal como diz o povo, ,.... “nem tudo o que luz é oiro”!

 

Luís Barreira