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  Edito  

 

História de uma paixão


A primeira vez que me encontrei com ela foi em 1968, em Lisboa. Recordo-me do ano por causa das manifestações em Paris.

Foi o meu primeiro patrão que me apresentou. Lembrou-se de me atribuir o prémio anual da empresa e, como eu era o empregado mais jovem, julgou por bem ser motivo par            a convidar a imprensa para promover o evento. E, lá estava ela, alvo de todas as atenções, mirando-me como se eu fosse uma pessoa importante.

Graças a ela toda a família me viu, regularmente, durante uns tempos. Os meus amigos lançavam-me piropos, uns de inveja outros de admiração, mas muito rapidamente as coisas voltaram à normalidade, a rotina separou-nos pouco a pouco e só a via esporadicamente, em acontecimentos importantes.

Retomei o contacto com ela em França, estava diferente, colorida, mais pomposa, versátil, mais variada, parecia menos formal e muito mais livre.

Em 1976, disputava uma corrida, em Paris, armado de uma bandeja provida de três copos e uma garrafa de vinho vazia, reparei de soslaio que me fixava, estava em Saint-Michel, em cima de um camião, agarrada a uma grua.

Foi nessa altura que comecei a pensar viver com ela, mas não sabia como abordá-la e como entrar no seu círculo restrito. Fui vivendo outras aventuras e o tempo foi apagando as esperanças.

Encontrámo-nos em Marselha, no princípio dos anos noventa, durante uma eliminatória de futebol, com o Benfica, que ficou para a história. Negociei as imagens do jogo para a América do Norte.

Ela adora futebol, vimo-nos de novo em Lisboa, na segunda volta, a da “mão de Vata”, mas acabei por me apaixonar definitivamente por ela em Montpellier, pouco tempo depois, durante um novo jogo para o campeonato da Europa, da equipa local com o Benfica.

Tinha sido convidado pelo Canal+ para traduzir declarações da equipa portuguesa. Aproveitei para a conhecer melhor, saber como reagia perante todas as situações, os meios e a táctica que utilizava para agradar a tanta gente.

Voltei a vê-la alguns meses depois, em Cognacq-Jay, durante mais uma emissão de futebol do canal de televisão TF1, a que fui convidado.

Só nos voltámos a ver no ano passado, percebemos que não era só um “coup de foudre”, estavamos realmente apaixonados e acabámos por casar.

Sabemos que a nossa vida não vai ser fácil, não faltarão barreiras no nosso caminho, colocadas por alguns que não podem ver uma camisa lavada, que detestam a felicidade e o sucesso dos outros. Mas também sabemos que o nosso projecto de vida vai encher de satisfação muitos milhares e porque não milhões de falantes de língua portuguesa.

A minha paixão chama-se CLP tv, agora vivemos em Cognacq-Jay, em Paris, exactamente no sítio onde começou a televisão francesa há cerca de 70 anos.

Tentaremos ter as melhores relações com a família, são cerca de 220 milhões, é enorme, diversificada, com expectativas e prioridades diferentes, mas faremos o possível para que a nossa dedicação e imparcialidade lhes agrade.

Seremos por vezes acusados, por uns, de favorecer os outros, de dar destaque a acontecimentos que alguns consideram sem importância e de não prestar a devida atenção a outros julgados pertinentes e merecedores de maior relevo. Manteremos a nossa linha de conduta contra ventos e marés, até que os “advogados do diabo” consigam, mais tarde ou mais cedo, aquilo que os move e que perseguem constantemente: a ruptura e o divórcio.

Mas contra factos, os argumentos não aguentam muito e são os primeiros que ficam sempre na memória colectiva.

 

António Cardoso