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História de uma paixão
Foi
o meu primeiro patrão que me apresentou. Lembrou-se de me atribuir o prémio
anual da empresa e, como eu era o empregado mais jovem, julgou por bem
ser motivo par
a convidar a imprensa para promover o evento. E, lá estava ela,
alvo de todas as atenções, mirando-me como se eu fosse uma pessoa
importante. Graças
a ela toda a família me viu, regularmente, durante uns tempos. Os meus
amigos lançavam-me piropos, uns de inveja outros de admiração, mas
muito rapidamente as coisas voltaram à normalidade, a rotina
separou-nos pouco a pouco e só a via esporadicamente, em acontecimentos
importantes. Retomei
o contacto com ela em França, estava diferente, colorida, mais pomposa,
versátil, mais variada, parecia menos formal e muito mais livre. Em
1976, disputava uma corrida, em Paris, armado de uma bandeja provida de
três copos e uma garrafa de vinho vazia, reparei de soslaio que me
fixava, estava em Saint-Michel, em cima de um camião, agarrada a uma
grua. Foi
nessa altura que comecei a pensar viver com ela, mas não sabia como
abordá-la e como entrar no seu círculo restrito. Fui vivendo outras
aventuras e o tempo foi apagando as esperanças. Encontrámo-nos
em Marselha, no princípio dos anos noventa, durante uma eliminatória
de futebol, com o Benfica, que ficou para a história. Negociei as
imagens do jogo para a América do Norte. Ela
adora futebol, vimo-nos de novo em Lisboa, na segunda volta, a da “mão
de Vata”, mas acabei por me apaixonar definitivamente por ela em
Montpellier, pouco tempo depois, durante um novo jogo para o campeonato
da Europa, da equipa local com o Benfica. Tinha
sido convidado pelo Canal+ para traduzir declarações da equipa
portuguesa. Aproveitei para a conhecer melhor, saber como reagia perante
todas as situações, os meios e a táctica que utilizava para agradar a
tanta gente. Voltei
a vê-la alguns meses depois, em Cognacq-Jay, durante mais uma emissão
de futebol do canal de televisão TF1, a que fui convidado. Só
nos voltámos a ver no ano passado, percebemos que não era só um
“coup de foudre”, estavamos realmente apaixonados e acabámos por
casar. Sabemos
que a nossa vida não vai ser fácil, não faltarão barreiras no nosso
caminho, colocadas por alguns que não podem ver uma camisa lavada, que
detestam a felicidade e o sucesso dos outros. Mas também sabemos que o
nosso projecto de vida vai encher de satisfação muitos milhares e
porque não milhões de falantes de língua portuguesa. A
minha paixão chama-se CLP tv, agora vivemos em Cognacq-Jay, em Paris,
exactamente no sítio onde começou a televisão francesa há cerca de
70 anos. Tentaremos
ter as melhores relações com a família, são cerca de 220 milhões,
é enorme, diversificada, com expectativas e prioridades diferentes, mas
faremos o possível para que a nossa dedicação e imparcialidade lhes
agrade. Seremos
por vezes acusados, por uns, de favorecer os outros, de dar destaque a
acontecimentos que alguns consideram sem importância e de não prestar
a devida atenção a outros julgados pertinentes e merecedores de maior
relevo. Manteremos a nossa linha de conduta contra ventos e marés, até
que os “advogados do diabo” consigam, mais tarde ou mais cedo,
aquilo que os move e que perseguem constantemente: a ruptura e o divórcio. Mas contra factos, os argumentos não aguentam muito e são os primeiros que ficam sempre na memória colectiva.
António
Cardoso
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