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  Ensino  

 

 

Jovens portugueses “embaixadores da cultura lusa” em França

 

São portugueses, têm até 30 anos e gostam da cultura francesa. Razões de sobra para terem sido escolhidos pelo Ministério da Educação como assistentes de Língua Portuguesa em França. Ao todo são 21, distribuídos pelo país inteiro. A Vida Lusa foi conhecer estes representantes da lusofonia, cuja missão terminará em Abril de 2007.

 

São 6h40 da manhã de segunda-feira. Ana Paula Portela deixa Villennes sur Seine em direcção à Gare de St Lazare, em Paris. Largos minutos depois, troca o comboio pelo

metro até à Gare de Lyon, onde entra no RER A. Finalmente, e depois de hora e meia de transportes colectivos, chega a Champigny Sur Marne, onde é assistente de português em dois liceus.

Este é o percurso que se repete quase diariamente para Ana Paula, uma dos 21 assistentes de língua portuguesa em França, seleccionados pelo Ministério da Educação português para serem “embaixadores da cultura lusa”. Ana Paula é de Caldas da Rainha e decidiu deixar o país aos 26 anos porque  não vê “num futuro próximo a possibilidade de ensinar em Portugal”. Além disso, queria “descobrir um novo sítio, um novo país, uma nova língua”.

Duas vontades que são partilhadas por Sílvia Reis Ribeiro, 26 anos. Natural de Fátima, vai ficar por Paris durante os sete meses do programa de assistência bilateral. “A vontade de ter uma experiência no estrangeiro,  conhecer uma nova rotina e outras realidades e a vontade de experimentar a área do ensino” justificam a sua deslocação a França.

Tânia Ribeiro tem 25 anos e está em Paris há três. Começou por ser estudante Erasmus na “cidade luz”, gostou e resolveu apostar num mestrado em Literatura Portuguesa na Sorbonne. Hoje também é assistente de língua, sobretudo pela sua “vontade de divulgar a imagem de um país que se aproxima  dos parâmetros de uma sociedade urbana e europeia”. Por outras palavras, sublinha, quer “desfazer  a imagem distorcida da realidade portuguesa actual que alguns alunos ainda têm”.

Mais a sul, em Toulouse, Sara Neto Sousa é a representante portuguesa. Ao desejo de aprofundar o domínio da língua francesa juntou-se “uma certa hesitação em termos profissionais, quando, em vias de entrar no sexto ano do ramo de Formação Educacional, os estágios deixaram de ser remunerados”.

A nordeste, em Brest, Viviana Leitão, 24 anos, divide o tempo entre as aulas de português, o mestrado em "Investigação e Ensino da Literatura Portuguesa", um curso de francês e o convívio com outros assistentes estrangeiros. Cinema, bares, festival de vinhos e gastronomia são alguns dos ingredientes que a ajudam a esquecer as saudades de Portugal. Veio para França porque gosta da docência e porque “Brest tem um dos melhores centros de documentação” na área do seu mestrado.

 

Tânia Ribeiro quer “desfazer a imagem distorcida da realidade portuguesa actual que alguns alunos ainda têm”. Carina Coimbra veio de Canas de Senhorim para dar aulas no sopé dos Alpes.

Viviana Leitão, 24 anos, ensina português em Brest.

 

 

Língua Portuguesa: uma língua “menor”?

 

Sentada num banco de pedra à margem do Sena, Ana Portela desabafa a sua revolta contra o estatuto da língua portuguesa em França. “‘Les petites langues’... Em França o português é considerado uma língua menor porque é a língua dos imigrantes, porque é a Maria que faz a ‘ménage’ e o Manel que trabalha nas obras. O português ainda está muito conotado com trabalhos mais servis, mais braçais”, atira a assistente.

Com o mesmo tom de indignação, Tânia Ribeiro vai ao encontro da opinião de Ana, afirmando que “outro dos factores que parece contribuir para que o português seja uma língua desprezada parece prender-se com o facto de ser visto como uma língua de emigração. A língua dos pedreiros, das empregadas de limpeza, das porteiras...”, diz. A assistente vai mais longe e atribui a culpa aos “pouquíssimos esforços dos Governos português, francês e brasileiro para promover a língua”, nomeando o português, a nível do concurso nacional de professores (CAPES) como uma das línguas onde se abrem menos vagas.

Mas é de Grenoble que chega um conselho marcadamente lusófono. Carina Coimbra, 25 anos, é a assistente de Canas de Senhorim que dá aulas no sopé dos Alpes. É a própria quem sugere uma “educação para a lusofonia” junto dos alunos luso-descendentes. “A língua portuguesa não é suficientemente promovida no estrangeiro, bem como a imagem do país. O facto de não existir uma efectiva aproximação e abertura aos países lusófonos não favorece essa projecção mundial”, critica. E Sílvia Reis completa: “Pode ser também alguma ignorância em não se saber que o português é a terceira língua mais falada da Europa”.

De qualquer forma, os alunos não escondem a euforia de terem um assistente jovem nas suas aulas. “Houve mesmo uma turma de portugueses que começou a cantar espontaneamente o Hino de Portugal”, conta Álvaro Carvalho, 29 anos, colocado na Academia de Versailles. “Em geral têm uma opinião favorável, ficam curiosos e gostam”, remata.

 

Porquê estudar português?

 

O olhar de Sílvia fixa-se na Fontaine de Saint Michel, enquanto bebe uma Coca-Cola que classifica de “caríssima”. Na “brasserie”, rostos diferentes de culturas igualmente variadas atentam na língua que a assistente fala. “Em Paris há mais estrangeiros que franceses”, brinca. Uma multiculturalidade que também se reflecte na sala de aula. Por que razão os alunos escolhem o português? A resposta é imediata: “Uns disseram que estavam fartos do inglês, outros porque não queriam alemão, outros porque tinham amigos que eram portugueses”. Balanço final: nenhum aluno terá escolhido a disciplina por um interesse profissional.

A reacção repete-se na resposta de Tânia: “Infelizmente, ninguém me disse que escolheu o português porque gostava de ler Saramago, Pessoa, Pepetela, Luandino, Amado ou Guimarães Rosa na língua original. Ou porque gostava de perceber as letras dos Madredeus, dos Xutos e Pontapés, do Pedro Abrunhosa ou dos Da Weasel”.
E se até agora as perspectivas não parecem as melhores para a língua de Camões, as impressões de Sara contrariam as das outras assistentes. “A maioria sente um forte interesse pelas línguas estrangeiras para o seu futuro profissional ou uma simples curiosidade linguística e cultural. Alguns querem vir a ser intérpretes ou tradutores.”

Também Carina Coimbra reflecte uma perspectiva mais optimista. “Os alunos demonstram bastante interesse e curiosidade em aprender a língua e a cultura portuguesas. Alguns fizeram essa opção porque viajaram para um país lusófono e essa experiência despoletou o interesse para o estudo da língua”.

                       

Natal com Saudade

 

Ana Portela crê-se uma “afortunada” por ter familiares na região parisiense que a acolheram. No entanto, estar no seio de uma família não impede alguns suspiros de saudade. “Sinto muito a falta dos meus amigos, porque os franceses são muito simpáticos, mas pouco calorosos. Sinto falta daqueles abraços... E sinto falta de ouvir falar português nas ruas”, confessa. Ainda que o Natal seja pretexto para uns regressarem a Portugal, Ana vai passar pela primeira vez o Natal longe dos pais. Para mostrar aos alunos como se vive esta época em Portugal, a assistente quer fazer uma recriação da noite de Consoada.

Sílvia Reis também vai passar a época natalícia em Paris, sem abdicar do bacalhau e da ceia portuguesa. Ainda que more numa residência com 150 raparigas, não esconde a “muita saudade da família e dos amigos”. Para as aulas planeia ensinar algumas receitas, passar músicas e  treinar com os alunos  a escrita de postais para a família.

Entre as pessoas que não dispensam o Natal em família está Álvaro Carvalho.Vai para Lisboa à boleia de um amigo que o espera em Toulouse. “É um desconsolo passar o Natal aqui, longe da família. Para mim, o Natal significa estar em família, comer o bacalhau, estar à lareira, esse tipo de coisas...”, admite.

Viviana vai deixar Brest por uns dias e regressar a Montemor-O-Velho, até porque “o Natal perde todo o significado e toda a magia se não se passar em família”. Para os alunos pensa fazer “karaoke” com músicas de Natal, um teatro sobre a época ou preparar uma típica ceia portuguesa.

Em jeito de presente, Tânia vai aconselhar aos alunos “O Cavaleiro da Dinamarca”, de Sophia de Mello Breyner, e talvez realize uma feira gastronómica portuguesa. O Natal será passado em casa, ainda que não tenha saudades de Portugal mas das pessoas que deixou em Portugal. “Desde que aqui estou sinto-me cada vez mais ‘europeia’, sem deixar de ser portuguesa. Se por um lado,  padeço daquilo que o Miguel Esteves Cardoso nomeou de ‘Portugalite’, um sentimento feroz de querer defender o país no estrangeiro, por outro, sinto que neste momento posso fazer mais por Portugal estando fora dele do que se lá estivesse”.

 

Carina Branco