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  No feminino

O Pai Natal e o sexo das palavras

 

Ao entrar no período natalício, dei por mim a pensar na figura do Pai Natal, que tanto marcou o imaginário da minha infância. Todos nós conhecemos este senhor gordo, bondoso, de quem se fala sempre no início de Dezembro. Surgiu-me inesperadamente uma reflexão sobre a qual nunca tinha pensado: que foi feito durante este tempo todo da Mãe Natal? Porquê ter criado uma personagem masculina para simbolizar a generosidade e a compreensão, que são qualidades a priori femininas?

Prosseguindo no meu pensamento, reparei que estes dois atributos são palavras do género feminino. E, continuando a divagação pelo mundo das palavras, que reflectem sem que disso tomemos consciência uma visão do mundo, fiquei estupefacta com alguns reparos.

A princípio, perceber as variações da linguagem no masculino e no feminino pode parecer ridículo, uma coisa sem sentido. Mas a linguagem não é inocente. O sexismo lê-se nos usos seguintes: nos títulos e nomes de profissão, muitas vezes sem equivalente no feminino, nos nomes de família do marido que a esposa adopta ao casar, na utilização de vocabulário mais pejorativo e mais explicitamente sexual em relação às mulheres. Na maioria das línguas, há uma dimensão fundamental que vê o masculino como bom/admirável e o feminino como ruim/deplorável (ex: homem público/mulher pública).

Já repararam que um reitor de universidade pode ser reitora, assim como vereador, deputado, senador, pode ser vereadora, deputada, senadora? Advogados, consultores, peritos, podem ser mulheres ou homens. Muitas máquinas, como aquelas utilizadas na agricultura por exemplo (ceifeiras, gadanheiras, ensiladoras…), têm nomes femininos, pois são auxiliares dos homens, mas o motor, por exemplo, é masculino. Ele é potência, força e é indispensável a qualquer máquina.

Os exemplos não faltam, basta é olhar para a maneira como as palavras constroem um mundo onde o masculino predomina sobre o feminino. O homem peitudo, por exemplo, é um homem valente, corajoso e destemido. Uma mulher peituda carrega uma forte conotação pejorativa. O homem que tem muitas parceiras sexuais é encarado positivamente, um machão ou um Don Juan, enquanto a mulher é considerada negativamente, uma p..a ou Messalina. 

“Pátria” é a terra dos pais. “País” é o plural de pai com acento. “Patrão” (de pai) é o proprietário de um negócio. Patroa, ao contrário, é no sentido estrito a esposa do patrão. A palavra patroa é mais utilizada na relação entre a dona de casa e a empregada doméstica.

Podemos continuar assim e encontrar uma série de ditos populares, piadas, palavrões, que reforçam essa relação assimétrica entre masculino e feminino. A própria gramática da língua portuguesa favorece essa desigualdade, ao criar um plural dito heterogêneo, necessariamente, masculino. Por exemplo, quando alguém diz “os meus filhos” ou “os meus alunos”, as filhas e as alunas ficam subsumidas.

Até há pouco tempo, homem era o único termo genericamente utilizado para se referir à espécie humana – homem ou mulher – animal racional, macho ou fêmea. Assim, referir-se aos homens era também “naturalmente” referir-se à humanidade.

Mais do que um jogo de palavras e de sentido, as palavras exteriorizam esses estereótipos em prejuízo da mulher. O poder. O ser. O amor. O céu. O sucesso. O triunfo. O mundo. Tudo no masculino. Mas também: o dilúvio, o tornado, o ciclone, o naufrágio. Pai Natal, tu que és tão extraordinário, vê se cedes um lugar melhor à tua esposa e augura para este mundo A beleza, A paz, A luz, A serenidade, A magia.

 

 Elisabeth Machado