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Economia
versus Homem Há alguns anos atrás, toda
a gente rejubilava com a possibilidade de trabalhar numa grande
multinacional! Por razões que se prendiam com a notoriedade social,
estabilidade de emprego, grandes salários ou a simples referência
curricular, uns e outros atropelavam-se para poder obter um posto de
trabalho numa grande empresa, de preferência, transnacional. Os governantes, esses, multiplicavam-se em declarações de grandiosidade económica. O futuro eram as grandes empresas, as fusões e as aquisições. Portugal, entre os países da Europa em geral, só poderia ser competitivo se os seus trabalhadores laborassem em grandes empresas e, à falta de grandes investidores nacionais, “aqui del-rei”, era preciso captar as grandes multinacionais para investirem em Portugal, criando super-ministérios para atrair os grandes investidores estrangeiros. No entanto, a cada nova empresa instalada correspondiam cinco ou seis que decidiam sair do País. A cada 100 trabalhadores empregados nas novas unidades correspondiam 300 ou 400 no desemprego. Tudo isto já era previsível e factual quando o planeta estava dividido entre russos e americanos e a economia europeia se expunha às condicionantes de metade do globo. Com a queda do “muro”, o grande mercado global e a enorme diferenciação internacional existente entre salários, ritmos de produção e a procura incessante da maximização dos lucros, o trabalho humano foi perdendo a respeitabilidade que adquiriu na primeira metade do século passado, passando a ser um simples factor de produção, um mero número, quantificado pelos seus custos económicos e diminuído socialmente com um simples apagar de borracha. Hoje, todos aqueles trabalhadores que embarcaram, à força ou voluntariamente, em grandes multinacionais, passam os dias a temer o “gigante” chinês, indonésio, filipino ou coreano, na infernal expectativa de uma deslocação das respectivas empresas e no receio de cair no caos do desemprego. Todo este “liberalismo desumano”, que faz de nós simples peças substituíveis na grande máquina de fabricação de riqueza, poderia até ser compreensível se essa mesma riqueza fosse socialmente distribuída pelos seres humanos mais carentes. Mas tal não se passa, a avaliar pelos relatórios da situação da pobreza no mundo realizados pelas instituições das Nações Unidas, que nos indicam um fosso cada vez maior entre ricos e pobres! Assim, não são de estranhar os conflitos sociais insanáveis, que varrem e recrudescem um pouco por todo o lado, e a barbárie que os acompanha. Nesta “nova onda” económica, apoiada em tese por governantes, irremediavelmente limitados, empresários trituradores da espécie humana e especialistas económicos financeiramente apoiados, o valor social do trabalho e a dignidade humana, valores que deveriam estar no centro de todas as preocupações e dos objectivos do desenvolvimento económico mundial, passaram a simples acessórios das análises gestionárias e a frias percentagens do cálculo dos rendimentos. Estas novas/velhas tendências, que fazem do desemprego e da pobreza um mal necessário – a ponto de contagiar o comportamento dos pequenos e médios empresários nacionais, transmitindo-lhes a noção de que fechar uma empresa sem motivos evidentes e enviar os trabalhadores para o desemprego não passa de uma simples técnica de gestão – corroem o tecido social de uma sociedade, alimentando todo o tipo de especulações sociais e a destruição da tão necessária coesão social. Face a esta realidade, bem hajam as pequenas e médias empresas, empresários e trabalhadores, para quem a solidez de um posto de trabalho e um rendimento empresarial equilibrado têm um valor muito superior aos grandes lucros e aos grandes salários. Por essas e por outras razões, os nossos jovens assumem, cada vez mais tarde, as suas responsabilidades familiares, têm cada vez menos filhos e vivem o dia a dia duvidando que haja amanhã. Luis Barreira |
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